Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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3 de abril de 2020

Já que o trem tá russo


Uma querida  amiga e colega me marcou agorinha nesse compartilhamento no mínimo inusitado. Em meados dos anos 1980, quando a redemocratização no Brasil coincidiu com a adoção da Perestroika e da Glasnost, políticas de abertura econômica e política na antiga URSS, o então presidente José Sarney articulou, segundo consta com patrocínio de uma fábrica de tintas (cuja logomarca constaria da contracapa), a gravação de um LP (traduzindo no Google o título fica: Brasil - País de Todas as Cores, com produção do saudoso Zé Rodrix), como forma de presente sua viagem diplomática àquele país, em que nomes consagrados no cenário da música popular brasileira, incluindo gente como Alceu Valença, Moraes Moreira, João Bosco, Belchior, Leila Pinheiro, Wagner Tiso e Jards Macalé gravaram canções feitas a partir das traduções de poemas de grandes nomes da poesia russa, como Maiakóvski, Serguei Iessiênin e Velimir Khlébnikov. Ocorre que, segundo informa quem postou o "vídeo de áudio" , quem traduziu (não sei se um ou vários tradutores) processou (quem? O governo federal?) por falta de autorização e imagino que igualmente dos devidos créditos. Difícil apurar mais do que isso. Além de tudo, dada minha completa ignorância do russo, o pouco que pude fazer fica na dependência total do tradutor do Google. Fica a curiosidade da página do site Discogs, em que o disco se encontra elencado, e a gente se diverte com a grafia em alfabeto cirílico de nossos mestres, como esses dois aqui que são fáceis de adivinhar Жоао Боско e Жоелью-Де-Порко. Ali também não há crédito de tradução, mas dá pra saber a autoria original do poema que foi musicado por cada um dos brasileiros. 
Dessas coisas que só acontecem no Brasil, e se não alivia em nada a biografia política profusa em conchavos e outras obscuridades de José Sarney, serve hoje para nos lembrar de um tempo em que um contingente maior de políticos brasileiros, inclusive seu presidente, mantinha, nem que fosse por aparências, uma relação de apreço pela cultura brasileira e seus melhores artífices, bem como uma atividade diplomática responsável. Vale muito a audição, dada a excelência dos poemas e da grande maioria dos músicos que se ocuparam em torná-los canções, verdadeiras transcriações que azeitam com jeitinho brasileiro a densidade poética dos russos.  Pra não pesar selecionei só algumas, mas é possível ouvir a reprodução do disco todo.








6 de março de 2020

Dependência cultural, ainda

Meu parceiro Pablo Castro, costumeiro colunista convidado neste blog, produziu nos últimos dias dois textos com sua habitual contundência e bastante conhecimento de causa, sobre as relações desiguais na dinâmica do intercâmbio cultural através de meios massivos e a política de fomento à Cultura no Brasil. Embora o estopim de tais reflexões tenha sido a recente publicação do edital provido pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura em Belo Horizonte, optei por reunir os textos subsequentes à primeira postagem que ele fez, por serem mais abrangentes e menos dependentes dessa contextualização específica. Aponto ainda que o tema é de relevância maior num momento em que o atual governo federal, em seu ímpeto destrutivo, procura de todos os modos aparelhar e dirigir o fomento à cultura no Brasil de acordo com os interesses de grupos de extremistas religiosos e conservadores, fora ocupar-se dos costumeiros desvios criminosos, pretendendo, para tal fim, extinguir fundos públicos, inclusive alguns dos mais importantes no fomento à Cultura [aqui].
Cumpre frisar que aqui temos a proposta de um debate crítico que abrange o passado, o presente e o futuro da criação cultural, em especial a devotada à música popular, em nossa cidade, estado e país. É bom que ele não seja feito em termos estritamente acadêmicos, e igualmente não seja feito no registro do senso comum. No lugar de editor, é lógico que eu posso salientar que guardo aqui e ali minhas discordâncias ou que recorreria a outros termos e conceitos. Mas tirando uma ou outra ponderação que farei ao final, em notas numeradas (retomando algumas observações que já fiz nos comentários das postagens originais destes textos do Pablo no facebook), concordo com a espinha dorsal do que está dito a seguir.


O Que É Dependência Cultural e Por Que Seu Combate Deveria Ser Prioridade Máxima do Investimento em Cultura num País Periférico ? 

Oriundo de décadas passadas, e praticamente varrido da universidade brasileira depois dos anos 70, o conceito de Dependência Cultural se refere à subordinação sistemática de uma cultura nacional ou local à Cultura Metropolitana, seja ela nacional ou mundial . É o correlato na Cultura da questão da dependência econômica macro-societal [1] .
Indícios de Dependência Cultural são a falta de sinergia artística em dada cena cultural, a fragmentação das obras e dos artistas, a profunda padronização, a partir de padrões externos, de suas formas culturais, a desvalorização simbólica das expressões locais e/ou nacionais , tornadas marginais diante dos padrões da Indústria Cultural , a ausência de perspectiva histórica na avaliação e na oferta de Cultura nacional e/ou local, a falta de presença midiática da produção cultural local e/ou nacional, e, por fim, a absoluta inviabilidade prática de autores de viver de sua produção artística [2].
Nesse ponto, é bom observar que o conceito de dependência cultural não se refere a um "atraso", mas sim a uma relação de subordinação sistemática das expressões culturais de um recorte local ou nacional com relação aos centros irradiadores de cultura - leia-se Indústria Cultural.
Se tomarmos esses indícios como algo a ser levado em conta num diagnóstico sério de uma determinada cena local , em país subdesenvolvido e dependente, as secretarias de Cultura de um estado como Minas Gerais e uma capital como Belo Horizonte deveriam se dedicar , de maneira prioritária, a combater essa dependência.
Hoje, em Belo Horizonte, na área de música popular, historicamente responsável pelos maiores feitos em termos de distinção de identidade do estado e da capital, consubstanciados sobretudo no mundialmente consagrado Clube da Esquina, apenas um número ínfimo de artistas mineiros poderiam se apresentar no palco mais clássico da cidade, o Palácio das Artes, com um número de pessoas interessadas. Desde o Clube da Esquina, tivemos o surgimento de um grande número de cantores e compositores de alto nível, reconhecidos em searas específicas em outros lugares do país e do mundo ; mesmo assim, nenhum deles consegue se apresentar no maior palco da cidade. Posso citar aqui , de cabeça : Celso Adolfo, Tadeu Franco, Paulinho Pedra Azul, Sérgio Santos, Titane, Marina Machado, Alda Rezende, Kristoff Silva, etc. , etc, etc. Alguns desses excelentes artistas largaram a carreira, outros a levaram na base do esforço pessoal, mas com dificuldades absolutamente extraordinárias de manter o ímpeto de construir uma obra.
É incontornável concluir que essa falta de continuidade histórica da música popular mineira não se deve a algum defeito desses artistas, mas se deve a uma razão estrutural : somos o estado do Sudeste, e talvez do Brasil, mais prejudicado e inviabilizado culturalmente pelo domínio avassalador do chamado eixo Rio-São Paulo, estabelecido sobretudo pelos militares pelo surgimento da rede nacional de Televisão , que destruiu nossa TV local, com programação exclusiva feita aqui, a antiga TV Itacolomi [o MIS-BH realizou exposição sobre o tema]. 
A despeito de ser o estado com a maior lei de incentivo à Cultura do Brasil, Minas segue sendo um túmulo de talentos. Pudera : todo o ecossistema de Cultura , desde os editais do Estado e do Município, até o rol dos produtores locais de shows e concertos, são condicionados a priorizar, de todas as maneiras possíveis, os artistas cariocas, paulistas, pernambucanos, baianos, pra não falar nos "internacionais", em detrimento dos artistas locais. Ser daqui desvaloriza um artista como um defeito de nascença.
Vejo artistas medianos da dita cena "independente do país" virem aqui várias vezes por ano e receberem cachês 10 vezes maiores do que artistas locais com maior qualidade, originalidade e experiência. Isso nos editais públicos, não apenas em eventos privados.[3]
Uma cidade sem artistas saudáveis, que tenham condições mínimas de acessar a veiculação de seus trabalhos e a formação de um público, é uma cidade sem identidade. O que se depreende até mesmo na exuberância do Carnaval redivivo de BH : somos um carnaval cover, em que os nossos grandes talentos são levados a se tornarem antes de mais nada repetidores de obras consagradas, como que já conformados da impotência de fazer com que novas canções possam de alguma forma ser conhecidas do público local.
Com isso, os editais pautados em conceitos identitários e empacotados de fora, que não se preocupam com a identidade coletiva de um lugar, mas com as identidades fragmentadas a priori em termos de cor, raça, gênero , o que se alcança na verdade é uma acentuação da dependência e do subdesenvolvimento cultural e uma homogeneização ainda maior , nadando a favor da corrente da dominação da Indústria Cultural, tanto a nacional, configurada no eixo RJ-SP, quanto na mundial .


Por Que Políticas Públicas Multiculturalistas São Um Atraso Num País Sincrético ?

Ao analisar a forma como os ditames multiculturalistas foram introduzidos nas políticas públicas de Cultura no Brasil, fica patente que o subproduto dessa imposição é um ataque ao sincretismo e à permeabilidade cultural que se deu na cultura nacional em séculos de miscigenação e misturas culturais que fizeram do país o exemplo mais original , reconhecido por vários argutos observadores estrangeiros, de sincretismo cultural do planeta.
Resumidamente, a teoria multicultural parte do pressuposto que existem grupos culturais totalmente estanques, separados e apartados da sociedade oficial . Enquanto esse ponto de partida faz todo o sentido em países como a França, a Inglaterra , a Indonésia, a Bolívia, o Paraguai, a Alemanha e os Estados Unidos, no Brasil ele configura um retrocesso de séculos [4] . Mas mesmo nesses países, a ideologia multiculturalista , ou seja, os preceitos advindos de uma visão de culturas apartadas e impenetráveis, embora pareça progressista, na prática também aprofunda o apartamento cultural de populações que poderiam se integrar em vista de, no mínimo, lutar pelos seus interesses objetivos de classe.
Por outro lado, a imposição dessas políticas no âmbito da Cultura no Brasil é um retrocesso de séculos. Para isso, basta olhar para a nossa cultura e perguntar : Pixinguinha fazia música negra, ou música brasileira, resultado da combinação de uma harmonia européia com ritmos africanos ? O Clube da Esquina, liderado por um negro adotado por família branca, é música negra ou música branca ? Caetano Veloso faz música branca e Gilberto Gil faz música negra ? A Bossa nova era branca mesmo quando todos os seuis criadores citem um músico negro, Johnny Alf, como seu precursor ?
Mesmo na metrópole cultural do planeta, os Beatles, o maior fenômeno de vendagens da história, um quarteto inglês, fazia música branca ou música negra ? O jazz, talvez o maior fenômeno criativo de música no século XX, é música negra ou música branca ? Resposta, nenhum dos dois.
Toda a cultura humana do planeta nasce de processos sucessivos de hibridizações, sejam eles por imposições, mesclas, trocas, empréstimos e apropriações. Negar isso é negar a própria natureza da cultura humana.
Nada disso significa que não há opressões por trás desses processos, reconhecer a mistura não é advogar uma pretensa harmonia ou simetria onde ela não há . Por outro lado, afirmar o caráter híbrido das culturas humanas é crucial para perseguir o objetivo dessa harmonia. Afinal de contas, não é um mundo mais harmônico que queremos construir, nós da esquerda ? Defender a priori qualquer forma de purismo é rumar na direção oposta.
Mais do que isso, a ideia de combater as desigualdades na ponta, no âmbito das expressões estético-culturais, e não na raiz, na verdade não só não reduz as desigualdades, como também aponta para a perpetuação dessa separação , ao contrário do que se diz pretender atingir.
Quando um edital de cultura coloca como critério de pontuação geral a promoção de purismos politicamente orientados ele trata a cultura como um invólucro vazio que só pode ser tratado como um cabo de guerra, não como uma esfera criativa que possa resultar em originalidades. É precisamente por isso que esse tipo de política gerará sempre uma maior homogeneização, não o contrário.
Sobretudo a naturalização dessa ideologia multiculturalista num país original, diverso , multifacetado e miscigenado como o Brasil, é um evidente retrocesso.
Por fim, analisar números e dados numa política de Cultura só faz sentido como pano de fundo para um cena cultural, onde haja sinergia, mútuas influências e cooperações artísticas, além de uma ideia de história cultural . Cultura não existe sem história, arte não existe sem história , e burocratas de órgãos de Cultura têm obrigação de conhecer essa história. Eles não estão lidando apenas com dinheiro.
Por Pablo Castro


Notas do editor:
[1] A consagração do conceito de globalização e o subsequente debate em torno de sua acepção propriamente cultural levaram à adoção de outros termos para tentar compreender o fluxo assimétrico das trocas culturais. Assim faço questão de frisar que os estudos acadêmicos dos anos 1980 em diante nunca desconheceram os desequilíbrios nas trocas culturais em diferentes recortes espaciais e temporais, foram simplesmente obrigados a estudá-las em novos termos para dar conta dessa outra dinâmica. Como já escrevi sobre isso em minha Tese e neste artigo dela derivado publicado na excelente revista argentina El Oído Pensante, “Só ponho bebop no meu samba...”: trocas culturais e formação de compositores na formulação da MPB nas décadas de 1960 - 70, convido o leitor a aprofundar-se por aqui. 

[2] Remeto a postagem anterior, Artistas da fome e o valor da bolacha

[3] Eu só gostaria de acrescentar que essa estrutura, que do jeito que está já soterra talentos, inclusive muitos que nascem e/ou vivem no epicentro do eixo mas são marginais até mesmo ali e em relação até ao que se denomina "cena alternativa".  

[4] Na verdade essa teoria não faz sentido em lugar nenhum. Cultura é troca. É mistura. Aquilo que se nos apresenta como particular de um dado grupo, em um dado momento, já pertenceu a outros, mudou de forma, deslocou-se no tempo e no espaço. Multiculturalismo é um tipo de conformismo da Cultura, com fundo falso.

 

10 de fevereiro de 2014

Stuat Hall - contra as correntes

A definitiva passagem de uma referência intelectual que se admira, se entristece, deve ser ocasião de compromisso com a marca que foi deixada por ela no mundo e em nós, não como reverência vazia, ou como lamento automático, mas como afirmação da força transformadora de seu pensamento e ação, que não irá se dissipar justamente na medida em que ocorra essa determinada opção de manter a voz daquele notável ser humano ecoando em nosso meio. Stuart Hall, certamente um dos intelectuais mais influentes de sua geração, um pensador de esquerda da e na diáspora, de uma ilha até outra, que do coração do velho império contribuiu muito para emancipar o estudo da cultura de diversas "escravidões mentais", em múltiplas frentes. Para mim sua grande contribuição é ter demonstrado que o engajamento intelectual não prescinde da originalidade teórica e da crítica aguda, antes nutre-se delas. Hall deixa a obra de um insurgido que reconfigurou o cenário e ajudou a alterar nossa percepção sobre identidades, migrações, trânsitos culturais, etnicidade, política, cultura popular, meios de comunicação, globalização, e por aí vai.

Transcrevo um trecho de seu texto "Pensando a diáspora" [publicado no livro Da diáspora]:

"A cultura caribenha é essencialmente impelida por uma estética diaspórica. Em termos antropológicos, suas culturas são irremediavelmente "impuras". Essa impureza, tão frequentemente construída como carga e perda, é em si mesma uma condição necessária à sua modernidade (...) Não se quer sugerir aqui que, numa formação sincrética, os elementos diferentes estabelecem uma relação de igualdade uns com os outros. Estes são sempre diferentemente inscritos pelas relações de poder - sobretudo as relações de dependência e subordinação sustentadas pelo próprio colonialismo. Os momentos de independência e pós-colonial, nos quais essas histórias imperiais continuam a ser vivamente retrabalhadas, são necessariamente, portanto, momentos de luta cultural, de revisão e de reapropriação".(HALL, 2006, p.34)

Era também um excelente entrevistado, como é possível perceber nessa que concedeu a Heloísa Buarque de Hollanda e Liv Sovik [aqui] , e desta autora é também um belo texto homenageando Hall publicado 22/02 em O Globo [aqui].
Encontrei também uma lista [aqui] com oito músicas que levaria se naufragasse numa ilha deserta que traz Miles, Marsallis, Marvin Gaye, Billie Holliday, Bach, Puccini e a canção que escolhi para homenageá-lo, de seu conterrâneo Bob Marley. Um trecho da nota de óbito de David Morley e Bill Schwarz, seus amigos e ex-alunos, publicada no site do “The Guardian”, menciona essa mesma lista:
“Quando apareceu no programa de rádio Desert Island Discs, Hall falou de sua paixão duradoura por Miles Davis. Explicou que a música representou para ele o som do que não pode ser, ‘the sound of what cannot be’. O que era sua vida intelectual, senão o esforço, contra todos os obstáculos, para fazer ‘o que não pode ser’, viver na imaginação?”

18 de novembro de 2012

O que seria transculturação? Ouça essa canção...

Como resistir à chance de unir o útil ao agradável, retomando aqui um pequeno trecho da tese que trata dessa pequena pedra-de-toque?

"[...] A canção, como já dissemos, é um meio privilegiado para transações culturais, uma vez que a voz proporciona a apropriação da outra sonoridade, da outra voz. Toninho Horta e Fernando Brant demonstram este argumento de maneira muito própria em Falso Inglês (Wonder Woman) [LP Terra dos Pássaros. EMI, 1979]:“(...)Gene Kelly/canta e dança sem eu entender(...) Beatles, Dylan, / eu tinha que inventar um jeito de falar inglês(...) Todos se encantaram com meu falso inglês/ Oh, wara ai ri iu se, uana guet folou mi rear (...)” A pronúncia do inglês, afetada pela dicção do português, torna-se o próprio centro da composição. A parte final da letra é um encadeamento de palavras e sonoridades que remetem ao inglês. Elas não têm sentido na seqüência textual da frase, embora se adeqüem perfeitamente à seqüência musical. Isto resume e resolve a canção, uma vez que o objetivo do sujeito (cantante) não era aprender inglês, e sim “inventar um jeito de falar”, criar seu próprio “falso inglês” para cantar e encantar.As transações culturais não se dão em espaços neutros, em tempos vazios. Podemos, por isso, ir ainda mais fundo na identificação do papel de mediação cultural exercido pela voz. Ocorria então uma forte penetração da música pop de origem anglo-saxã, e o surgimento de conjuntos e intérpretes que compunham e cantavam em inglês a fim de participar da maior fatia do mercado fonográfico. Falso inglês discute de forma inequívoca tal penetração, identificável aos meios de comunicação de massa: o cantante fala de estrelas de cinema (Gene Kelly), dos músicos que ouviu no rádio (Paul Anka, Bill Haley), da televisão (seriado Wonder Woman, Mulher Maravilha). No entanto, sua prática é diametralmente oposta a dos músicos que fingiam ser ingleses ou americanos. Seu inglês é assumidamente falso! Sua vontade não é copiar, mas sim reinventar através de sua própria interpretação da sonoridade daquela língua". (GARCIA, 2007, pp. 195-196)

14 de outubro de 2012

Redescobrir o Brasil

É, vai ser preciso redescobrir o Brasil. Parecemos, como sociedade, cada vez mais dispostos a esquecer coisas que nos distinguem. Faço minhas as palavras do Chico: "Eu já tô de saco cheio". Pensei que entraríamos o século XXI sendo, ainda que na utopia, ainda que nas promessas douradas do sol, ainda que no desejo, ainda que no canto e na conversa, ainda que no jeito de corpo, ainda que fosse a macumba pra turista E a prova dos nove, pensei que buscaríamos nesse novo século algo diferente, que seríamos para o mundo uma fonte, ainda que imperfeita, de inspiração para outras formas de sociedade, de solidariedade, de interculturalidade, de amizade. Que nada... vamos repetindo estúpidas retóricas, vamos adotando modelos de desenvolvimento fracassados, vamos imitando o que já fizeram de pior, vamos fabricando os guetos que ainda não tínhamos e vamos jogando fora o que temos de alternativa, nos tornando o espelho de Próspero em sua face de maior fracasso. Que tristeza...

Como a reflexão se beneficio da audição de Partido Alto, uma reflexão malandra sobre o Brasil, pensei em aproveitar o ensejo e deixar aqui essas referências importantes sobre a história desse samba e seu entrevero com a censura.
De bem com o público e de mal com a censura, Chico Buarque desenvolveu intensa atividade artística em 1972, que incluiu a participação como ator e autor da trilha sonora no filme Quando o Carnaval Chegar, a peça musical Calabar (que não chegou a ser encenada), versões para o espetáculo O Homem de La Mancha e, por fim, um show com Caetano Veloso, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Uma das músicas compostas para o filme foi o samba Partido Alto, que se tornou um sucesso, em gravação do MPB 4. Imitando, sem rigorismo musicológico, essa forma primitiva de samba, ele criou uma espirituosa letra em que, entremeadas por um refrão, são cantadas quatro estrofes, procurando dar a impressão de que elas estão sendo improvisadas por partideiros. E sem prejuízo do humor, aproveitou para lançar mais algumas farpas contra a ditadura - "Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia / Deus me deu muitas saudades e muita preguiça / Deus me deu pernas compridas e muita malícia / pra correr atrás de bola e fugir da polícia / um dia ainda sou notícia..." Como era fácil de prever, a censura considerou o samba "uma ofensa ao povo brasileiro" e só consentiu em sua liberação depois de vetar algumas palavras como "titica" ("Como é que pôs no mundo essa pouca titica", que passou a "pobre coisica") e "brasileiro" ("Na barriga da miséria eu nasci brasileiro", substituído por "batuqueiro"). Partido Alto tem uma versão francesa com o curioso título de "Qui Ces't Lui-lá?"
  Zuza Homem de Mello, 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34
A música só pôde ser gravada com a substituição de titica por coisica e brasileiro por batuqueiro. Nesse episódio, um censor com ar britânico e o último best seller de Mario Puzo na mão, puxou a orelha de Chico: "Como é que você, que fez uma música bonita como Construção, agora vem com esta falando em titica e saco cheio?"
  Humberto Werneck, Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989
Também gostaria de deixar aqui uma canção de lavra mais recente, que pra mim ganha esse sentido de redescoberta do Brasil, e me parece que fica ainda mais atual e contundende ao falar em miscigenação num momento em que adentramos o seco e binário mundo das cotas. 
Trata-se de Casa Grande, canção que Pablo Castro compôs e Juliana Perdigão interpretou em seu Álbum Desconhecido (2011)
04 Casa Grande by Juliana Perdigão

27 de maio de 2012

Gilnial!

Uma conjunção cósmica orquestrada por estrelas que passaram bem perto da minha casa fez cair literalmente do céu um par de convites para o espetacular show "Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo" de Gilberto Gil. Já estava tomado de grande ansidade em presenciá-lo depois de ler o que havia escrito meu parceiro Pablo Castro, texto que reproduzo abaixo:
"Extraordinário, magnífico, sensacional o show do monstro Gilberto Gil ontem no Palácio das Artes. Provou, mais uma vez, que é um dos maiores criadores de música popular do século XX com sua imensa versatilidade, seu domínio de cada dimensão da canção, sua performance serena e intensa, seu radar cósmico, político, afetivo e filosófico. Uma banda de formação rara ( violoncelo - Morelembaum, violino, 2 violões, Gil e seu filho Bem, um percuterista e um programador) com a mais fina escolha de repertório que já vi numa apresentação do mestre, com pérolas como Futurível, Viramundo, Domingo no Parque, Máquina de Ritmo, Oriente, Não Tenho Medo da Morte, e sem nem um chavão, que alegria! Aos 70 anos exibe frescor na única inédita do show, Eu Descobri. Só pela imensa obra que deixa, Gilberto Gil já seria uma das personalidades mais influentes da cultura brasileira de todos os tempos, mas ainda teve a chance de dar outra dimensão ao Ministério da Cultura, infelizmente regredida ao que vemos hoje. Viva GIL!!!! 70 anos de um mestre!"
O que poderia acrescentar? Não precisa muito... Uma banda com entrosamento absoluto (menção honrosa para o 'percuterista' Gustavo di Dalva, impressionante!), arranjos preciosos, repertório surpreendente (o próprio comenta aqui), Gil cantando e tocando muito como sempre e o público absolutamente embevecido. Preferências atendidas? Expresso 2222 [eu e o João Bosco], Domingo no Parque, Oriente... Versões sensacionais? Juazeiro...Up from the skies...Panis et Circensis... Passagens pelos mestres? Jobim, João, Caymmi, Luiz Gonzaga... Emoções particulares? De sobra... Gil não poderia ter escolhido melhor o nome, pois ele próprio encarna-o - é um conjunto de cordas e uma máquina de ritmo sintetizados num brasileiro ímpar.




Como sempre ocorre nessas ocasiões, súbitos elos se formam, encadeando momentos diferentes. Lembranças dissipadas se condensam. Ouvindo o violão de Gil, lembrei-me que outro dia havia comentado de uma entrevista dada por ele pouco antes do retorno do exílio londrino. [As experiências e a volta de Gilberto Gil. Veja, 19/01/1972, p.67].
“No Brasil, eu era um fazedor de músicas e tocava violão incidentalmente. (...) Eu me assustei, ao chegar na Inglaterra, com o nível, a qualidade, o acabamento da música que se fazia aqui. O meu nível não era nada, comparado com o da praça. Hoje, eu sou um instrumentista.”
Seu relato ajuda a iluminar (junto à audição do disco que breve lançaria, Expresso 2222) os efeitos do período sobre sua música e especialmente seu jeito de tocar. Tratei do mesmo em minha tese para pensar o problema da interculturalidade, uma vez que Gil 

"(...) fala da necessidade de voltar ao Brasil, ainda que provisoriamente, para “retomar o contato com a coisa local”, pois a vida fora trouxera um “alargamento de visão” e uma “curiosidade enorme em torno das coisas brasileiras”, as quais reconhece não conhecer tão bem quanto pensava. Vivendo fora, havia passado por um “processo de absorção” da “música pop que não sofre a força da gravidade”, ou seja, não se prende ao tradicional / regional (representado pelo elemento terra). Em seu projeto de retorno, faz menção de “ir ao morro falar com os sambistas”, “ir a algumas cidades do nordeste encontrar violeiros repentistas” (GARCIA, 2007, p.85)
Mas enfim, como tuda essa conversa começou por causa das estrelas, só poderia terminar assim...



8 de janeiro de 2011

Um encontro do jazz com a MPB

Prometi escrever mais um pouco sobre o assunto da última postagem, e quero tentar manter um ritmo mais frequente no blog. Quando comecei a pesquisar a história da música popular, sempre gostei de encontrar discos com encartes, encontrando neles informações úteis e elementos relevantes para entender o objeto de estudo. Hoje acredito que um dos atrativos que sobressai no LP de vinil é o encarte, e mesmo em alguns bons cds, algo que se perde um pouco quando se "baixa" música na Internet, mesmo que eventualmente haja material gráfico digitalizado acompanhando os arquivos de som. Os discos de jazz normalmente primam pelo cuidado com os encartes, apresentando muitas vezes textos escritos por críticos, muito reveladores de posições e interpretações que circulavam a respeito de temas que me interessaram nos anos de mestrado e doutorado. É justo o caso do 500 miles high, da Flora. Lembro até hoje o dia que comprei o cd, importado, numa loja recém-inaugurada na Savassi, em BH. Foi o maior preço que já paguei por um cd na vida, mas me livrei da "culpa" com o álibi de que era para a tese (diga-se de passagem, um álibi muito bom pra fazer coisas que geram muito mais culpa). Vou mandar então um trecho do encarte, bem significativo, pra abrir um debate sobre o encontro do jazz com a MPB (pretendo fazer uma série sobre o assunto no blog). Segue aí:
“No início dos anos 70, quando o jazz ganhava cores elétricas e exóticas em sua encarnação fusion e a bossa nova estava sendo similarmente distendida num estilo chamado MPB, Flora Purim e seu marido Airto Moreira representaram uma conjunção particularmente clara de novas idéias musicais (...)”

25 de abril de 2010

Aula de Música: Chuck Berry fields forever

Como ando dando aulas de História da África, ando retomando alguns assuntos que pesquisei há alguns anos quando iniciava o doutorado, envolvendo música popular e trânsitos culturais entre África e América. Tava com vontade de criar uma seção comentada a partir de uma única música, daí pensei: tem canções que valem por uma aula! Taí, Chuck Berry fields forever, do Gil. Verdadeira travessia pela história transatlântica da música popular, dos seus gêneros e protagonistas. Para dar "ressonância visual", a obra Negro Trovador, de Debret.
http://www.youtube.com/watch?v=_6k8VFnWxGs&feature=player_embedded