Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Mostrando postagens com marcador As 30 mais geniais do Clube da Esquina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador As 30 mais geniais do Clube da Esquina. Mostrar todas as postagens

30 de maio de 2015

As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 3: Falso Inglês

Terceira selecionada: FALSO INGLÊS, de Toninho Horta e Fernando Brant. Sensacional aqui como o Toninho, numa forma bem simples , praticamente só com um A e um B, e poucos acordes, consegue algo tão original e de efeito tão marcante. Fascinante como uma subdominante com baixo na terça pode ter um efeito sutil e grandioso. 

E Fernando Brant, numa de suas melhores letras, exerce aqui um humor que ele não atrevia a destilar em suas parcerias com Milton e, de quebra, dá um tapa de luva em quem ainda defendia (e defende) que o inglês é uma língua mais musical, ainda que não se saiba bulhufas do que trata a letra. 

Sem o menor pudor, ele faz algo que nenhum Chico, Caetano ou Gil fez: todo um refrão cantado numa língua inventada! E a história, tão típica de um país submetido ao domínio imperial da indústria cultural anglo-saxônica, devolve uma flor com cheiro de irreverência aos ditames do inglês de Copa do Mundo que querem fazer nossos taxistas "aprender" pra não fazer feio num evento que não dura mais do que um mês - Salve o Falso Inglês !!!




FALSO INGLÊS (Toninho Horta e Fernando Brant)

Eu ouvi Paul Anka
Um Dia
Eu ouvi Ray Charles
Bill Halley

No rádio eu sempre ouvi
mas não entendia nada de inglês
mas eu guardava o som
toda melodia sem poder cantar

Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês
Gene Kelly
canta e dança sem eu entender
Eu via Fred Aster
legenda não serve pra poder cantar

Eu tive que inventar um jeito de cantar inglês
Beatles, Dylan
ouvi uma vez e eu cantei

Eu lembro que inventei 
todos se encantaram com meu falso inglês

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Um uoraniusi onaruei olefitiudei
Wonder Woman
Lairanidamudiseiomai

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Notas do editor:

1) Na postagem O que seria transculturação? Ouça essa canção... apresento algumas reflexões sobre Falso Inglês do ponto de vista dos estudos sobre trânsitos culturais.
2) Essa canção foi lançada no LP Terra dos Pássaros, sobre o qual você pode ler uma postagem especial da seção Bolacha Completa.

24 de maio de 2015

As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 2: Via Láctea

Vamos prosseguir com VIA LÁCTEA, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, música do álbum homônimo de 1979. Bela canção em 6/8, levada bastante frequente em músicas de Lô e Beto, sobretudo ( Rio Doce, já citada aqui, é bem próxima disso, mas talvez seja mais exato caracterizá-la como 12/8). A melodia de Lô faz uma ponte entre as tendências McCartneyanas e Jobinianas de uma forma magistral, fazendo a harmonia parecer mais simples do que é na verdade. 

Naturalidade e sofisticação são duas coisas que pouquíssimos compositores podem atingir, e é o caso de Lô nessa canção. A letra, mais uma vez de Ronaldo Bastos, é uma variante da temática 'viagem' , desta feita com metáforas cósmicas, e ícones como carrossel, pão e mel, picadeiros, primaveras ... bastante concretista essa letra, a la Caetano, mas com a marca indelével do ethos do Clube: o sonho.



VIA LÁCTEA (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar

Caravela, pão e mel
Segue o circo a rolar
Picadeiros, primaveras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia viver
Na espuma do mar

E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou...

Que navega no céu
Que navega no ar
Grão de areia bailar
Lá no fundo do azul

E anda que nem bola
Como a vida
Quando quer brotar
Rola como anda
Que nem fonte de calor...

Barricadas, cordilheiras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

Aventuras, cicatrizes
Segue o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

As 30 mais geniais do Clube da Esquina -1: Rio Doce

Começo então por RIO DOCE, de Beto Guedes, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos. Gravada primeiramente como instrumental, e só com a parte A, no disco Sol de Primavera, ela foi desenvolvida com uma sensacional parte B, de Tavinho, contrastante sinuosa e de modulações inesperadas, mas com o mesmo desembocar solar que é tão característica das composições de Beto. Participação vocal da Joyce!



RIO DOCE (Beto Guedes, Tavinho Moura & Ronaldo Bastos) 

Vai a me levar como se fosse
Indo pro mar num riacho doce
Onde ser é ternamente passar

São vidas pequenas das calçadas
Onde existir parece que é nada
Mas viver é mansamente brotar

Muito prazer de conhecer
Muito prazer de nessa rua ser seu par
Ao partilhar do teu calor
Você liberta a primeira centelha
Que faz a vida iluminar

A correnteza me levou
Me apaixonei em todo cais que fui parar
Cada remanso um grande amor
Por esses breves eternos momentos
Que tive o dom de navegar

São vidas dos belos horizontes
Gente das mais preciosas fontes
Onde ser é ternamente brotar
Vai cantando as voltas do moinho
Onde a beleza teceu seu ninho
Mas viver é mansamente passar






13 de abril de 2015

As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 5: Canoa, canoa

Quinta indicada - CANOA, CANOA, de Nelson Ângelo e Fernando Brant. Canção ímpar, violenta em seu intervalo de trítono na melodia febril de Nelson Ângelo, que se tornou, como Fazenda, do mesmo autor, um clássico sem nunca ter sido muito tocada nas rádios ou nos shows do intérprete Milton Nascimento. Com uma tonalidade ambígua, a harmonia passeia entre um sol maior e um si menor, sem nunca se definir claramente, a não ser no B, espécie de refrão, que é claramente em mi menor. A tradução do tema indígena* para a canção popular foi uma veia usada por Fernando Brant em pelo menos mais uma música : Promessas do Sol, mas Canoa Canoa talvez seja uma experiência ainda mais bem sucedida, com um refrão contendo nada mais do que nomes de peixes amazônicos** e ainda assim sendo altamente contagiante e poderoso. Arranjo primoroso do compositor, que toca o violão, com Wagner Tiso ao Piano, Nenê na Bateria, e Novelli no baixo acústico, além de Danilo Caymmi na Flauta. [Por Pablo Castro]



CANOA, CANOA

Canoa canoa desce

No meio do rio Araguaia desce
No meio da noite alta da floresta
Levando a solidão e a coragem
Dos homens que são
Ava avacanoê
Ava avacanoê
Avacanoeiro prefere as águas
Avacanoeiro prefere o rio
Avacanoeiro prefere os peixes
Avacanoeiro prefere remar
Ava prefere pescar
Ava prefere pescar
 

dourado, arraia, grumatá
piracará, pira-andirá
jatuarana, taiabucu
piracanjuba, peixe-mulher
jatuarana... 

Ficha técnica:

Violão e vozes: Milton Nascimento
violão: Nelson Ângelo e Paulo Jobim
piano: Wagner Tiso
baixo: Novelli
flauta: Danilo Caymmi
bateria: Nenê
bambu e pios: Pedro dos Santos
cellos: Márcio Mallard, Watson Clis, Jacques Morelenbaum e Alceu Reis
coro: Milton Nascimento, Novelli, Nelson Ângelo e Lô Borges
arranjo vocal: Milton Nascimento
orquestração e regência: Nelson Ângelo



--\\//--
Notas do editor:
* Algumas informações sobre os Avá-Canoeiros e sua situação recente, aqui e aqui .
Foto: Mario Chimanovitch, 1974
** Alguns dos peixes citados na letra: aqui e aqui
 
"E eu fui tirando muitos temas também da natureza. “Canoa, canoa.” Era fruto do meu trabalho de leitura, de informação. “Canoa, canoa” é porque é um negócio dos Ianomâmi… Ianomâmi não, Avacanoeiros. O Tavinho que me contou essa história e eu fui procurar saber mais. O negócio deles é viver na canoa. A casa deles é a canoa. A melodia é impressionante. Quando veio, eu falei: “Não, isso só pode ser. Está batendo o remo”. É impressionante. Negócio de letrista é um negócio engraçado, porque quando a gente vai fazer a letra… Normalmente, se você ouve a música, aí você fica querendo saber o que aquela música quer dizer. O processo primeiro é esse. Até descobrir o que a gente chama o mote. Quando descobre, aí a gente faz fácil. Antigamente às vezes a gente tinha dificuldade, às vezes ficava muito tempo sem fazer, porque dependia muito da provocação do parceiro mandar música. Quando a gente ia pegar uma música, demorava. Eu me achava burro pra danar. Mas quando você acha qual é da música… O som da música tem muito a ver pra você achar as palavras pra caberem ali. É um processo mesmo de parceria. É um negócio interessante."
(trecho do depoimento de Fernando Brant na página do Museu Clube da Esquina)

Trabalho acadêmico de interesse:
Clara Lugão. “TENHO SÉCULOS DE ESPERA NAS CONTAS DA MINHA COSTELA”: O CLUBE DA ESQUINA E OS GRUPOS ÉTNICOS. link
.