Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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7 de agosto de 2016

Né qualquer um que consegue não: homenagem a Vander Lee

O falecimento do cantautor Vander Lee ontem (05/08) deixou a todos em choque, sentimento que se intensifica aqui em Belo Horizonte, sua terra natal . Uma perda para a música popular brasileira em geral e mineira em particular. Penso no papel que cabe a um blog como este nessas horas, devotado especialmente ao conhecimento, à apreensão, ainda que de variados ângulos, do que representa a música popular. Além, portanto, de homenageá-lo, senti que seria justo trazer algumas linhas sobre sua carreira e obra. Entretanto eu não queria que fosse nada como esses epitáfios de praxe, como os que os leitores poderão encontrar em portais de notícia e jornais de grande circulação [matéria completa]. Como tantas vezes ocorre, meu parceiro Pablo Castro produziu um texto à altura da tarefa e eu me senti incumbido a abrir espaço aqui:

"Que dia estranho ...
Acordar com a notícia da morte prematura e inesperada do Vander Lee ...
Ele era, de todos os mineiros cantores e compositores independentes, o mais bem sucedido, tinha público no país inteiro, cantava suas composições que tinham um pé no Brasil profundo, e nunca resvalavam para o popularesco, para o fácil, apelativo, ainda que estivesse sempre próximo do clichê radiofônico. Muito bom letrista, muito bom melodista, muito bom cantor, versátil, capaz de sambas, emboladas, toadas, baladas, tudo seguro na sua mirada.
Para além disso, era um de nós. Não encarnava nunca qualquer pretensão de superioridade advinda desse sucesso, não um sucesso estrondoso, espalhafatoso, mas um sucesso silencioso, enterrado nas raízes quase invisíveis do gosto popular. Na lida pessoal, um sujeito elegante, perspicaz, grande espirituosidade, ouvia e falava pouco mas com propriedade de todos os assuntos, com algumas pitadas enigmáticas.
Morávamos na mesma rua e ficamos de combinar umas violãozadas, mas não deu tempo.
Hoje passei a tarde no estúdio gravando vozes e mais vozes e pensando na extrema fugacidade que é esta profissão: fazer constructos tão abstratos mas capazes de ser tão resistentes, duradouros e ao mesmo tempo fugidios, as canções.
Há poucas semanas, dividimos um rochedão no Santa Tereza, ele, Telo Borges e eu. Lembro-me de pensar nessa trinca ali, um vencedor do Grammy, um cantautor do Brasil profundo mas que teimava em permanecer nessa estranha província, e eu, que nem sei me definir e cuja obra é insignificante, em vários aspectos, em comparação à deles. Mas estávamos ali na total informalidade, como amigos e partícipes de uma coisa maior. Tínhamos feito juntos uma viagem para a Itália, há muitos anos, no mesmo clima.
Essa coisa maior ficou maior ainda hoje, e nós perdemos um dos mais nobres contribuintes dessa coisa que poder-se-ia chamar música mineira.
Salve Vandeco Do Cavaco !!!" Por Pablo Castro

Se eu posso acrescentar alguma coisa, é apenas uma breve nota que ressalta aquilo que tem sido a tecla batida por todos os músicos da cena mineira com quem convivo na hora de apreciar a criação de Vander Lee - sua habilidade em produzir canções afinadas a certos traços do gosto popular sem deixar de lado a elaboração e o acabamento cuidadoso em música e letra, atingindo um equilíbrio possível que lhe permitiu alcançar um grande público, ter sucessos radiofônicos e ser gravado por grandes intérpretes, dentre as quais Gal, Bethânia e Elza Soares, que além de tudo o amadrinhou, tendo influência decisiva no andamento de sua carreira.
Escolhi dar à nota um tom pessoal, escolhendo falar de "Galo e Cruzeiro". Lembro a primeira vez que ouvi essa canção na tv, ele tocando em algum programa local, que nem deve existir mais. A simpatia pela canção foi imediata, um samba carismático, mas a letra é que realmente me chamou à atenção, cheia de achados e mesmo assim mantendo o apelo popular. Na condição de letrista, àquela altura tratando o ofício como algo que merecia o devido esmero, fiquei bem impressionado com a habilidade dele em combinar os universos semânticos da rivalidade futebolística e do relacionamento amoroso sem cair em lances desgastados ou "tocar de lado". Sua desenvoltura em acionar o vocabulário do cotidiano, cozido numa espécie de comédia de costumes, tem um poderoso efeito que é o de desenrolar a narração da partida com imensa fluência e naturalidade. Esperamos certas palavras e situações, e elas aparecem mesmo. Simultaneamente, há dribles mais desconcertantes, passes em profundidade, ou um sutil toque de calcanhar, como quando ele brinca com as palavras em "ela é quem bota fogo" que também remetem ao nome de um famoso clube de futebol, Botafogo. Um toque magistral é a comparação de "status de relacionamento" do eu lírico da canção com o posicionamento do jogador em campo, em    "Caí de centro-avante, pra médio-volante, agora sou zagueiro", cujo sentido depende da compreensão de nossa cultura futebolística, que define uma hierarquia simbólica em que o ataque é privilegiado sobre a defesa. E, por fim, com muita visão de jogo, ele brinca com o mascote de seu próprio clube do coração, o Atlético, deixando para a rival amada cruzeirense o papel dominante no espaço em que se dá o certame amoroso, invertendo a figuração recorrente do imaginário futebolístico belorizontino em "Ela fala, eu me calo, ela canta de galo lá no meu terreiro". Isso, pra quem de fato vivencia e reconhece essa rivalidade intestina, tem grande efeito para dar sentido à intensidade do relacionamento de que a canção trata.  Em súmula, tudo isso sem perder o gingado, tocando massivamente no AM e no FM.
Né qualquer um que consegue não.



Minha Preta não fala comigo
desde primeiro de janeiro
Ela me deu a mala eu fui dormir na sala,
fiquei sem dinheiro
Não tem mais feijoada, nem vaca atolada,
rabada ou tropeiro
Já fez greve de cama diz que não me ama,
quebrou meu pandeiro
Na hora do cruzamento, ela deu impedimento
ou falta no goleiro
Pra aumentar meu tormento, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Com o gol anulado, saí do gramado,
voltei pro chuveiro
Isso tudo porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Caí de centro-avante, pra médio-volante,
agora sou zagueiro
No último domingo ela foi jogar bingo
e eu fiquei de copeiro
Ela fala, eu me calo, ela canta de galo
lá no meu terreiro
Ela apita esse jogo, ela é quem bota fogo
no nosso palheiro
Ela finge que não, mas no seu coração
ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro


Ela finge que não, mas no seu coração
ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro
 

7 de abril de 2013

Zamba Bem, Marku Ribas

A passagem de Marku Ribas motiva as devidas homenagens e por aqui não poderia ser diferente. Encontrei porém num texto do jovem e talentoso músico Paulim Sartori palavras precisas que compartilho por serem tão bem empregadas para uma tarefa nobre e necessária. 

 "Diz-se por aí, comumente, que quem nos deixa "vira estrela", ou seja, um astro no intangível céu. Hei de discordar parcialmente de tal aforisma. Certos seres, parece-me, os seres-no-mundo por excelência, que assim se assumem, encantam-nos justamente por serem astros (ou estrelas, como queiram) aqui mesmo no universo ôntico, esta dimensão repleta da mais bela e trágica imanência. Aqui, quando as coisas nos deixam, deixam-nos saudade – essa assimetria incurável da experiência fenomenológica. O paradoxo do tangível-inalcançável para mim se traduz por vezes quando ouço o célebre verso "vida, doce mistério".

Certa vez, dentro em minha irrisória finitude, saindo de um ensaio, deparei-me com a figura destoante de Marku Ribas; destoante porque este sempre portou o ar de um astro que, incompreensivelmente, habitava o âmbito terrestre. Não se questiona algo que emana de um mulato de mais de 1,90m de altura; simplesmente é-se ofuscado por aquilo. É mesmo como se o encontro com o astro fosse o imperativo do silêncio da admiração... cala-se. A estrela de Marku brilhou por todo o tempo enquanto esteve descendente dos céus. Num palco em Tiradentes, há uns anos, vi aquelas enormes mãos tangerem cordas percussivamente, harmonizando singulares e negras toadas, quiçá representações fidedignas de um Olimpo afro-brasileiro. É uma saudade que ficará.

Descrente da literalidade da posterioridade da morte, sempre preferi pensar na poética vívida e vivida. A carga simbólica que trespassa e transborda da obra de um autêntico artista tem mesmo um valor que intermedia o transcendente e o imanente, que legitima a fantasia da perenidade da alma e do pensamento, que faz da produção um hino a ser repetidamente bradado na transversal do tempo, ainda que em suas mais tenras margens.

Eis um canto marginal, genuinamente temperado pelo gênio de um mortal. E mais uma vez: a crítica que não toque na poesia. Zamba bem, Marku, que cá também zambamos."





Encontrei  uma boa entrevista de 2009 [aqui] em que o próprio Marku sintetiza sua trajetória e fala de seus projetos artísticos. Separei alguns trechos para que fiquem aqui suas palavras como traços riscados no plano da vida:

"A surpresa do chamado original, atávico, autóctone, que são sinônimos do mesmo sentimento, as pessoas que tem cultura própria onde nasceram, já ali. As manifestações folclóricas, a música erudita, eu tive a sorte de presenciar tudo isso com o meu pai, meu avô, meu bisavô, que era mouro. Meu pai, como médico, tinha muito interesse pela vida. Ele gostava de cantar coisas de Caruso, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Orlando Silva, fazia serenatas nas horas vagas. Captei a diversidade das coisas, até do cantochão, da música nas igrejas, a confluência indígena, com influência negras e com o meu avô materno português. Sou barranqueiro da gota, como existem os cariocas da gema, os paulistanos etc. Represento uma cultura do rio São Francisco que tem semelhanças de espectro com o Rio Vermelho da China, o Rio Nilo da África, o Mississipi americano, são sentimentos iguais em lugares díspares, mas com uma vivência muito igual de depender da pescaria, da chuva, do sol, da enchente. (...) Faço sons com as mãos, no rosto, na testa, na bochecha, desde que era criança, alguma coisa eu aprendi com a minha mãe. Uma verdadeira sinfonia corporal. Aí, descobri o gutural, os sons onomatopaicos que traduzem não palavras ou línguas, mas sentimentos. Fui incorporando isso tudo enquanto ouvia grandes violonistas como Dilermando Reis, Manoel da Conceição, Baden Powell, Manoel da Conceição Mão de Vaca, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, e um gênio da minha região, o Deoclécio, que morreu cedo tragicamente e que fazia cada “aranha” nos acordes que a gente não tinha a menor noção do que era, grande guitarrista e violonista. Sou parceiro de Erasmo Carlos, Walter Queiróz, João Donato, Djalma Correa. Tenho essa noção do violão cheio, violão magnífico, que se toca em todas as regiões do instrumento. Sou ainda um aprendiz de tudo, sim, mas tenho o bom senso e a sensibilidade de ter colocado alguns craques no jogo, como o baixista Artur Maia, o violonista Romero Lubambo, o tecladista Jotinha Moraes, que começaram tocando e gravando comigo. Vejo influências minhas em Eduardo Dussek, João Bosco, Tunai, Ed Motta e João Donato, entre outros.(...) Para quem não sabe, meu nome de batismo é Marco Antonio Ribas. Criei o personagem Marku para homenagear a tribo Cariri Macu, da minha região, onde tem um sítio arqueológico de 2.500 anos com resquícios históricos da vivência dessa tribo indígena na barranca do Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, entre Pirapora e Buritizeiros. Já escrevi contando coisas que ocorreram comigo entre o meu nascimento em 1947 até 1977. Acho que depois farei um segundo volume, contando todo o resto. Nasci em um 19 de maio com eclipse total do sol, que tem toda uma influência cósmica, elétrica, na espiritualidade, também. Vou contar histórias nesse livro que farão muita gente cair de costas (risos). Por exemplo, como era quando eu cheguei em São Paulo em 1967 e gravei logo de cara um LP pela Continental. Eu namorava a passadeira e lavadeira para livrar a passagem e a lavagem de roupa. (risos) Ia às cinco da manhã às rádios para fazer a divulgação do disco, que na época era chamada de “caitituagem”.

 
Assim se guarde a memória das gentes que zambam, junto à lembrança estrelada do Marku.