Que bom que há muitos livros e outros registros do conhecimento reunido pelo Tinhorão. Dá pra sacar o estilo com essa palestra proferida por ele e registrada pelo MIS-RJ em junho de 1973.
Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Após a apresentação ao vivo pela internet (vulgo "live") de Caetano Veloso e filhos na última sexta, a edição brasileira da revista Rolling Stone cometeu essa tremenda ga(r)fe:
Esse pequeno destaque se presta a uma análise que poderia até tomar o tamanho de um artigo. Como tantas vezes aqui no blog, o comentário oportuno, de ocasião, no calor do momento, tem sobretudo o objetivo de mostrar a relevância e capacidade de intervenção da história cultural e dos estudos sobre o patrimônio musical popular, sobretudo no contexto brasileiro.
Constatar o desconhecimento desse patrimônio e da história da música popular no Brasil, por parte do autor da notinha, é imediato. Trata-se de alguém com nenhum repertório, nenhum mísero átomo de conhecimento sobre a tradição do samba-de-roda, seja no Recôncavo Baiano - onde fica Santo Amaro da Purificação, terra da família Veloso - seja do samba em geral, uma vez que esse "recurso" seguiu sendo usado em terras cariocas "desde que o samba é samba". Desconhece ainda que esta forma de se reapropriar de objetos do dia a dia para fazer música é recorrente desde tempos imemoriais. E finalmente, que a marca do improviso revela um tanto sobre a criatividade popular e as formas de desdobrar as evidências do precário, do provisório. Tensões sociais que as classes pobres desvelam e enfrentam nas táticas improváveis e soluções imprevistas que nascem da força do improviso. Nada há de inusitado, ou cômico, nem faltou instrumento e muito menos a habilidade de percussionista de Moreno poderia ser assim desconectada de sua aproximação orgânica com tal tradição, muito menos massacrada pelo clichê roto proferido aos borbotões por certo apresentador de programa televisivo. Uma resposta que Caetano já deixou dada há décadas para a Rolling Stone, eco da explosão do tropicalismo: "Vocês não estão entendendo nada, absolutamente nada!”
Lamentável que esteja se perdendo entre os que tem espaço em mídias (sejam digitais ou não) a capacidade de reconhecer seu próprio desconhecimento e pesquisar para informar e formar melhor seus leitores, caindo facilmente nas armadilhas espetaculares de um tempo "homogêneo e vazio" (já dizia Benjamin, aliás um dos filósofos que mais bem tratou da tradição sem reificá-la, a meu ver), realçando que uma cultura desmemoriada exacerba a predileção pela barbárie. Sem História não temos perspectiva sobre quem fomos, somos, e para onde vamos. E para isso não se pode deixar tudo ao sabor do mercado, é preciso dedicar esforço e investimento públicos, é preciso reconhecer a centralidade da Cultura na construção de uma sociedade plural e justa.
Daí a importância de manter registros preservados e difundir fontes para apreciação e conhecimento de feitos culturais como o "prato e faca". Em meio às objeções lançadas por gente que conhece do riscado vemos menções a Dona Edith do Prato, baiana de Santo Amaro que deixou belos registros dessa arte em disco, ou João da Baiana, um dos artífices maiores do samba brasileiro desde as rodas e terreiros do Rio de Janeiro. Em disco, em filme, em objetos, depoimentos, documentos, nossa produção cultural merece todo cuidado. Louve-se, por exemplo, o trabalho do MIS do Rio de Janeiro - que começou por João da Baiana sua coleção de "Depoimentos para a posteridade" e incorporou prato que ele tocava em seu acervo de objetos [aqui], as iniciativas da família Veloso - entre tantas gravar com Dona Edith [aqui], ou do compositor francês Pierre Barouh que entre outras contribuições dirigiu o belo documentário Saravah (1972).
Eis a motivação central por trás da maioria dos projetos de pesquisa e trabalhos que conduzo na UFMG, atualmente reforçado por um esforço conjunto que se materializa no Grupo de Estudo SOMMUS (Som e Museologia), junto com estudantes de graduação e pós-graduação. Termos que reivindicar importância para estas coisas com tanto esforço é, em si, sintomático, porém cabe também aos pesquisadores participar do trabalho de superar essa ga(r)fe.
É assim, percutindo com maestria uma caixinha de fósforos, que me lembro com mais nitidez da figura de Elton Medeiros. Ele se apresentava no Programa Ensaio, essa verdadeira enciclopédia audiovisual da nossa música popular. Meus olhos e ouvidos ficaram hipnotizados, incapazes de buscar qualquer outro interesse que não aquele som que poucos, mesmo entre os bambas, conseguem tirar. Descobri nessa mesma noite que Elton era parceiro de Cartola no samba "O sol nascerá" (como ele mesmo explicou, também conhecido como "A sorrir..."), uma dessas pérolas que a gente escuta e não esquece jamais. Talvez por não ser tão consagrado como intérprete, Elton Medeiros não seja tão conhecido e reverenciado quanto parceiros seus como Cartola e Paulinho da Viola.
Titulo
|
Autor
|
V. n.
|
Ano
| |
1.
|
Gilberto Gil sempre presente
|
Mara Rúbia Ribeiro
|
v. 1, n. 1
|
1999
|
2.
|
Rock industrial cultural: palavras acerca de algumas velhas ideias
|
Luciano Carneiro Alves
|
v. 2, n. 2
|
2000
|
3.
|
Entre o sim e o não: ciladas da canção
|
Adalberto Paranhos
|
v. 3, n. 3
|
2001
|
4.
|
Memórias afetivas da cidade de São Paulo: música e humor em Adoniran Barbosa
|
Maria Izilda Santos de Matos
|
v. 4, n. 4
|
2002
|
5.
|
Rádio e cultura popular: perspectivas históricas
|
Newton Dângelo
|
v. 4, n. 4
|
2002
|
6.
|
Vozes dissonantes sob um regime de ordem unida (música e trabalho no “Estado Novo ”)
|
Adalberto Paranhos
|
v. 4, n. 4
|
2002
|
7.
|
A janela de Carolina e o espelho de Lindoneia – duas (anti)musas de um mundo que se desagrega
|
Marcos Napolitano
|
v. 4, n. 5
|
2002
|
8.
|
Depois do Império: música e artes plásticas
|
Jorge Coli
|
v. 5, n. 6
|
2003
|
9.
|
Do batuque ao maxixe: considerações sobre a música brasileira
|
Sérgio Estephan
|
v. 5, n. 6
|
2003
|
10.
|
O sonho de Edison: o advento do som sincronizado
|
Ney Carrasco
|
v. 5, n. 6
|
2003
|
11.
|
Claúdia Neiva de Matos
|
n. 9
|
2004
| |
12.
|
Adalberto Paranhos
|
n. 9
|
2004
| |
13.
|
Idelber Avelar
|
n. 9
|
2004
| |
14.
|
Santuza Cambraia Naves
|
n. 9
|
2004
| |
15.
|
Nei Lopes
|
v. 6, n. 9
|
2004
| |
16.
|
Martha Tupinambá de Ulhôa
|
n. 9
|
2004
| |
17.
|
Arnaldo DarayaContier
|
n. 9
|
2004
| |
18.
|
Ana Carolina Arruda de Toledo Murgel
|
v. 7, n. 10
|
2005
| |
19.
|
Guilherme Maia
|
v. 7, n. 10
|
2005
| |
20.
|
Maria Izilda Santos de Matos
|
v. 7, n. 10
|
2005
| |
21.
|
Alessander Kerber
|
v. 7, n. 10
|
2005
| |
22.
|
Valéria Ochoa Oliveira
|
v. 7, n. 10
|
2005
| |
23.
|
Luiza Mara Braga Martins
|
v. 7, n. 11
|
2005
| |
24.
|
José Roberto Zan
|
v. 7, n. 11
|
2005
| |
25.
|
José Geraldo Vinci de Moraes
|
v. 8, n. 13
|
2006
| |
26.
|
Marcos Napolitano
|
v. 8, n. 13
|
2006
| |
27.
|
Maria Amélia Garcia de Alencar
|
v. 8, n. 13
|
2006
| |
28.
|
Adalberto Paranhos
|
v. 8, n. 13
|
2006
| |
29.
|
Tânia da Costa Garcia
|
v. 8, n. 13
|
2006
| |
30.
|
Entre textos, imagens e sons: um balanço atual do campo da História Cultural
|
Ana Maria Mauad
|
v. 8, n. 13
|
2006
|
31.
|
Mônica Lucas
|
v. 9, n. 14
|
2007
| |
32.
|
Isabel Cristina Martins Guillen
|
v. 9, n. 14
|
2007
| |
33.
|
Felipe Trotta
|
v. 9, n. 14
|
2007
| |
34.
|
Maria de Loudes Rabetti
|
v. 9, n. 15
|
2007
| |
35.
|
Geni Rosa Duarte
|
v. 9, n. 15
|
2007
| |
36.
|
Robin Moore
|
v. 9, n. 15
|
2007
| |
37.
|
Rita de Cássia Lahoz Morelli
|
v. 10, n. 16
|
2008
| |
38.
|
Eduardo Vicente
|
v. 10, n. 16
|
2008
| |
39.
|
José Adriano Fenerick
|
v. 10, n. 16
|
2008
| |
40.
|
Michel Nicolau Netto
|
v. 10, n. 16
|
2008
| |
41.
|
Jordão Horta Nunes
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
42.
|
Juliana Coli
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
43.
|
David Treece
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
44.
|
Maurício Barreto Alvarez Parada
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
45.
|
Silvia Maria Jardim Brügger
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
46.
|
Marcos Napolitano
|
v. 10, n. 17
|
2008
| |
47.
|
Dmitri Cerboncini Fernandes
|
v. 11, n. 18
|
2009
| |
48.
|
Daniela Vieira dos Santos
|
v. 11, n. 19
|
2009
| |
49.
|
Eleonora Zicari Costa de Brito e
Emerson Dionísio Gomes de Oliveira |
v. 11, n. 19
|
2009
| |
50.
|
Tânia da Costa Garcia
|
v. 12, n. 20
|
2010
| |
51.
|
Margareth Arroyo
|
v. 12, n. 20
|
2010
| |
52.
|
Diogo de Souza Brito
|
v. 12, n. 20
|
2010
| |
53.
|
Tony Leão da Costa
|
v. 12, n. 20
|
2010
| |
54.
|
Rafael Alves Pinto Junior
|
v. 12, n. 20
|
2010
| |
55.
|
Martha Abreu
|
v. 13, n. 22
|
2011
| |
56.
|
Carolina Vianna Dantas
|
v. 13, n. 22
|
2011
| |
57.
|
Mayra Pinto
|
v. 13, n. 22
|
2011
| |
58.
|
Luís Fernando Hering Coelho
|
v. 13, n. 23
|
2011
| |
59.
|
Lina Maria Ribeiro de Noronha
|
v. 13, n. 23
|
2011
| |
60.
|
Lucilia de Almeida Neves Delgado
|
v. 13, n. 23
|
2011
| |
61.
|
Sergio Pujol
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
62.
|
Adalberto Paranhos
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
63.
|
Leandro Barsalini
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
64.
|
Mariana Barreto
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
65.
|
Silvano Fernandes Baia
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
66.
|
Rubén López Cano
|
v. 14, n. 24
|
2012
| |
67.
|
Diósnio Machado Neto
|
v. 14, n. 25
|
2012
| |
68.
|
Newton Dângelo
|
v. 14, n. 25
|
2012
| |
69.
|
Antônio Maurício Dias da Costa
|
v. 14, n. 25
|
2012
| |
70.
|
Mônica Rebecca Ferrari Nunes Costa
|
v. 14, n. 25
|
2012
| |
71.
|
Simone Luci Pereira
|
v. 14, n. 25
|
2012
| |
72.
|
Ari Lima
|
v. 15, n. 26
|
2013
| |
73.
|
Arnaldo Daraya Contier
|
v. 15, n. 27
|
2013
| |
74.
|
Claudia Neiva de Matos
|
v. 15, n. 27
|
2013
| |
75.
|
Adalberto Paranhos
|
v. 15, n. 27
|
2013
| |
76.
|
Avelino Romero Pereira
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
77.
|
Natália Ayo Schmiedecke
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
78.
|
Roberto Camargos
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
79.
|
Mateus de Andrade Pacheco
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
80.
|
André Rocha Leite Haudenschild
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
81.
|
AlejandraSoledad González
|
16, n. 28
|
2014
| |
82.
|
José Adriano Fenerick
|
v. 16, n. 28
|
2014
| |
83.
|
Karla Guilherme Carloni
|
v. 16, n. 29
|
2014
| |
84.
|
Rafaela Lunardi
|
v. 16, n. 29
|
2014
| |
85.
|
Ivan de Bruyn Ferraz
|
v. 16, n. 29
|
2014
| |
86.
|
Adalberto Paranhos
|
v. 17, n. 30
|
2015
| |
87.
|
Michel Nicolau Netto
|
v. 17, n. 30
|
2015
| |
88.
|
Rosane Kaminski
|
v. 17, n. 30
|
2015
| |
89.
|
Ana Guiomar Rêgo Souza
|
v. 17, n. 30
|
2015
| |
90.
|
Juan Pablo González
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
91.
|
José Adriano Fenerick e Carlos Eduardo Marquioni
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
92.
|
Marcia Tosta Dias
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
93.
|
Alexandre Felipe Fiúza
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
94.
|
Paulo Gustavo da Encarnação
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
95.
|
Marcelo Téo
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
96.
|
José Juan Olvera Gudiño
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
97.
|
Victor Hugo Adler Pereira
|
v. 17, n. 31
|
2015
| |
98.
|
Tony Leão da Costa
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
99.
|
Cleodir Moraes
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
100.
|
Edilson Mateus Costa da Silva
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
101.
|
Ana Cristina Borges
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
102.
|
Theophilo Augusto Pinto
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
103.
|
Felipe Trotta
|
v. 18, n. 32
|
2016
| |
104.
|
André Rocha Leite Haudenschild
|
v. 18, n. 33
|
2016
| |
105.
|
Vitória Azevedo da Fonseca
|
v. 18, n. 33
|
2016
| |
106.
|
Eleonora Zicari Costa de Brito
|
v. 18, n. 33
|
2016
| |
107.
|
Julia Chindemi e Pablo Vila
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
108.
|
Mariana Oliveira Arantes
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
109.
|
Juliana Pérez González
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
110.
|
Tânia da Costa Garcia
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
111.
|
Ricardo J. Kaliman
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
112.
|
Christian Spencer
|
v. 19, n. 34
|
2017
| |
113.
|
|
Luiz Costa-Lima Neto
|
v. 19, n. 34
|
2017
|
114.
|
Herom Vargas
|
v. 19, n. 34
|
2017
|