Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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26 de janeiro de 2015

Ideias cancionais

O trabalho da autoria de canções merece sempre a atenção desse blog. Refletir, especular ou poetizar sobre o assunto é inevitável para quem se debruça sobre a tarefa.

Por Luiz Gabriel Lopes*

 
(percebo que)
há despedaços de idéias cancionais que podem rondar a mente do compositor por semanas, meses,
às vezes anos
feito mosquitos enjaulados numa garrafa,
que às vezes se debatem loucamente,
e noutros períodos sossegam, hibernam.
o mosquito pode ser uma frase,
um verso, princípio de melodia ou uma sequência de acordes.
são seres autónomos
para os quais parece existir mesmo uma espécie de trajeto astrológico
- um "destino" -
sobre o qual tem-se (tenho) pouco ou nenhum controle

pode-se (deve-se!) entretanto,
estudar esses seres
praticar com eles uma espécie singular de convívio desinteressado
monitorando sua saúde, diante do rumo histórico dos microacontecimentos
medir seu campo vibracional de relações
com o universo de estímulos que ronda o criador
sem entretanto pressioná-los por demais
pois são seres temperamentais, esses mosquitos

das conversas que tive recentemente com amigos compositores
percebi que a luta existencial com períodos de mãos secas é cíclica
e vasta de reações
é feito catapora, mal comum e necessário ao crescimento

saber esperar o tempo da florescência dos mosquitos
no rumo de amadurecimento animal que leva a lagarta à borboleta
é um exercício de maturidade
sabedoria árdua de atingir
ô se é.

felizmente há momentos em que a garrafa se abre
deve-se empreender este esforço: abri-la vigorosamenter,
aí reside o trabalho. na justeza da espera e na firmeza do gesto.
espere demais, e os mosquitos morrerão.
abra a tampa antes da hora e eles te atacam, famintos e egoístas
indo embora sem deixar vestígio

mas em boa hora,
abre-se a tampa da garrafa
e deixa-se voar o enxame pela sala, não sem que batam nas paredes.
os bichos então que encontrem pouso sólido nalgum canto
onde então se poderá, finalmente, extrair deles aquilo a que vieram
- a canção.


* cantautor mineiro, membro das bandas Graveola e o Lixo Polifônico e Tião Duá, residente e super-atuante na cena musical e cultural beagana e além, desde infante ciclista, dentre outros predicados. O editor agradece muitíssimo a cessão do texto acima.

8 de dezembro de 2014

As derramadas lágrimas de Guinga

A noite de hoje está guardada e há de ser glosada nos compêndios da música popular brasileira. Histórias serão contadas sobre os antológicos shows de Zé Miguel Wisnik e Guinga na Mostra Cantautores, digna e pertinentemente coadjuvados por Rafael Martini e Pedro Carneiro, respectivamente. Eu mesmo pretendo ter várias pra contar. Mas até lá hão de surgir instantâneos oportunos e singelos, argutos e espontâneos. Sinto uma profunda necessidade de compartilhar com os leitores do blog este escrito pelo meu parceiro Pablo Castro :

 
Embebido da experiência intensa e profunda de ter podido estar nessa noite de gala, na estreia da quarta edição da Mostra Cantautores [confira site com programação completa] , em que se apresentaram dois luminares da canção brasileira, dois mestres absolutos , da mesma geração, e em certa medida opostos, em certa medida complementares, José Miguel Wisnik com sua dissecação graciosa da canção e das canções, as suas, loas afiadas como pérolas aos poucos, e as nossas, aquelas entranhadas no inconsciente coletivo do que somos;
Guinga, com seu charme carioca, a um mesmo tempo humilde e malicioso, contando anedotas e destilando outras obras primas absolutas, ora com Aldir, ora com Paulo César Pinheiro. O encontro das duas personalidades fundamentais do desenvolvimento dessa arte nas últimas décadas, talvez ainda mais que os baluartes esplêndidos da década de 1960, se dá num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, ou talvez no ponto exato do centro da Via Dutra, tão representativos são dos ethos paulista e carioca da canção nacional ... e se inscrevem na nossa memória.
A apresentação do arrojado e magnífico Rafael Martini, articulando com primor uma música expandida para além da letra, e para dentro dela, conjugada com a abertura de Pedro Carneiro, um cronista que casa Guinga com Rumo, ilustram, sem esforços, o nível das aventuras que a canção brasileira ainda reserva para os que se dignam a cultivá-la, a ouvi-la, e a guardá-la dentro de si, refutando miseravelmente a tese do fim da canção.
A canção popular é a verdadeira epopéia da cultura tupiniquim, e quem não faz idéia de por onde ela passa, está perdendo uma das melhores sensações de pertencer a esse lugar chamado Brasil.
Que essa noite tenha sido um dia 8 de dezembro me parece muito significativo, em que pese a influência de John e a onipresença luminosa de Tom.


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Guinga derramou sua canção e derramou lágrimas, fez chorar de chorar e chorar de rir. Para dar um gostinho de sal e doce do que foi a noite: essa história da bigamia, canção necessária, desnecessária, etc., foi um dos pontos altos da noite. Acabei de ver a Salmaso contanto a história também, noutro dia, noutro lugar. 


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Mais cedo, pensando no show de Guinga na Mostra Cantautores, encontrei essa maravilha de texto do Túlio Villaça [Guinga e a última canção do beco aqui]. E outro dia assisti um pedaço (tá difícil ver coisas inteiras) do show O fim da canção (Wisnik + Nestroviski + Tatit) que também me botou pra pensar nessas coisas. Há de merecer mais reflexão. Não consigo deixar de pensar que sair do beco implica refazer rotas também, não com pés nostálgicos, mas por ser possível retomar caminhos que eventualmente não foram percorridos até o fim. Se ali na frente houver outro beco, que haja. Do que for decantado no caminho, ficará o encanto. Sim, temos uma cena pujante. Como diz o Pablo, Eldorado subterrâneo da canção. A cobertura da imprensa tem que crescer, ampliar, multiplicar. De pouco adianta divulgar o evento e depois esquecer de novo desse manancial que flui forte já há tempos. É preciso construir público, abrir espaço nas rádios, nas tvs, nos palcos. E é louvável, mais que louvável, o trabalho da moçada que toca desde sempre a preciosa mostra Cantautores! Longa vida!

12 de novembro de 2013

Atravessando o deserto


Vale conhecer e vale muito apoiar mais um aventureiro que se dispõe a desbravar a mata, enfrentar a tempestade, subir o Everest ou atravessar o deserto em busca de novos caminhos para o destino da canção. 
Falo do Rafael Dutra, que atualmente grava seu CD solo de estréia, Oásis de Vidro. Conheci melhor o trabalho dele através da mostra Cantautores [confira o som aqui], que já se tornou importante evento para a difusão da produção autoral de canções em Belo Horizonte. Aliás, é a cidade que propicia os encontros inesperados e auspiciosos como o que tivemos recentemente saindo de ônibus do campus da UFMG dias atrás. Falamos sobre o projeto do disco e assuntos de momento, mas sobretudo das canções e dos múltiplos caminhos da sua criação. Papo da melhor qualidade, cujo saldo seria difícil expressar aqui de uma forma precisa, até porque certamente o melhor seria revisitar a conversa pela memória de ambos interlocutores. Diria, em suma, que foi uma pródiga troca de impressões e experiências. Mas o que interessa mesmo é deixar aqui o convite para que o leitor acesse a campanha de financiamento via Catarse para finalização do disco, conheça melhor o trabalho do cara e se antecipe para ter em mãos esse primeiro registro fonográfico solo e demais produtos oferecidos. Passe lá e confira!