Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

31 de dezembro de 2011

Pequeno tributo ao jovem Mestre

A partida do Mestre Jonas (30/12/2011) é uma grande perda. Tomo a liberdade de fazer aqui um pequeno tributo:

Hoje estou em luto o destino é bruto mas também fino quando traz e quando tira um coração desse tamanho, um canto que a tantos tocou e fica e finca em nós para sempre parceria com o som com o povo com todo carinho que deu e ganhou Inesquecível Mestre, Jonas.

Reproduzo um texto do meu parceiro Pablo Castro, que foi quem nos apresentou, e que expressa exatamente o que sinto:

"Muito , muito sentido com a morte do Mestre Jonas ...Para além de um grande compositor, que morre sem ter sua obra devidamente divulgada para além do círculo de compositores , cantores e músicos de seu convívio, era uma pessoa extraordinária, em todos os sentidos, singular, espirituoso, afetivo, charmoso, único. Que terrível perda. Agora nos resta cultivar um pouco as flores que deixou gravadas em música e nas nossas saudosas memórias".

Nesse intuito reuni aqui algum material para que os leitores possam conhecê-las:
1) Texto de Israel do Vale escrito quando do lançamento de Sambêro;
2) Entrevista "É o mestre desfilando a maestria!" em que Mestre Jonas conta detalhes sobre o CD Sambêro ao site Ôce no Samba;
3) Link do seu único disco lançado em vida, Sambêro;






4) Provavelmente sua última apresentação registrada em vídeo, no Festival "Jazz en el Rio" em 11 de dezembro de 2011 em Paysandu, Uruguai:


Abraço Mestre, vá com o tempo e o vento a favor!

Rock em tempo


Essa lista, feita a partir de um velho trabalho dos tempos de graduação que depois virou um mini-curso que falava de rock, rebeldia, anos 50 e 60, ainda na década de 1990, veio à tona para colaborar com as aulas de meu amigo e colega Fabiano Buchholz sobre "(...) a música popular dos anos 50, 60 e até 70 como documentos sobre a época e as mudanças que ocorreram então no comportamento sexual, moral, afetivo, político, social e etc.", que respondi incialmente assim:
"(...) ótima proposta. vem tanta coisa à cabeça. uma vez dei um mini-curso no eneh que tinha tudo a ver com isso. vou ver se acho o material aqui, tinha tb alguns trabalhos de graduação que pode ser úteis. Tenho muuuittaaa coisa. Alguns livros legais são Rock o grito e o mito do R. Muggiati, Impressões de viagem, da Heloísa Buarque de Holanda. As entrevistas do Pasquim, e revistas de "contra-cultura". Na minha dissertação tem coisas que vc pode aproveitar, pega lá no domínio público. Já viu aquele Almanaque Anos 60? Esse não tenho... Filmes, da época tem Hair, o filme do Tommy, filmes do Elvis, o próprio Magical Mystery Tour ou Yellow Submarine. Filmes da posteridade tem o "Febre de Juventude", bem sessão da tarde mas mostra a 1a. visita dos Beatles nos EUA do ponto de vista dos adolescentes."
A curiosidade dessa lista é que, propositalmente, nela não entrou nenhuma dos Beatles, porque queria fazer outra exclusiva depois, só que o tempo foi curto... Música e Cultura anos 50/60/70 by Luiz Henrique Assis Garcia on Grooveshark

29 de dezembro de 2011

Title in hand: a brief research

Definitely, a historian's instinct never goes on vacation. When I received from my friend and Beatles connoisseur Guilherme Lentz the news that the soon to come standards album by Paul McCartney would be called Kisses on the bottom, I was curious. Even more about the connotations that such a title could have, very unusual when it comes to someone so diligent in being politically correct as Paul. Since I'm not very busy these days, I decided to do a brief research. I solved the riddle: the title is taken from the lyrics (by Joe Young) of the first song on the setlist of the record, I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter. In a naive reading it means the back (bottom) of the letter, but the song was banned in some northamerican states in 1936, when it was recorded by the Boswell Sisters (close harmony singing group of sisters raised on Camp Street in uptown New Orleans) [read here]. Westrow Coopertakes note of the use of double sense in songs from Broadway musicals. Just remember Let's do it by Cole Porter. Pedro Munoz had already commented that, when we spoke of the changes in lyrics made by a moralist Sinatra. What was McCartney thinking of? (portuguese version) In time, the version of the Boswell Sisters, probably the recording he heard in childhood:

28 de dezembro de 2011

Título em pauta: uma pequena investigação

Definitivamente, os instintos de um historiador nunca entram em férias. Quando recebi de meu amigo e grande conhecedor dos Beatles Guilherme Lentz a notícia de que o novo álbum de standards de Paul McCartney se chamaria Kisses on the bottom, fiquei curioso. Ainda mais pelas conotações que tal título poderia ter, muito inusitado em se tratando de alguém tão zeloso em ser politicamente correto como o Paul. Como não estou muito ocupado mesmo por esses dias resolvi fazer uma pequena investigação. Matei a charada: o título é extraído da letra (de Joe Young) da 1a. canção do repertório do disco, I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter. Numa leitura ingênua trata-se do verso (bottom) da carta, mas a canção foi banida em alguns estados norteamericanos em 1936, quando foi gravada pelas Boswell Sisters (trio vocal de irmãs criadas nos arredores de Nova Orleans) [para ver a postagem que consultei, aqui]. O Westrow Cooper, do blog que encontrei, atenta para o emprego do duplo sentido nas letras dos musicais da Broadway. Basta lembrar o Let's do it do Cole Porter. O Pedro Munhoz já tinha comentado isso, quando falamos das alterações moralistas feitas pelo Sinatra. No que será que McCartney estava pensando?
Outra curiosidade, a escolha do título do álbum -uma verdadeira arte, diga-se de passagem- foge das fórmulas mais óbvias, e me recordou imediatamente de um outro sacado dessa mesma maneira pelo Paul, Flowers in the dirt(de um verso da canção That Day Is Done), que aliás é dos melhores títulos de disco dele.
(english version)
Em tempo, a versão das irmãs Boswell, provavelmente a gravação que ele ouviu na infância: Link

Travessia de Björk

Procurando material que foi utilizado em outra postagem, acabei encontrando essa versão da Björk para "Travessia", 1a. parceria de Milton Nascimento e Fernando Brant, canção que os colocou em primeiro plano no cenário da MPB e que uma hora dessa merecerá uma postagem exclusiva. Curiosamente, acabei de comentar o disco Chico e Caetano juntos e ao vivo (ver aqui), observando como o Caetano se apropria das canções do Chico. A versão dela é emocionante, no meu modo de ouvir, porque ela parece absorvida por "Travessia", como intérprete. "É como se a canção nascesse de novo", nos dizeres do amigo e colega historiador Mauro Eustáquio. Ainda mais tocante é ouvir a voz dela se aninhando na música, como um bebê se aproximando das palavras e de sua sonoridade. Seu gesto se torna ainda mais significativo pelo fato de haver uma versão da letra em inglês (autoria de G.Lees) que foi gravada pelo próprio Milton no LP Courage (1969). Um interesse extra é acompanhar o debate sobre a interpretação dela nos comentários do youtube. Alguns reclamam da pronúncia, outros a celebram, naquela intensida típica das trocas de opinião via web, que motivaram o autor da postagem a comentar: "Gente! Não postei o video no intuito de julgar o jeito em que Björk canta em português. E sim mostrar a sua profunda admiração pela musica brasileira". Claro. Alberto Campos Júnior comento que "já conhecia a gravação dela e também uma entrevista em que cita Elis Regina como referência de cantora, porque cantava com sentimento mesmo sem ela entender o sentido do que dizia". Tudo isso dá boas pistas para pensar sobre os trânsitos culturais, as interpretações e também sobre como a música é consumida via internet. Falei muito sobre isso em minha tese de doutorado, mas para resumir pinço esse belo trecho do Elaborações musicais de Edward W. Said:
“(...) [transgressão é] aquela qualidade que tem a música de viajar, atravessar, ir de lugar em lugar em uma sociedade, ainda que muitas instituições e ortodoxias tenham tentado confiná-la”.
Versão da Björk



Versão do Milton no Courage