Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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9 de julho de 2011

Asas à imaginação, convite à população

Em razão do show do Hermeto Pascoal aqui em BH na próxima terça, pensei em colocar alguma coisa aqui. Entre tantas possibilidades, coloco esse improviso baseado em Asa branca, gravado pela Flora Purim no disco Open your eyes, you can fly (1976). Nessa gravação, além dos já mencionados, entre outros, Egberto Gismonti, Airto Moreira, Ron Carter e Robertinho Silva. E o Hermeto toca piano elétrico, cravo, flauta, percussão usando garrafas de SevenUp e ainda assovia. É mole ou quer mais? Mais...a letra feita pela Flora parece muito atual em tempos de discursos socialmente excludentes que procuram isolar "gente diferenciada".
Começa assim:
"Invite the population

8 de fevereiro de 2011

Persistência premiada

Assim como muitas canções populares, que podem demorar anos entre o momento da composição e o primeiro registro em disco, alguns artigos escritos por um pesquisador também podem "rodar" um bocado até que, por uma razão ou outra, sejam publicados. Tive, outro dia, a grata surpresa de descobrir que um artigo do qual já tinha até esquecido iria ganhar páginas impressas (especialmente agora que muitos periódicos estão passando a existir apenas em formato digital). Verdade que o apresentei, em versão resumida, no encontro regional da ANPUH/MG em 2008. Mais curioso foi constatar quantas voltas a vida deu desde que o escrevi, em 2007, e ainda dava aulas no UnilesteMG. De lá sai naquele mesmo ano, fiquei os 2 anos seguintes sem lecionar, mas pesquisando muito, em 2010 mudei de cidade, saí do Museu em que trabalhei por 8 anos e fui parar em Governador Valadares para uma breve mas marcante passagem pela Univale, em outubro do mesmo ano assumi na UFMG e agora, já de volta a BH, vou receber a cópia da revista em meu novo endereço! Ufa! Bem, e afinal de contas, era sobre o que mesmo o artigo?
Segue o resumo, do jeito que escrevi em 2007...

“Vou cantar para ver se vai valer”: a configuração da categoria MPB no repertório das intérpretes (1964-1967)

A proposta deste artigo é investigar a configuração da categoria MPB através da análise de práticas musicais e escolhas estéticas realizadas por cantoras que participaram do momento de sua elaboração inicial, ocorrido num contexto de importantes transformações na história da música popular brasileira: a revisão crítica do projeto modernizador lançado pela bossa nova e a efervescência dos embates em torno do “nacional” e do “popular”. Para tanto, considero a sigla MPB, criada em meados dos anos 1960, como signo em aposta (SAHLINS), que deve ser abordado no contexto de sua elaboração e uso, e não como expressão sinônima de “música popular brasileira”. Um exame do repertório em disco de cantoras como Nara Leão, Elis Regina, Maria Bethânia, Flora Purim e Gal Costa, entre 1964 e 1967, mostra um leque de escolhas que revela intercâmbios e ajuda a entender o ecletismo que cerca o emprego da emergente categoria.

8 de janeiro de 2011

Um encontro do jazz com a MPB

Prometi escrever mais um pouco sobre o assunto da última postagem, e quero tentar manter um ritmo mais frequente no blog. Quando comecei a pesquisar a história da música popular, sempre gostei de encontrar discos com encartes, encontrando neles informações úteis e elementos relevantes para entender o objeto de estudo. Hoje acredito que um dos atrativos que sobressai no LP de vinil é o encarte, e mesmo em alguns bons cds, algo que se perde um pouco quando se "baixa" música na Internet, mesmo que eventualmente haja material gráfico digitalizado acompanhando os arquivos de som. Os discos de jazz normalmente primam pelo cuidado com os encartes, apresentando muitas vezes textos escritos por críticos, muito reveladores de posições e interpretações que circulavam a respeito de temas que me interessaram nos anos de mestrado e doutorado. É justo o caso do 500 miles high, da Flora. Lembro até hoje o dia que comprei o cd, importado, numa loja recém-inaugurada na Savassi, em BH. Foi o maior preço que já paguei por um cd na vida, mas me livrei da "culpa" com o álibi de que era para a tese (diga-se de passagem, um álibi muito bom pra fazer coisas que geram muito mais culpa). Vou mandar então um trecho do encarte, bem significativo, pra abrir um debate sobre o encontro do jazz com a MPB (pretendo fazer uma série sobre o assunto no blog). Segue aí:
“No início dos anos 70, quando o jazz ganhava cores elétricas e exóticas em sua encarnação fusion e a bossa nova estava sendo similarmente distendida num estilo chamado MPB, Flora Purim e seu marido Airto Moreira representaram uma conjunção particularmente clara de novas idéias musicais (...)”

5 de janeiro de 2011

Pra começar 2011

Dando as boas-vindas ao ano de 2011, uma bela imagem que remete ao tema do renascimento, simbolizado pela borboleta. É a capa do disco Butterfly Dreams da Flora Purim. Efeito simples, mas bonito. Sou muito fã da Flora, pra mim uma das melhores cantoras da história da nossa música. Quando comecei o doutorado tinha a intenção de escrever um capítulo sobre ela e o marido, o percussionista Airto Moreira. Cheguei a fazer um contato com a produtora deles em Los Angeles e recebi de lá um envelope com muito material. Acabou não saindo o capítulo, mas alguma coisa entrou, incluindo a análise desse disco e do 500Miles High, que foi gravado no Festival de Montreux e tem a participação do Milton e mais alguns membros do Clube da Esquina. Depois vou postar alguma coisa desse material junto com um trecho da tese sobre o assunto. Aguardem. Mais uma vez, que 2011 decole ao som de muita música boa (começando por Dr.Jive, primeira faixa do disco)!