Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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5 de julho de 2023

Música, mercadoria e overdose de nostalgia



E o assunto (extra)musical do momento é o comercial da Volkswagen que apela para a overdose de nostalgia ao criar digitalmente com auxílio da dita Inteligência Artificial um dueto entre a cantora Maria Rita e sua mãe, Elis Regina, eterno ícone da MPB, cantando - devidamente editada - a marcante "Como nossos pais", pérola do não menos icônico compositor Belchior, também já falecido. Não vou compartilhar o comercial, que achei de mau gosto, pra começar, nem me dar ao trabalho de fazer uma síntese das críticas que pululam nos meios. Para isso deixo duas matérias, de Veja e Uol. Prefiro, oportunamente, citar os textos de gente que sabe mais do riscado e já deu seus pitacos pelo facebook, e que adianto que valem ser lidos por completo.

Mais cedo eu assisti a coluna do Bob Fernandes [aqui], que inicia com uma referência ao jornalista italiano Roberto Calasso, que chama nossos tempos de "era da inconsistência". Tenho escrito sobre a tremenda força da dissociação cognitiva, que vem servindo para que muita gente possa manter no mesmo cérebro e corpo pensamentos e práticas completamente incompatíveis sem qualquer arranhão em sua autoimagem ou modo de ver o mundo e viver a vida. Encaixa perfeitamente com a exposição que o Bob faz do livro do Calasso. 

Isso nos serve para apoiar a compreensão de dois fenômenos conjugados profusamente ao longo do comercial. Um é a exploração da nostalgia como mercadoria, o outro é o uso da polissemia da canção para promover sua interpretação e recepção contrasensual. Na sociedade capitalista do espetáculo contemporâneo, tudo vira mercadoria como Marx previra, mas também se torna solúvel no grande show de luzes da existência inundada por telas de cristal líquido ou LED. Nessa operação não se perde de vista nem mesmo o passado, pois nada está perdido dentro do dominate "presentismo" de que nos fala o historiador François Hartog. Vemos a exploração desse mote desde o plano genérico e coletivo de evocação da estética "retrô" dentro de uma versão desidrata de acontecimentos e processos históricos convertidos em trechos de videoclipe, até o plano que vaza a esfera privada ao mercado público ao transpor sentimentos de luto e perda em algum tipo de saudade recalchutada e embalada em atmosfera otimista. Diante do recorrente medo humano da morte, a tentação pela eternidade de fachada é enorme. Volks e Maria Rita, aí, bebem da mesma água. Oportuna consideração do atento crítico musical - entre outras peripécias - Túlio Villaça:

"E o que dizer da recriação da Elis Regina por IA? Não poderia ser mais apropriada. O engraçado é que a Maria Rita, depois de emular o repertório da mãe nos dois primeiros álbuns, deserdou e foi ser sambista, uma decisão sábia em termos de carreira e possivelmente psicanalisticamente também. Ou seja, ela não repete a mãe, o que é ótimo (embora eu goste muito dos primeiros álbuns). Mas aqui ela é a própria representação do filho que repete os pais. E deve ter mesmo ganho um bom dinheiro, à parte a questão ética de ela ter permitido o uso da imagem da mãe em algo que ela não sabe se a mãe concordaria em fazer". [Túlio Ceci Villaça, via facebook] 

Desde que constatei que a capa do primeiro disco de Maria Rita era a perfeita reprodução da foto de sua mãe em entrevista ao caderno Folhetim da FSP no final dos anos 1970s, tomei antídoto contra a contagiante expectativa que seu timbre de voz instilava. Ela parecia ter decidido fugir ao "projeto", como aponta o Túlio, mas cede esporádicamente à tentação, dessa vez com o agravante de nitidamente trair a memória da mãe, notória desafiadora das ordens estabelecidas, seja a do mercado, seja a da Ditadura Militar que a montadora alemã apoiou flagorosamente, e contra a qual a composição "Como nossos pais" que ela vestiu tão bem, igualmente se batia. Aproveito para retomar o que escreveu Makely Ka, um cantautor de mão e boca cheia que também mete bronca na crítica:

O roteiro da peça publicitária usa símbolos icônicos da contracultura, pessoas viajando em kombis nos anos 70, músicos, acampamentos na fogueira, um casal transando dentro de um carro, o ideal de liberdade e toda uma estética hippie, para vender uma ideia diametralmente oposta ao que diz a letra da canção. Belchior, o compositor atormentado, que inclusive morreu no seu auto-exílio completamente avesso à mídia, à publicidade, a qualquer tipo de concessão ao mercado. [Makely Ka, via facebook]

Se as críticas pipocaram é porque a inversão de sentido é muito gritante, além de óbvia. Qualquer pessoa com o mínimo de informação e conhecimento sobre a história do Brasil e da sua música popular há de sacar imediatamente o abuso que se passa.Porém, os publicitários, a Volks, a Maria Rita, está todo mundo contando com a dissociação cognitiva e a desmemoriação coletiva. Onde Belchior havia deixado uma autocrítica de geração rasgante e sem condescendência, desafiando aquela "juventude" a crescer sem imitar os pais (e nesse sentido ele toca a mesma corda que Lennon, um de seus maiores inspiradores), eles propõem uma viagem de kombi por um tempo sem qualidade ou aresta, "homogêneo e vazio" como alertava há mais de um século o filosofo - alemão - Walter Benjamin. Por isso precisamos manter a vigilância, e aprofundar o conhecimento do passado, para não esquecer. Eis um depoimento citado na matéria do Uol que considero válido retomar:

Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen, já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco".Lucio Bellantani, ex-funcionário da Volks, em depoimento à Comissão da Verdade de São Paulo.

Não sejamos os mesmos. Menos nostalgia, mais História. Menos mercado, mais Música.
Em nome disso termino pondo pra tocar Belchior na voz de Elis:



20 de março de 2018

Bolacha completa - Elis (1966)

Ouvi no almoço ao disco "Elis" que a pimentinha gravou em 1966. Baita disco, perfeito da seleção de repertório à performance dela e de quem tocou no disco, além dos arranjos do Chiquinho de Moraes, etc. É notável que Elis fez ali um retrato muito completo do cenário da MPB naquele momento, gravando Gil, Caetano, Chico, Milton, Edu (incluindo duas parcerias com Torquato), irmãos Vale , Francis Hime (com Vinícius), mais um tributo à velha guarda com Carinhoso dos grandes Pixinguinha e João de Barro. Se de um lado essa fotografia ajuda a compreender o impacto posterior da explosão tropicalista , abrindo novas frentes para a criação na música brasileira, de outro  também abre os ouvidos para a evidências de que ela na prática não foi toda a ruptura que alardeou no discurso, e que outros caminhos inovadores que já estavam sendo igualmente abertos acabariam por criar um centro de gravidade que foi mais denso que qualquer movimento de vanguarda em particular, o que ajuda a explicar como a Tropicália acabou reabsorvida pela galáxia MPB nos anos 1970. 

É uma questão que venho trabalhando faz tempo mas ainda estou refinando meus argumentos. Quando publiquei “Vou cantar para ver se vai valer”: a configuração da categoria MPB no repertório das intérpretes (1964-1967) [um resumo do artigo aqui no blog] [acesso ao texto completo] expus algumas observações desde uma parte da minha tese, baseando-me no estudo dos repertórios e gravações de discos de intérpretes como Nara Leão, Flora Purim e claro, Elis. Tem um trechinho que toca justamente neste disco aqui, e insiro abaixo:

Vale lembrar que Edu ainda dividiria um disco com Maria Bethânia pelo selo Elenco em 1966, trazendo, entre outras canções, Candeias , que Gal gravaria em seu disco de estreia, Veleiro e Pra dizer adeus (ambas com Torquato Neto) que Elis gravaria no mesmo ano em seu LP seguinte, Elis. Neste mesmo disco, a cantora gravou composições de Caetano e Gil. Exatamente as duas primeiras - Roda (G.Gil/ João Augusto) e Samba em paz (C. Veloso) exaltam o povo e posicionam-se favoravelmente a uma transformação social da qual o próprio samba - como expressão síntese do “popular” – é protagonista. Diz a canção de Caetano: “O samba vai vencer/ quando o povo perceber/ que é o dono da jogada”. Em tom de desafio, Roda cobra engajamento e preconiza a justiça social: “(...) Quero ver quem vai ficar/ quero ver quem vai sair (...) Se lá embaixo há igualdade/ Aqui em cima há de haver (...)”.

São canções marcantes das quais vale lembrar porque muitas vezes esse engajamento político no mesmo esquema de tantas canções ais quais depois a Tropicália se opôs costumam ser negligenciadas nas apreciações sobre as obras e trajetórias dos compositores. Mas para mim a canção que se sobressai em termos de inovação musical e poética é Lunik 9 de Gil, com suas várias partes e um discurso embaralhando o técnico/acadêmico, o filosófico, o noticiário de jornal,  e o tradicional comentário das ruas que foi depois se tornando uma das marcas registradas da autoria híbrida de Gil.


Lunik 9 
Poetas, seresteiros, namorados, correi 
É chegada a hora de escrever e cantar 
Talvez as derradeiras noites de luar 

Momento histórico, simples resultado do desenvolvimento da ciência viva 
Afirmação do homem normal, gradativa sobre o universo natural 
Sei lá que mais 
Ah, sim! Os místicos também profetizando em tudo o fim do mundo 
E em tudo o início dos tempos do além 
Em cada consciência, em todos os confins 
Da nova guerra ouvem-se os clarins 

Guerra diferente das tradicionais, guerra de astronautas nos espaços siderais 
E tudo isso em meio às discussões, 
muitos palpites, mil opiniões 
Um fato só já existe que ninguém pode negar, 
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já! 

E lá se foi o homem conquistar os mundos lá se foi 
Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi 
Nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão: 

A lua foi alcançada afinal, muito bem, confesso que estou contente também 
A mim me resta disso tudo uma tristeza só 
Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção 
O que será do verso sem luar? 

O que será do mar, da flor, do violão? 

Tenho pensado tanto, mas nem sei 

Poetas, seresteiros, namorados, correi 
É chegada a hora de escrever e cantar 
Talvez as derradeiras noites de luar

Para ouvir o álbum completo: aqui.


8 de dezembro de 2017

Equilíbrio e esperança

Mesmo onde aparentemente não, a cultura diz muita coisa. O uso do sarcasmo (e outros efeitos de linguagem) para nomear operações da Polícia Federal denota a transformação de processos internos que deveriam ser conduzidos na maior sobriedade em parte de um espetáculo armado cuja finalidade certamente vai além de apurar o que quer que seja, assumindo conotação política evidente a qualquer observador mais atento. Já disse isso antes. Agora volto ao tema diante desse circo armado pra cima da UFMG, com condução coercitiva do reitor, de sua vice, e outros professores da instituição, dia 06/12 último. Usar como nome "Esperança equilibrista", trecho da canção de João e Aldir, verdadeiro hino da Anistia, com patente escárnio sobre a nossa História, sobre a digna trajetória dos perseguidos políticos, e dos próprios autores da canção, denota exatamente a forma pouco comprometida com o Estado Democrático de Direito que a PF tem adotado, e não é de hoje. Não estou contra qualquer investigação, desde que seja feita dentro dos parâmetros legais. A defesa da Universidade Pública não é incompatível com a defesa da Justiça. Pelo contrário. Não há como construir Universidade, e de todo NADA público, sem Justiça. Não devemos confundir pessoas e instituições, e muito menos um órgão policial do Estado pode fazê-lo. O abuso desse expediente de condução coercitiva tem sido constante. A falta de cuidado com a forma como se investiga, considerando inclusive a presunção de inocência, tem consequências trágicas. É uma barbárie que o suicídio do Cancellier não baste. Nossa 'infraestrutura' jurídica toda ruiu e poucas são as vozes que se elevam para alertar sobre esses abusos, pois interesses políticos os mais reles estão à frente de tudo. Um país em que os próprios poderes constituídos, os representantes eleitos e/ou investidos dos 3 poderes da república, atuam de caso pensado enquanto comparsas para destroçar e privatizar o ensino, com a conivência ou participação ativa de uma parte considerável da população mais escolarizada pode ser outra coisa que não o que já somos?  Não há essa oposição binária entre impunidade e autoridade sem limite. Investigar sem responsabilidade e sem compromisso com os direitos e procedimentos adequados não tratará o fim da corrupção. Já trouxe as trevas, e com ela a caça seletiva às bruxas.

No mesmo dia realizamos um ato junto à reitoria da UFMG em repúdio à forma com que a PF conduziu coercitivamente os colegas, entre eles os atuais reitor e vice-reitora, desrespeitando os procedimentos devidos e transformando sua ação em espetáculo quando deveria ser realizada com a sobriedade que a gravidade das acusações exige. Comentei com vários colegas que estava certo que causaria indignação a João Bosco e Aldir essa apropriação desrespeitosa de sua canção tão emblemática e representativa para nossa história. As reações de ambos foram justíssimas e imediatas:

"Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.
Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.
Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar."
João Bosco

07/12/2017


"Depois da operação 'Esperança Equilibrista', João Bosco e eu esperamos que a Polícia Federal prenda também Temereca, Mineirinho Trilhão157, que foi ajudado pela Dra. Carmen Lúcia, e o resto, aquela escória do Quadrilhão que impera, impune, no Plabaixo. 

A nova Operação se chamaria 'De frente pros crimes' dos que sempre ficam impunes, com ajudinhas de Gilmares, Moros, PFs, etc.

Também esperamos que ninguém se suicide ou seja suicidado nessas operações, o que já é marca registrada das forças repressoras que servem aos direitistas do Brasil." 
Aldir Blanc, 07.12.2017


Tudo que gira em torno dessa apropriação indébita e escarnecedora sinalizam, a despeito, a centralidade da canção para a cultura e a vida social brasileiras. A repercussão da escolha dessa nomeação produz simultaneamente um embate simbólico inevitável e uma oportunidade para pensar a crise porque passamos. Nesse sentido, de imediato corroboro o que disse a colega Miriam Hermeto, do Depto. de História da UFMG na entrevista que segue:





O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco/Aldir Blanc)

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar

Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar...

Pra encerra, ouçamos a canção na interpretação consagrada da grande Elis Regina:


5 de abril de 2017

Aula de canção: Canto de Ossanha, ou pequeno tratado contra o anacronismo

Em meio a mil afazeres tirei alguns minutos para tirar a poeira do blog. Sem tempo pra inventar muita moda, e parcialmente motivado pela apresentação que o jornalista Lyra Neto acabou de fazer agora à tarde na Fafich UFMG de seu livro Uma história do samba: as origens (1° de uma trilogia sobre o gênero)  que me levou a um comentário sobre tantas leituras anacrônicas que vem sendo feitas a partir de analogias um tanto quanto descuidadas entre os sambas de 1920-30 e os funks da atualidade, ou entre a misoginia dos sambas-canção de 1950 e do pagode contemporâneo, por exemplo. Nesses eventos o tempo para debate nem sempre é suficiente, e dependendo do contexto a coisa morre por ali mesmo.  O anacronismo, denunciado por todos aqueles historiadores que são as referências de minha formação, é um equivoco imperdoável para o profissional do ofício. Cada tempo tem seus valores e relações, e é preciso evitar nas avaliações retrospectivas julgar os atos e dizeres das pessoas de outra época com se fossem nossas contemporâneas. "The past is a foreign country: they do things differently there", "O passado é um país estrangeiro: eles fazem as coisas distintamente por lá", diz o poema de Hatley do qual o geógrafo David Lowenthal emprestou o título de um livro seminal sobre patrimônio e memória escrito nos anos 1980s que lamentavelmente até hoje não foi editado no Brasil. 

Mas me lembrei dessa postagem que ficou rascunhada, escrita ano passado. Em seu blog Farofafá o jornalista Pedro A. Sanches, comentando a apresentação da cantora Elza Soares na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, começou dizendo o seguinte:

"Os versos são de Vinicius de Moraes, o poetinha ex-diplomata que nunca chegou a ser o mais progressista dos brasileiros. A música é de Baden Powell, que no final da vida extirpou a palavra “saravá” de suas canções e substituiu os antigos cantos de candomblé pela religião evangélica. Transtornado por Elza Soares, o “Canto de Ossanha” (1966) de Baden e Vinicius constituiu-se, para boas entendedoras, no grande momento político da cerimônia planetária de abertura das tristes Olimpíadas do Rio de Janeiro." [aqui o texto completo]


Eis a interpretação de Elza, com arranjos significativamente turbinados por batidas eletrônicas que ao final assumem a forma mais típica que se utiliza nos funks atuais - só a título de observação nenhuma das batidas faz jus à elaboração rítmica do afro-samba. Enquanto o narrador 'conceitua' pop (obviamente desconsiderando toda teoria social que já se debruçou sobre o assunto), Elza, visivelmente debilitada, manda uma interpretação até solene, que contrasta tanto com o arranjo quanto o cenário - nesse sentido ela não foi nada pop.


 


O que escrevi como comentário, no próprio blog dele, transcrevo abaixo, a modo de concluir :

Concordo com boa parte da sua interpretação, mas com um ressalva. O princípio do texto não faz jus aos AUTORES da canção. Por que, para empoderar quem quer que seja, é preciso trair ou desmerecer os esforços e o sentido que estava posto antes? Vinícius e Baden merecem todos os elogios por tudo que representam os afro-sambas [uma postagem a respeito, aqui]. E a Elza Soares não transtornou nada, ela derivou o sentido diretamente do que estava lançado lá. Perdeu-se nesse tempo de binarismo e identitarismo barato a capacidade de reconhecer a empatia. A descoberta do Outro e a capacidade de compreender e solidarizar com seu sofrimento, ainda que sem vivê-lo na carne. A capacidade do poeta de fingir, no sentido que emprega Pessoa. Se Vinícius não era o mais progressista (?!), em seu tempo foi deveras progressista - quantos brancos educados e privilegiados de sua época devotaram qualquer entendimento ao universo religioso afro-brasileiro? Poucos. E se Baden converteu-se no final da vida, não importa quando o que cumpre é qualificar sua obra  - no caso em questão a forja poderosa de seu violão fabricando uma modalidade absolutamente original de canção - a partir da qual intérpretes do quilate de Elis, Mônica Salmaso e Elza Soares encontram o solo onde plantar o grão de suas vozes. Os dois merecem toda a consideração de quem fizer crítica musical tendo sua obra em pauta. Saravá.   



 E ouçamos Elis, numa de suas poderosas interpretações ao vivo da canção:



Canto de Ossanha
Baden Powell e Vinicius de Moraes

-"O canto da mais difícil
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"

Deaaá! Deeerê! Deaaá!

O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...(2x)

30 de novembro de 2016

1a c/ 7a - Elis, o filme

Ontem fui assistir Elis, o filme [trailer], numa espécie de transversal do tempo que durou menos de duas horas. A primeira constatação é que a vida de Elis não cabe num filme, ainda mais tão curto. Cinebiografia é um tremendo desafio. Senti que o roteiro teve muitos, muitos problemas. O mesmo para a direção. Pra mim, inclusive, o filme devia chamar-se Elis & Eles, pois é, em suma, a tentativa - com erros e acertos - de ler a trajetória da Pimentinha nos encontros e desencontros dela com eles. O forte do filme, que o salva de ser ruim, no limite, é a ótima atuação de Andréia Horta. Ela se preparou bem, adquiriu os trejeitos, o riso, o choro, mandou bem o texto - que aliás, é bom, tirando seus melhores momentos de trechos de entrevistas que Elis efetivamente concedeu. Uma atuação convincente, mas talvez pelo fato dela não ter uma trajetória forte no cinema, de não a termos visto em outros papéis na telona, mais difícil de saber o quanto é qualidade de seu trabalho de atriz e quanto é a carga inerente da persona forte de Elis que ela simplesmente emula. Quanto à história em si, para quem conhece e/ou pesquisa o assunto, o filme deixa a desejar. Faltou pesquisa - o que é grave considerando que há boas biografias, encabeçadas por Furacão Elis e Elis Regina - Nada será como antes. Talvez tenha faltado construir melhor a narrativa mesmo. Nesse sentido reporto-me à resenha de Danilo Areosa [completa, aqui]: 

Esta construção de cenas de forma arbitrária sem qualquer preocupação em estabelecer uma conexão de finalidade narrativa entre uma sequência e outra indica uma postura amadora por parte de Prata, digna daqueles trabalhos acadêmicos onde a pessoa cópia e cola os parágrafos sem se preocupar se com a lógica do texto.
Do ponto do retrato social e político, Elis consegue ser mais radical na sua caricatura até porque evita a polêmica ou mergulhar o dedo na ferida. As sequências voltadas para a ditadura militar são rasas e se resumem há poucos minutos em tela – a cena que Elis retorna para casa depois de interrogatório e percebe que o berço do filho encontra-se vazio beira a encenação da tensão novelesca. A crítica ao poder das gravadoras musicais também é sintetizada em um único momento – uma entrevista da cantora marcada por frases de efeito – e o próprio abuso de drogas por parte dela é bem discreto evitando manchar a imagem canonizada de Elis.

Episódios chave, como a passeata contra a guitarra elétrica, viraram alvo de referência casual, e situações irrelevantes, como o disco produzido por Nelson Motta, que deve ser um dos mais fracos da discografia dela, merecem destaque. Aliás, Nelson Motta vamos botar na conta da produção Globo Filmes, enquanto gente como Edu Lobo , Chico Buarque, Gil, Caetano, Milton, João Bosco e Aldir, Tom Jobim, entre outros, sequer surgem e/ou são meramente mencionados. O engajamento político de Elis é dosado. Sua participação na luta pela Anistia fica subentendida ao entrevero com Henfil ser resolvido por gravar O bêbado e a equilibrista. A trilha , como tinha que ser, é ótima, ainda que se possa cobrar algumas faltas (Casa no campo, Romaria, Maria, Maria, Vou deitar e rolar, são algumas que me ocorrem. Aliás, nenhuma do Bituca e nenhuma do Gil, se eu não estou enganado). Enfim, quem conhece a história, que vá avisado. Em resumo, vale pela atuação de Andréia, vale para ouvir a voz única de Elis ressoando na sala de cinema, e, para quem não conhece, para ter uma ideia, ainda que tênue, de quem foi a maior cantora do Brasil. 

Acabei revendo essa entrevista, que teve vários trechos pinçados para o texto do filme. Vale muito a pena assistir:


2 de novembro de 2015

Grandes encontros da música popular - Elis Regina e Chico Anísio

Dois talentos inquestionáveis reunidos nesse vídeo: Elis Regina e Chico Anysio cantam Canto do Ossanha (Baden/Vinícius) no "Elis Especial" - TV Globo, em 1971. 



Para quem tiver a curiosidade, Chico Anysio, através de seu incomparável talento para criar personagens, acabou enveredando por um curto período pela indústria fonográfica, no qual o trabalho mais conhecido deve ser a paródia Baiano e os Novos Caetanos, ladeado por Arnaud Rodrigues e Renato Piau. Segue a discografia desse grande gênio brasileiro:


  • (1979) "Coalhada" o craque que faltou na seleção • Som livre • LP
  • (1976) Roberval Taylor • Som livre • LP
  • (1975) Azambuja e Cia • CID • LP
  • (1974) Baiano e os Novos Caetanos • CID • LP
  • (1960) Não sou de nada/Eu sou durão • Todamérica • 78

13 de maio de 2015

Upa, critatividade!

Este texto, gentilmente cedido pelo Sérgio Santos, que além de nos brindar com uma obra musical profícua, deslumbrante, de quebra lança reflexões de uma pertinência e elaboração que dispensam comentários, basta ler. Aqui ele discorre - partindo de magnífica performance de Elis Regina na tv francesa em 1968, acompanhada de feras como Roberto Menescal e Erlon Chaves - sobre o problema da criatividade e da excelência no cenário musical, considerando suas transformações nas últimas décadas. Para curtir e pensar:
"Vendo esse video, me dei de cara com a passagem do tempo. Peço que o assistam antes de ler o post.



E aí, viram? Isso aconteceu em 1968, há 47 anos. Quase meio século! E Elis, linda, estava na flor dos seus 23 anos. Edu Lobo, autor da música tinha 25. Pensando na música, esse conteúdo aí beira a perfeição, gravado ao vivo em algo que parece uma mera passagem de som, na França. Arranjo mortal, executado milimetricamente, com um suingue arrasador. E vai-se esperar o que de uma intérprete como Elis, no auge da gana musical da juventude, com um bando de feras ao lado, e ainda cantando Edu? Pois bem, para mim está aí o exemplo mais cabal do quanto andamos para trás. Será que a imensa maioria dos jovens de 20 e poucos anos que pretendem a cena musical hoje, sabem que no seu país, há quase meio século, jovens da mesma idade ganhavam o mundo fazendo música nesse nível? A maioria hoje ao menos sabe da existência dessa música? Antes de me chamarem de saudosista, pensem que não fomos capazes enquanto produtores, mercado e público, de garantir a simples existência desse patamar de excelência musical com o passar dos anos. Isso não é saudosismo, é fato: nossa indústria e nossa mídia literalmente jogaram fora a preciosidade que esse nível de exigência musical significa. Particularmente para a mídia que nos privou da diversidade, esse grau de excelência já morreu e com ele a continuidade da criatividade na música. E não estou falando de estilo, de MPB ou outras baboseiras: pode-se ser criativo em qualquer estilo. O que quiseram tornar fora de moda não foi um estilo, mas a própria criatividade!! É óbvio que ainda há hoje jovens, teimosos estranhos no ninho, fazendo música nesse nível, e eu fico feliz igual pinto no lixo ao ver que, apesar de tudo, a música de verdade não pára, ela vai sempre seguir em frente, usando agora de novos caminhos. Só que daqui há mais 50 anos, se nos mantivermos nessa incapacidade burra, quem saberá disso? Será que ninguém percebe que a música é uma das formas de identidade de nação, e que a educação musical, muito mais que uns caraminguás nas mãos de alguns, é uma das chaves para a construção de riquezas? Sim, originalidade, criatividade, linguagem própria são geradores de riqueza!!! Matar a galinha dos ovos de ouro, é a imagem que me vem. Mais que com a burrice, a indignação é com o desperdício!" Por Sérgio Santos

30 de agosto de 2014

Bolacha Completa - Elis Ao Vivo (1995)

Em mais uma postagem da série Bolacha Completa, compartilho com os leitores do Massa Crítica MPB o belo texto escrito pelo Alberto Campos, companheiro das navegações noturnas nas digitais redes pesqueiras da boa prosa e da boa música popular. Só posso agradecê-lo por emprestar ao blog essa pérola que fabricou no ventre de sua audição interior. 

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Por Alberto Campos

Deixei a sala da casa na penumbra para melhor ouvir o disco póstumo Elis Ao Vivo (1995)*, um registro do show da cantora de 1977, grávida de 07 meses da Maria Rita. O som é limpo. Acho que a gravação mais bonita da canção Morro Velho está nesse registro. Elis se emociona e transparece tranquilidade, paz de espírito e o canto firme como se estivesse segura do futuro que lhe esperava. Ouço o disco e penso na gravidez como metáfora. A natureza nos fez um corpo masculino sem estrutura física para desenvolver o processo de gestação dos mamíferos. Daí, podemos ter o que vou chamar de gravidez poética. Ideias que guardamos consigo e não compreendemos. Ela vai sendo gestada sensivelmente e à nossa revelia, muitas vezes sendo percebida pelos outros, como algo em desenvolvimento, como algo que por vezes nos deixa melancólicos ou efusivos de modo inconstante. Penso nisso porque o dia de hoje me ofereceu muitas perguntas e poucas respostas. Vi a afetividade agressiva, artística e masculina de um artista de Roraima, que apresentou canções sobre o impulso tribal e indígena que há em todos nós, brasileiros, e tudo na linguagem de bateria+guitarra+percussão. Ouvi conversas sobre gravidez e sobre abortos, a balança que carrega de um lado o peso da vida e do outro o peso da morte. Ouvi conversas sobre maturidade e realização profissional. Dancei um pouco com todas estas ideias, admito. Mas elas permaneceram ainda em órbita. Vi imagens compartilhadas no facebook de lindas mulheres grávidas e suas expectativas radiantes sobre a glória da vida, a continuidade de todos nós. Tudo isso me comoveu. E voltei aos meus pensamentos de homem grávido que estou. Veio então a sensação de vertigem. A mesma sensação de quando temos febre alta na infância. Os olhos fechados e a percepção alterada de que o corpo se expandiu para todo o espaço da sala. A gravidez poética de um homem talvez possa soar confusa para quem racionaliza demais a experiência. Alguns poderão definir como torpor lisérgico com ironia. Podem dizer o que quiser. Mas não é nada disso. Elis Regina continua me conduzindo a universos expandidos de tranquilidade e segurança com sua voz. Já no final do disco, ela canta: "As coisas que eu sei de mim tentam vencer a distância e é como se aguardassem feridas numa ambulância. As pobres coisas que eu sei podem morrer, mas espero como se houvesse um sinal, sem sair do amarelo" (Transversal do Tempo). Ainda em estado de suspensão febril, a voz de Elis parece ser a companhia ideal. Parece haver uma cumplicidade entre a voz da cantora e os ouvidos deste homem grávido de pensamentos. Esse depoimento não pretende de jeito maneira ser alguma bandeira do anima masculino, nada disso. Quem me tem por perto sabe do azul, sabe do jeito de expressão. Não sei se haverá um parto de textos poéticos, rs, mas acho que vale à pena parar um pouco com a pressa dos dias, deitar na penumbra e ouvir esse disco da Elis Regina. Não precisa estar grávido. Mas, se estiver, talvez a gente se entenda. 

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* [Nota do editor] Elis ao vivo (1995) [ouvir completo, aqui] foi editado pela Velas a partir de gravação realizada no dia 25/07/1977, no Palácio de Convenções do Anhembi, SP, durante o programa O Fino da Música, da Rádio Jovem Pan, produzido por Zuza Homem de Mello. 

Faixas

1 Como nossos pais
(Belchior)
2 Travessia
(Milton Nascimento, Fernando Brant)
3 Morro Velho
(Milton Nascimento)
4 Romaria
(Renato Teixeira)
5 A dama do apocalipse
(Crispim, Natan Marques)
6 Colagem
(Cláudio Lucci)
7 Madalena
(Ronaldo Monteiro, Ivan Lins)
8 Qualquer dia
(Vitor Martins, Ivan Lins)
9 Cadeira vazia
(Alcides Gonçalves, Lupicínio Rodrigues)
10 Vida de bailarina
(Américo Seixas, Chocolate)
11 Triste
(Tom Jobim)
12 Dois pra lá, dois pra cá
(Aldir Blanc, João Bosco)
13 Mestre sala dos mares
(Aldir Blanc, João Bosco)
14 Transversal do tempo
(Aldir Blanc, João Bosco)
15 Cartomante
(Vitor Martins, Ivan Lins)

7 de dezembro de 2013

Há versões e (a)versões

Um tema que dá muito pano pra manga é o das versões. Há aquelas versões que são basicamente as que são feitas por intérpretes diferentes quando gravam a mesma composição, sem grandes alterações em relação ao andamento, ao estilo de interpretação, ao arranjo, enfim ao padrão geral da gravação. Isso ocorre em geral num curto período de tempo, em que diversos intérpretes gravam uma canção bem sucedida num determinado momento, procurando incorporá-la a seu repertório e esperando sua boa recepção por parte do público. Há aquelas versões que extrapolam essa referência fonográfica e procuram recriar a canção e a gravação que tomam como referência, acrescendo à história da composição novos traços. Muitas vezes são versões que nascem pelo gesto de transportar canções no tempo e/ou no espaço (e nesse caso podem ser, além de versões, traduções), motivado por homenagens, songbooks, participações especiais, pesquisas de repertório, interesses mercadológicos, decisões dos produtores, preferências dos músicos, o que mais for. Há intérpretes que imprimem de forma tão inconteste sua marca que suas versões podem tornar-se mais memoráveis que aquela primeira gravação, e por vezes consagram-se como aquela que servirá de parâmetro pelo qual todas as subsequentes serão medidas. Podemos pensar na versão dos Beatles para Twist and shout, ou em várias das interpretações de Elis Regina para o repertório canônico da MPB. Uma situação ímpar é a dos compositores que se revelam excepcionais "versionistas", capazes de impregnar a canção com sua própria assinatura estilística, de modo muito próximo a uma coautoria. Dentre vários exemplos possíveis, me ocorrem imediatamente Caetano Veloso e George Harrison. Os leitores, se quiserem, podem sugerir outros nomes à lista.    

Enfim, são várias possibilidades de abordagem e material abundante que permitiria mil e um estudos, ensaios, pesquisas. Como o gás em final de semestre é pouco vou contentar-me agora com essa pequena incursão, motivada pela postagem do Francisco de Paula, garimpeiro da hora e membro da página do Blog do Clube da Esquina. Ele postou por lá essa versão do conjunto vocal novaiorquino Manhattan Transfer para Viola violar (Milton Nascimento/Márcio Borges), que eu não conhecia ou ao menos não me recordava de ter ouvido. Gravada no disco Brasil (1987), e com a participação do próprio Bituca, ela aparece transmutada numa ode de teor ecológico bizarramente intitulada The jungle pioneer (O pioneiro da selva). Na música não traz grandes inovações, a não ser pela parte central em que a ponte instrumental recebeu letra e que apresenta uns tamborins na percussão, fincados ali como uma espécie de bandeira do Brasil timbrística. A versão da letra (Brock Walsh), além de não traduzir minimamente o conceito expresso na original, é de lavra ruim mesmo, com pérolas do tipo... [quem quiser ler a letra completa, original aqui versão aqui]

"Here where we stand there used to be a forest     eu estou bem seguro nesta casa
A timber rising endlessly before us                           minha viola é o resto de uma feira
We cleared away that Godforsaken jungle               a minha fome morde o seu retrato
And in return the Indians adore us                             brindando a morte em tom de brincadeira

What was mud now is a highway                               e amanhã mais vinte anos
Reaching wide into a prairie                                      desfilados na avenida
Horses run, cattle are grazing                                    arranha-céu, ave noturna
You would swear, it's Oklahoma (...)                          no circuito dessa ferida (...)

See in the field my little son and daughter                eu estou bem seguro nesta casa
Not long ago that ground was under water"             comendo restos nesta quarta-feira




Claro que há grandes letristas norte-americanos. Acontece que quando se trata de versar grandes pérolas do cancioneiro brasileiro, via de regra as gravadoras de lá incumbem autores medianos que não conseguem traduzir ou muitas vezes nem tentam, fazem outra coisa, limitada e provavelmente mais palatável ao que imaginam ser o provável ouvinte de lá. Obviamente as versões são importantes veículos dos fluxos transculturais e certamente alguns ouvintes poderão, mesmo a partir de trabalhos fracos, desenvolver maior interesse e procurar as gravações dos compositores, tomando contato com outras músicas populares. Porém são também expressão da assimetria com que se movem esses fluxos e mostram bem como as versões podem ser veículo de estereótipos culturais. Como bônus, deixo as versões da mesma canção gravadas por Quarteto em Cy e Alaíde Costa.





28 de dezembro de 2012

Exposição Viva Elis

Conferi ontem a exposição Viva Elis, em cartaz no Palácio das Artes (BH) entre os dias 27 de novembro e 6 de janeiro de 2013 [outras informações, aqui]. Com uma proposta de tributo, bem definida desde o princípio, inclusive pela presença do filho João Marcelo Bôscolli como um dos curadores (ao lado de Allen Guimarães), a exposição cumpre bem essa proposta. Como encontrei uma resenha panorâmica e correta, feita por Danilo Casaletti [aqui], vou apenas complementar e pontuar algumas coisas.
É basicamente um bom apanhado de imagens em vídeo, fotos, algumas citações de entrevistas (que devem ter tirado do livro Furacão Elis) e a discografia digitalizada que pode ser ouvida em terminais. Tem ainda alguns vestidos, reproduções de figurinos, achei meio sem jeito porque não tem mais nada de acervo tridimensional, salvo um microfone (sem qualquer legenda ou indicação) que está perdido numa área fechada em que passa o vídeo final muito bem editado. Pra variar a exposição não teve pesquisa de fundo, apenas identificação e seleção de acervo. A coisa mais parecida com pesquisa são recortes de jornais e revistas, críticas de época  associados aos discos que ficam nos terminais mas sem maiores desdobramentos e com acesso bem ruim. A maioria das pessoas fica ali ouvindo as músicas - o que é essencial, diga-se de passagem, mas não chega a ler. Outra solução poderia ter enriquecido a experiência da audição. 
Como é de costuma nessas exposições, a vida do biografado é aplainada e as contradições são apagadas ou atenuadas. A narração do episódio em que Elis foi pressionada a cantar nas Olimpíadas do Exército em 1972 (governo Médici) omite entre os desdobramentos desse fato o "enterro" dela no cemitério dos mortos-vivos do Cabôco Mamadô, personagem de Henfil no Pasquim [para que se interessar sobre esse assunto, aqui]. Oportunidade perdida de mostrar as tensões e contradições do período e o lugar-chave ocupado por Elis no cenário cultural e político brasileiro, desembocando na tocante reaproximação entre os dois por intermédio da gravação de O Bêbado e a Equilibrista (J.Bosco/A.Blanc), que viria a se tornar o "hino da Anistia". Essa história merecia ser tratada com algum destaque. Inclusive, não sosseguei até achar isso...





Uma  coisa não gostei mesmo foi um "dedo" do Nelson Motta (e, suspeito, mãozinha de J.M. Bôscoli), inclusive no próprio texto que lhe foi encomendado, tentando destacar o momento da carreira da Elis em que ele foi o produtor. Fica ridículo e ainda por cima não procede ele afirmar que os discos "Em pleno verão"(1970) e "Ela"(1971) sejam clássicos. São quando muito um certo "acerto de contas" com o Tropicalismo (também não foi à toa que logo na abertura o compositor convocado para falar de Elis tenha sido justamente Caetano), ou mais claramente o acordo de paz entre a MPB e o rock bem tocado, indicando a superação das tensões anteriores em que a própria Elis foi grande protagonista. A exposição apaga esse protagonismo, pois não toca por exemplo no fato dela ter sido uma das líderes da passeata contra a guitarra. Pelo contrário, o texto-narciso de Caetano inclusive cumpre esse papel, atenuando os antagonismos ao enfatizar que, apesar das diferenças, ele reconhecia desde o início o grande talento da cantora. Esse foi um tema que toquei tangencialmente na Tese e tenho vontade de explorar melhor. É curioso que desses discos as canções que mais marcaram e podemos dizer que residem no repertório canônico de Elis sejam Vou Deitar E Rolar (Quaquaraquaquá) (Baden e P.C. Pinheiro) e Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza).Outro dado interessante é que na banda que atuou nas gravações de Ela figuravam Nelson Angelo, Novelli e Toninho Horta. Aliás, o vínculo profundo de Elis com Milton e o Clube não fica muito evidente ao longo da exposição, o que fica compensado no final com a belíssima edição do vídeo final em que ela canta Canção do Sal, a primeira canção de Bituca que gravou. É assunto para próximas pesquisas e postagens.
Enfim, é uma exposição bem acabada, inclusive na maior parte é sóbria, o que é um mérito, mas falta conteúdo e reflexão. Não posso deixar de achar que a Elis merece ainda mais. De todo modo, vale demais ir e ficar escutando Elis cantando e dando entrevista - ela sendo entrevistada é quase tão emocionante quanto cantando. Quase.



5 de dezembro de 2012

As 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro - 2a. parte

Continuando a Lista das 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro [para conferir a lista completa, clique aqui]: 
A Página do Relâmpago Elétrico, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, é mais uma dessas canções meio inexplicáveis, por mais que se tente analisar cada parte, visto que o conjunto é algo transcendente. Esse rock 12/8 , em versos de 6 compassos, depois alternando para 8, tem uma letra incomumente longa e das mais icônicas, imagéticas, e, alguém diria, vagas, mas de qualquer maneira incisivas, das melhores letras de Ronaldo. "Que nem ronco do trovão que eu lhe dou para guardar " está entre os versos mais surreais e cortantes do cancioneiro brasileiro, algo talvez inspirado em Guimarães. A melodia em graus conjuntos e saltos precisos se encadeia numa forma capciosa, com longas (4) estrofes, algumas diferidas, enquanto a execução instrumental decola depois da segunda estrofe pra avoar que nem asa de avião até o fade-out final. Harmonicamente, passeia no território modal -tonal e modula de C# pra E maior, passando por vários acordes com nona, sétima maior, baixos invertidos , enfim, e isso tocado com notável ferocidade , numa onda destituída de blue notes , por isso não é um típico roque, e por cima de tudo o cortante falsete arrepiante e estridente de Beto Guedes e as cordas rasqueadas do seu violão e bandolim. Essa música teve várias versões cover, algumas das quais achei no youtube pra compartilhar aqui. Ficha técnica : Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Percussão - Hely; Côro - Vermelho, Flávio e Beto.
*Vai aqui um complemento especial, um link para o excelente A página do diário íntimo elétrico de Beto Guedesótimo texto do blog Sobre a canção do Túlio Villaça
 
A Página do Relâmpago Elétrico

Abre a folha do livro
Que eu lhe dou para guardar
E desata o nó dos cinco sentidos
Para se soltar
Que nem o som clareia o céu nem é de manhã
E anda debaixo do chão
Mas avoa que nem asa de avião
Pra rolar e viver levando jeito
De seguir rolando
Que nem canção de amor no firmamento
Que alguém pegou no ar
E depois jogou no mar

Pra viver do outro lado da vida
E saber atravessar
Prosseguir viagem numa garrafa
Onde o mar levar
Que é a luz que vai tescer o motor da lenda
Cruzando o céu do sertão
E um cego canta até arrebentar
O sertão vai virar mar
O mar vai virar sertão
Não ter medo de nenhuma careta
Que pretende assustar
Encontrar o coração do planeta
E mandar parar
Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas
Fazer um minuto de paz
Um silêncio que ninguém esquece mais
Que nem ronco do trovão
Que eu lhe dou para guardar

A paixão é que nem cobra de vidro
E também pode quebrar
Faz o jogo e abre a folha do livro
Apresenta o ás
Pra renascer em cada pedaço que ficou
E o grande amor vai juntar
E é coisa que ninguém separa mais
Que nem ronco de trovão
Que eu lhe dou para guardar

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Tema dos Deuses, de Milton Nascimento. A voz de Milton certa vez foi descrita por Elis Regina como a voz de Deus, talvez depois de ouvir essa música sem letra mas que tem a voz como atração principal, além da oblíqua, profunda, sinistra, desconcertante condução harmônica, como que revelando as vísceras, as entranhas das divindades, e o que elas tem de grandioso e amedrontador, de teleológico e incomensurável, de doloroso e intangível e indecifrável. Milton tem a alma plugada lá em cima mesmo. Dar sentido à seguinte cadência: E (#11) Gm E (#11) Cm Gm Cm G#m Dm Bm B7 Dm Em não é pra qualquer mortal. A versão com orquestra no Milagre dos Peixes ao vivo (1974) é talvez a mais visceral, e mais uma vez prova que quando um compositor do nível de Bituca carrega muito no discurso harmônico melódico, ele o repouse na forma mais simples possível: um único A, repetido e acrescido, nas duas últimas repetições, da melodia crucial que dá o ápice climático da música. Feita para o filme de Ruy Guerra, Os Deuses e os Mortos, a música se tornou célebre pela sua contundência, independente do filme.
Músicos : Wagner Tiso : Órgão e Piano , Toninho Horta : Guitarra , Luiz Alves : Baixo , Robertinho Silva : Bateria, Nivaldo Ornelas : Sax e orquestração de Wagner Tiso, para o Orquestra Sinfônica de São Paulo.



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Lista Do Clube, number nine: Beijo Partido, de Toninho Horta. Toninho fez letra e música dessa canção que talvez seja a sua mais standard, transformada em tema instrumental e incorporada ao repertório jazzístico no mundo inteiro, por méritos próprios, uma melodia arquetípica que , a partir de certos cromatismos e dolorosos saltos, amarra as improváveis e distintivas modulações que tanto caracterizam a obra do compositor belorizontino. De Mi menor para Fá Sutenido, e dali rapidamente para Ré Maior, voltando sublimemente para o tom original. Mais uma vez as peripécias melódico-harmônicas são ancoradas em formidável simplicidade formal, mas que se encadeia de tal forma que quando o tema volta, parece ser um desenvolvimento do seu próprio final, caráter cíclico que amarra ainda mais um A repetido seguido de um estribilho (dessa vez em Si Maior ! ): Onde estará a rainha que a lucidez escondeu, escondeu ... , e por fim uma coda altamente propícia para improvisações, dois acordes dissonantes em movimento pendular... Beijo Partido condensa todos esses elementos e foi uma música imediatamente gravada por Milton Nascimento, Nana Caymmi, e de lá pra cá deve ter amealhado dezenas de versões mundo afora, além das do próprio compositor. Não foi à toa ! :)

Beijo Partido
(Toninho Horta)

Sabe, eu já não faço fé nessa minha loucura
e digo
Eu não gosto de quem me arruina em pedaços,
e Deus
É quem sabe de ti,
e eu não mereço um beijo partido

Hoje não passa de um dia perdido no tempo,
e fico
Longe de tudo o que sei, não se fala mais nisso, eu sei
Eu serei pra você,
o que não me importa saber

Hoje não passo de um vaso quebrado no peito, e grito

Olha o beijo partido
Onde estará a rainha
Que a lucidez escondeu ... escondeu ...




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A décima escolhida é Viver,Viver, de Lô Borges, Murilo Antunes e Márcio Borges, balada magnífica em cordas de aço e baixos invertidos cromáticos e uma melodia mais uma vez escandalosamente bonita, alternando, como é típico do seu compositor, graus conjuntos e saltos em sextas que pontuam os rápidos procedimentos harmônicos. Lô foi quem mais conseguiu liquefazer a harmonia bossa-novista em contexto estilístico totalmente diferente, mais próximo melodicamente e em termos de arranjo, da influência dos Beatles. Mil ideais num dia , deserto e cais, dourar de sol a melodia ... a letra é mais uma daquelas odes à vida e à beleza, ao sabor dos ventos, fontes da mesma luz, dessa vez com dois letristas, o que demonstra a unidade estética de fato do movimento Clube Da Esquina, cuja dinâmica está muito bem representada no Murilo Antunes Dvd, onde essa pérola ganhou nova versão de Lô e Milton Nascimento. Atenção para a ficha técnica da versão original, presente no disco Nuvem Cigana, de 1981 : Viver, Viver (Lô Borges, Márcio Borges e Murilo Antunes). Bateria e Cuatro venezuelano – Beto Guedes; percussão – Aleuda; arp e violão – Lô Borges; voz – Milton Nascimento; baixo elétrico –Paulinho Carvalho; piano – Telo Borges; percussão – Robertinho Silva.


 

Viver, Viver

Mil dias mais

Mil sonhos mais
Mil anos luz num dia
As ruas são
Meu mundo são
Mil vidas mais

Viver, viver

Tudo que Deus dará
Afim de ver
Mentes e corações
Abertos pra dizer
Ao modo de seu tempo
Eu sei viver assim
Vou do começo ao fim

Viver, morrer

Fontes da mesma luz
O som, a voz, o meio dia

Teu sonho amor

Pessoas mil
Mil ideais num dia
O sonho tem
Mil coisas mais
Deserto e cais...

Viver, viver

Tudo que o mundo tem
Saber viver
Tudo que a gente é
Dourar de sol a melodia

Viver, viver

Tudo que Deus dará
Afim de ver
Mentes e corações
Abertos às manhãs
E a alça contra os ventos
Crescer e arriscar
Tudo que pode ser

Viver, morrer

Fontes da mesma luz
O som, a voz, a melodia...
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A décima-primeira é a primeira(!!!) composição de Milton Nascimento, ao lado de Márcio Borges, a estupenda e distinta Novena, só gravada pela primeira vez por Beto Guedes em 1978 , e pelo autor só em 1992 , no disco Angelus. Pertinente observar que boa parte das pérolas do Clube é em tom menor, o que proporciona, via de regra, um clima mais sombrio à harmonia, ainda mais se construída de forma polimodal, alternando os modos da escala com a inclusão de acordes surpreendentes, que parecem ir contra toda a tradição harmônica no campo popular ocidental. O baixo pedal e a estranha sequência de tríades sugerem uma descoberta puramente empírica ao violão, subindo e descendo acordes com a mesma fôrma manual, e desvelando soluções surpreendentes e imprevisíveis, e enfatizando o sentido de mais uma letra icônica, assimétrica, dura que transcende e ao mesmo tempo faz jus ao contexto político da década de 1960, a 'chama' insurgente da juventude em meio à escalada militar cada vez mais brutal. "É pelos malditos deserdados desse chão" ... A forma é bastante simples, consistindo num A repetido em dois versos, e um B onde se chega a si menor, o relativo do tom paralelo maior da tônica, ré meno, voltando para um A diferido com um movimento harmônico igualmente ascendente mas rigorosamente diferente entre seus acordes. Os cromatismos harmônicos espantaram e fascinaram os jazzistas americanos de tal forma que Milton fez seu segundo disco de carreira, logo em 1968, nos EUA, ao lado de nomes como Herbie Hancock, e outros três durante a década de 1970 - Journey to Dawn, Native Dancer, ao lado de Wayne Shorter, e Milton (1976) (pra mim o melhor deles), e na gravação do Angelus teve Pat Metheny, Herbie Hancock , Ron Carter e Jack De Johnette como seus luxuosos acompanhantes ... ainda assim, eu me atrevo a preferir a versão 'original', com Beto Guedes cantando com seu falsete de metal, Milton no violão, Luiz Alves no baixo, Robertinho Silva na beteria e orquestração e piano do formidável Wagner Tiso.


Novena


Se digo um ai

É por ninguém
É pela certeza de saber que tudo tem

Tem sua vez de lá retornar

ao lugar mais fundo, fundo, fundo , mais que o mar

Se digo sol

Não tem talvez
Não espero mais a chuva
Só preparo meu começo
A explosão de toda luz
A chama, chama, chama, chama

Se digo amor

Só é por alguém
É pelos malditos deserdados desse chão

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Terminando por hoje, agora temos a enigmática Pai Grande, música e letra de Milton Nascimento, uma loa aos ancestrais africanos de Milton. Das poucas vezes que estive perto dele, e a única em que foi possível conversar um pouco mais com ele, perguntei-lhe a respeito dessa música e ele, uma esfinge, me contou da descoberta que teria feito a respeito da exata tribo africana de que ele era descendente, cujo nome não vou me lembrar, e descreveu detalhes de seus rituais e cantos, sobre como eles cantavam e saltavam muito alto do chão ... de forma que o Pai Grande é um signo de toda uma ancestralidade atávica que Milton, e só ele, carrega dentro da música mineira. O fato de ter sido ele o autor da letra, coisa rara, atesta o alto grau de envolvimento pessoal dele com essa canção, a ponto de tê-la gravado em dois discos subsequentes, o de 1969, conhecido como o "da igrejinha", e o Milton 1970, fantástico álbum com a presença do Som Imaginário, Naná Vasconcelos, e a estréia de Lô. Essa versão pra mim é a definitiva, transbordante com a percussão espiritual de Naná, e a tocada emocionada da banda, pra não falar na perfomance vocal de Milton , muito solta, e nas polirritmias intuitivas que ele fazia no violão e na voz. Pra leigos, vale explicar que essa polirritmia consiste na sobreposição de dois tempos diferentes sobre o mesmo pulso, no caso, um violão ternário contra uma melodia vocal quaternária. Esse procedimento resulta numa efeito de fluidez e deslizamento rítmico que é absolutamente fascinante. Por fim, observemos que a forma dessa canção é mais heterodoxa, partindo de um A que se repete uma vez, cai numa ponte transitória, e desemboca num B bastante longo e intenso, que se repete indefinidamente (nunca voltamos ao A...). Com tudo isso, a harmonia é bastante simples, acordes maiores dentro do campo harmônico de Sol maior com um ou outro empréstimo modal daqueles de que os Beatles gostavam tanto, como Fá maior e Ré Menor ( mixolídio) e Lá com sétima (lídio) . Imperdível!

Pai Grande

Meu pai grande
Inda me lembro
E que saudade de você
Dizendo: eu já criei seu pai
Hoje vou criar você
Inda tenho muita vida pra viver

Meu pai grande
Quisera eu ter raça pra contar
A história dos guerreiros
Trazidos lá do longe
Trazidos lá do longe
Sem sua paz

De minha saudade vem você contar
De onde eu vim
É bom lembrar
Todo homem de verdade
Era forte e sem maldade
Podia amar
Podia ver

Todo filho seu
Seguindo os passos
E um cantinho pra morrer
Pra onde eu vim
Não vou chorar
Já não quero ir mais embora

Minha gente é essa agora
Se estou aqui
Eu trouxe de lá
Um amor tão longe de mentiras
Quero a quem quiser me amar