Mais uma das minhas parcerias com Daniel Guimarães. Essa foi a que mereceu mais revisões e reinvenções na letra. Quem se lança na tarefa de botar palavras na música que outra pessoa compôs tem que estar disposto à tarefa, que pode ser tanto um passeio de pedalinho quanto uma circunavegação do Cabo das Tormentas. No geral não será nem tão ameno nem tão dramático. Enquanto escrevo este texto vou recapitulando as conversas que fui tendo com o Daniel via mensagem no facebook - já devo ter dito em algum dos relatos anteriores que a distância condicionou essa forma de interagirmos. O fato é que eu esteva muito nessa onda de brasilidade, ali por meados de 2020. Com a verve de historiador falando alto, comecei com uns versos que pareciam adaptação de livro didático ou versão de samba enredo, diante de uma melodia sinuosa, que me sugeria o mar e uma narrativa forte, densa, solene.
Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
25 de janeiro de 2023
MACHADO ELÉTRICO
Mais uma das minhas parcerias com Daniel Guimarães. Essa foi a que mereceu mais revisões e reinvenções na letra. Quem se lança na tarefa de botar palavras na música que outra pessoa compôs tem que estar disposto à tarefa, que pode ser tanto um passeio de pedalinho quanto uma circunavegação do Cabo das Tormentas. No geral não será nem tão ameno nem tão dramático. Enquanto escrevo este texto vou recapitulando as conversas que fui tendo com o Daniel via mensagem no facebook - já devo ter dito em algum dos relatos anteriores que a distância condicionou essa forma de interagirmos. O fato é que eu esteva muito nessa onda de brasilidade, ali por meados de 2020. Com a verve de historiador falando alto, comecei com uns versos que pareciam adaptação de livro didático ou versão de samba enredo, diante de uma melodia sinuosa, que me sugeria o mar e uma narrativa forte, densa, solene.
4 de julho de 2021
VALSA DO NÃO LUGAR
(Pablo Castro/Luiz Henrique Garcia)
Consultei os alfarrábios,
doutos manuscritos,
contos em chinês
Os recônditos tratados
de proscritos sábios
parcos rodapés
Shangri-lá seria aos pés do Himalaia
Xanadu perdida atrás de uma montanha
As minas do rei Salomão
cidade ao sol
Na Amazônia o uirapuru me guiaria
Rumo a terras que você não sonharia
longe
dessa ilusão
civilizada
Sigo em busca de utopias
Pra gente morar
Haverá um não lugar
Haverá um não lugar
Procurei nos pergaminhos
Nas iluminuras
cultos dos nagôs
As menções mais obscuras
Códices antigos
leis de faraós
A Lemúria desapareceu no tempo
Lilipute não passou de outro delírio
Atlântida submergiu
Mistério mór
Na Amazônia...
Sigo em busca de uma ilha
Pra gente se amar
Haverá um não lugar
Haverá um não lugar
2 de janeiro de 2021
SUPERNOVA SG532
Após ler o excelente depoimento do meu querido parceiro Luiz Henrique (escrito por ele ainda no calor do lançamento, com impressionante riqueza de detalhes do processo), pensei em também escrever algo, mas puxando mais para o lado da criação da melodia.
Essa canção foi feita em um período de férias: eu já morava em Macapá, tinha tido meu primeiro semestre como professor da Universidade Federal do Amapá, e estava descansando na casa dos meus pais, em Congonhas (MG). Levei meu notebook e minha placa de áudio para lá, e, em determinado dia, deu vontade de tentar gravar um tema mais progressivo, longo, com diferentes passagens instrumentais.
A base da canção foi composta enquanto eu gravava, e não antes. Eu elaborava uma melodia ou um riff, e as primeiras execuções desse arranjo já eram feitas enquanto eu dava o “rec”. Fui compondo mais focado no teclado, deixando alguns espaços na canção para que depois fossem inseridas guitarras.
Essa base foi criada e gravada muito rápido. Não sei precisar o tempo, mas lembro que a fiz bem mais rápido do que a maioria das canções que já compus. É engraçado, porque se trata de uma faixa longa, com várias passagens instrumentais, e dá a impressão de ter sido algo elaborado e muito burilado; mas, não, em termos de composição, foi muito rápido. Foi um anti-Dorival Caymmi, conhecido por demorar anos e anos para compor frases e melodias aparentemente simples. Mas é que o simples dá trabalho. Lembro-me também do guitarrista do Dream Theater dizer, em uma entrevista, que o que eles fazem não é difícil: que difícil mesmo é fazer uma canção como o U2, que soe relevante com poucos acordes e 4 minutos...
Pois bem. A criação estava fluindo muito, até que, no dia 25 de janeiro de 2019, li a notícia do estouro de uma barragem em Brumadinho. Como Congonhas fica bem perto dali, entrei em pânico. Eu li a notícia em um site pequeno, sem muitos detalhes, escrita cerca de dez minutos após o ocorrido. Fui o primeiro a divulga-la para vários amigos, sem saber da proporção que aquilo realmente alcançaria. Lembro bem de mim, com o teclado musical diante de mim, ainda elaborando alguns dos arranjos, e de repente me vendo distraído com a inesperada notícia, procurando desesperado por mais notícias sobre o ocorrido.
Isso foi em uma sexta feira. No fim do dia, soube que uma grande amiga estava nessa empresa da Vale, e consequentemente o fim de semana foi de puro pânico. Eu e diversos amigos do nosso círculo estávamos devastados. Minha tábua de salvação foi dar tudo de mim na elaboração desse tema musical. Me dedicar à gravação dessa canção foi importante naquele momento, foi uma maneira de não me afundar nos sentimentos cruéis e pesados que só cresciam naquele momento.
Após ter gravado as guitarras, tentei escrever uma letra, tentando expressar a dor sentida pela tragédia de Brumadinho. Não fazia muito tempo que eu tinha ido ao Inhotim pela primeira vez, e me pareceu horrível ver uma região tão bonita ser devastada dessa maneira. Mas a maior dor era pela perda dessa amiga que lá estava, que eu conhecia há anos e era esposa de um verdadeiro irmão de vida. Meu sentimento era real, era duro de lidar, e não consegui traduzi-lo em palavras.
Enviei a melodia para meu parceiro Luiz Henrique Garcia, e comentei muito brevemente sobre a intenção de orientar a letra nessa direção de ser uma espécie de “ritual de cura” do ocorrido. Mas a sugestão não era nada estimulante, ou pelo menos notei que Luiz também não encontrou nesse mote nenhum tipo de inspiração*. Letras de música são algo difícil: muitas vezes, você tem uma ideia interessante, mas a música não aceita a sua ideia. Me parece que toda letra de música que busque a relevância precisa nascer de um “acordo” com a melodia. É preciso que a canção aceite as palavras. De certa maneira, creio que um letrista é em parte criador e em parte tradutor. Ele precisa, em algum nível, traduzir o que a própria melodia já está dizendo (ou gostaria de dizer).
Luiz então se arriscou em uma direção diferente da que eu tinha previamente sugerido. Ao longo dos meses, lentamente, algumas mudanças foram sendo feitas. As vezes, eu perguntava a ele se uma palavra poderia ou não ser substituída, e ele ia pensando em possibilidades diferentes, e aí batíamos o martelo juntos. Trabalhar com o Luiz tem muito desse tipo de diálogo, em alguns momentos. Eu tento não interferir no que ele escreve, mas aprecio a delicadeza com a qual ele submete a letra a meu escrutínio, e se abre para uma eventual necessidade de reescrever ou não alguma coisa.
Continuei mexendo na gravação dessa música ao longo de vários meses. Tentei tocar a melodia geral com som de piano, em vez do som de wurlitzer original. Eu tinha usado originalmente um timbre bem a la “Supertramp”, daí o nome da guia, como Luiz mencionou. Mas não ficou legal com som de piano, daí retomei o timbre original.
Quando decidi gravar um disco em Macapá, no Estúdio Zarolho, mostrei para o produtor Alan Flexa a versão caseira que fiz. Ele achou que soava bastante como 14 Bis, o que me deixou bastante feliz. Quando mostrei para Alan, já estávamos no processo de gravação de outras músicas, e eu diariamente ia em seu estúdio para gravarmos tudo lá: guitarra, baixo, bateria, vocais (apenas os teclados que gravei em casa eram mantidos).
Mas, no caso dessa, Alan sugeriu que eu mantivesse a guitarra gravada em casa. Ele achou que, mesmo sendo uma guitarra feita para uma guia, ela soava ótima, e o solo de guitarra não precisaria ser regravado. Ele achava que eu tinha conseguido algo que soava tipo 14 Bis mesmo, como no solo de músicas tipo “Espelho das Águas”. No início do texto, disse que a base da canção foi feita rapidamente, mas esse solo de guitarra deu trabalho para compor. Eu queria que fosse algo memorável, e me dediquei muito para cria-lo. A gravação dele foi mesmo feita em casa, e há algo na performance que fiz que me parece bem apaixonada. Fazia sentido mantê-la.
A bateria da original era uma base em MIDI bem quadradona. Chamamos Forlan Gomes para gravar uma bateria de verdade. Como de costume, ele ouviu a versão demo poucas vezes antes de gravar. A única coisa que deu trabalho foi, já no fim do solo, em um momento que eu pedi a ele para bater no prato de ataque junto com uma nota específica do solo que achei importante ressaltar também na bateria. Isso demandou vários takes para dar certo. Mas, no geral, Forlan gravou algo com a suavidade e a fluidez que eu queria, o resultado ficou fantástico. Depois só precisei voltar ao estúdio para gravar os baixos e as vozes.
Supernova SG532 (Música de Rafael Senra e letra de Luiz Henrique Garcia)
Estratosférica luz
Estandarte do sol
Uma pedra no céu explodiu
Por toda América ouvi
Majestade do som
A impávida voz que espalhou
13 de dezembro de 2020
DEIXA ACONTECER
Aproveitando o embalo vou fazer mais uma postagem no estilo "contando as letras". Mais uma das minhas parcerias com o Daniel Guimarães, feita totalmente à distância mas bem antes desse impositivo momento que infla indesejavelmente o apelo aos recursos digitais de comunicação. Foi uma das primeiras que fizemos. No intuito de compensar a falta do contato pessoal trocávamos longas mensagens através da rede. Enquanto ainda buscávamos um entrosamento que certamente veio com o tempo, eu procurava relatar com certa minúcia o que vinha à minha cabeça à medida que ia escrevendo. Tenho aqui algumas "anotações" que vou compartilhar para dar um pouco essa sensação de bastidor, de making of. Expressão que me veio a calhar aqui agora porque além de uma sugestão de que a música tinha sido a princípio sobre um personagem errante, e numa outra versão sobre uma tempestade, ela me soou desde sempre cinematográfica. Relatei assim minhas impressões após o primeiro esboço que encaminhei ao parceiro:
Comecei com esse imperativo, “abra”, e de uma certa forma foi pintando uma ideia de conciliar de algum modo esses temas sugeridos, o errante e a tempestade. E a coisa foi surgindo meio num conceito cinematográfico, filme de faroeste. Ficou uma coisa mais icônica, representando a ruptura com uma situação prévia indesejada. De uma certa forma isso também foi inspirado por uma conversa com a minha filha de 16 hoje sobre a dificuldade dela sair da aula de teatro.
Deixa acontecer (Daniel Guimarães/Luiz H. Garcia)
Abra
Atreva-se a partir
O horizonte em dois
O sol em cruz
Sela
O dorso do alazão
Um raio pela mão
O vento atrás
Alça
O voo do urubu
Abraça o tempo nu
Avista a luz
Vela
A sombra do caubói
Corte que ainda dói
Sem sangrar mais
Ultrapassa os temporais
Deixa acontecer
Na paz sagaz dos samurais
Deixa acontecer
Deixa acontecer




