Tem canções que na primeira audição deixam a marca, que nos emudecem e transformam tudo o que não é seu próprio som em silêncio. Foi assim que ouvi, há tantos anos, numa fita cassete Viva Zapátria (Sirlan/Murilo Antunes) e hoje, ao ver uma postagem do Pablo Castro sobre ela, lembrei de como me senti. Isso é o processo da memória, em que sentidos definidos no íntimo de uma experiência pessoal se entrelaçam definitivamente aos significados compartilhados, pois de modo inequívoco Viva Zapátria é um monumento erguido em letra e música que preserva a lembrança da coragem no enfrentamento da censura e do autoritarismo nos "Anos de Chumbo". O texto do Pablo: O Brasil tem Tom Jobim, Chico Buarque , Caetano, mas tem também caras capazes de fazer uma música como essa, umbilicalmente ligada à nossa história recente e absurdamente bonita, perene, canção trágica e épica , que selou o destino de seus autores : Sirlan De Jesus e Murilo Antunes ! Se você nunca ouviu, vai se surpreender ...
Pequeno trecho do depoimento do Murilo Antunes ao Museu da Pessoa (confira completo aqui)
"O pau estava quebrando em 68, quando eu fiz minha primeira música, chamada “Super-herói”. E a outra, “Viva Zapátria”, que eu fiz com o Sirlan."
[Em janeiro de 2014, acréscimo do editor]
Quis o destino que algum tempo depois dessa postagem que o meu parceiro Pablo viesse a gravá-la com Sirlan numa circunstância especialíssima, aqui relatada por ele:
Sirlan e Murilo Antunes fizeram uma canção que assombrou Astor Piazolla e o convenceu a participar do Festival da Internacional da Canção , 1972. A ditadura impediu que a música vencesse o Festival, e impôs ao Sirlan uma das maiores mordaças entre os compositores brasileiros, só comparável ao Taiguara.
Felizmente, a canção era forte o suficiente pra atravessar 40 anos incólume e atualíssima. E, mais felizmente ainda, eu, que ajudei a difundi-la em gerações posteriores, tive a honra e a felicidade de cantá-la junto com um de seus autores, Sirlan, no filme "Come se a vida Fosse Música" sobre a obra do letrista e poeta Murilo Antunes.
A letra
Esse meu sangue fervendo de amor
Aterrisam falcões, onde estou?
Carabinas, sorriso, onde estou?
Um compromisso a sirene chamou
Duplicatas, meu senso de humor
Se perdeu na cidade onde estou.
Viva Zapátria, saudou esse meu senhor
Beijos, abraços, ano um chegou
Salve Zapátria, ê, viva Zapátria, ê
Esta cidade foi uma herança só.
Viva Zapátria, saudando o senhor
Horizonte aberto onde estou
Esta América mãe onde estou."
A canção
O vídeo extraído do DVD"Como se a vida fosse música"
