Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Tô meio apertado de serviço para produzir qualquer coisa mais substanciosa que faça conexão entre os estudos de desastre em geral e o recente acontecido em Mariana. O que posso dizer é que nessas horas se revela a importância da História. É ela que permite, por exemplo, estabelecer os nexos profundos entre esse tipo de desastre, o modelo de civilização que adotamos, e as forças que se mobilizam na arena política e no campo da cultura para produzir a justificativa e perpetuação de um estado de coisas. Pelas leituras, e também pela pesquisa em jornais que fizemos, quem se interessar poderá constatar que os recursos retóricos não variam muito, sempre recorrendo ao conceito de "fatalidade" e afins como forma de isentar os responsáveis [ver a fala do secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Altamir Rôso], e que escusos interesses comerciais invariavelmente estão presentes e são em boa parte os responsáveis por essas catástrofes, que nada tem de natural.
A Estratégia Internacional de Redução de Desastre (ISDR) da ONU define desastre ou catástrofe como “grave perturbação do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade envolvendo perdas humanas, materiais, econômicas ou ambientais de grande extensão, cujos impactos excedem a capacidade da comunidade ou da sociedade afetada de arcar com seus próprios recursos” (UNISDR, 2009). O risco, portanto, não se caracteriza tão somente a partir das condições naturais, mas da combinação de fatores espaço-temporais que levam em conta os limites de adaptação ou resiliência aos eventos em questão. Daí a importância de utilizar o conceito de vulnerabilidade social, que nos permite articular a percepção dos indicadores de risco ambiental à das desigualdades que caracterizam a ocupação dos territórios, de modo a identificar populações que estão sob condições mais desfavoráveis e repensar políticas públicas que sejam efetivas para combater tal vulnerabilidade. Quem quiser se aprofundar nessas discussões pode recorrer à página do projeto que coordenei enquanto fui professor da Univale, em Governador Valadares [aqui].
Mais uma coisa a se aprender (será que é possível???) - e aqui fica o lamento porque tantas vezes nesse mundo nosso as preocupações e reflexões só deslancham depois que o caldo entorna - é o valor dos profissionais de campos de conhecimento, dos que entendem do riscado e fazem alertas sobre situações como essa por anos e anos [ver o relatório de 2013]. Dos pesquisadores, dos funcionários de órgãos públicos, anônimos, quase afônicos, que redigem relatórios catataus que ninguém lê. Ou que são silenciados pq o que têm a dizer contraria interesses poderosos, vai contra a força da grana. Existe uma falinha nefasta que circula pelas mesas das recepções bacanas, pelas festas invocadas, pela night dos bem nascidos, pregando a privatização de tudo, denegrindo o servidor público em geral, e outras asneiras afins. Mas não é assim que devem ser visto, e sim como servidores, aliados de todos nós sociedade civil, de nós, cidadãos, gente comum que não tem acesso, que não banca campanha de deputado, que não sonega quantias vultuosas nem mantém conta na Suíça. De nós, meros. Essa mesma gente da falinha jamais ergue a voz pra questionar algo que um empresário faz. No máximo sussurra ao pé do ouvido. Pode ser perigoso, seus filhos podem ouvir e começar a achar que ser empresário e ser "do bem" não é a mesma coisa. Enquanto a sociedade não revê seus valores, vamos nessa, um dia todas as torneiras irão jorrar lama. Tóxica.
Mas outras falas se acumulam e se postam contra uma outra morte, a morte do esquecimento, do engano, da omissão, a morte das brechas da lei, dos homens que sabem andar por elas. Somos pela vida e contra todas essas 2as mortes que desde já querem impingir aos mineiros assassinados pela ganância e pela inépcia, pela lama da indústria do minério. E nesse sentido eu recorro à belíssima - e tristíssima - canção Simples, de Nelson Angelo, gravada primeiramente por Milton Nascimento no LP Minas, em 1975. A densidade do arranjo, também obra de seu compositor, expressa perfeitamente a atmosfera pesada que a letra enuncia, ironicamente talvez não tendo muito de simples. O final, arrebatador, é lançado pela poderosa imagem da criança. Se até aqui o eu-lírico nos conduz, de repente como um Virgílio a nós como Dantes a encarar a conversão da terra em inferno, e até então cumpria-nos simplesmente olhar, a criança, interposta - "ali sentada" - diante de nossos olhos, como que antes do cenário de desolação, nos olha de volta. É a expressão do colapso do futuro, de sua eminente não realização. Mas enquanto a voz dilacerante de Milton se perde na micro-eternidade do estéreo, o acorde final é como uma revoada de sons e pássaros, uma promessa de regeneração. Promessa que, ainda que ameaçada, resiste, daí sua volta como expressão de início/nascimento nos primeiros compassos de Geraes (1976), que abre justamente com Fazenda, a canção gêmea desta também escrita pelo Nelson Angelo. Acabei achando uma versão ao vivo executada em 1990, que não conhecia. Encontrei também, por tabela, uma apresentação ao vivo de 1983 em que Bituca executa A chamada, seu impressionante canto de sereia composto inicialmente para a trilha de Os deuses e os mortos de Ruy Guerra. O arranjo de "Simples" nessa performance de 1990, que infelizmente pelo vídeo não consegui determinar o autor, parece ter tirado ideias dela.
Simples (N.Angelo)
Olha a volta do rio virou a vida
A água da fonte nossa tristeza
O sol no horizonte uma ferida
Olha o ouro da mina virou veneno
O sangue na terra virou brinquedo
E aquela criança ali sentada
Quinta indicada - CANOA, CANOA, de Nelson Ângelo e Fernando Brant. Canção ímpar, violenta em seu intervalo de trítono na melodia febril de Nelson Ângelo, que se tornou, como Fazenda, do mesmo autor, um clássico sem nunca ter sido muito tocada nas rádios ou nos shows do intérprete Milton Nascimento. Com uma tonalidade ambígua, a harmonia passeia entre um sol maior e um si menor, sem nunca se definir claramente, a não ser no B, espécie de refrão, que é claramente em mi menor. A tradução do tema indígena* para a canção popular foi uma veia usada por Fernando Brant em pelo menos mais uma música : Promessas do Sol, mas Canoa Canoa talvez seja uma experiência ainda mais bem sucedida, com um refrão contendo nada mais do que nomes de peixes amazônicos** e ainda assim sendo altamente contagiante e poderoso. Arranjo primoroso do compositor, que toca o violão, com Wagner Tiso ao Piano, Nenê na Bateria, e Novelli no baixo acústico, além de Danilo Caymmi na Flauta. [Por Pablo Castro]
CANOA, CANOA Canoa canoa desce No meio do rio Araguaia desce No meio da noite alta da floresta Levando a solidão e a coragem Dos homens que são Ava avacanoê Ava avacanoê Avacanoeiro prefere as águas Avacanoeiro prefere o rio Avacanoeiro prefere os peixes Avacanoeiro prefere remar Ava prefere pescar Ava prefere pescar
Violão e vozes: Milton Nascimento violão: Nelson Ângelo e Paulo Jobim piano: Wagner Tiso baixo: Novelli flauta: Danilo Caymmi bateria: Nenê bambu e pios: Pedro dos Santos cellos: Márcio Mallard, Watson Clis, Jacques Morelenbaum e Alceu Reis coro: Milton Nascimento, Novelli, Nelson Ângelo e Lô Borges arranjo vocal: Milton Nascimento orquestração e regência: Nelson Ângelo
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Notas do editor:
* Algumas informações sobre os Avá-Canoeiros e sua situação recente, aqui e aqui .
Foto: Mario Chimanovitch, 1974
** Alguns dos peixes citados na letra: aqui e aqui.
"E eu fui tirando muitos temas também da natureza. “Canoa, canoa.” Era
fruto do meu trabalho de leitura, de informação. “Canoa, canoa” é porque
é um negócio dos Ianomâmi… Ianomâmi não, Avacanoeiros. O Tavinho que me
contou essa história e eu fui procurar saber mais. O negócio deles é
viver na canoa. A casa deles é a canoa. A melodia é impressionante.
Quando veio, eu falei: “Não, isso só pode ser. Está batendo o remo”. É
impressionante. Negócio de letrista é um negócio engraçado, porque
quando a gente vai fazer a letra… Normalmente, se você ouve a música, aí
você fica querendo saber o que aquela música quer dizer. O processo
primeiro é esse. Até descobrir o que a gente chama o mote. Quando
descobre, aí a gente faz fácil. Antigamente às vezes a gente tinha
dificuldade, às vezes ficava muito tempo sem fazer, porque dependia
muito da provocação do parceiro mandar música. Quando a gente ia pegar
uma música, demorava. Eu me achava burro pra danar. Mas quando você acha
qual é da música… O som da música tem muito a ver pra você achar as
palavras pra caberem ali. É um processo mesmo de parceria. É um negócio
interessante."
Como sempre a intenção é começar o ano com novidades e dar uma agitada no blog.
2a. Série As 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro Atendendo a muitos pedidos, uma nova série com mais 30 canções essenciais do Clube da Esquina, analisadas com o estilo inconfundível de meu grande parceiro, com exclusividade no blog Massa Crítica MPB. A série deve retornar ainda em janeiro.
Série Bolacha completa
Desde que observei o significativo aumento da disponibilização de discos completos em várias plataformas próprias da internet, com possibilidade de compartilhamento sem fins comerciais, estava com vontade de inaugurar uma série dedicada a explorar com um pouco mais de detalhe um álbum por inteiro. Para começar uma contribuição do meu parceiro Pablo Castro sobre o LP Nelson Angelo e Joyce (1972*):
Nelson Ângelo, belorizontino radicado no Rio, é um dos maiores harmonizadores do Clube da Esquina. Participou ativamente como instrumentista nos maiores clássicos de Milton , e teve várias pérolas gravadas por ele, das quais se destacam Fazenda, Canoa, Canoa, Testamento, Simples, Sacramento, Quatro Luas, e teve a canção Tiro Cruzado regravada por Tom Jobim e ainda por Sérgio Mendes. Exímio conhecedor do violão, é um investigador de inusitadas e marcantes possibilidades harmônicas inovadoras, além de incisivo melodista.
Foi casado com Joyce , com quem formou o grupo A Tribo (que contava também com Toninho Horta e Naná Vasconcelos), e depois lançou com ela o célebre álbum Nelson Ângelo e Joyce, de 1972, sua contribuição fundamental para o acervo fonográfico do Clube Da Esquina, com a participação de Toninho Horta, Novelli, Beto Guedes, Lô Borges, Wagner Tiso, o saudoso Tenório Jr, Danilo Caymmi, no auge das contribuições coletivas do grupo.
Esse disco é fundamental para se entender o Clube da Esquina, uma vez que, além das contribuições dos músicos, há letras de Márcio Borges e Ronaldo Bastos, além das do próprio Nelson, e uma de Joyce, e desvela as cores mais ripongas entre as composições do grupo. Orquestrações lindíssimas, o convívio onírico entre flautas, violões e violas, a voz cristalina de Joyce, que poderia ser considerada, em termos, como a única intérprete feminina nos discos fundamentais do Clube, com seu canto belo e sem ornamentações, perfeito para dar brilho e corpo para as surpreendentes soluções melódicas do parceiro. Meia hora de surpresas musicais que 40 anos depois não deixam de encantar.
Fundamental !
Segue o disco completo para audição e o link [aqui] do site Disco do Brasil, que traz a ficha técnica faixa por faixa.
Parte 4, feita no sufoco num sábado com mais trabalho que diversão. Mas vamos que vamos, e quem quiser passar pelas outras partes pode conferir aqui mesmo a lista completa do blog:
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Lista do Clube - a saga continua ! N° 19 UM GOSTO DE SOL, Milton e Ronaldo Bastos. Ponto de interseção com a mais
consagrada Cais, dos mesmos autores, Um Gosto de Sol se revela, por
outro lado, um viés talvez mais existencialista - em vez
de "e sei a vez de me lançar", o que implica, apesar de todo o
ceticismo, ainda uma ação, temos aqui a memória de um enigmático relance
como prova da inexorabilidade da perda ou, para uma pera esquecida na
fruteira, o apodrecimento dos sonhos e do riso que não voltam mais... A
incompletude humana se espelha nas reticências do que é dito, e
sobretudo do que não é dito mas é intuído e sentido na música. Um Gosto
de Sol é a ocasião propícia para o piano de Bituca, num 6/4 fluido que
as divisões "estacatas" dos acordes são contrabalançadas pelas longas
notas da linha de baixo ( no piano), enquanto o sutil reverb na voz de
Milton corrobora o distanciamento de toda a cena. O tema final , na
verdade é o mesmo que aparece no fim de Cais, e consiste numa linha de
baixo descendendo sobre blocos de acordes em Dó Menor ( Um Gosto de Sol é
em Dó Maior) e, de fato, a melodia é o baixo, que, depois de transpor
o trecho primeiro para a subdominante, modulando em seguida ao relativo
maior, passa por um acorde aumentado e a melodia em escala de tons
inteiros, o que confere um distinto senso de perda de direção que na
verdade é o subtexto de toda a canção. Gravada no disco Clube da Esquina
(1972), é o momento mais dramático do disco.
UM GOSTO DE SOL Alguém que vi de passagem Numa cidade estrangeira Lembrou os sonhos que eu tinha E esqueci sobre a mesa Como uma pêra se esquece Dormindo numa fruteira Como adormece o rio Sonhando na carne da pêra O sol na sombra se esquece Dormindo numa cadeira
Alguém sorriu de passagem Numa cidade estrangeira Lembrou o riso que eu tinha E esqueci entre os dentes Como uma pêra se esquece Sonhando numa fruteira
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A vigésima escolhida é
SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar), canção de Milton e
Fernando Brant na rara métrica de 5/4, tematizando o passado pré-64, o
tempo dos bondes, da primeira coca-cola, da campanha da Itália, sobretudo da companhia aérea brasileira Panair, perseguida pelo
regime militar e que faliu poucos anos depois do golpe. E tematizando,
também, por outro lado, a conversa do bar, de forma que os dois títulos
da música incorporam na verdade os dois temas da letra. Como é comum
nas melhores letras do Clube, vozes ocultas e frases malditas aparecem
como assombrações do passado na camisa de força de Minas, o lado sombrio
da cultura montanhesa- "no fundo do quintal morreu, morri a cada dia
dos dias que eu vivi". O coro semi-afinado de bebuns homens comuns na
mesa do bar conduz a música até que Milton assuma, com sua voz de Deus:
nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar.
Percussões variadas e agudas, violões rasqueados e súbitos, coros
gregos, sussurros sombrios, os meninos Paula e Bebeto, guitarra de
Toninho Horta, um caleidoscópio de sons e memórias... Para a magnífica
coda, a tempo vira para 3/4, e o ciclo de quartas desce como um
carrossel enquanto a cena é vista cada vez de um ponto de vista mais
distante, em volta da cidade .... Absolutamente magistral!
SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar)
Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeira E o motorneiro parava a orquestra um minuto Para me contar casos da campanha da Itália E do tiro que ele não levou Levei um susto imenso nas asas da Panair Descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno nas asas da Panair
E lá vai menino xingando padre e pedra E lá vai menino lambendo podre delícia E lá vai menino senhor de todo o fruto Sem nenhum pecado sem pavor O medo em minha vida nasceu muito depois descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair
Nada de triste existe que não se esqueça Alguém insiste e fala ao coração Tudo de triste existe e não se esquece Alguém insiste e fere o coração Nada de novo existe nesse planeta
Que não se fale aqui na mesa de bar E aquela briga e aquela fome de bola E aquele tango e aquela dama da noite E aquela mancha e a fala oculta Que no fundo do quintal morreu Morri a cada dia dos dias que eu vivi Cerveja que tomo hoje é apenas em memória Dos tempos da Panair A primeira Coca- Cola foi me lembro bem agora Nas asas da Panair A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo nas asas da Panair
Em volta desta mesa velhos e moços Lembrando o que já foi Em volta dessa mesa existem outras falando tão igual Em volta dessas mesas existe a rua Vivendo seu normal Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais Em volta da cidade
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FAZENDA é a de número 21, letra e música de
Nelson Ângelo, que abre o disco Gerais (1976), dando o tom mais 'regional'
de um álbum que contém coisas como Calix Bento, Carro de Boi, Circo
Marimbondo, a andina Caldera e Volver a
los 17 e a indígena Promessas do Sol. O poder de síntese do músico
Nelson Ângelo na feitura dessa letra é de se admirar, tecendo por meio
de imagens todo o cenário de uma experiência tão comum daquela época:
as férias na fazenda de algum parente... cabe ressaltar que o
cancioneiro do Clube tem um lugar deveras importante para o tema da
infância: podemos citar Era Menino ( Beto Guedes , Tavinho Moura e Murilo Antunes),
Tesouro da Juventude ( Tavinho e Murilo) [já comentada na 1a. parte desta lista], Pablo ( Milton e Ronaldo
Bastos), Gabriel ( Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Maria Solidária (
Milton e Fernando Brant) Dindilin (Tavinho Moura e Fernando Brant )
Bola de Meia, Bola de Gude (Milton e Fernando) e outras. Fazenda
incorpora esse olhar pelas experiências sensoriais que a Fazenda e a
vida lúdica das férias representam, especialmente intensas quando se é
criança. Musicalmente ela se baseia em uma frase melódica simples, com
apenas 3 notas, mas escolhidas a dedo: a quinta , a sétima e a sétima
maior de um tom menor (no caso, Si), numa sequência de 3 acordes
menores : Bm7, Gm7 e F#m7. Nesse caso, parecemos estar em Si menor ou
seu relativo Ré maior. ( Milton talvez seja o grande precursor em
encadear belamente sequências de acordes menores sem maiores relações
clássicas de parentesco harmônico) Na segunda sessão desse grande A,
que leva a um "proto-refrão", vamos para Lá maior, tom próximo do
anterior, e a melodia , mantendo sua unidade, sobe o perfil a alturas
maiores, a voz de Milton com seu costumeiro reverb divino , parece vir
do alto da montanha : e no amanhã , nós ... A orquestração de Nelson
Ângelo risca notas agudíssimas, algumas curtas, outras longas, mas
sempre em uníssono, em vez de acordes; enquanto as flautas colorem
bicas no quintal, Beto Guedes canta algo como " tinha arara " como
segunda voz e na despedida, com a bateria espetacular de Robertinho,
ficamos suspensos naquele fio de memória ... Ficha Técnica: Milton
Nascimento - Voz e Violão Nelson Ângelo : Viola de 10, violão e
orquestração Novelli : Baixo e piano Robertinho Silva : Bateria Beto Guedes : Vocal, se não me engano...
FAZENDA
Água de beber Bica no quintal Sede de viver tudo E o esquecer Era tão normal que o tempo parava E a meninada respirava o vento Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós(2x) Água de beber Bica no quintal, sede de viver tudo E o esquecer Era tão normal que o tempo parava Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa Tinha o sol da manhã E na despedida, tios na varanda, jipe na estrada E o coração lá(4x)
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MILAGRE DOS PEIXESé a escolhida de número 22,
na lista das 30 melhores do Clube da Esquina. Parceria entre Milton e
Fernando Brant, deu nome ao disco de estúdio, o mais experimental de
Bituca, e o de orquestra ao vivo, o mais grandioso. Nessa
música Milton consagra de vez sua assinatura harmônica, levando às
últimas consequências os cromatismos harmônicos descendentes que vinham
desde Canção do Sal, passando por Sentinela, Nada Será como Antes,
Novena, A Sede do Peixe (que antes era um tema instrumental) , e a
sublime Vera Cruz, e os movimentos harmônicos sobre o baixo pedal, que
se verificam em canções como Morro Velho, Fé Cega, Faca Amolada, Maria,
Maria, Ao que Vai Nascer, Os Povos, Amigo, Amiga, Cadê, Tema de Tostão e
outras. Para leigos, esses cromatismos são pequenos grandes
movimentos de fuga do campo harmônico onde estávamos no momento
anterior, enquanto o baixo pedal é a manutenção de uma nota grave com a
qual os acordes que mudam vão mantendo diferentes relações. Em Milagre
dos Peixes, ambos os procedimentos são fundidos como em nenhuma outra,
num equilíbrio que a destacou até dentro do repertório absurdamente rico
e original de seu criador, o que logo foi notado por Wayne Shorter, com
quem Bituca gravou, no mesmo ano, um álbum em parceria, Native
Dancer. Milagre dos Peixes é também um dos maiores feitos de seu
letrista, Fernando Brant, condensando o forte signo dos 'peixes' com o
jugo verde da ditadura e da já poderosa presença da televisão, amarrando
vários dos interesses fundamentais do credo, ou do ethos, do Clube ,
entre eles o elo redentor da amizade, o amargor da situação política, e
as metáforas de longo alcance, o que permitiu que não se reduzissem
àquele contexto histórico. A forma é exemplar : um estrilho que começa
(e termina) a parte cantada, uma estrofe, um B, que leva de novo ao A
e fecha com o estribilho, repetido para a improvisação vocal de Milton e
um chorus clássico para improvisação jazzística. Extra-terrestre ! :)
Ficha técnica: Mliton
: Voz e violão Toninho : guitarra Wagner : piano e órgão Nivaldo :
sax Robertinho : bateria orquestração : Wagner Tiso
MILAGRE DOS PEIXES
Eu vejo esses peixes e vou de coração Eu vejo essas matas e vou de coração à natureza
Telas falam colorido de crianças coloridas De um gênio televisor E no andor de nossos novos santos O sinal de velhos tempos Morte, morte, morte ao amor
Eles não falam do mar e dos peixes Nem deixam ver a moça, pura canção Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol E eu apenas sou um a mais, um a mais A falar dessa dor, a nossa dor
Desenhando nessas pedras Tenho em mim todas as cores Quando falo coisas reais E no silêncio dessa natureza Eu que amo meus amigos Livre, quero poder dizer
Eu vejo esses peixes e dou de coração
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A vigésima terceira é PEDRA DA LUA, de Toninho
Horta e do saudoso poeta e letrista Cacaso. Toninho é este artista
impressionante e expressionista da harmonia, e nessa canção ele já
inicia o discurso com um acorde altamente
dissonante , um alterado com a seguinte cifra : E7M(b10), segundo a
nomenclatura do mestre mundial em teoria da harmonia, o brasileiro
Fábio Fabio Adour. O que é mais fascinante é como Toninho consegue dar sequência lógica
funcional a acordes aparentemente "irracionais", e a metáfora da pedra
da lua converge perfeitamente à estranheza de alguns acordes. A música
acaba por se revelar como uma colcha de retalhos de fragmentos de
memórias, e a mãe é a figura central. A infância é mais uma vez
resgatada com imagens aparentemente desconexas , pequenos jogos de
palavras com múltiplas ressifignações (lembrei desse termo vendo a
entrevista do Gil no Jô !), e a pedra da lua, a mais enigmática... A
forma, que, enredando sutilmente o fim de uma estrofe com o início de
outra, proporciona um aspecto cíclico, faz com que tenhamos mais uma
vez , tirando a introdução vamp nesse acorde de Mi alterado já referido
acima, apenas uma seção, um A repetido , enredado e diferido, mas não um
B contrastante. Talvez, do ponto de vista da estrutura formal, a
"lição" mais clara da apreciação da obra do Clube seja essa
sinteticidade que permite as maiores aventuras harmônico - melódico -
rítmicas sem que a fruição da canção se perca num hermetismo, numa
música para músicos. Essa relação equilibrada com procedimentos
arquetípicos da música popular no fim das contas aparece muito sob o
aspecto da forma. Aqui, por exemplo, temos essa seção principal da
música com 12 compassos, o que é um número presente , por exemplo, no
blues ... temos também em comum esse clima melancólico, profundo, perene
que as pedras pontudas dos acordes nos arranham os ouvidos e
corações...
PEDRA DA LUA
Dia, mania Tarde covarde, noite açoite Minha mãe calma e serena Com seu sorriso inseguro Toda vestida de branco Hoje parece mentira Hoje parece verdade Menino levante cedo Menino não chegue tarde Dia folia, tarde covarde Minha mãe no seu piano Morrendo dentro da tarde Com seu sorriso mais puro Toda vestida de branco Velando os meus passos Velando os meus tropeços Menino não morra cedo Menino não chegue tarde Dia mania...
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A vigésima-quarta da nossa lista é PAIXÃO E FÉ, de Tavinho Moura e Fernando Brant. Esse clássico que toca todo dia na Rádio Inconfidência às 6 da tarde (ou pelo menos tocava) celebra as raízes religiosas da cultura interiorana mineira, evocando
as procissões, os cultos católicos entranhados na alma alterosa. Tavinho, com sua harmonia arrojada de acordes perfeitos, e métrica
irregular, sai de lá maior , e rapidamente para mi maior, para
desembocar em sol maior no refrão. Essas constantes modulações soam
como degraus ascendentes frente à revelação espiritual da fé e da
paixão. A agonia fica por conta de súbitos empréstimos modais que se
resolvem via cromatismos ascendentes heterodoxos. Milton a gravou na
super-produção do disco Clube da Esquina 2, onde ele experimentou
particularmente o recurso de sua própria voz dobrada (aqui alternando
entre intervalos de terças e oitavas), enfatizando aquele aspecto
místico - religioso do seu canto. Beto Guedes estrela no seu virtuoso
bandolim e os Canarinhos de Petrópolis fazem o contraponto angelical
dessa canção de louvor à Fé e à Paixão. Clássico Imortal, e um exemplo
de como a música pode abordar a religiosidade cristã sem aquele
pedantismo evangélico que tanto caracteriza o gênero gospel .
PAIXÃO E FÉ
Já bate o sino, bate na catedral E o som penetra todos os portais A igreja está chamando seus fiéis Para rezar por seu Senhor Para cantar a ressureição
E sai o povo pelas ruas a cobrir De areia e flores as pedras do chão Nas varandas vejo as moças e os lençóis Enquanto passa a procissão Louvando as coisas da fé
Velejar, velejei No mar do Senhor Lá eu vi a fé e a paixão Lá eu vi a agonia da barca dos homens
Já bate o sino, bate no coração E o povo põe de lado a sua dor Pelas ruas capistranas de toda cor Esquece a sua paixão Para viver a do Senhor
Em meio às atribulações de final de semestre típicas da vida de professor, o projeto antigo dessa lista que finalmente ganha forma, e as centenas de acessos que já receberam as partes das "30 mais geniais do Clube da Esquina" [completa, aqui] pelas mãos de meu grande amigo e parceiro Pablo Castro me lembram o verdadeiro valor do tempo que podemos despender naquilo que amamos. Convido os leitores a compartilhar conosco esse tempo. Desde já obrigado pelo prestígio e pela presença.
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Não tenho como deixar de homenagear Oscar Niemeyer aqui, e sem forçar nada a barra - a décima-terceira escolhida é CÉU DE BRASÍLIA de Toninho Horta e Fernando Brant. A grandiosidade da obra arquitetônica da capital inventada no meio do nada no Planalto Central só poderia ter uma tradução musical tão engenhosa quanto. Uma longa introdução no fortíssimo , com uma guitarra distorcida (!) e banda e orquestra já dá o recado do nível de transbordamento que a faixa carrega , condensando a cadência harmônica a ser desenvolvida adiante, quando se tudo se esvai e resta o violão e a voz de Toninho , numa terna balada : " a cidade acalmou ..." Brant ousava ser mais concreto , alguém diria até prosaico, quando não compunha com Milton, e a letra vai construindo "ingenuamente" o caminho que descreve as alturas da música de Toninho. "O horizonte imenso aberto sugerindo mil direções" é o ápice desse vôo, que começa tão pé no chão. É com naturalidade que a melodia, angulosa e com inúmeros saltos, como é típico de seu autor, vai se adensando ao arranjo e criando uma "tour de force" , catapultando o homem comum aos imensos horizontes que um dia o arquiteto Oscar ilustrou com suas ambiciosas e descomprometidas curvas. "E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez ..." de todas as músicas de Toninho, pra mim essa é a mais emocionante, transcendental, intensa, para além da sua costumeira elegância e inteligência como compositor. Notável que nela, ele não só toque guitarra, violão e baixo, como faz a formidável orquestração.
CÉU DE BRASÍLIA
A cidade acalmou logo depois das dez Nas janelas a fria luz da televisão divertindo as famílias Saio pela noite andando nas ruas
Lá vou eu pelo ar asas de avião Me esquecendo da solidão da cidade grande, do mundo dos homens num vôo maluco que eu vou inventando
E vôo até ver nascer o mato, o sol da manhã, as folhas, os rios, o azul Beleza bonita de ver
Nada existe como o azul sem manchas do céu do Planalto Central e o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez...
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A décima-quarta é CRUZADA de Tavinhomoura Moura e Márcio Borges, canção espetacular, demonstrando tanto o arrojo melódico-rítmico desconcertante quanto a simplicidade de seu autor. A melodia inicial é um caso exemplar de tematização melódica, divisão rítmica incisiva (e métrica irregular), oscilando entre o maior e o menor, alternando escala menor harmônica e melódica, e a maior harmônica, é uma aula de fluidez e surpresa da melodia, de forma que, apesar de ousada, é altamente cantarolável, e o sucesso da música prova isso. Márcio Borges discorre sobre a insegurança política da época sem datar o texto, poderíamos falar de como hoje em dia sabemos "do perigo que nos rodeia pelos caminhos". O final da melodia do A caindo na reconfortante terça maior "acalma no seu olhar" ... Já o refrão é dos mais lindos acalantos de toda a obra do Clube, daqueles perfis melódicos ascendentes que são claramente incomumente inspirados, sem fazer força. O contraste entre o alívio do refrão e a tensão das estrofes é uma das chaves do sucesso dessa música, gravada primeiramente por Beto Guedes, que, diga-se de passagem, fez sua versão com uma solução rítmica diferente da de Tavinho, e acabou se fixando mais na memória dos ouvintes. Por esse motivo, preferi colocar a versão de Beto Guedes, embora saiba que o compositor pense diferente ... a letra, mais uma vez, em sua aparente desconexão, é a perfeita ponte entre os perigos das estrofes e o abrigo do refrão, e outra parte se faz desnecessária, embora saibamos que Tavinho tem um lindo intermezzo em sua versão [ouça aqui]. É um clássico imortal dele.
CRUZADA
Não sei andar sozinho por essas ruas Sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos Não há sinal de paz mas tudo me acalma no seu olhar
Não quero ter mais sangue morto na veia Quero o abrigo do seu abraço que me incendeia Não há sinal de cais mas tudo me acalma no teu olhar
Você parece comigo, nenhum senhor te acompanha Você também se dá um beijo dá abrigo Flor nas janelas da casa, olho no seu inimigo Você também se dá um beijo dá abrigo Se dá um riso dá um tiro ...
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A décima-quinta é O QUE FOI FEITO DEVERÁ (de Vera), de Milton Nascimento, Fernando Brant e Márcio Borges. Bituca experimentou pedir letra pra dois parceiros, sem que ambos soubessem, sobre a mesma música e a mesma temática, algo falando do passado, e é revelador contrastar as duas abordagens. Fernando, mais idílico, mais individual, tentando conciliar de alguma forma o passado e o futuro, à luz das experiências vividas à revelia sob os trilhos do trem da história (a história é um carro alegre, cheio dum povo contente que atropela indiferente todo aquele que a negue, diria Chico Buarque no mesmo disco), enquanto Márcio , mais icônico, mais contrastante, "nuvem no céu e raiz", é algo mais inquieto, mais explosivo: "Nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós". Intertextualidades à flor da pele, com várias canções já clássicas do Clube sendo incorporadas ao texto, como Vera Cruz, de Milton e do próprio Márcio, e Fé Cega , Faca Amolada, de Milton e Ronaldo Bastos, e Outubro, de Milton e Brant; a consumação de um sentido de parceria e amizade se dá dentro das letras, e isso revela a intensidade da canção. Elis, que já tinha gravado a canção de Brant, faz uma aparição magistral no Clube da Esquina 2, enquanto Milton canta a de Márcio, mas as duas parecem, no fim, capítulos do mesmo romance, e se completam. Musicalmente, daquelas preciosidades simples e altamente originais: o mesmo acorde oscila entre o suspenso, o maior (com sétima) e o menor (com sétima), fazendo um movimento pendular que ilustra a perplexidade do homem em relação à vertigem do tempo, da existência humana e de seus desdobramentos metafísicos, e depois recai sobre um empréstimo do modo frígio, um tempero misterioso, só pra voltar ao mesmo acorde suspenso e finalmente resolver no quarto grau ... para leigos, basta dizer que é sintético, e altamente misterioso. A melodia, linda, vai perpassando esses intervalos com grande fluidez, dando sentido total a essa baita ambiguidade harmônica. Convém, por fim, observar que essas originalidades harmônicas de altos quilates do Clube em geral vão criar um clima onírico, deslocado, de descoberta, de elocubração, de quem tateia o desconhecido. Talvez o passado seja tão desconhecido, desse ponto de vista, quanto o futuro ...
O QUE FOI FEITO DEVERÁ (de Vera) ( Brant)
O que foi feito, amigo, De tudo que a gente sonhou O que foi feito da vida, O que foi feito do amor Quisera encontrar aquele verso menino Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, Falo assim por saber Se muito vale o já feito, Mais vale o que será Mais vale o que será E o que foi feito é preciso Conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza, Falo por acreditar Que é cobrando o que fomos Que nós iremos crescer Nós iremos crescer, Outros outubros virão Outras manhãs, plenas de sol e de luz
O que foi feito de Vera ( Borges)
Alertem todos alarmas Que o homem que eu era voltou A tribo toda reunida, Ração dividida ao sol E nossa vera cruz, Quando o descanso era luta pelo pão E aventura sem par
Quando o cansaço era rio E rio qualquer dava pé E a cabeça rolava num gira-girar de amor E até mesmo a fé não era cega nem nada Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe Na palma da minha paixão Devera nunca se acabe, Abelha fazendo o seu mel No canto que criei, Nem vá dormir como pedra e esquecer O que foi feito de nós
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A Décima-sexta da Lista do Clube da Esquina é TIRO CRUZADO, de Nelson Ângelo e Márcio Borges. Não se pode olvidar quando uma canção tem uma versão de Tom Jobim. Eu poderia listar outras do esquecido e inspirado LP Nelson Ângelo e Joyce, de 1972, pela quantidade de pérolas contidas ali, mas decidi ficar com essa pela carreira que ela teve: foi gravada muitas vezes, tem uma versão bastante interessante, por exemplo, do Sérgio Mendes [aqui], e dá o recado de cara.
Das formalmente mais simples do álbum, Tiro Cruzado tem um daqueles acordes indecifráveis, altamente tensos, o que corrobora para o letra desafiador do Márcio: "Pula muro, cai do cavalo, pula que eu quero ver!" Ritmicamente, pode-se falar numa espécie de samba, mas , como sempre é um samba mineiro, altamente diferido, o que , com certeza, deve ter despertado a atenção de Jobim quando a gravou ao lado de Miúcha [ouça aqui].
O corpo da música é tão expressivo que ela não tem um B! É um A repetido o tempo inteiro, o que faz dela um exemplo de sinteticidade na canção que é muito raro. Tornou-se um clássico, apesar de hoje quase ninguém mais a conhecer das novas gerações. Se você gostar, aconselho a ouvir todas desse discaço.
Atenção para a ficha técnica, que inclui o desaparecido Tenório Jr.
Joyce e Nelson Angelo - voz
Nelson Angelo - violão Danilo Caymmi - flautas Tenório Jr. -piano elétrico Novelli - baixo Hélcio Milito - bateria Rubinho - tumbas
TIRO CRUZADO
Pula do muro
Cai do cavalo
Pula que eu quero ver
Sombra no escuro
Verde maduro
Corre que eu quero ver
Salta de lado
Tiro cruzado
Dança que eu quero ver
Corta de canivete que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero ver
Que eu quero ver (4x)
Segura que é agora que eu quero ver
Pula do muro... segura que é agora que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero
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A Lista do Clube continua! CASO VOCÊ QUEIRA SABER! essa obscura canção de Beto Guedes em parceria com Márcio Borges, que abria o célebre álbum dos "4 no banheiro" - Beto Guedes, Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi.
Das músicas mais inclassificáveis do compositor, e das primeiras feitas por ele, entretanto ela já estabelece alguns elementos distintivos de seu trabalho, a saber: ritmo em 12/8, alta tessitura vocal, rupturas de escala inesperadas, e um estribilho dramático com aguda melodia que é a única parte que se repete na música.
A forma é altamente irregular, com um A que nunca volta, uma ponte, um B, cuja conclusão é idêntica à do A, e finalmente esse refrão: "Já conheço seus segredos, seu tempero e seu suor, mas não consigo perder mais tempo" ...Essa urgência está espelhada pelo arranjo intenso, principalmente na melhor versão dela, na minha humilde opinião, que saiu num compacto de Milton* e que termina com um sublime solo de sax-tenor do grande Nivaldo Ornelas, e hoje é encontrada como bonus track do disco Minas, de 1975.
A negatividade da letra contrasta com quase toda a obra de Beto, que fez da positividade seu fio condutor... entretanto, raras vezes ele compôs algo tão genuinamente feroz e vital quanto essa música ...
Não é à toa que Cássia Eller fez uma versão admirável [aqui] em seu segundo disco, transformando a música mas mantendo, evidentemente, sua agressividade**...
Ficha Técnica da versão com o Milton: Milton Nascimento : Voz e violão Beto Guedes : Bateria, viola e voz Fernando Leporace : baixo Nivaldo Ornellas : sax-tenor Wagner Tiso : órgão e piano elétrico (distorcido) Toninho Horta : guitarra.
CASO VOCÊ QUEIRA SABER!
Não quero você mais na minha casa
Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você
Eu não quero nada
Com seu riso indecente
Já conheço o seu tempero
Seu segredo e seu suor
Mas não consigo perder mais tempo
Você tem que ir embora
Já começa a amanhecer
Parece outro dia negro
*com a versão de Norwegian Wood do outro lado[nota do editor].
** aliás, procurando pela ficha técnica da gravação dos "4 no banheiro" deparei-me com uma excelente análise do amigo Túlio Ceci Kaiowa Villaça sobre como Cássia Eller transformou essa canção em uma outra coisa, num texto muito esclarecedor! E , de brinde, consegui a minha ficha técnica! Valeu demais, Túlio! [nota do autor]
E vai aí a ficha dos "4 no banheiro": Beto Guedes: Voz, violão e bateria Flávio Venturini: acordeon Frederiko: guitarra Lô Borges: baixo elétrico Maurício Maestro (líder do grupo vocal Boca Livre): percussão Novelli (notável baixista): percussão Toninho Horta: percussão Vermelho (integrante do 14 Bis): órgão --##--
A décima-oitava da lista é O TREM AZUL, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, bastante conhecida, um clássico, e não é pra menos ... Cabe aqui uma digressão sobre o caráter surrealista de várias letras do Clube da Esquina, e sua evidente relação com os procedimentos musicais nas composições e nos arranjos. Não se poderia esperar de músicas que trilham veredas harmônicas inauditas e com alto grau de descolamento do sistema tonal clássico (em termos de música popular) letras muito amarradas, narrativas com começo, meio e fim, e muito menos avaliá-las como texto fora da canção, embora isso possa ser interessante como elemento de análise. Esse surrealismo encontrou várias maneiras de se realizar nessas canções, e nunca essa realização se deu por meio de um sentimento tão entorpecido, enigmático, vago como em O Trem Azul. A construção harmônico-melódica é de tal simplicidade e ao mesmo tempo engenhosidade que foi imediatamente reconhecida como uma música importante dentro da produção da turma do Clube. Basicamente, na estrofe (que se repete só com uma letra) a melodia fica sempre na sétima maior de cada acorde, proporcionando uma certa maciez em cada um deles, um caráter vago, pouco concreto e afirmativo, que se associa claramente aos versos: coisas que a gente se esquece de dizer, frases que o vento vem ás vezes me lembrar... A harmonia tem o tom claro de Dó maior, mas todos os acordes da estrofe são da região de dó menor (com um acorde do modo frígio), o que também corrobora essa macia e ingênua estranheza... O refrão contrasta por subir um mínimo degrau entre a sétima maior e a tônica, dando um pouco mais de afirmação à melodia. Essa característica lenta, prostrada e contraída da melodia é bastante distintiva da canção, que, de resto, estilisticamente, podemos considerar o cruzamento por excelência entre os Beatles e a Bossa-Nova. O ritmo quadrado e lento do roque britânico com as aventuras harmônicas e calmas da bossa-nova nunca se cruzariam de forma tão equilibrada como em O Trem Azul. As metáforas do sol na cabeça sugerem uma referência ao LSD. embora nem de longe seja preciso estar doidão pra amar essa canção. Tom Jobim, por exemplo, era mais chegado num uísque, mas não só gravou a música como fez, ele próprio, uma versão para o inglês, reproduzindo inclusive a melodia do célebre solo de guitarra no intermezzo instrumental que Toninho Horta imortalizou naquela sessão [ouça aqui]. Ficha Técnica: Lô Borges : guitarra de 12 e voz Toninho Horta: guitarra solo e vocal Beto Guedes: Baixo e vocal Robertinho Silva : bateria/ Wagner Tiso: órgão
O TREM AZUL
Coisas que a gente se esquece de dizer Frases que o vento vem às vezes me lembrar Coisas que ficaram muito tempo por dizer Na canção do vento não se cansam de voar
Você pega o trem azul O sol na cabeça O sol pega o trem azul Você na cabeça O sol na cabeça