Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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2 de dezembro de 2019

Todos os malucos no mesmo galho

Quando a gente acha que já ouviu todo tipo de maluquice ser pronunciada por representantes do atual governo brasileiro, eis que o recém empossado presidente da Funarte, Dante Mantovani, revelou-se um contumaz distribuidor de asneiras e delírios através de um canal no You Tube [aqui a matéria da Folha sobre o assunto]. Não faz muito tempo, o ruminante da Virgínia, Orvalho de Cavalo [sic], andou espalhando o capim estragado que mastiga , afirmando que o filósofo (esse sim, ele não) Theodor Adorno teria escrito músicas dos Beatles. Mantovani tenta se igualar no besteirol, afirmando que
  
Não é que o Adorno tenha falado assim para os Beatles, ‘faça isso, faça aquilo, faça a liberação das drogas’. O teórico desenvolve a teoria e o agente vai lá e age”, diz. “Na esfera da música popular, vieram os Beatles, para combater o capitalismo e implantar a maravilhosa sociedade comunista.

Ecoou imediatamente para mim a paranoia do macartismo nos EUA ou da Ditadura Militar made in Brazil. Lembrou-me ainda do achaque de fanáticos religiosos aos Beatles nos anos 1960, especialmente intensos depois de Lennon ter declarado marotamente que eles eram "mais famosos que Jesus". As besteiras de então, como as que um certo reverendo Nobel distribuiu no livro Communism, Hypnotism and The Beatles (1965) são o tipo de lixo eternamente reciclável.

Esse ataque, que em outras circunstâncias seria até divertido, é testemunho da degradação intelectual e de caráter que tomou conta do governo federal e se manifesta progressivamente em todas as suas instâncias. A censura, a truculência, o aparelhamento e o enviesamento de políticas de incentivo agora são a regra nos órgãos de cultura. Essa sabotagem sistemática reflete uma escalada reacionária que compreende o campo da Cultura na esfera do Estado como alvo de disputa ideológica, plataforma do conservadorismo político, balcão de negócios sem qualquer critério de bem público e, simultaneamente, jamais tratá-lo como espaço público e de direito. Converte-a em uma espécie de arma política apropriada ilegitimamente para fustigar adversários, introduzir diversionismo e promover revisionismos de toda ordem. Enfim, há método nesse disparate, e é a partir disso que precisamos combatê-lo.

23 de março de 2019

O pop unicórnico

Parece ser um fenômeno recorrente da História da Cultura que, se de um lado haverão aquelas expressões que tentarão expressar o mais acuradamente possível aquilo que se pode chamar de zeitgeist, ou visão de mundo, imaginário, enfim, o que busca de algum modo capturar o que podem modos socialmente compartilhados de traduzir a experiência social num determinado contexto histórico (portanto, de forma sincrônica, como poderia pensar junto com Carl Schorske), haverá também resíduos ou retomadas de outras que, desse modo, retornam do fundo dos oceanos do esquecimento cultural no refluxo de uma vaga nostálgica. Evidentemente, haverá aí algum grau de anacronismo, mas simultaneamente esse movimento na diacronia revela um dos muitos modos pelos quais o passado não morre simplesmente, não por completo. Caberá à crítica da História da Cultura compreender o que representa, no presente, a reentrada de meteoros que pareciam há muito resfriados. Seja qual for a razão, terá que revelar o nexo, que mesmo esquecido não desvanece por completo, entre duas épocas, sejam elas mais ou menos distantes entre si. 
E nos tempos correntes, e já desde pelo menos os anos 1960s, o fenômeno cultural da nostalgia se intensificou na forma que tomou inserido na indústria cultural e na configuração do "modo" pós-moderno da experiência histórica, em que um presente onívoro e regorgitante absorve e despeja incessantemente versões recicladas de fragmentos do passado e reedições do futuro distópico cuja distância em relação à atualidade parece reduzida a quase nada. Vencida a confiança inabalável que a modernidade promovia em relação a um supostamente inevitável "novo", somos compensados pela insistente reapresentação do "antigo" recoberto de por uma camada de sonho e açúcar. 
O recente frisson em torno do retorno da dupla Sandy e Júnior nada mais é que uma demonstração empírica dessa busca pelo conforto de "reconsumir" o que já foi consumado [notícias a respeito: aqui e aqui]. Ruminar (o que também seria próprio dos unicórnios caso existissem) é o estágio atual do entretenimento em escala planetária. Não vou, claro, gastar os meus dedos fazendo discussão do pretenso show, dos comentários das colunas de imprensa que dificilmente poderemos chamar de crítica. A música de Sandy e Júnior não merece muito mais comentário que isso. Sua longevidade terá sido muito mais em função do conhecimento das engrenagens que literalmente herdaram do pai Xororó, mais do que qualquer eventual habilidade musical. A dupla, entre outras tantas "atrações" montadas pela indústria fonográfica e jabafaraônica dos anos 1990 para atender o mercado infanto-juvenil e adolescente, cujo maior fenômeno de vendagem foi Xuxa, nada tem a acrescentar do ponto de vista do que pode durar para além de espasmódicas vontades acionadas nessa chave retrô. Especialmente diante de um patrimônio inestimável de canções, desde aquelas folclóricas ou de domínio público, onde encontramos pérolas de admirável lirismo, passando pelo repertório impecável composto e apresentado para o público infantojuvenil pela nata dos nossos criadores, especialmente entre os anos 1970-80, e chegando a trabalhos recentes inspirados encabeçados pelo duo Palavra Cantada. 
Adolescentes, via de regra, tornaram-se o público preferencial do pop de ocasião, e talvez tenha sido naquela geração que qualquer fio da meada possível entre os repertórios históricos da música brasileira, tão bem defendido pelos protagonistas da Era dos Festivais, inovadores que jamais descuidaram - nem mesmo os iconoclastas tropicalistas - desse elo com o repertório do passado. Não é coincidência que isso tenha sido concomitante ao esfarelamento das instâncias de consagração crítica para grande público que promoviam, todas elas obliteradas pelo ethos do sucesso de circunstância, ainda que hoje se tente fazer, também desses, uma afirmação de lastro na memória social. Diante do caos da crise, da dissolução dos valores, das incertezas pós-modernas, consumidores abonados e desnorteados buscam uma volta ao útero do pop unicórnico de sua infância. 

7 de março de 2019

São verde e rosa as multidões

Em algum momento antes deste carnaval, ouvi, numa bela gravação [aqui], o samba-enredo da Mangueira, e pressenti que ele daria o que falar e que teria grandes chances de ser coroado campeão com uma correspondente exibição no Sambódromo. "Histórias pra ninar gente grande", foi escrito a seis por Manu da Cuíca, Luiz Carlos Máximo, Tomaz Miranda, Vitor Arantes Nunes, Sílvio Moreira Filho e Ronie Oliveira. O enredo do carnavalesco Leandro Vieira [aqui o texto geral] destaca o protagonismo do que chamou de "heróis do barracão", os populares, subalternos,negros, índios, mulatos, aqueles que os livros tradicionais da História dita "oficial" não costumam mencionar, e muito menos nominar individualmente. Claro, no atual contexto histórico, a apoteose da Mangueira - daquele tipo de vitória incontestável que está sendo celebrada inclusive pelos torcedores mais fanáticos de agremiações rivais - se recobre de imenso significado, ante as despirocadas, os crimes e perversidades de um governo e seu presidente que agem para destruir os direitos, o patrimônio e até mesmo a imagem do país. Mas, sobretudo numa visada de maior fôlego, representa uma página heroica das lutas pela conquista de um Brasil que não exclua a parcela majoritária de sua população da condição plena de cidadãos.
Mesmo não sendo um estudioso dedicado do carnaval carioca e brasileiro, como historiador da música popular, e como compositor, me sinto compelido a arriscar algumas linhas sobre este samba, certamente a espinha dorsal de qualquer desfile de Escola, e desta feita articulado de uma forma praticamente impecável a todo resto que compõe o espetáculo multimidiático. Não vou ficar esmiuçando detalhes e avaliações de jurados especializados, e prefiro incorporar o VT da transmissão, seguido da letra, para que o leitor faça a devida apreciação, se ainda não teve a oportunidade.




Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas 
pros teus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país 
de Lecis, jamelões

São verde e rosa as multidões
 

Brasil, 
meu nego deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra
 

Brasil, 
meu dengo a Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento


Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato
 

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de cariri

Não veio do céu nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar
de Aracati

Salve os caboclos de julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez


De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

A sofisticação em letra e música é tal que certamente deixarei passar muita coisa. Vou procurar pontuar o que posso, na confluência entre música popular e História, que é onde efetivamente tenho algo a dizer. Em outras oportunidades já comentei sobre tal relação nos sambas-enredo [aqui], e cumpre notar que a Mangueira segue na picada que a Paraíso do Tuiuti abriu ano passado, como escrevi neste mesmo blog [aqui]. Investiguei ali a configuração do samba-enredo crítico, que em alguma medida se aproveita do avanço da historiografia para ir além do marco de exaltação e mistificação de suas contrapartes tradicionais. Neste sentido, ele propõe uma interpretação histórica a contrapena (vou me permitir essa mordida antropofágica na expressão benjaminiana 'a contrapelo') e assume isso explicitamente na sua própria expressão cancional - anunciando que vai contar "(...)A história que a história não conta/ O avesso do mesmo lugar", e que vai falar do esquecido, do silenciado, dos "versos que o livro apagou". Essa (in)versão da perspectiva interpretativa (recurso simbólico cuja associação ao carnaval já rendeu muitas páginas de teoria social) é bem marcada em dois episódios históricos chave, surradamente celebrados em tantos carnavais: o descobrimento e a abolição, relidos o primeiro como invasão e a segunda como resultado de lutas várias e não da benevolência da princesa (metonímia da elite imperial). Num acontecimento musical que certamente entrará para os anais dos desfiles, o arranjo da bateria expressa musicalmente essa operação, que o estudioso Luiz Antonio Simas descreveu [via facebook] com conhecimento de causa tão grande que só me cabe citá-lo:

"Detalhe da bateria da Mangueira. Ela faz uma bossa de marcha militar na preparação do refrão. Só que aí a marcha militar saí e entra uma muzenza tocada nos atabaques! A muzenza é um ritmo tocado nos candomblés de caboclo! A muzenza se impõe sobre a marcha militar! O enredo contado por uma bateria! Putaquepariu. Desculpem as exclamações." . 
 
A história oficial, aquela que enaltece, que ergue monumentos, que emoldura os retratos dos vencedores, costumeira fonte de tantos enredos de exaltação, é contestada. Não se trata de uma alternância maniqueísta, simplista. Falar do ponto de vista dos vencidos não é colocá-los como vencedores, e sim revelar melhor o saldo dos embates. Longe de qualquer idílio, é de sangue e ossos que se trata o que é a vitória de uns e derrota de outros. Este é o conceito que as alas e alegorias demonstram visualmente de modo brilhante. Posso destacar a Comissão de Frente e a alegoria do 2º carro, saída diretamente das intervenções que vêm sendo feitas por indígenas e demais ativistas engajados em sua causa sobre o Monumento às Bandeiras. A violência dos apagamentos é enfrentada nas presenças físicas, na pessoa da Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, ou de Hildegard Angel, cuja mãe e irmão - gente que "foi de aço nos anos de chumbo" - foram mortos pela ditadura militar (lamentavelmente a Fátima Bernardes se acovardou no comentário que fez a respeito durante a transmissão), já na parte final do desfile. Numa nota marginal, como que para nos lembrar que o desfile mais lindo, crítico, etc., ainda assim está integrado no grande negócio capitalista que virou o carnaval, as moças que empurravam os carros exibiam os cabelos alisados pela marca que envergavam nas camisetas. Las contradiciones del Capital...

Acho importante destacar que a História narrada não é "alternativa" como alguns comentários apressados sugeriram, é tão História quanto qualquer coisa que é digna desse nome. É preciso que se diga que a imagem de uma História não contada "nos livros" não pode ser tomada tão literalmente. A superação desse modelo de narrativa de heróis louvados e consagração de vencedores foi certamente a tônica da historiografia produzida ao longo do século XX. Diferentes escolas e vertentes elevaram a sujeitos as pessoas comuns, os populares, subalternos, derrotados - os especialistas as conhecem e para os leigos talvez se tornasse excessivo enumerar autores e trabalhos. Claro que estamos bem longe da disseminação do conhecimento histórico que gostaríamos de ver - o que o enredo salienta - mas é certo que o samba da Mangueira não tiraria a poeira dos porões e sairia do barracão sem dissertações, teses e livros escritos por historiadores nas últimas décadas, claro que ladeados pela memória que comunidades diversas, em um enfrentamento incessante, foram preservando e reescrevendo por sua própria conta - tradição que a Escola não deixa de reverenciar em figuras emblemáticas como Leci Brandão e Jamelão. Essa colaboração efetiva, foi explicitada inclusive nos textos escritos por professores/pesquisadores que figuraram no último carro. Para além dos livros didáticos, é preciso ainda dizer que uma visão crítica da História do Brasil é levada às salas de aula por milhares de professores que são formados pra isso, especialmente nas universidades públicas. Não é por acaso que hoje ações como Escola Sem Partidos, que o próprio governo federal intenta encampar, pretendem cercear estes professores. 

Por isso o título do enredo aperta mesmo o parafuso  ao apontar que as versões tradicionais "ninam gente grande", ou seja, fazem parte de um construto hegemônico que amortece a ira dos excluídos e os relega à condição de observadores passivos do protagonismo dos heróis emoldurados, das elites dirigentes. Indígenas, negros, mulatos, caboclos, mulheres, pobres, deixam de ser entidades abstratas para serem encarnados pelos nomes daqueles de quem agora é chegada a hora de ouvir as vozes e saber quem foram. O sentido profundamente político desse desafio à História que adormece (inevitável lembrar de certo verso do Hino Nacional) é reconhecer no recorte das grandes lutas populares um veio fundamental para a construção da nossa democracia - "na luta é que a gente se encontra". No giro altamente consequente que leva desse inventário não linear dos episódios de enfrentamento e dos heróis nomeados do povo ao seu autoreconhecimento - genialmente construído na reiteração de uma interpelação tão típica do samba exaltação "Brasil..." mas aqui transformada pelos índices da nossa hibridação cultural (meu nego, meu dengo) acrescido de um reflexo no espelho que suplanta qualquer tentativa de leitura amolecida da miscigenação e propõe um país no plural -  o próprio samba segue em sua forma como uma sucessão de alas, com transições melódicas para as partes seguintes sem repetição até nos conduzir de volta ao refrão em que a própria escola se mescla ao povo: "são verde e rosa as multidões". A Mangueira nos ensina que precisamos refundar tudo, refazer os termos da nossa  união. Não estamos só enfrentando fascistas. Estamos enfrentando, ainda, as entranhas da sociedade desigual que o escravismo colonial nos legou. Que nenhuma República, nem Nova, nem Velha, superou. Só é possível fazê-lo dando concretude política, social e econômica àquilo que a Cultura já sonhou, já anteviu.
Num episódio lamentável, que deprecia o mandato presidencial e tudo que cerca a condição de chefe de Estado, o atual ocupante do Palácio da Alvorada compartilhou um vídeo com material que pode ser considerado pornográfico, propagando-o como exemplo caluniosamente generalizado do que ocorre nos blocos de Carnaval. A fala do carnavalesco Leandro Vieira respondeu com propriedade a mais este ato repugnante do político com arminha na mão:

"É um recado político para o país todo, que tem que entender que isso aqui é importante. É um recado político também para o presidente mostrar que o carnaval é isso aqui. O carnaval é a festa do povo. O carnaval é cultura popular. O carnaval não é o que ele acha que é. O carnaval é isso. E ele deveria mostrar para o mundo o carnaval da Mangueira. O carnaval da arte, o carnaval da luta, o carnaval do povo, o carnaval da cultura popular." 

Entendo que só existe basicamente uma coisa impedindo firmemente que o projeto teocrático conservador nos costumes ultraliberal na economia tome conta do imaginário do brasileiro. Chama-se ... o carnaval, o carnaval, o carnaval... O Brasil precisa de um novo samba-enredo como Hino.

19 de setembro de 2016

1a c/ a 7a - A trilha de "Aquarius", patrimônio, memória cultural e música popular

Finalmente assisti Aquarius. Grande filme, e, sobretudo, que soberba atuação da Sônia Braga vivendo a crítica musical Clara. Antológica, ainda mais em se tratando de uma atriz que já fez alguns dos papéis mais icônicos da nossa cinematografia. Merece todos os prêmios e reconhecimentos possíveis, e merece sobretudo ser devidamente celebrada em vida. O elenco quase todo atua muito bem (menos o mauricinho Carrão, desperdiçando a chance de fazer um mauricinho verídico), sob a batuta segura do diretor Kleber Mendonça Filho. Nada no cinema dele é trivial. A trilha sonora deve ser, depois da magnética presença da Sônia, o principal eixo condutor da narrativa do filme. Sobre isso, talvez com calma eu venha a escrever mais. E Recife, uma cidade tão densa em sua história, cultura e paisagem, um centro pulsante da cultura brasileira e agora definitivamente afirmada na nossa cartografia cinematográfica. Acho que teria muito mais a dizer sobre o filme, mas acho que deixo pra depois, vou deixar decantar um pouco do que agora está em suspensão [entre tantas resenhas, uma aqui]. Quem não viu, vá ver o quanto antes. E quem viu, caso não tenha visto O Som ao Redor, dê um jeito de ver porque é melhor ainda. 

Resolvi então acrescentar mais alguma coisa aos meus comentários iniciais, escolhendo um ângulo que incorpora minhas reflexões de pesquisa. Mas cumpre mencionar de partida que consultei alguns textos para me balizar e recapitular alguma coisa, basicamente a matéria mais enxuta de Tiago Dias no uol; o comentário curto mas atento de Sílvio Osias no Jornal da Paraíba, e a crítica bem feita de Paulo da Costa e Silva na Piauí

Todos concordam que a música desempenha um papel fundamental no filme. O primeiro detalhe a se notar é a opção por usar uma trilha preexistente, pois aí já está dada a premissa para o que quero discutir, que é o acervo musical como patrimônio cultural. Na escolha da trilha entram diferentes determinantes, da eficácia comunicacional que música terá para a cena e o fio narrativo da história, a construção convincente de uma paisagem sonora retratada, a tradução do estado emocional de uma personagem, e até mesmo questões de ordem técnica, como na inserção de "Another One Bites the Dust", no começo do filme, cujo baixo proeminente ajuda a testar o sistema de som das salas de cinema, pois "É perfeita para ver se está no volume certo", diz Mendonça Filho, confesso fã de Queen, segundo relatado na matéria de Dias. A comparação na forma de usar a trilha preexistente, proposta por Osias, entre o diretor e cineastas como Tarantino e Scorsese, me parece acertada. E acrescento um detalhe que me foi apontado pelo músico Artur Araújo, tanto em Aquarius quanto em O Som ao Redor, do uso do som externo dentro da cena (uma leitura sobre o assunto, texto de Hermes Leal)No caso de Aquarius, entendo que se completa com um jogo astuto em que o som da trilha "entra" e "sai" da cena, ou seja, num momento ouve-se a música captada a partir de seus emissores (o toca-fitas do carro, o toca-discos de Clara, a televisão, o piano e as vozes de quem canta ) pela microfonação ambiente mesmo, como se quem assiste também estivesse inserido no quadro, e por vezes ele passa, até abruptamente, a ser reproduzido com qualidade de gravação direto na banda sonora, ou seja, tocando para quem assiste, como que reafirmando essa outra posição de assistir ao filme, de fora do quadro. 

Ouve-se portanto a música a partir de dois pontos básicos de escuta. Um, o dos personagens, na própria tessitura da história deles que se desenrola; outro, o nosso, ou seja, o do nosso presente e do que as músicas representam quando retiradas do que podemos imaginar como um arquivo, um grande armário de discos, fitas, cds, como o de Clara no filme - talvez um pouco arriscado, mas me arvoro a concluir que todo o apartamento dela é como uma alegoria de um tempo e uma sociabilidade em desaparecimento. Como coloca o Paulo C. Silva:

Gil, Roberto Carlos, Bethânia entoam o reservatório de um conjunto de valores e de um tipo de sensibilidade que serão condensados em Clara (Sônia de Braga), que de algum modo incorpora a textura afetiva, emocional, política e humana de certa classe média dos anos 1970. É uma textura indissociável dos elementos materiais que compõem seu habitat: samambaia, cômodas, livros nas estantes, posters de filmes e quadros (Kubrick, Miró) e, sobretudo, vitrola e discos, personagens fundamentais no filme – são objetos que definem de modo preciso a subjetividade da personagem, trazem visibilidade a seus valores, prioridades, sua relação com o tempo.

Preciso. Daí caber perfeitamente o recurso ao conceito de memória cultural, tal como empregam os pesquisadores alemães Aleida e Jan Assmann. Numa síntese, "A memória cultural é constituída, assim, por heranças simbólicas materializadas em textos, ritos, monumentos, celebrações, objetos, escrituras sagradas e outros suportes mnemônicos que funcionam como gatilhos para acionar significados associados ao que passou". Ou seja, no universo da cultura material a que somos apresentados no apartamento de Clara, está um estoque de recursos mnemônicos que podem promover a criação de nexos entre passado e presente. É um filme sobre o tempo, sua passagem, o desgaste das coisas, dos corpos, das relações humanas. Sobre aquilo que se perde e aquilo que se luta para preservar, mesmo contra um fluxo aparentemente irresistível, do progresso, da idade e do dinheiro - o que se traduz essencialmente no embate em torno do prédio Aquarius. O diretor, didaticamente, nos treina nesse mecanismo no primeiro trecho do filme, decorrido no passado, na celebração do aniversário da tia Lúcia, no momento em que seu olhar sobre o armário da sala lhe remete mentalmente a tórridas experiências sexuais de sua juventude. Todo o contato físico com os discos, o verdadeiro ritual de colocá-los e alguns comentários bem posicionados - o disco do Ave Sangria: "40 anos e toca perfeito"! - de forma a adquirirmos a certeza de que tudo aquilo traduz um modo de vida e valores que definem a identidade da personagem, como de fato usamos a rememoração de modo a retirar do que está disponível nesse "reservatório" aquilo que melhor nos traduz como indivíduos e como membros de grupos sociais, coletividades regionais ou nacionais, entre outros. Ante a imposição de imperativos econômicos e tecnológicos, objetos de outro tempo se ressignificam, o que fica patente na cena que disparou em minha a ideia desse texto, quando Clara tira de dentro de seu exemplar do Double Fantasy de Lennon e Yoko um recorte de jornal de poucos dias antes da morte dele, e desencadeia uma digressão que demonstra a singularidade daquele disco, que seria improvável para um arquivo de MP3. 
Ainda que Clara expresse o cosmopolitismo próprio de seu meio, O nacional importa bastante nesse caso,ao mesmo tempo o que ela escolhe pra colocar na vitrola via de regra o que seria o espectro de canções que classificamos por MPB, em geral da década de 1970, incluindo aí a escolha nada óbvia de O Quintal do Vizinho do repertório de Roberto Carlos. As escolhas da trilha são ecléticas até certo ponto, mas é sobretudo esse recorte do patrimônio musical brasileiro, da perspectiva da geração de classe média que foi jovem na passagem dos 1970s aos 1980s , que se sobressai.  Muitas pistas jogadas sobre esse tema do nacional, da interpretação do Brasil, começando por ser Sônia Braga a atriz que faz a protagonista, um dos maiores ícones do cinema brasileiro, que deu vida a alguns dos papéis femininos mais centrais da nossa cinematografia, mas reside nos EUA, mestiça que fala inglês, fazendo uma crítica musical que se chama Clara. Esse Brasil é contado na música, naquilo que lhe aproxima e lhe distancia. Sílvio Osias atenta para cena da praia, Clara com o sobrinho e a namorada, tentando explicar a tradução da desigualdade no espaço urbano recifense, no caminho de Boa Viagem até Brasília Teimosa onde irão ao aniversário da empregada doméstica (que claro, ao longo do filme desencadeia o bom e velho tema da herança escravocrata, que Kleber já abordara tão bem em O Som ao Redor) , que em seguida se metamorfoseia nas escolhas de repertório que caracterizam os espaços sociais pelos quais os personagens transitam, Alcione na aniversário, Villa-Lobos na casa de Clara, por exemplo.
A forma como a trilha tem repercutido, sendo citada e mesmo referenciada em outros contextos, sinaliza justamente esse valor cultural, essa disposição para ser ressignificada que especialmente a canção popular apresenta. Se toda a história, e especialmente seu desfecho, representa uma tomada de posição em enfrentamento ao descarte, à sumária destruição do que remete ao passado, à decrepitude do corpo e o desprezo para com os velhos, a música é  um verdadeiro contraveneno, representando a celebração da vida, dos laços,  da experiência. Num momento que guardei como bastante emblemático, ela decide enfrentar a festa de arromba promovida para demovê-la de permanecer em seu apartamento não chamando a polícia, mas botando no talo mais um petardo do Queen, Fat Bottomed Girls. Contra tantas ameaças, literalmente nadando no mar de tubarões, Clara resiste e assume (recebendo talvez apoios inesperados e não recebendo alguns esperados) essa posição de enfrentamento e resiste, ainda que provisoriamente, à voragem dos cupins. Penso que reconhecer a importância do patrimônio cultural, especialmente aquele associado à música popular, representa exatamente isso: nossa disposição em não sermos devorados.