Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Mostrando postagens com marcador Delirium Tremmens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Delirium Tremmens. Mostrar todas as postagens

28 de dezembro de 2025

CATARSE


Há alguns meses, mais precisamente em maio deste ano, recebi do meu mais antigo parceiro costumeiro e contumaz, Pablo Castro, um convite instigante. A proposta era compor uma canção ao modo expresso, escrevendo a letra logo a seguir para a música que ele tinha praticamente acabado de compor. Achei ótima ideia e nos reunimos para pegar logo o touro à unha, como se diz. Era um roquenrou bem visceral, claro com alguns toques além do feijão com arroz que acrescentam à receita dos cavaleiros do após-calipso algo de brasileiro, uma síncope diferente, um batimento cardíaco mais apimentado. Recentemente inclusive me dei conta que a canção remetia um pouco ao "Punk da periferia" do Gil, ainda que isto, significativamente, não tenha vindo à baila de modo explícito na feitura da letra. 

Para trabalhar desse modo eu costumo aproveitar alguma coisa esboçada, que a combinação de intuição e experiência me permite captar rapidamente se encaixa com o que a música incita. Sendo assim, recorrendo aos arquivos eu catei esse título, acompanhado de rascunhos sem maiores elaborações. Era mais a vontade de ter uma canção assim chamada, considerando a força e apelo da palavra e o fato de não haver nada de notório com esse título. 

Em frente, então. Um ponto chave era um efeito meio beatlelesco de cruzar o coro vocal e a voz principal em uma mesma palavra como se os versos da sequência se encavalassem. Para ressaltar esse sobressalto, brincamos os sentidos possíveis da palavra olho, variando na função sintática como substantivo e verbo, e depois incorporamos óleo, praticamente homófona. Um tema forte, definido de cara, afinado com o título e com essa chave, era o dar a ver, o evidenciar. Mas, quase simultaneamente, veio o tempero, uma coisa irônica, crítica, uma verve muito nossa. Nesse caso, o esforço de trazer à tona o escondido não era resultante de uma atitude sistemática, organizada, mas de uma postura ambígua, de um jeito meio contraditório e maroto. Esses dois impulsos consegui sintetizar imediatamente no primeiro verso, "Ajo como suspeito pra disfarçar". Com a premência de produzir algo próximo do acabado em pouco tempo, o que fiz foi um experimento que não chega a ser escrita automática, mas em vários pontos soltava a caneta na trilha que a palavra anterior abria, mas "quebrava" a linearidade logo em seguida, num jogo que se retroalimenta indefinidamente. Neste caso acatei alguns pitacos do Pablo que eram muito dentro da proposta, como ir de "queda do muro" a "só pra escalar", ou um ajuste que enriquece um certo surrealismo como em "Venda, touro de ouro, PÓ DE brilhar" onde antes era "pode brilhar". Claro que a veia de historiador dá umas aparecidas nessas referências parcialmente criptografadas ao muro de Berlim e Wall Street, e a venda que remete ao véu que é uma imagem que Marx recorre constantemente para ilustrar o conceito de ideologia, a dialética essência x aparência e coisas assim em sua obra. Mas a letra também se desloca entre o público e o privado, enquanto oscila entre o escondido e o revelado. 

Em termos formais eu busquei mais rimas internas e sons muito reiterados, como "uro, urro, urro, uro"; ou o "g" em "rasga, garganta, gravata, juGular". Fiz também a referência indireta ao último disco do Pablo, O riso e o juízo. E no refrão veio certeira a citação de um verso do nosso parceiro mútuo, Makely Ka, "rimo a torto e a direito", de Eu não, gravada no disco Autófago (2008). O "eu lírico" da canção aí se afirma em suas humanas contradições e conclui decisivamente, "o que está feito, feito está", a Catarse portanto se realiza, apesar da palavra não constar da letra, o que eu eu acho deveras significativo. 



Catarse (música de Pablo Castro, letra de Luiz Henrique Garcia) – maio/25

 

Ajo como suspeito pra disfarçar

Cisco no canto do olho

Olho embaixo do pano, escancaro no ar

Do dedo-duro sussurro,  a revolta do urro

Queda do muro

Só pra escalar

Venda, touro de ouro

Pó de brilhar

Canta, rasga a garganta

Dá uma gravata na jugular

Senta, cai de maduro, vai levantar

 

Rimo a torto e a direito

E desse jeito

O que está feito, feito está

 

Rio do meu juízo pra decolar

Guardo no canto do olho

Óleo espalha do furo, escuro no mar

Um tiro pela culatra, que nada idolatra

Mira na lata

Pra destravar

Fenda, teia de renda

traio no altar

Nasce, rompe a placenta,

Foge do ventre pra respirar

Conto, não é segredo vou revelar

 

Rimo a torto e a direito

E desse jeito

O que está feito, feito está

7 de janeiro de 2019

PRA TOCAR UM BLUE

PRA TOCAR UM BLUE

Faz tempo que não escrevo para esta seção e hoje me veio direto num flash esse raio partido diretamente do início da década de 1990. Então um estudante secundarista começando a pôr o pé na rua para participar de passeata, campanha política, disputando grêmio estudantil, vivendo com bastante intensidade alguns momentos de inauguração. E foi ali também que um indisciplinado aprendiz de violão inaugurava também uma nova trilha na vida, tateando acordes mas riscando, com um pouco mais de convicção, as pautas das páginas que sempre sobravam nos enormes cadernos de 10 matérias, populares naquela época de ensino médio. Mal sabia eu então o grande espaço que a música popular viria ocupar em meu futuro, mas já estava de algum modo fisgado pela ideia de ser mais que meramente um ouvinte. E com algum tempo de convivência no pátio do colégio, tinha feito amizade com um sujeito de longos cabelos, atitude rebelde, e, sobretudo, muito inteligente e talentoso. Enquanto eu era ali um iniciante, Pablo Castro já tinha anos de palco, banda, canções de sua própria lavra. A banda em questão, baseada em Juiz de Fora, se chamava Delirium Tremmens, era formada por ele, seu primo Aluísio Ribeiro (esquematicamente eles se dividiam entre as guitarras solo e base, mas tocavam outros instrumentos também), Messias Lott no baixo e Luciano Baptista na bateria. Fui conhecendo e curtindo o som da banda - ousado e singular - e em algumas poucas oportunidades também pude acompanhar ensaios e shows. Eu era, para todos os efeitos, ainda meio preso, pouco móvel, e na verdade descobria de fato alguma independência naquela época. E era, para todos os efeitos, muito careta. Talvez fosse através dos escritos, incipientes arroubos juvenis, que possivelmente eu me visse escapando um pouco de um cotidiano previsível. Tudo era incipiente, mas ali eu vislumbrava a chance de fazer algo de criativo. 
Em meio a muitos acontecimentos que inflariam demais esse texto, o negócio é que a banda venceu um concorrido concurso promovido pelo Jornal do Brasil, em 1993, cujo prêmio era gravar uma demo no Rio de Janeiro. Nesse ínterim, o Pablo estava compondo um rock danado - bem acima da média, cá entre nós - com um riff bem elaborado, uma forma interessante, uma levada empolgante e energética, como os leitores poderão comprovar ouvindo e assistindo a performance do Delirium Tremmens. Num dia em que eu estava na casa dele, já depois de anunciado o prêmio, num dado momento em que o Pablo estava ocupado com outro assunto eu me vi diante de papel, lápis e oportunidade, de modo que me arvorei, sem combinação alguma, a fazer a letra da canção, tirando inspiração justamente da eminência da ida da banda ao Rio. A letra foi feita numa sentada, e traz algumas sacadas pouco usuais para um rock jovial, como rimas internas e brincadeiras metalinguísticas sobre gênero musicais: o blues, obviamente reforçado no refrão, inclusive na inusitada referência ao vidro de remédio (alvo de vários trocadilhos internos), que me veio à cabeça porque eu andava brincando de usar um para tocar slide, sem proficiência alguma; a bossa nova, à qual eu remeti pelo vocabulário que usava para falar de um Rio mais estereotipado impossível, e o próprio rock and roll. Mas sobretudo minha ideia foi fazer uma espécie de carta de intenções firmadas a partir da ida da banda à Cidade Maravilhosa.
Logo que mostrei, diante da surpresa, felizmente sucedida de convicta aprovação, nasceu nossa parceria, que portanto já acumula mais de um quarto de século de atividade. Foi também, muito apropriadamente, a minha primeira letra de canção a ser gravada em estúdio, no Sonhos e Sons do Marcus Vianna, em 1994.



Pra tocar um blue (Pablo Castro/Luiz H. Garcia)

É maio, eu saio e fico assim
olho pra baixo e caio em mim
É Rio e eu crio fé na mão
ando pra frente pé no chão

Escapo do sofá do prédio
e compro um vidro de remédio
pra tocar um blue

É dia e eu ia ver o cais
mas tô cansado e além do mais
É Rio e eu crio um roquenrou
pra te dizer onde é que eu vou

Escapo...

Entorno a noite e a madrugada te esperando
um blue e nada mais rolando

É sal e eu mal posso entender
a vida é dura de viver
É Rio e eu crio um céu azul
que não combina com meu blue

Escapo...

Entorno a noite...

É sol e eu volto a repetir
há muita estrada pra seguir
É Rio e eu crio um novo som
e canto sempre no meu tom

Escapo...