De Vanessa Martins Pinto:
“Aonde está você? / Me telefona/”
Dois versos, três erros. Pode? É, desse jeito não será possível ligar, não. Escolhemos esse trecho da música do cantor e compositor Lobão para falarmos dos erros gramaticais nele contidos e também do conceito de adequação lingüística. De acordo com a norma culta da língua, o pronome AONDE só deve ser empregado com verbos que indiquem ação e não estado. Assim, é correto dizer aonde você vai, aonde você está me levando, etc. já que os verbos ir e levar indicam ação. Pelo mesmo motivo, é errado dizer aonde você está, aonde é o lugar, etc., pois os verbos ser e estar são verbos de estado. Para facilitar o uso desse pronome, siga a regra: usa-se AONDE quando eu puder substituí-lo por PARA ONDE. Se a substituição não for possível, usarei ONDE. Portanto, no trecho em questão o correto seria ONDE ESTÁ VOCÊ? Outro erro no trecho citado é o uso do pronome ME ao iniciar o segundo verso. Pela norma culta o correto é colocar o pronome depois do verbo: Telefone-me. É isso mesmo, telefonE e não telefonA. É caso de concordância entre o verbo e a pessoa como já falamos em outro artigo. Se usou o pronome VOCÊ o verbo vai para a terceira pessoa e não para a segunda: telefone eu, telefona tu, TELEFONE ele ou você. Entretanto, veja o caro leitor que, se o autor dissesse telefone-me, a música perderia toda a sonoridade e também o ar de intimidade revelado pelo eu lírico que sente saudades do ser amado. Temos então um problema complexo: o que deve prevalecer a língua ou a poética? Acredito que o bom autor deve ter conhecimento das duas áreas. Há erros gramaticais que não produzem nenhum efeito poético. Esses não podem ser admitidos. Por outro lado, os bons escritores quebram as regras gramaticais com um projeto, isto é, eles visam a um efeito de sentido poético. Essas fugas às regras gramaticais, em textos literários, são admissíveis e, no bons autores, necessárias. A esse fenômeno se aplica o conceito de adequação lingüística. No caso aqui analisado, percebemos que os erros foram cometidos por desconhecimento da norma culta e não como projeto já que apenas um erro produz efeito de sentido poético (a colocação pronominal). Não há liberdade poética que justifique os outros erros.
Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
21 de maio de 2011
20 de maio de 2011
No próximo semestre
Título: Música popular e colecionismo Ementa: O conceito de música popular. Música popular enquanto documento em diversos suportes e formatos: da partitura ao disco de vinil, do videoclip ao digital. Reflexões teóricas sobre coleções e colecionismo. As coleções privadas e públicas: discotecas, arquivos fonográficos, museus de imagem e som, blogs e sítios eletrônicos. Música popular, cultura, consumo e identidade. |
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arquivos,
coleções,
museus,
música popular,
pesquisa
23 de abril de 2011
Na estante - Canciones argentinas, de Sergio Puiol
Na prateleira, ou no criado mudo, ou aonde dá pra deixar um livro à mão, ando deixando e pegando pra ler o livro que ganhei de aniversário de minha querida amiga Rita, sobre canções argentinas feitas num período de 100 anos (1910-2010), escrito pelo historiador e ensaista Sergio Pujol. Muito bem feito, bem escrito e fruto de pesquisa extensa, ótima introdução para quem, como eu, sabe pouco além de Gardel, Piazzolla e Mercedes Sosa. Organizado cronologicamente e dividido em séries cujo recorte é definido pelo suporte tecnológico que a cada momento era decisivo para a expansão massiva das canções, trata-se de um trabalho versátil, pois o autor passa da narrativa biográfica à interpretação sociológica, da crítica erudita à recordação pessoal, da contextualização histórica à análise formal, todos com igual maestria. Achei especialmente belas essas passagens do texto que trata do tango El corazón al sur, de Eladia Blázquez, que envolvem questões relativas ao espaço urbano, tema ao qual me dediquei em minhas pesquisas. Ao pensar o gesto criador da canção, Pujol se pergunta o porquê se acredita que as canções mais comoventes se originam em fatos da "vida real" e especula: "deve ser porque a experiência extramusical legitima as canções, as torna testemunhais, registros emocionais da experiência". E depois de dizer isso, mostrando como não se separa a música da história e da sociedade, ele traça, desde um oportuno "porém", o caminho inverso, mas complementar, mostrando o diálogo desta canção com outras letras e músicas de outros tempos e inserindo-a num ciclo temático em que é a dimensão musical que "encena" de dentro as transformações dos centros urbanos e os embates da modernidade.
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16 de abril de 2011
Ah, já que falei de Som Imaginário...
Um trecho sobre o Som Imaginario pinçado da minha tese de doutorado:
E a perplexidade de Jaguar, ao ver o pessoal do Som Imaginário “(...)num embalo de sambão que me pegou de surpresa(...)”[1]. Observo que, num cenário tão polarizado, era difícil delimitar as particularidades emergentes do Clube da Esquina.
Cumpre ressaltar a importância da atuação do conjunto no disco Milton e no LP com seu próprio nome (Som Imaginário, EMI, 1970). Em sua primeira formação, o grupo era composto por Wagner Tiso (Piano), Luiz Alves (Baixo), Tavito (Guitarra Base), Frederyko (ou “Fredera”, Guitarra Solo), Robertinho Silva (Bateria) e Zé Rodrix (Órgão Elétrico e Voz). A familiaridade de todos eles com a linguagem musical internacionalizada, de viés roqueiro ou jazzista, é perceptível nos dois trabalhos. A própria capa do disco do conjunto, trazendo um desenho estilizado do instrumento de cada integrante voando no espaço – alguns até providos de asas – enfatiza a liberdade formal e a ênfase no desempenho de seus músicos como instrumentistas. As composições, a maioria feita pelos próprios membros, têm caráter bem experimental, mesclando canção e improviso, letras em português e inglês, explorando sonoridades elétricas, muitos timbres na percussão e mudanças inesperadas de compasso. (GARCIA, 2007, pp. 189-190)
[1] “Show Gal Costa e Som Imaginário”. O Pasquim, n º 83, 4-10/02/1971, p.15.
Abaixo, duas formações do Som Imaginário:

E também um vídeo da canção Feira Moderna, executada no programa Ensaio
em que a banda acompanhava Gal Costa:
em que a banda acompanhava Gal Costa:
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Som Imaginário
Imagens que fazem parte da história da música popular
Ensaio fotográfico completo mostrando a produção de uma das mais marcantes capas de LPs da história da música popular, o álbum Abbey Road, dos Beatles. [clique aqui].
Acrescento o link para a seção da The Beatles Bible que trata do assunto, trazendo inclusive um esboço feito por Paul McCartney e detalhado pelo fotógrafo Iain Macmillan antes do próprio bater as fotos.
Complete photo shooting [here] for one of the most impressive album covers in the history of popular music, The Beatles' Abbey Road. Follows link to The Beatles Bible about the same theme, showing a sketch made by Paul McCartney and detailed by photographer Iain Macmillan before he took the photos.
Complete photo shooting [here] for one of the most impressive album covers in the history of popular music, The Beatles' Abbey Road. Follows link to The Beatles Bible about the same theme, showing a sketch made by Paul McCartney and detailed by photographer Iain Macmillan before he took the photos.
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