Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

30 de maio de 2026

Bolacha completa: The boys of Dungeon Lane


Me perguntaram outro dia, já que eu ando fazendo muita resenha de filme, se eu não fazia de discos. Tive que admitir que não fazia tantas. Certamente não por falta de vontade. Com certeza, sendo pesquisador, compositor, historiador da música popular, há demanda. Mas há também um senso de responsabilidade e auto-exigência, que não me perturba quando se trata de cinema, diante do qual me porto meramente como apreciador. 

Mas eis que saiu o disco novo do Paul McCartney e logo após a primeira audição completa me deu vontade de escrever ao menos um comentário geral, sem grandes pretensões. É que é realmente um prato cheio. Um conjunto de fôlego, 14 canções, quase dois terços delas escritas por sua própria conta, outras com uma mão do produtor Andrew Watt.  Paul toca com habitual proficiência praticamente todos os instrumentos, com pouquíssimos acréscimos, e poucas participações vocais, se bem que dignas de nota, como os backings de Chrissie Hynde e Sharleen Spiteri, e sobretudo o inédto dueto com Ringo Starr na simpática Home to us, composição bem dentro do conceito geral de revisitação do passado doméstico, capturado de forma certeira na velha placa remetendo à alameda liverpudliana da infância que ocupa o título ao disco. 

O tom nostálgico, dominante, não representa necessariamente um apelo estético retrô pasteurizado. A sensação é que a contribuição de Watt ajuda a temperar a receita com timbragens e cacoetes de produção de sabor contemporâneo - podemos ficar divididos com o resultado, mas de toda forma mantém um certo frescor. Sinto que o Paul finalmente deu uma amadurecida (rsrsrs) em relação a sua ânsia de soar contemporâneo, abandonando participações duvidosas ao lado de efêmeros personagens do superpop tiktokeante por um esforço mais orgânico de assimilar algo da sonoridade atualmente dominante em seu próprio estilo de compor e tocar,  algo que já era perceptível no McCartney III e neste disco conta com o auxílio de Watt, no estúdio de quem foi dado o pontapé inicial do trabalho, com o estranho acorde inicial do que veio a ser a faixa de abertura, As you lie there. Outra faixa que denota essa mesma atitude é a pop expresso Ripples in a pond.

Ao mesmo tempo é inevitável considerar em sua inteireza esse esforço de concretizar em canções as lembranças e o imaginário dos tempos idos que povoam sua mente e sua alma. E como dois lados da mesma moeda, aparecem as recapitulações tremendamente singelas e pessoais, envolvendo episódios de sua vida junto da família e amigos, especialmente seus companheiros Beatles, e, no verso, a presença resplandecente da influência de John Lennon, parceiro, interlocutor, confidente, residente renitente na memória e no afeto de McCartney. Por esse detalhe me emocionei especialmente com Salesman Saint, que me soou como a perspectiva dele para o hino folk de protesto lennoniano Working class hero, aqui elegendo pai e mãe como alegorias de uma classe trabalhadora sobrevivente no rescaldo da segunda grande guerra. Aliás, achei o trabalho de letrista de Paul nesse álbum particularmente significativo. 

No geral, Paul desfia a paleta invejável de quem tem décadas de carreira, transitando com igual fluência do rock energético e embalado no riff Come inside às baladas de tom confessional como Days we left behind, passando pelas margens da psicodelia em Mountain Top e passenado pelas margens do Mersey na cançoneta romântica com pitada de crônica social Life can be hardÓbvio que, ultrapassando a barreira dos oitenta, Paul tenha lá suas pequenas rateadas, pouco significativas. Ele mais que compensa com sua inesgotável capacidade de trabalho e amor infinito pelo que faz, nos brindando novamente com sua arte inestimável. 


Para ouvir o disco completo, acessar essa playlist:

https://www.youtube.com/watch?v=qW84Y891N3U