Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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11 de agosto de 2020

Com o prato e a faca na mão: a ga(r)fe da Rolling Stone

 Após a apresentação ao vivo pela internet (vulgo "live") de Caetano Veloso e filhos na última sexta, a edição brasileira da revista Rolling Stone cometeu essa tremenda ga(r)fe:


Esse pequeno destaque se presta a uma análise que poderia até tomar o tamanho de um artigo. Como tantas vezes aqui no blog, o comentário oportuno, de ocasião, no calor do momento, tem sobretudo o objetivo de mostrar a relevância e capacidade de intervenção da história cultural e dos estudos sobre o patrimônio musical popular, sobretudo no contexto brasileiro. 

Constatar o desconhecimento desse patrimônio e da história da música popular no Brasil, por parte do autor da notinha, é imediato. Trata-se de alguém com nenhum repertório, nenhum mísero átomo de conhecimento sobre a tradição do samba-de-roda, seja no Recôncavo Baiano - onde fica Santo Amaro da Purificação, terra da família Veloso - seja do samba em geral, uma vez que esse "recurso" seguiu sendo usado em terras cariocas "desde que o samba é samba". Desconhece ainda que esta forma de se reapropriar de objetos do dia a dia para fazer música é recorrente desde tempos imemoriais. E finalmente, que a marca do improviso revela um tanto sobre a criatividade popular e as formas de desdobrar as evidências do precário, do provisório. Tensões sociais que as classes pobres desvelam e enfrentam nas táticas improváveis e soluções imprevistas que nascem da força do improviso. Nada há de inusitado, ou cômico, nem faltou instrumento e muito menos a habilidade de percussionista de Moreno poderia ser assim desconectada de sua aproximação orgânica com tal tradição, muito menos massacrada pelo clichê roto proferido aos borbotões por certo apresentador de programa televisivo. Uma resposta que Caetano já deixou dada há décadas para a Rolling Stone, eco da explosão do tropicalismo: "Vocês não estão entendendo nada, absolutamente nada!”


Lamentável que esteja se perdendo entre os que tem espaço em mídias (sejam digitais ou não) a capacidade de reconhecer seu próprio desconhecimento e pesquisar para informar  e formar melhor seus leitores, caindo facilmente nas armadilhas espetaculares de um tempo "homogêneo e vazio" (já dizia Benjamin, aliás um dos filósofos que mais bem tratou da tradição sem reificá-la, a meu ver), realçando que uma cultura desmemoriada exacerba a predileção pela barbárie. Sem História não temos perspectiva sobre quem fomos, somos, e para onde vamos. E para isso não se pode deixar tudo ao sabor do mercado, é preciso dedicar esforço e investimento públicos, é preciso reconhecer a centralidade da Cultura na construção de uma sociedade plural e justa. 

Daí a importância de manter registros preservados e difundir fontes para apreciação e conhecimento de feitos culturais como o "prato e faca". Em meio às objeções lançadas por gente que conhece do riscado vemos menções a Dona Edith do Prato, baiana de Santo Amaro que deixou belos registros dessa arte em disco, ou João da Baiana, um dos artífices maiores do samba brasileiro desde as rodas e terreiros do Rio de Janeiro. Em disco, em filme, em objetos, depoimentos, documentos, nossa produção cultural merece todo cuidado. Louve-se, por exemplo, o trabalho do MIS do Rio de Janeiro - que começou por João da Baiana sua coleção de "Depoimentos para a posteridade" e incorporou prato que ele tocava em seu acervo de objetos [aqui], as iniciativas da família Veloso - entre tantas gravar com Dona Edith [aqui], ou do compositor francês Pierre Barouh que entre outras contribuições dirigiu o belo documentário Saravah (1972). 

 

Eis a motivação central por trás da maioria dos projetos de pesquisa e trabalhos que conduzo na UFMG, atualmente reforçado por um esforço conjunto que se materializa no Grupo de Estudo SOMMUS (Som e Museologia), junto com estudantes de graduação e pós-graduação. Termos que reivindicar importância para estas coisas com tanto esforço é, em si, sintomático, porém cabe também aos pesquisadores participar do trabalho de superar essa ga(r)fe. 


4 de setembro de 2019

O samba na caixa de fósforos - adeus a Elton Medeiros

É assim, percutindo com maestria uma caixinha de fósforos, que me lembro com mais nitidez da figura de Elton Medeiros. Ele se apresentava no Programa Ensaio, essa verdadeira enciclopédia audiovisual da nossa música popular. Meus olhos e ouvidos ficaram hipnotizados, incapazes de buscar qualquer outro interesse que não aquele som que poucos, mesmo entre os bambas, conseguem tirar. Descobri nessa mesma noite que Elton era parceiro de Cartola no samba "O sol nascerá" (como ele mesmo explicou, também conhecido como "A sorrir..."), uma dessas pérolas que a gente escuta e não esquece jamais. Talvez por não ser tão consagrado como intérprete, Elton Medeiros não seja tão conhecido e reverenciado quanto parceiros seus como Cartola e Paulinho da Viola.
Por duas ocasiões tive oportunidade de constatar e me postar contra uma certa falta de consideração a seus créditos, justamente por "O sol nascerá". A primeira foi quando assisti a uma apresentação da então presidente do MIS-RJ na Conferência Geral do ICOM, em 2013 na própria capital carioca, em que recebi dela um material institucional relacionado à promoção da nova sede de Copacabana, cuja construção infelizmente ainda não foi concluída. Percebi que a canção era citada com crédito apenas a Cartola, me identifiquei e discretamente lhe chamei a atenção para o erro. Ela me agradeceu protocolarmente mas tenho pra mim que não deve ter gostado muito de ter que responder - como lhe cabia, pelo cargo - pela falha. É muito importante revisar esse tipo de peça gráfica que se reproduz depois aos milhares, pois basicamente é impossível retificar erros. A segunda, foi quando apontei o mesmo erro ao proprietário de uma página de rede social, então bastante visitada, sobre cultura, semiótica, literatura e afins. Ao invés de agradecer e me creditar o auxílio na correção - feito no comentário da postagem- ele simplesmente fez a mudança e deixou a entender que não havia cometido o erro. Isso tem muitos anos, ainda estávamos longe da generalizada disseminação de falsificações de toda ordem que tomou conta da internet, mas me pareceu um ato deplorável, ao qual fiz questão de responder, convidando inclusive alguns amigos que também acompanhavam a mesma postagem a testemunhar a validade da minha intervenção e participar de uma rápida troca de "amabilidades" pelas quais deixei claro que havia o erro e fora a minha intervenção que propiciara a correção. Depois disso, deixamos eu e outros que acompanharam o caso de manter contato com a tal página, cujo nome já nem me lembro.
Quero lembrar mesmo é de Elton Medeiros, de seus sambas inesquecíveis, e daquele som hipnótico da caixinha de fósforos. 












P.S. Este texto não se pretende um obituário, para isso pode-se ler aqui.

7 de julho de 2019

Jamais chegará a saudade de João

Foi-se João.
Um revolucionário sutil.
A simplicidade complexa em pessoa.
O violão que decifrou a batida transcendental do coração do Brasil.
E agora, João?
Só nos cabe cuidar para que sua lembrança continue tocando essa batida. Ensinando pra nós e pro mundo o que é que o Brasil tem. 

Foram as primeiras palavras que escrevi quando a notícia me chegou. Pretenderam ser justas e sintéticas, como a própria música de João Gilberto é. Mas sinto que é preciso deixar um pouco mais de caldo. Até porque, quem sabe, alguém ainda possa descobrir João, seu canto, seu violão, sua síntese mais que perfeita do Brasil. Resolvi então reunir aqui contribuições de dois parceiros que já colaboraram outras vezes aqui no blog e que expressão boa parte do mais que eu poderia dizer, Rafael Senra e Pablo Castro. O primeiro contrastando conjunturas entre o efervescer da bossa nova e a atualidade, o segundo num verdadeiro mergulho diacrônico mostrando que João Gilberto é ponto nodal na história de nossa música popular. Fica ainda aberta a porta, para agregar nos comentários o que mais os leitores acharem por bem incluir. 

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Achei bonito ler o depoimento da Gal Costa em que ela diz que João Gilberto ensinou a delicadeza para o Brasil. A música popular de hoje não traz nada do DNA do pai da bossa nova: é urgente, agressiva, com um registro de canto quase histérico, repleto de vibratos caricatos que trazem o pior de tradições musicais estrangeiras, completamente alheias à nosso ecossistema musical.
Vez ou outra, músicas que ele imortalizou aparecem repaginadas em aberturas de novelas, ou cantadas por subcantores em programas de auditório. Na nossa cultura mainstream, é assim que o legado de João sobrevive.
O Brasil de agora é diametralmente distante do idealismo bossanovista. Nos tornamos o oposto de tudo que foi sonhado naqueles tempos. O Rio de Janeiro do barquinho e do violão tornou-se o Rio da propina e das milícias. A modernidade de JK (época em que João foi trilha sonora obrigatória) deu lugar a um retorno da precariedade medieval travestida de progresso. Temos uma população que perdeu a CLT e está prestes a perder o direito a se aposentar.
Continuo achando que João Gilberto ensinou a delicadeza para o Brasil. Mas os que não a aprenderam são os que tomaram o poder. A delicadeza não quer o poder: as flores que perfumam o jardim nunca tentariam toma-lo para si. Os que amam a beleza e a verdade estão de luto.

 Por Rafael Senra

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Ninguém é obrigado a gostar desse ou daquele artista, mas o bom da arte é que nem tudo se resume a gosto pessoal. Cada campo artístico tem uma história, um desenrolar dos acontecimentos, um diálogo diacrônico e mutuamente estimulante entre artistas, crítica e público.
E há fatos históricos inexoráveis, que apresentam revelações, invenções de tal modo inesperadas que provocam abalos sísmicos nas sensibilidades gerais.
Por que João Gilberto é o maior divisor de águas da música popular brasileira ? Nada do que se elenca aqui é questão de gosto :
1- até 1958, inexistia um canto popular que não fosse adornado, impostado, cheio de voltinhas ,vibratos, glissandos. Simplesmente ninguém nunca tinha ouvido um canto despojado disso tudo. Nem aqui nem alhures. Quem introduziu esse tipo de canto nos Estados Unidos foi Chet Baker e quem introduziu isso no Brasil foi João Gilberto. É muito difícil para nós outros imaginar o impacto da ouvir pela primeira vez um tipo de canto que se tornaria hegemônico, um canto mais despido de volteios e gracejos . Mesmo no caso de cantores mais potentes, com grande projeção de voz ,a influência de João Gilberto foi decisiva, pela forma direta com que o canto passou a ser emitido . Não existiria Gil, Elis e mesmo Milton sem antes ter surgido João .
2- até 1958 , não havia um violão que incorporasse uma estilização sintética das células rítmicas brasileiras, notadamente o samba, mas também o baião, a valsa, a marchinha. Nossos ritmos só existiam enquanto conjunto de peças percussivas exuberantes e explosivos como uma escola de samba. João inventou uma maneira de incorporar as funções básicas desses ritmos, simplificadas , e estilizadas num mínimo denominador comum, e que poderia ser transformado num grão de som. Além disso, João criou uma palheta de inversões de acordes no violão que mantinham um equilíbrio entre as notas e as funções harmônicas, dispondo do baixo, das terças e das dissonâncias (sétima, nonas e décima-terceiras), abrindo mão muitas vezes da quinta e mesmo da tônica, por serem redundantes.
3- até 1958, não havia um intérprete capaz de dar credibilidade a melodias e letras mais leves, que apenas começavam a ser compostas naquela época, por compositores como Tom Jobim, Carlos Lyra, Newton Mendonça ,Vinícius de Morais, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, entre outros. Até então, o samba-canção, que dominava a música nacional, era praticamente sinônimo de derramamento sentimental, dor de cotuvelo, fossas profundas ou piegas declarações de amor eterno , dramático.
4- Depois da grande era inicial do samba, na década de 30, não havia cantor algum que usasse a divisão melódica como meio de improvisação rítmica, e muito menos que utilizasse esse jogo de divisões melódicas como filigranas da aproximação do canto à fala, fazendo das consoantes instrumentos percussivos que inevitavelmente apresentavam as palavras como objetos palpáveis, quase tateáveis pelo ouvido. As letras portanto passavam a se incorporar mais organicamente à experiência de fruição do ouvinte , o que , também vale ressaltar, até essa época era uma impossibilidade técnica que só se viabilizou pela invenção da gravação em canais separados e pelo advento de determinados microfones que permitiam o canto próximo sem que ele tampasse todos os instrumentos do acompanhamento .Tudo isso era inédito.
Para além dessas evidentes inovações revolucionárias, João sintetizava não só um estilo, mas um repertório que atravessava e articulava tudo aquilo que era considerado antigo com o que era evidentemente novo. O principal intérprete do moderníssimo e consagradíssimo Tom Jobim era também aquele capaz de descobrir um compositor como Jaime Silva, autor de O Pato. "Jaime Silva (1921-1973) era um mulato alto, elegante e simpático”, segundo Ruy Castro no livro “Chega de saudade”. Alagoano de nascimento, mas morando no Rio desde menino, era sapateiro do serviço de intendência do exército, além de pandeirista e eventual compositor, nas horas vagas. Costumava namorar sua futura esposa, Maria, no ‘Campo de Santana’, Zona Centro do Rio de Janeiro, onde observando patos e marrecos se esbaldarem no laguinho local prometia, contemplativo: “ainda vou fazer uma música com esses patinhos…”."
Por fim, para aqueles que ainda não entenderam João, porque vieram bem depois que suas descobertas já haviam sido incorporadas de maneira difusa por toda uma brilhante geração posterior de compositores e intérpretes : à primeira audição. aquilo que podemos chamar de "cor" na música, os aspectos mais imediatos da sonoridade de timbre, de região de emissão da voz, de volume e gesto , tudo pode até parecer enfadonho, porque nesses aspectos João sempre foi a mesma coisa - claro, depois de seu período inicial, quando era um perfeito cover de Orlando Silva, com os Garotos da Lua, em princípios dos anos 50.
Mas quando você mergulha nesse ambiente que sua música enseja, esse lugar calmo e contido onde sua voz ecoa, você consegue perceber as nuances e sutilezas, de um estilo que recusa qualquer fio de exagero, e que faz o encontro insuspeito entre tudo aquilo que era , de forma nata, brasileiro. Como se tivesse extraindo a essência do que é o Brasil.
O bom de tudo é que , graças à fonografia, não perdemos João, ganhamos para a vida inteira. Resta agora continuar espalhando os frutos-sementes que sua obra deixa para a eternidade.

Por Pablo Castro

Outros materiais:

Link para o ótimo texto de Bráulio Tavares enfocando a genialidade de João Gilberto
Link para texto do poeta Augusto de Campos que sairia em seu livro Balanço da Bossa.
Link para o doc especial da Rádio Batuta do IMS "Tim tim por tim tim: a música de João Gilberto.
Link para o programa A bossa antes da bossa, com Ruy Castro.
Playlist organizada pelo Pablo Castro, pra ouvir enquanto se lê sobre João.

Registro em filme da gravação do disco Brasil, em 1981.


10 de maio de 2019

Na estante - samba, patrimônio e História do Brasil

 Duas leituras recentes que merecem destaque aqui na página:

Acabei de concluir a leitura de Noel Rosa - poeta da Vila (2011), cronista do Brasil, de Luiz Ricardo Leitão, prof. da Uerj. Muito bem escrito, leve sem perder o rigor, rebuscado sem ser pedante, um ensaio bem construído amarrando a obra genial de Noel ao pensamento social e à literatura de seu tempo, evidenciando como os músicos populares são, desde sempre, argutos intérpretes do Brasil. Eu e tantos aprendemos a conhecer e gostar de Noel através de Chico Buarque, encontramos aqui um traçado bem descrito da invenção dessa estirpe de compositores que descortina o país com inteligência e ironia. O sabor ensaístico é muito adequado, sobretudo para evitar o risco de redundar a portentosa biografia de Máximo e Didier, talvez a melhor em seu gênero já dedicada a um músico popular brasileiro. E de curiosidade, já no princípio, fico sabendo que o pai de Noel era mineiro e tinha Garcia no sobrenome. Sendo assim quem sabe não sou, ainda que por retorcidos galhos de uma longínqua genealogia, parente desse bamba? Já fico sendo. 
  
E acabei de ler hoje o livro do Seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda. do evento que foi feito em Santo Amaro no contexto do registro do Samba de roda do recôncavo. Uma maravilha com Gil, Caetano, Sandroni, Wisnik, Elizabeth Travassos, Hermano Vianna, e mais gente boa,  e tem pra baixar. Ocorrido em 2007 (porém editado em 2011), durante a gestão de Gil à frente do MinC, parece que se trata de outro país, outro planeta. Os bons quadros do IPHAN, reunidos a parte da nata da nossa música popular e intelectualidade - em alguns casos, simultaneamente no mesmo indivíduo - desfiam um conhecimento absurdo sobre o samba - não exclusivamente o de roda - e outros gêneros musicais brasileiros populares e até folclóricos. E a transcrição da mesa final, com as amistosas cutucadas mútuas entre Gil e Caetano quando trataram da questão dos direitos autorais na atualidade, são exemplares da personalidade de ambos e divertidíssimas. 

Recomendo fortemente, ambos.  

12 de fevereiro de 2018

Está Extinta a Escravidão? Samba e História na Sapucaí


Eu tinha sacado alguns sambas-enredo e sentido que o desfile das escolas do Rio desse ano seria diferente, de enfrentamento. Se de um lado não cabe a desmedida visão de ver aí uma redenção infalível que vá imediatamente mudar o cenário do nosso dia a dia, também não se pode menosprezar a força simbólica que tais manifestações retém. 

Vi o início do desfile da Paraíso do Tuiuti e senti firmeza. Mas Morfeu foi mais forte. Agora estou assistindo ao VT. Tá dando gosto. Descubro que o colega historiador Léo Morais foi assistente do carnavalesco Jack Vasconcelos e depois destaque como 'Presidente Vampiro'. Para uma síntese, ver a matéria, aqui, e as fotos

Tantas vezes houve sambas com enredos grandiloquentes e pitorescos, que motivaram o irônico apelido se 'samba do criolo doido' [já fiz uma postagem tratando do assunto, aqui], mas com o tempo uma maior acuidade historiográfica começou a se fazer presente. Eis aí um belo exemplo, um samba-enredo competente, um desfile de encher os olhos e ainda dar o recado. Eu não sou estudioso do carnaval e nem crítico de desfile de escola de samba, mas dentro das minhas limitações me pareceu tudo muito coeso, os temas das alas, a tradução visual do enredo, a força musical do samba puxado pelo trio Nino do Milênio, Celsinho Moddy e Grazi Brasil, que como acabei de apurar tem entre seus compositores Moacyr Luz, grande craque [aliás, covardemente assaltado antes do desfile, aqui]. Vale dar uma olhada no depoimento dos compositores [aqui] . Selecionei um trecho do que disse um deles, Aníbal Leonardo:

"A escravidão é a forma de opressão mais vil que existe, que vem desde as formas mais antigas de organização da sociedade. No caso do Brasil, isso se reflete nas enormes desigualdades que vivemos até hoje, e por isso o samba bate tão forte no seio do nosso povo, pois a exploração abusiva do homem pelo homem se dá inclusive fora da escravidão".

Acho importante ainda trazer impressões dos componentes da escola sobre o samba, que nitidamente empolgou a todos [aqui]. Ariolana Conceição, moradora da comunidade do Tuiuti e membro da velha guarda da escola, disse que: 

– O samba é maravilhoso. Só tenho ouvido elogios do nosso samba-enredo. As pessoas dizem que é o melhor, e é mesmo! O melhor é que ele exalta a nossa raça, as nossas origens conta a nossa história, do negro e do Brasil. Retrata a Africa em poesia, tem ritmo, tem balanço, tem melodia e tem emoção acima de tudo. Ficará para história como outros sambas-enredos.  


Lembro da história da ave atirar seus filhotes em queda, para eles aprenderem a voar. Talvez entre as fábulas colhidas por Da Vinci, narrada no primeiro livro que definitivamente amei na vida.Esse pensamento escapa (ou decola?) agora enquanto penso no enredo da Paraíso (olha pra cima, de novo) do Tuiuti (um pássaro!). Será um grande desconhecimento da história dos sambas-enredo se agora alguém se dá conta de seu teor político, seu engajamento nas questões mais urgentes e também nos dilemas mais profundos da nossa existência enquanto brasileiros. Não, não está aí novidade alguma.
Então onde está o voo do Tuiuti?
Me arrisco a considerar que na forma com que articulou o conhecimento do passado com a interpretação do presente, e simultaneamente a tradição de sambas-enredo com alguma inovação. O samba parece que deu nó em pingo d'água, porque consegue unir os macetes formais costumeiros do samba-enredo, como os refrões poderosos, as rimas internas, e o inventário do vocabulário e do imaginário afro-brasileiros com sacadas atípicas que lhe dão ares contemporâneos, como o elaborado jogo poético com as cores, imagens rebuscadas como a da lua atordoada, mas a sofisticação é dosada de maneira a não torná-lo pedante. Ao fazer a leitura crítica do fenômeno da escravidão, incluindo aí a sua abolição no Brasil, consegue dialogar com a tradição dos enredos sobre a História do país mas dá um salto qualitativo porque está afinado a descobertas historiográficas que costumam passar longe da avenida uma vez que dificultam o ato de exaltar. Ao descortinar o engodo da Abolição, tão celebrada em tantos carnavais, o enredo efetiva o laço com o presente enunciado no título em forma de pergunta. Irresistível a analogia que tenho a fazer: eis aí um Samba-Problema, indo ao encontro do brado metodológico da Escola dos Annales. Certamente os historiadores professores levarão esse samba e o desfile para as salas de aula, do fundamental ao superior, e terão aí um rico material para discutir o tema da escravidão, sua historiografia e seus sentidos no tempo presente. É digno de nota que a Escola conseguiu esse feito sem recair em anacronismos equivocados, ao apresentar uma leitura crítica sob a luz de conhecimento apurado sobre o fenômeno da escravidão para pensar sobre as condições de trabalho ao longo da História e a atualidade do "cativeiro social". No documento chamado Livro Abre-Alas (que é uma espécie de catálogo com os projetos dos desfiles das escolas) consta a bibliografia utilizada pelo carnavalesco e seus auxiliares [aqui].
Ao pensar a escravidão em sua historicidade, ainda, o enredo desdobra o que a letra do samba só insinua, dando perspectiva para refletirmos sobre a exploração do trabalho humano em diferentes contextos. Talvez haja inclusive um eco, intuitivo ou não, da dialética hegeliana do senhor e do escravo, na constatação de que a vida lamenta por ambos. E aí, um trunfo quiçá escondido, o ás na manga, um zap no identitarismo, porque a interpelação não se dirige apenas aos negros escravizados historicamente no Brasil, mas aos escravizados de todas as cores, tempos e lugares, o "irmão de olho claro ou da Guiné", todos de "sangue avermelhado". Ao atualizar o sentido da luta contra a escravidão como luta de libertação de todas as formas de exploração do trabalho, o Tuiuti canta fora da gaiola do cativeiro social e alça voo diante do precipício.

O desfile



A letra do samba, de  Cláudio Russo / Anibal / Jurandir / Moacyr Luz / Zezé:

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?
G.R.E.S Paraíso do Tuiuti

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação




5 de abril de 2017

Aula de canção: Canto de Ossanha, ou pequeno tratado contra o anacronismo

Em meio a mil afazeres tirei alguns minutos para tirar a poeira do blog. Sem tempo pra inventar muita moda, e parcialmente motivado pela apresentação que o jornalista Lyra Neto acabou de fazer agora à tarde na Fafich UFMG de seu livro Uma história do samba: as origens (1° de uma trilogia sobre o gênero)  que me levou a um comentário sobre tantas leituras anacrônicas que vem sendo feitas a partir de analogias um tanto quanto descuidadas entre os sambas de 1920-30 e os funks da atualidade, ou entre a misoginia dos sambas-canção de 1950 e do pagode contemporâneo, por exemplo. Nesses eventos o tempo para debate nem sempre é suficiente, e dependendo do contexto a coisa morre por ali mesmo.  O anacronismo, denunciado por todos aqueles historiadores que são as referências de minha formação, é um equivoco imperdoável para o profissional do ofício. Cada tempo tem seus valores e relações, e é preciso evitar nas avaliações retrospectivas julgar os atos e dizeres das pessoas de outra época com se fossem nossas contemporâneas. "The past is a foreign country: they do things differently there", "O passado é um país estrangeiro: eles fazem as coisas distintamente por lá", diz o poema de Hatley do qual o geógrafo David Lowenthal emprestou o título de um livro seminal sobre patrimônio e memória escrito nos anos 1980s que lamentavelmente até hoje não foi editado no Brasil. 

Mas me lembrei dessa postagem que ficou rascunhada, escrita ano passado. Em seu blog Farofafá o jornalista Pedro A. Sanches, comentando a apresentação da cantora Elza Soares na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, começou dizendo o seguinte:

"Os versos são de Vinicius de Moraes, o poetinha ex-diplomata que nunca chegou a ser o mais progressista dos brasileiros. A música é de Baden Powell, que no final da vida extirpou a palavra “saravá” de suas canções e substituiu os antigos cantos de candomblé pela religião evangélica. Transtornado por Elza Soares, o “Canto de Ossanha” (1966) de Baden e Vinicius constituiu-se, para boas entendedoras, no grande momento político da cerimônia planetária de abertura das tristes Olimpíadas do Rio de Janeiro." [aqui o texto completo]


Eis a interpretação de Elza, com arranjos significativamente turbinados por batidas eletrônicas que ao final assumem a forma mais típica que se utiliza nos funks atuais - só a título de observação nenhuma das batidas faz jus à elaboração rítmica do afro-samba. Enquanto o narrador 'conceitua' pop (obviamente desconsiderando toda teoria social que já se debruçou sobre o assunto), Elza, visivelmente debilitada, manda uma interpretação até solene, que contrasta tanto com o arranjo quanto o cenário - nesse sentido ela não foi nada pop.


 


O que escrevi como comentário, no próprio blog dele, transcrevo abaixo, a modo de concluir :

Concordo com boa parte da sua interpretação, mas com um ressalva. O princípio do texto não faz jus aos AUTORES da canção. Por que, para empoderar quem quer que seja, é preciso trair ou desmerecer os esforços e o sentido que estava posto antes? Vinícius e Baden merecem todos os elogios por tudo que representam os afro-sambas [uma postagem a respeito, aqui]. E a Elza Soares não transtornou nada, ela derivou o sentido diretamente do que estava lançado lá. Perdeu-se nesse tempo de binarismo e identitarismo barato a capacidade de reconhecer a empatia. A descoberta do Outro e a capacidade de compreender e solidarizar com seu sofrimento, ainda que sem vivê-lo na carne. A capacidade do poeta de fingir, no sentido que emprega Pessoa. Se Vinícius não era o mais progressista (?!), em seu tempo foi deveras progressista - quantos brancos educados e privilegiados de sua época devotaram qualquer entendimento ao universo religioso afro-brasileiro? Poucos. E se Baden converteu-se no final da vida, não importa quando o que cumpre é qualificar sua obra  - no caso em questão a forja poderosa de seu violão fabricando uma modalidade absolutamente original de canção - a partir da qual intérpretes do quilate de Elis, Mônica Salmaso e Elza Soares encontram o solo onde plantar o grão de suas vozes. Os dois merecem toda a consideração de quem fizer crítica musical tendo sua obra em pauta. Saravá.   



 E ouçamos Elis, numa de suas poderosas interpretações ao vivo da canção:



Canto de Ossanha
Baden Powell e Vinicius de Moraes

-"O canto da mais difícil
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"

Deaaá! Deeerê! Deaaá!

O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...(2x)

7 de agosto de 2016

Né qualquer um que consegue não: homenagem a Vander Lee

O falecimento do cantautor Vander Lee ontem (05/08) deixou a todos em choque, sentimento que se intensifica aqui em Belo Horizonte, sua terra natal . Uma perda para a música popular brasileira em geral e mineira em particular. Penso no papel que cabe a um blog como este nessas horas, devotado especialmente ao conhecimento, à apreensão, ainda que de variados ângulos, do que representa a música popular. Além, portanto, de homenageá-lo, senti que seria justo trazer algumas linhas sobre sua carreira e obra. Entretanto eu não queria que fosse nada como esses epitáfios de praxe, como os que os leitores poderão encontrar em portais de notícia e jornais de grande circulação [matéria completa]. Como tantas vezes ocorre, meu parceiro Pablo Castro produziu um texto à altura da tarefa e eu me senti incumbido a abrir espaço aqui:

"Que dia estranho ...
Acordar com a notícia da morte prematura e inesperada do Vander Lee ...
Ele era, de todos os mineiros cantores e compositores independentes, o mais bem sucedido, tinha público no país inteiro, cantava suas composições que tinham um pé no Brasil profundo, e nunca resvalavam para o popularesco, para o fácil, apelativo, ainda que estivesse sempre próximo do clichê radiofônico. Muito bom letrista, muito bom melodista, muito bom cantor, versátil, capaz de sambas, emboladas, toadas, baladas, tudo seguro na sua mirada.
Para além disso, era um de nós. Não encarnava nunca qualquer pretensão de superioridade advinda desse sucesso, não um sucesso estrondoso, espalhafatoso, mas um sucesso silencioso, enterrado nas raízes quase invisíveis do gosto popular. Na lida pessoal, um sujeito elegante, perspicaz, grande espirituosidade, ouvia e falava pouco mas com propriedade de todos os assuntos, com algumas pitadas enigmáticas.
Morávamos na mesma rua e ficamos de combinar umas violãozadas, mas não deu tempo.
Hoje passei a tarde no estúdio gravando vozes e mais vozes e pensando na extrema fugacidade que é esta profissão: fazer constructos tão abstratos mas capazes de ser tão resistentes, duradouros e ao mesmo tempo fugidios, as canções.
Há poucas semanas, dividimos um rochedão no Santa Tereza, ele, Telo Borges e eu. Lembro-me de pensar nessa trinca ali, um vencedor do Grammy, um cantautor do Brasil profundo mas que teimava em permanecer nessa estranha província, e eu, que nem sei me definir e cuja obra é insignificante, em vários aspectos, em comparação à deles. Mas estávamos ali na total informalidade, como amigos e partícipes de uma coisa maior. Tínhamos feito juntos uma viagem para a Itália, há muitos anos, no mesmo clima.
Essa coisa maior ficou maior ainda hoje, e nós perdemos um dos mais nobres contribuintes dessa coisa que poder-se-ia chamar música mineira.
Salve Vandeco Do Cavaco !!!" Por Pablo Castro

Se eu posso acrescentar alguma coisa, é apenas uma breve nota que ressalta aquilo que tem sido a tecla batida por todos os músicos da cena mineira com quem convivo na hora de apreciar a criação de Vander Lee - sua habilidade em produzir canções afinadas a certos traços do gosto popular sem deixar de lado a elaboração e o acabamento cuidadoso em música e letra, atingindo um equilíbrio possível que lhe permitiu alcançar um grande público, ter sucessos radiofônicos e ser gravado por grandes intérpretes, dentre as quais Gal, Bethânia e Elza Soares, que além de tudo o amadrinhou, tendo influência decisiva no andamento de sua carreira.
Escolhi dar à nota um tom pessoal, escolhendo falar de "Galo e Cruzeiro". Lembro a primeira vez que ouvi essa canção na tv, ele tocando em algum programa local, que nem deve existir mais. A simpatia pela canção foi imediata, um samba carismático, mas a letra é que realmente me chamou à atenção, cheia de achados e mesmo assim mantendo o apelo popular. Na condição de letrista, àquela altura tratando o ofício como algo que merecia o devido esmero, fiquei bem impressionado com a habilidade dele em combinar os universos semânticos da rivalidade futebolística e do relacionamento amoroso sem cair em lances desgastados ou "tocar de lado". Sua desenvoltura em acionar o vocabulário do cotidiano, cozido numa espécie de comédia de costumes, tem um poderoso efeito que é o de desenrolar a narração da partida com imensa fluência e naturalidade. Esperamos certas palavras e situações, e elas aparecem mesmo. Simultaneamente, há dribles mais desconcertantes, passes em profundidade, ou um sutil toque de calcanhar, como quando ele brinca com as palavras em "ela é quem bota fogo" que também remetem ao nome de um famoso clube de futebol, Botafogo. Um toque magistral é a comparação de "status de relacionamento" do eu lírico da canção com o posicionamento do jogador em campo, em    "Caí de centro-avante, pra médio-volante, agora sou zagueiro", cujo sentido depende da compreensão de nossa cultura futebolística, que define uma hierarquia simbólica em que o ataque é privilegiado sobre a defesa. E, por fim, com muita visão de jogo, ele brinca com o mascote de seu próprio clube do coração, o Atlético, deixando para a rival amada cruzeirense o papel dominante no espaço em que se dá o certame amoroso, invertendo a figuração recorrente do imaginário futebolístico belorizontino em "Ela fala, eu me calo, ela canta de galo lá no meu terreiro". Isso, pra quem de fato vivencia e reconhece essa rivalidade intestina, tem grande efeito para dar sentido à intensidade do relacionamento de que a canção trata.  Em súmula, tudo isso sem perder o gingado, tocando massivamente no AM e no FM.
Né qualquer um que consegue não.



Minha Preta não fala comigo
desde primeiro de janeiro
Ela me deu a mala eu fui dormir na sala,
fiquei sem dinheiro
Não tem mais feijoada, nem vaca atolada,
rabada ou tropeiro
Já fez greve de cama diz que não me ama,
quebrou meu pandeiro
Na hora do cruzamento, ela deu impedimento
ou falta no goleiro
Pra aumentar meu tormento, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Com o gol anulado, saí do gramado,
voltei pro chuveiro
Isso tudo porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Caí de centro-avante, pra médio-volante,
agora sou zagueiro
No último domingo ela foi jogar bingo
e eu fiquei de copeiro
Ela fala, eu me calo, ela canta de galo
lá no meu terreiro
Ela apita esse jogo, ela é quem bota fogo
no nosso palheiro
Ela finge que não, mas no seu coração
ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Ela finge que não, mas no seu coração
ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro
 

12 de janeiro de 2016

1a. c/ a 7a. Mistérios do samba

Assisti ontem a um trecho desse documentário com a velha guarda da Portela, bem produzido, e com uma condução muito respeitosa, digna. Enquanto levantava repertório para um disco, Marisa Monte vai cantando com Paulinho da Viola, conversando com os compositores de quadra, famílias de sambistas, pastoras.  E encontrando as fitas k7, letras manuscritas, arquivos guardados por familiares e pelos próprios autores, e a gente vai vendo a emoção genuína de encontrar aquilo, lembrar os sambas...Enfim, delicadeza demais. 


Uma sinopse:

"Na ocasião do trabalho de pesquisa de campo realizado por Marisa Monte nos idos de 1998 junto aos sambistas da Portela no bairro de Oswaldo Cruz, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), para o repertório de seu CD "Tudo Azul", a cantora percebeu que algo mais estava ali, naquele lugar, além dos cancioneiros inéditos os quais pretendia resgatar. Assim, ela chamou os diretores Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor para registrarem esses encontros, com a intenção futura de gerar um filme que retratasse não apenas os bastidores de sua empreitada musical, mas algo muito mais precioso." (do canal youtube anderson inspiração)



Enquanto eu navegava procurando o vídeo, acabei lembrando do documentário sobre Paulinho da Viola que resenhei aqui, e vale muito assistir.

12 de julho de 2015

FLIP, IASPM e outras bossas

Passei uns dias longe do blog, em função de um mês de junho muito movimentado, incluindo aí duas viagens. Numa dessas fui a Campinas para participar do 18° Congresso da IASPM (associação internacional de estudos da música popular) sobre o qual ainda falarei mais detidamente. Mas agora, de volta, enquanto assisto a um trecho da divertida e instrutiva mesa que reuniu Hermínio Bello de Carvalho e José Ramos Tinhorão na FLIP, por um link gentilmente encaminhado pela amiga e colega pesquisadora Sirlene Bernardo, não pude deixar de recordar que a primeira mesa que assisti na Unicamp chamava-se Bossa beyond Brazil, em que pude conferir os trabalhos de pesquisadores de outras terras a respeito desse gênero que é o pomo da discórdia da mesa, uma vez que Tinhorão, com a verve que lhe é peculiar continua a sustentar que a BN não é brasileira (ainda que acabe reconhecendo a originalidade do violão de João Gilberto, ops?!), calcando-se na detecção de fortes indícios de influência jazzística nas composições de Tom Jobim (ele sempre recorre aos mesmo exemplos, como Mr. Monotony em Samba de uma nota só). O curioso, justamente, é ter visto na mesa de Campinas a perspectiva oposta, ou seja, estudiosos anglo-parlantes e conhecedores de música popular ressaltando o quanto a Bossa Nova é percebida como brasileira (inclusive sendo enquadrada nos estereótipos gringos da brasilidade) e mesmo aos ouvidos dos que reconhecem traços, diferente do jazz.





7 de junho de 2015

Paulo Moura na Mangueira


Paulo Moura - short film 35 mm - by Paulo Martins from Paulo Martins on Vimeo.



Legenda do vídeo:
Filmado no Morro da Mangueira, RJ; o saxofonista, clarinetista, maestro e arranjador Paulo Moura conta fatos da sua vida e apresenta algumas músicas.

Apresentado no V Festival Internacional de Curtas, SP, 1994
4 semanas em cartaz no Cine Veneza, RJ, em complemento do longa metragem The Art of Love, Arthur Rubinstein, de François Reichenbach.

Produzido por: Flávio Tambellini
Fotografia e direção: Paulo Martins


Música:
Diálogos, Vigor e Bicho Papão (Paulo Moura); Moto Perpétuo (Paganini) ; Fantasias (Villa-Lobos); As rosas não falam (Cartola).
 

24 de janeiro de 2014

Toma lá dá cá du samba, du samba, du samba

A preciosa cena compartilhada pelo amigo pesquisador Alberto Júnior, mostrando Martinho da Vila, Paulo Moura, Rosinha de Valença e o ilustríssimo Grande Otelo numa roda ao som de Disritmia, composição do primeiro deles, bateu aquela comichão da pesquisa, ainda que amolecida nesse final de férias.


Iniciei a busca por uma pista de um comentário na postagem no You Tube: "Se não me engano é um trecho de um documentário feito pra tv francesa...apresentado pelo Grande Otelo" e cheguei a essa boa sinopse do blog outra-cena:

"Eclats Noirs du Samba [Fragmentos Negros do Samba, n.e.] é uma série produzida pela televisão francesa que destaca a importância da influência da cultura negra na música brasileira. Produzido no Brasil em 1987 pela TF1 em associação com o “Centro National de La Cinematographie et du Ministere des Affaires Etrageres” Eclats Noirs du Samba é apresentado por Grande Otelo com a participação de grandes nomes da MPB e dirigido pelo consagrado diretor francês Hubert Niogret. O documentário fala da origem do Samba. Da conexão Bahia – Rio de Janeiro e suas vertentes criadas a partir disso: Chorinho, Partido Alto, Samba de Morro e Samba Enredo. Narrado por Joel Rufino dos Santos. Entrevistados: Tia Carmen, Fundo de Quintal, Candeia, Velha Guarda da Portela e Martinho da Vila. Boa fonte de informação para os interessados em ir um pouco mais a fundo sobre o som que dançamos nas pistas de dança. Como o próprio Nelson Sargento da Velha Guarda da Portela diz:
“Eu nao posso exigir que um jovem de hoje faça um samba como na década de 40 ou 50. Porque é do instinto dele querer recriar. Agora, dentro dessa recriação muitas vezes eles erram porque não querem olhar para o passado. O passado não pode ser esquecido.”
Porém o documentário fora retirado do You Tube, já que a conta em que estava postado foi fechada por infringir direitos autorais. Teimei e encontrei um outro trecho, com Zezé Motta cantando Magrelinha de Luis Melodia, aparentemente ao final de um episódio da série. Com um pouco mais de insistência, encontrei o episódio completo em que ocorre a participação de Martinho. Um ótimo programa!


Eclats Noirs du Samba - 1987 from Discos Finos on Vimeo.

8 de setembro de 2013

Diamante negro

Já fiz aqui algumas postagens sobre a relação entre a música popular e o futebol. Nesse intento, repasso aqui a homenagem feita via You Tube pelo "moreiranochoro":



Publicado em 05/09/2013
Leônidas da Silva, craque do futebol brasileiro, teria completado 100 anos em 6 de setembro de 2013, não houvesse falecido em 2004. Em 1950, quando estava se despedindo do futebol, recebeu uma homenagem em forma de samba dos compositores Davi Nasser e Marino Pinto: "Diamante Negro", um samba de verdade, forte e vibrante como os bons sambas de antigamente, na interpretação dos Vocalistas Tropicais, conjunto vocal e instrumental formado por Nilo Xavier, Raimundo Evandro, Artur Oliveira, Danúbio Barbosa e Arlindo Borges.

"Neste meu modesto samba,
sem nenhuma pretensão,
não vou falar de amor,
vou mostrar o campeão.
Vou falar de futebol,
não vou contar anedota,
vou falar de um brasileiro
que é o dono da pelota.

Leônidas nasceu
e cedo deixou a escola
porque seu claro caminho
era o caminho da bola...
Leônidas da Silva cresceu,
ganhou partidas, honras e lauréus.
Eu só queria fazer com a cabeça
o que o Diamante Negro faz com os pés..."

1 de setembro de 2013

Saudade do tempo que não vivi

Paulinho da Viola - Meu tempo é hoje (2003): 'Documentário dirigido por Izabel Jaguaribe, é um perfil afetivo do cantor, instrumentista e compositor. O filme mostra seus mestres e amigos, suas influências musicais e percorre sua rotina discreta e muito peculiar, em suas atividades e hábitos desconhecidos dos grande público. Mas a grande revelação vem das reflexões do músico sobre um único tema: o tempo. Em vários versos ele canta: "Só o tempo ajuda a gente a viver"; "Amor, repare o tempo enquanto eu faço um samba triste pra cantar"...' [postado por Alexandre Camões no YouTube]



Logo no início do documentário Paulinho entra em uma livraria e emenda com um livreiro um papo sobre saudade, dizendo inclusive que era uma coisa que não conseguia sentir. Seu interlocutor emenda "Eu sinto muita saudade de uma época que eu não vivi". De certa forma é um sentimento do qual compartilho, e de fato não se trata, como considera o próprio Paulinho, de saudade. Trata-se de uma forma específica de experiência do tempo, em que nos apropriamos do que é possível apreender dentre vestígios do passado que nos alcançam e aos quais damos novos sentidos. Dentre estes pode estar uma certa nostalgia, até mesmo uma ilusória expectativa de restauração impossível de satisfazer, mas também a possibilidade de reinterpretar e concatenar as expressões de um tempo eminentemente diferente na medida em que participam do processo de atribuir sentido à vida e produzir compreensão de nossa própria conjuntura. Assim o título do documentário é bem escolhido, e contribui para desfazer uma leitura um tanto esquemática do compositor e sua obra, que tende a enquadrá-lo como guardião nostálgico do samba da velha guarda, quando de fato foi uma ponte entre gerações e audiências, um atualizador de tradições e certamente tem papel central nas inúmeras ressurreições do samba (tantas as vezes em que o deram como morto) nas últimas 5 décadas da história da música popular brasileira.

9 de agosto de 2013

Recomendação: Receita de Samba: Terreiro

Há um bom tempo queria começar a fazer esse trabalho no blog de indicar, comentar, além de continuar repostando o que considero de interesse e afinado à proposta do Massa Crítica MPB. Hoje conheci o Receita de Samba e deu vontade de começar por ele. Um belo blog, com material farto e muito bem organizado.  Parabéns ao seu organizador, Vinícius Leandro Terror. 

Receita de Samba: Terreiro:  Inicio aqui no Receita uma série de cinco postagens chamada "Terreiro". Terreiro, simples assim. O samba, na minha opinião, em ...

6 de maio de 2012

Batizando tangos brasileiros

Há alguns dias comentei sobre a inauguração do site Ernesto Nazareth 150 anos do Instituto Moreira Salles. Não deu pra fazer aquela visita detalhada mas posso adiantar que a interface está elegante e a navegação parece fluir muito bem. Existe um blog incorporado que traz postagens bem interessantes, uma delas chamou-me a atenção por tratar de uma lista de títulos, "As músicas que Nazareth não compôs" (autoria de Alexandre Dias). Como já comentei anteriormente meu fascínio sobre títulos (aqui) não pude deixar de notar sugestões como "Dardejante", "Precipício" e "Extremado", dentre os possíveis "nomes para baptismo de um tango". Para quem estranhar o emprego do termo "tango", sugiro uma consulta ao altamente recomendável Feitiço Decente, de Carlos Sandroni, livro obrigatório para estudar a música popular brasileira e a constituição do samba como gênero. Ao tratar das fontes do maxixe (enquanto percorre historica e musicalmente o caminho que vai do lundu ao samba) ele recupera o sentido do tango no século XIX, aplicado que era a "coisas dos afro-americanos" (p.77). Como bom pesquisador que é, Sandroni vai agrupando pistas de seu uso em poemas satíricos, operetas, revistas, e obras de compositores diversos, inclusive o próprio Nazareth. Aliás, ele deslinda (pgs. 78 a 80) a polêmica em torno da adoção desse termo para batizar suas obras, tidas por vários críticos como maxixes. Sandroni mostra como se constitui essa querela, em que acusam Nazareth de empregar a palavra "tango" por rejeição às "origens negras" do maxixe, a seu caráter "plebeu" e "vulgar". Cita também artigo em que Mário de Andrade menciona que o compositor considerava que seus tangos não eram "baixos" como os maxixes.  A isto o estudioso contrapõe elementos suficientes para demonstrar que a palavra "tango" tinha uso corrente no Rio do início do século XX e era empregada por outros compositores, como Chiquinha Gonzaga. Para Sandroni, foi a mudança de sentido de "tango", a partir dos anos 1920, que afetou a percepção da crítica. Só então esse gênero passaria a ser visto como "argentino", mas musicalmente diferia bastante daquele adotado na virada do XIX para o XX. Assim, o autor articula a análise musicológica à histórico-cultural, mostrando como se faz e refaz um gênero musical.