Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

5 de dezembro de 2011

Ainda música popular e futebol

Continuando, que o assunto é empolgante. Duas jóias que pra mim conseguem captar de modo muito particular a plástica, a dinâmica, a estética do futebol, são O futebol, do Chico, e 1x0, choro de Pixinguinha e Benedito Lacerda em homenagem a uma vitória do Brasil sobre o Uruguai que depois veio a receber uma letra espetacular do Nelson Angelo.

Futebol, música popular e a dança das emoções

Domingo de grandes emoções proporcionadas pelo futebol, díspares e antípodas, lamento pela morte do Sócrates, júbilo pela goleada retificadora do Cruzeiro sobre o 6alo.
Uma das músicas mais expressivas dessas contradições, pra mim, é Aqui é o país do futebol, do Milton e do Brant, interpretada magistralmente pela Elis*.

* [da postagem de mpbmusikavideos, no You Tube: Elis Regina Portugal 1978 '' Aqui é o país do futebol '' Lisboa, Portugal, Teatro Vilaret, 1978
banda: César Camargo Mariano kb/Sizão Machado b/Natan Marques gtr/Crispim gtr/Dudu Portes dms


E pra completar outra pérola do repertório futebolístico do Bituca (que nas peladas invariavelmente atacava de juiz), aqui na interpretação do ilustríssimo e completíssimo Maurício Ribeiro**!
 
Belíssima homenagem aos lances geniais do craque Tostão.

**[do portalsesc no YouTube]: Violonista mineiro, foi um dos vencedores da 8ª edição do prêmio BDMG-Instrumental. No show, Maurício interpretará músicas autorais como "Ventania no cerrado" e "Choro pelo meu time que perdeu", com as quais venceu o prêmio, além de músicas de Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e Ulisses Rocha.

Formação:
Edson Fernando -- percussão
Enéias Xavier -- baixo
Joana Radicchi -- flauta
Vinicius Augustus -- sax e flauta
Maurício Ribeiro -- violão

4 de dezembro de 2011

A voz das águas

De passagem - mais uma vez, com muita felicidade - por Governador Valadares, entre tanta conversa boa e troca de ideias, sob inspiração do Rio Doce e de muita poesia, o encontro das águas com a canção popular e a promessa de artigo em parceria.
Da lista já começada, para complementar outra ainda maior, pinço: Rio Doce (Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Tavinho Moura) A terceira margem do rio (Milton Nascimento/Caetano Veloso) Canoa canoa (Nelson Angelo e Fernando Brant)
Os leitores do blog estão convidados a fazer sugestões para a lista...

Encontro da música popular com o futebol

Já pensava em fazer alguma postagem tratando do encontro da música popular com o futebol. Muitas possibilidades, muitas conversas sobre os jeitos do Brasil. Mas eis que o momento impõe, quando a tristeza encontra a memória de outros tempos, a homenagem ao Sócrates, o doutor. Em 82, aos 6 anos vi de fato a Copa pela primeira vez, encantando com a seleção, com a festa nas ruas e casas, com as músicas que acompanhavam as batidas dos corações brasileiros.

2 de dezembro de 2011

Na estante: A linguagem harmônica da Bossa Nova

Em um trabalho recente bastante elucidativo, A linguagem harmônica da Bossa Nova, José Estevam GAVA realizou comparações entre harmonizações tradicionais para canções da década de 1930 (que denominou de “velha guarda”) e composições com harmonizações bossanovistas. Sua principal constatação conduz a uma ponderação a respeito de seu caráter inovador: “(...) os novos procedimentos empregados são praticamente todos montados sobre a estrutura das mesmas funções tonais que têm servido de apoio às nossas composições populares de forma geral” (GAVA, 2002: 240). O que ocorre, segundo o autor, é que o uso de notas estranhas à tríade básica do acorde deixa de ter uso ocasional e ornamental e passa a fazer parte do plano estrutural da harmonia. Resumidamente, o novo tratamento para o acompanhamento violonístico permitiu a articulação voz-violão num arranjo a quatro vozes e a criação de uma ambientação vaga e inusitada através do uso dos acordes dissonantes que evitam um encadeamento previsível (GAVA, 2002: 239). Assim, a principal inovação harmônica foi uma sensação de indefinição resultante das “(...) longas seqüências de acordes alterados que enfraquecem as idéias de direcionalidade e causalidade tonais.” (GAVA, 2002: 240). Além de muito instigante, a discussão do livro é sustentada por uma pesquisa discográfica e bibliográfica consistente, e tem o mérito extra de, sem abrir mão da consitência teórica e técnica, ser apresentada de modo acessível a quem não tem formação musical acadêmica. Ótima leitura.