Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Mostrando postagens com marcador Robertinho Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robertinho Silva. Mostrar todas as postagens

30 de maio de 2015

O contemporâneo em outro tempo

Minha patente preferência pela canção, que justifico em parte pelo imenso peso histórico e cultural dessa forma em terras brasileiras, em parte pela questão de ofício mesmo, faz uma pausa para divulgar essas pérolas que encontrei nas errâncias pelo mar digital, a partir de um link postado num grupo de facebook dedicado ao Clube da Esquina pelo Matheus José Mineiro (agradecimento!). Trata-se dos discos de Nivaldo Ornellas e Robertinho Silva para a série M.B.P.C.

"Entre 1978 e 1981, através da série M.P.B.C. - Música Popular Brasileira Contemporânea, a Phonogram-Polygram se propôs a mostrar a gama diversificada de tendências a época reveladas na música instrumental feita no Brasil, por profissionais instrumentistas, compositores e arranjadores, dispostos a encontrar o seu espaço dentro da música popular brasileira, ampliando o seu campo de ação e reconhecimento. O mais interessante dessa série foi mostrar a música instrumental brasileira como uma expressão artística disposta de contemporaneidade, uma forma de arte contribuinte para a contemporaneidade da época -- inclusive como uma arte gráfica muito bem elaborada por um artista da época chamado Aldo Luiz. Bico de Pena. O produtor Roberto Santana Aramis Millarch conta, em entrevista, como funcionou a empreitada. Apesar da subsidiária da Phillips ser uma empresa que visava o lucro, o lançamento da série acabou  funcionando mais como forma de engajamento documental do que como forma de se obter lucros consideráveis, haja vista a música instrumental brasileira não ter um mínimo da competitividade comercial de um álbum de Roberto Carlos, por exemplo. Atualmente, os poucos exemplares que sobraram da tiragem limitada lançada pela Phonogram-Polygram são raríssimos ítens de colecionadores ou pepitas perdidas em sebos e casas de vinis usados. Ao todo, foram gravados 11 álbuns." da apresentação do Wozzeck Magazine, blog criado pelo músico e pesquisador musical Vagner Pitta. [completo, aqui]

Talvez "contemporâneo" seja um dos conceitos mais truncados e flexíveis que se aplica desde a modernidade. Na nossa forma particular de experimentar o tempo, ele se recobre com diferentes acepções. A princípio, nos lança a ideia de simultâneo, concomitante, daí pensarmos o contemporâneo associado ao presente de quem o identifica como tal. Entretanto, se o contemporâneo é tomado de um ponto de vista comparativo, no regime de historicidade tipicamente moderno que identifica no progresso o modo preferencial de perceber o tempo, é possível criar a sensação que ele remete à novidade, à emergência do amanhã dentro do hoje. O contemporâneo, na série em questão, remete a esse "ar de novidade", traduzido por exemplo na parte gráfica, nas letras com tipos "computadorizados" e desenhos remetendo a paisagens fantásticas. Assim, numa percepção fatiada e escalonada do tempo foi possível considerar o "contemporâneo" como sucessor do "moderno". Daí provavelmente se depreende essa leitura, quando se fala em arte, por exemplo, embora surge imediatamente a dificuldade a partir da vertiginosa transformação na experiência social que inclui o fenômeno da "compressão do espaço-tempo" que tornou problemática a concepção progressiva tipicamente moderna. Assim, curiosamente, sob esse ponto de vista podemos identificar um "contemporâneo" datado, que desde o nosso presente se localiza no passado. Contemporâneo torna-se um termo ambíguo, porém talvez esteja aí a qualidade que lhe permite continuar circulando pelas bocas e cabeças. Poderemos eventualmente considerar, desde as possibilidades de apropriação que detemos num dado momento, que essa música soa com "atualidade" para nossos ouvidos.


Ficha técnica:
NIVALDO ORNELAS - Série MPBC
1978 Phonogram (6349 375)

1 - As Minas de Morro Velho (Cid Ornelas - Nivaldo Ornelas)
2 - Portal dos anjos (Roberto Fabel - Nivaldo Ornelas)
3 - Arqueiro do rei (Nivaldo Ornelas)
4 - Ninfas (Nivaldo Ornelas)
5 - Querubins e Serafins (Nivaldo Ornelas)
6 - Sorrisos de uma criança (Nivaldo Ornelas)
7 - Cidadela (Jairo Lara - Nivaldo Ornelas)
8 - O que há de mais sagrado (Nivaldo Ornelas)

arranjos e regência - Nivaldo Ornelas
arranjo da faixa 4 - Wagenr Tiso

Nivaldo Ornelas - saxofone tenor e flautas
Mauro Senise - flautas
Raul Mascarenhas - flautas
Cacau - flautas
Zé Carlos - flautas
Ricardo Pontes - flautas
Jairo Lara - flautas, violão de aço
Aécio Flávio - flauta doce
Marcio Montarroyos - piano, flugel horn, mellowphone
Wagner Tiso - piano acústico e orgão na faixas 5 e 8
Helvius Vilela - piano acústico e orgãos
Toninho Horta - guitarra e violão
Jamil Joanes - baixo elétrico e violão de 12 cordas
Luis Alves - baixo acústico e percussão
Pascoal Meirelles - bateria e tímpanod
Chacal - percussão
Chico Batera - percussão
Robertinho Silva - percussão
Robertinho Silva - bateria nas faixas 7 e 8.
Paulinho Braga - percussão
Paulinho Braga - bateria (faixas 1 e 2)
Pascoal Ubiratan - percussão

cordas:(Quarteto da Guanabara)
José Alves e Aizik - violinos
Frederick - viola
Watson Cus - cello

coro infantil - Tata, Flavinho, Nana e Carla
coro masculino - Edson Bastos, Max e Waldir Jamil
coro feminino - Suxzana, Nilza, carla e Nana

participação especial - coral da Pro-Arte (regente - Jaques Morelembaum)





Ficha Técnica:
MÚSICA POPULAR CONTEMPORÂNEA (MPBC) - ROBERTINHO SILVA
1981 - LP 1981 Polygram (6328 229 - Série Azul) (azul*09-2003)

Lado A:
1 - A CHAMADA - [3.26] Milton Nascimento
2 - O VÉIO NO SOL -[4.58] Egberto Gismonti
3 - BALAFON - [3.34] Gilberto Gil
4 - SONATA DE BATERA - [6.47] Nivaldo Ornellas

Lado B:
1 - BIÔNICO – [5.24] Jota Moraes
2 - CORAÇÃO - [4.46] Wagner Tiso
3 - FALANGE DOS TAMBORES – [2.46] Robertinho Silva e Nelson Ângelo
4 - SÃO JOSÉ 887- [6.12] Robertinho Silva e Filó

Arranjos
WAGNER TISO - A1 / A3 / B2 / B4
EGBERTO GISMONTI - A2
JOTA MORAES - B1
ROBERTINHO SILVA - B3

Arranjo vocal
NELSON ANGELO - B3
Voz Solo
ALEUDA - A1 / B4
Vocais
DANILO CAYMMI
NELOSN ANGELO
NOVELLI
FERNANDO LEPORACE - B3
Baixo Acústico
LUIZ ALVES
Bateria
ROBERTINHO SILVA
Percussão
ROBERTINHO SILVA - A1 / A3 / B3 / B4
ALEUDA - B4
CIDINHO - A3 / B4 / B3
NANA VASCONCELOS - A4
LUIZ ALVES - B3 / B4
NOVELLI - B4
CHICO BATERA - B3
UBIRATAN A3 / B3
Violão
EGBERTO GISMONTI - A2
Piano Elétrico
ANDRE DEQUECH A4
WAGNER TISO - A1 / B2 / B4
MARCOS RESENDE - A3
Piano Acústico
EGBERTO GISMONTI - A2
JOTA MORAES - B1
WAGNER TISO B2 / B3
Sax Alto
MAURO SENISE - B1 / B2
OBERDAN - A2 / A3 / B4
Sax Tenor
RAUL MASCARENHAS - B2
ZÉ CARLOS - A2 / A3 / B4
Sax Barítono
LEO GANDELMAN - A2 / A3 / B4
Flautas
MAURO SENISE - A2 / A3
ZÉ CARLOS - A3 / B4
Sax Soprano
NIVALDO ORNELLAS - A4
RAUL MASCARENHAS - B2
Trompete
PAULINHO - A2 / A3 / B4
BIDINHO - A2 / A3 / B4
Trombone
SERGINHO - A2 / A3 / B4
RAUL DE SOUZA - B4
Cello
JAQUES MORELEMBAUM - A1
Marimba
JOTA MORAES - A3
Guitarra
RICARDO SILVEIRA - A3 / B1
HELIO DELMIRO - B2

Obs: A música "Falange dos Tambores" foi baseada em "Maria Três Filhos" música de Milton Nascimento e Fernando Brant. A música "São José 887" é dedicada a Moacir Santos
Agradecimentos Especiais a Wagner Tiso, Luis Alves, Paschoal Meireles, Chico Batera, Loca, Túlio Mourão, Aleuda e a todos os músicos que participaram deste LP.


29 de outubro de 2013

Sob o céu de Tóquio

Os muitos trânsitos culturais acionados pela música popular são capazes, às vezes na mesma frase, de promover a redução das distâncias sem contudo obliterar as diferenças. A entrevista concedida por Herbie Hancock e Wayne Shorter, antes de se apresentarem junto a Stanley Clarke e Robertinho Silva como banda acompanhante de Milton Nascimento (que também concedeu entrevista à tv japonesa) em um show em Tóquio evidencia na questão da língua esse jogo de aproximações e distanciamentos. Hancock manifesta o desejo de saber português, causado pela tradução de algumas canções de Milton. Shorter por sua vez, apesar de ser casado com uma portuguesa (Ana Maria), diz que só fala português "subconscientemente".  Musicalmente todos se entendem muito bem.




9 de julho de 2011

Asas à imaginação, convite à população

Em razão do show do Hermeto Pascoal aqui em BH na próxima terça, pensei em colocar alguma coisa aqui. Entre tantas possibilidades, coloco esse improviso baseado em Asa branca, gravado pela Flora Purim no disco Open your eyes, you can fly (1976). Nessa gravação, além dos já mencionados, entre outros, Egberto Gismonti, Airto Moreira, Ron Carter e Robertinho Silva. E o Hermeto toca piano elétrico, cravo, flauta, percussão usando garrafas de SevenUp e ainda assovia. É mole ou quer mais? Mais...a letra feita pela Flora parece muito atual em tempos de discursos socialmente excludentes que procuram isolar "gente diferenciada".
Começa assim:
"Invite the population