Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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20 de novembro de 2020

Prêmio colhido da Horta


Prêmios, ainda mais "Grammy Latino", podem ser questionados em sua função hegemônica, preferências estéticas e lógica comercial. A divisão de categorias e os resultados refletem sobretudo uma percepção gringa, desde a medula da indústria cultural estadunidense, sobre as culturas latino-americanas. De modo muito ostensivo fica evidente a separação entre o Brasil e o resto dos países do continente, que, claro, não surgiu com o Grammy, e não pode ser simplesmente ignorada, embora seja possível identificar bem melhor as aproximações do que fazem em Miami. A despeito também dos méritos que grandes gerações, como a que reúne Toninho Horta, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, João Bosco, Elza Soares, tem, é também digno de protesto que essa [lista de indicados e premiados brasileiros] e outras premiações ignorem por completo o que as mais recentes produzem, especialmente quando se trata de compositores e intérpretes que não sejam consideradas pop.

Com tudo isso, tais prêmios são por vezes canais que estendem a um público mais amplo a circulação de trabalhos genuínos, feitos por gente talentosa. E nesse sentido o prêmio de melhor disco de música popular brasileira conferido a "Belo Horizonte", de Toninho Horta, acompanhado da infalível Orquestra Fantasma, está mais que em boas mãos. Como resume esta matéria, "“Belo Horizonte” nasceu de uma ideia do filho de Horta. “Um dia, meu filho chegou e me disse: ‘Pai, já que Milton Nascimento tem um disco chamado “Minas” e outro “Gerais”, por que você não faz o “Belo” e o “Horizonte”?’, conta. Do insight, veio o álbum duplo, que traz no primeiro volume músicas famosas interpretadas em parceria com grandes nomes como João Bosco - "Aqui, ó" (Horta/Brant) com ele ficou sensacional, tudo a ver com ele mesmo -  e Joyce Moreno. 



Já no segundo, canções inéditas e totalmente instrumentais". Abaixo o áudio-vídeo da parte Horizonte, e aqui  para ouvir todo o álbum. 


É literalmente o prêmio colhido da Horta, e Toninho é foda até na hora de receber e comemorar - sempre dando exemplo em matéria de humildade, generosidade, reconhecimento do trabalho coletivo, de uma forma muito autêntica e contagiante [aqui]. Tremendo orgulho desse belorizontino, mineiro, brasileiro, grande músico do mundo!

3 de abril de 2019

Entre cordas, paralelos e meridianos: Toninho Horta e Pat Metheny


Como de hábito, excelente análise do meu parceiro Pablo Castro das relações geopolíticas, simbólicas e materiais que perpassam o intercâmbio entre os músicos populares. Através desse caso exemplar e um inevitável paralelo, enseja a reflexão sobre o que é ser mineiro e brasileiro no mundo, e as respostas que a música popular encontra para esta pergunta candente.



O caso da influência mineira na música de Pat Metheny é ilustrativo da nossa condição de periferia-tesouro: o guitarrista americano ouviu nos discos de Milton Nascimento o talento incrível de Toninho Horta na guitarra. Bebeu na fonte, ouviu tudo que pôde, tirou as harmonias, veio ao Brasil, conheceu Toninho, fez uma participação no segundo disco do brasileiro. Absorveu o timbre, o estilo, a capacidade de mesclar, na improvisação, frases junto com voicings, visitou a esquina do Clube da Esquina, trouxe a banda toda, inclusive o incrível tecladista Lyle Mays. Chegou a dizer que gravaria um disco com Toninho, mas a história morreu.

O artista americano é mais virtuoso, com recursos atléticos, e mais eclético, e sua obra abraça um leque ampliado de estilizações. Mas a influência da Toninho está clara em todos os seus principais discos posteriores ao seu encontro com o mestre brasileiro, a começar pelo timbre de guitarra, e pelos toques harmônicos que aprendeu com Toninho. Embora ele tenha citado Toninho em algumas entrevistas, a impressão que se tem é que ele cita menos do que devia. Lembra um pouco a relação de Stan Getz com João Gilberto e Tom Jobim ...

Pat se tornou um dos artistas de música instrumental mais bem sucedidos de todos os tempos, seus shows são caros e concorridos, e ele goza de um prestígio internacional raro. Ele tem o mérito de ter feito música instrumental que flertava com o pop mas não perdia seu conteúdo harmônico melódico, e onde a exuberância de sua improvisação se dava de maneira natural. Trata-se de uma música 'oceânica', que remete ao território inaugurado por Toninho Horta e os mineiros do Clube da Esquina.




Toninho também se beneficiou dessa relação, conseguiu abrir um caminho no mercado internacional , iniciou uma série de discos elegantes na gravadora Verve, e hoje é condecorado em Berkley e roda o mundo com grande frequência, embora prefira morar no Brasil, para a nossa felicidade.

Entretanto, no mundo hierárquico da música instrumental, inclusive entre a maior parte dos instrumentistas brasileiros, fica a impressão de que Pat é maior que Toninho. Evidente que não concordo com isso não apenas pela precedência do brasileiro, mas porque sua composição me parece bem mais consistente, brilhante , incisiva , do que a do americano. As composições de Toninho estão repletas de autoralidade e novidade, as de Pat, nem tanto. É só comparar disco a disco a qualidade das composições, pra mim fica patente que o Toninho é mais compositor.

Por outro lado, os discos de Toninho tem menos variedade estilística, enquanto os de Pat tem mais abertura a estilos variados. A música americana sempre foi muito mais interessada em "impressionar", no sentido de afiar uma performance e uma sonoridade que não deixe dúvidas e normalmente não deixa muito espaço para o devaneio. Já a música brasileira é menos direta, menos impositiva, mais reflexiva, e portanto menos formatada para o mercado. Porém, me parece mais frutífera a longo prazo. Não me entendam mal , Pat Metheny é um monstro, um grande artista, porém suspeito que alguns dos seus discos envelhecerão mais rapidamente enquanto os de Toninho permanecerão pertinentes por muitos e muitos anos.
Por Pablo Castro

1 de maio de 2016

Grandes encontros da música popular brasileira: Alaíde Costa e Toninho Horta

Um encontro inevitável entre uma cantora capaz de aliar sutileza e rebuscamento e um ás das harmonias, compositor de pérolas irrepreensíveis do repertório da música popular brasileira. Já estava de alguma forma prefigurado na intuição de Milton Nascimento ao convidá-la para ser a única voz feminina na linha de frente do antológico álbum "Clube da Esquina", cantando “Me deixa em paz” (Monsueto/Aírton Amorim) em dueto com Bituca, numa gravação que alia a contundência elegante do canto dela e o improviso sirênico dele distintivamente combinando o vocalize e as notas do violão.   

"— Milton me convidou para um LP que iria fazer, não sabia o que era. Um dia, me ligaram para gravar, exatamente , cantada lentamente como eu fazia, mas com arranjo do Wagner Tiso. Minha participação era algo diferente dentro do “Clube da esquina”, que já era algo que não parecia com nada. Pensei: “Eu cantando isso no meio dessa garotada?”. Mas Milton sabe das coisas — diz Alaíde, que sintetiza sua afinidade com o Clube da Esquina com simplicidade: — É porque essa turma é do sutil, como eu."
[Trecho de entrevista que faz parte da matéria completa de Leonardo Lichote http://oglobo.globo.com/cultura/musica/alaide-costa-celebra-80-anos-em-disco-com-toninho-horta]


Os dois contam um pouco mais sobre o disco e o encontro nessa passagem pelo programa Agenda, da Rede Minas:



A escolha acertadíssima do título, retirado da letra de Aqui, ó (T. Horta/F. Brant), dá a pista do que esperar: a revelação de um tesouro sacro.
“Alegria é guardada em cofres, catedrais” - na sequência uma das faixas do disco, Tudo que você podia ser (Lô e Márcio Borges) já dá o tom de um trabalho rebuscado, dedicado, que lança aos nossos ouvidos essa joia que é a interpretação da Alaíde, acompanhada desse mestre das cordas que é Toninho Horta.



Para finalizar, aproveito e assino embaixo o comentário do meu parceiro Pablo Castro:

"Que dignidade de Alaíde, uma das cantoras mais refinadas , com emissão mais delicada e emocionante, da história da MPB. Com mais de 60 (!!!) anos de carreira ! E o Toninho Horta continua sendo esse grande articulador, esse grande ponto de referência entre a música instrumental e a canção, no país e no mundo.
Que sorte a nossa tê-los vivos e produzindo !!!" 

30 de maio de 2015

As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 3: Falso Inglês

Terceira selecionada: FALSO INGLÊS, de Toninho Horta e Fernando Brant. Sensacional aqui como o Toninho, numa forma bem simples , praticamente só com um A e um B, e poucos acordes, consegue algo tão original e de efeito tão marcante. Fascinante como uma subdominante com baixo na terça pode ter um efeito sutil e grandioso. 

E Fernando Brant, numa de suas melhores letras, exerce aqui um humor que ele não atrevia a destilar em suas parcerias com Milton e, de quebra, dá um tapa de luva em quem ainda defendia (e defende) que o inglês é uma língua mais musical, ainda que não se saiba bulhufas do que trata a letra. 

Sem o menor pudor, ele faz algo que nenhum Chico, Caetano ou Gil fez: todo um refrão cantado numa língua inventada! E a história, tão típica de um país submetido ao domínio imperial da indústria cultural anglo-saxônica, devolve uma flor com cheiro de irreverência aos ditames do inglês de Copa do Mundo que querem fazer nossos taxistas "aprender" pra não fazer feio num evento que não dura mais do que um mês - Salve o Falso Inglês !!!




FALSO INGLÊS (Toninho Horta e Fernando Brant)

Eu ouvi Paul Anka
Um Dia
Eu ouvi Ray Charles
Bill Halley

No rádio eu sempre ouvi
mas não entendia nada de inglês
mas eu guardava o som
toda melodia sem poder cantar

Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês
Gene Kelly
canta e dança sem eu entender
Eu via Fred Aster
legenda não serve pra poder cantar

Eu tive que inventar um jeito de cantar inglês
Beatles, Dylan
ouvi uma vez e eu cantei

Eu lembro que inventei 
todos se encantaram com meu falso inglês

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Um uoraniusi onaruei olefitiudei
Wonder Woman
Lairanidamudiseiomai

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Notas do editor:

1) Na postagem O que seria transculturação? Ouça essa canção... apresento algumas reflexões sobre Falso Inglês do ponto de vista dos estudos sobre trânsitos culturais.
2) Essa canção foi lançada no LP Terra dos Pássaros, sobre o qual você pode ler uma postagem especial da seção Bolacha Completa.

Violão Ibérico, trabalho de excelente qualidade contanto a história do instrumento que cruzou o Atlântico e tem um papel fundamental na história da música popular no Brasil, onde também foram escritas algumas das mais marcantes páginas de sua própria trajetória no tempo. Além do livro foram produzidos vídeos inestimáveis, apresentando o depoimento de alguns dos músicos que já deixaram a marca de suas notas, dedos e criação definitivamente impressos quando se trata desse assunto. Separei, a título de amostra, três vídeos de três "casos sérios" da banda de cá do Oceano:
Guinga, João Bosco e Toninho Horta. Acompanha a descrição disponibilizada via You Tube.




"Estão todos na contramão." Guinga fala sobre o estilo de tocar e as influências de diversos craques, como João Gilberto, Nelson Cavaquinho, Toninho Horta e Raphael Rabello. E também da forma como alguns destes e outros tantos mestres marcaram a sua carreira. "Eu odeio partitura!"



"Depois de falar sobre sua história com o violão, Toninho Horta toca Meu canário vizinho azul, destacando detalhes do processo de composição da música."



"João Bosco fala sobre o processo de composição da música O Ronco da Cuíca, fruto de sua parceria com Aldir Blanc, enquanto toca o samba neste vídeo exclusivo".






7 de dezembro de 2014

Bolacha completa - Terra dos Pássaros (1980)

Bolacha completa - Toninho Horta & Orquestra Fantasma - Terra dos Pássaros (1980)

Um disco antológico por "n" motivos, Terra dos Pássaros merece figurar nas estantes de todos os interessados em música brasileira. Primeiro LP assinado individualmente por Toninho Horta, traz ainda o distintivo traço de ter sido produzido de forma independente durante 3 anos, a partir de sobras de horas de estúdio e tapes não utilizados por Milton Nascimento. O repertório forte reflete o acúmulo de canções - das quais podemos destacar Céu de Brasília, Dona Olímpia, Falso Inglês e Beijo Partido - e também a força das parcerias com autores como Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Cacaso. O título do disco, além de expressivo, sintetiza perfeitamente a concepção geral do LP, um extravaso de melodias voadoras e arranjos aéreos executados com auxílio de uma muito bem nomeada "orquestra fantasma", os acordes orquestrais cheios de cordas abertas, como andorinhas migrando em bando. Descobri, enquanto escrevia essa postagem, o ótimo artigo assinado por Thaís Lima Nicodemo e Rafael dos Santos, recém publicado na Per Musi no.30 Belo Horizonte jul./dez. 2014 [completo, aqui], para mim um ótimo exemplar do que pode ser uma boa pesquisa acadêmica em música popular. Traz inclusive relevantes elementos documentais, como trechos de entrevistas e a transcrição do encarte do LP, que reproduzo abaixo:

Este disco conseguiu povoar meus pensamentos nestes últimos três anos e sobreviver a todo tipo de alegrias e dificuldades, mas a variedade de condições de trabalho não impediu o desejo de realizar um disco como sempre idealizei. Com muita liberdade, ele se desenvolveu paralelo à minha maturidade como ser humano. As canções cantadas no final de uma juventude podem hoje representar apenas o registro de um sonho que custou a se realizar: a voz em Diana era só de guia e ficou definitiva com o passar do tempo. Não havia razão para tentar cantar outra vez, anos depois, mesmo que viesse melhorar a qualidade técnica, a dicção e o volume de som. Toda a emoção do início do disco, o Bituca [Milton Nascimento] dando as fitas pra gente, a porta sempre aberta, o mar através dos janelões do estúdio, cachorros entrando e saindo, todo esse clima estava na voz de Diana. Eu comecei despretensiosamente a gravar uma fita onde tocava e cantava minhas músicas, sem pensar que seria o princípio de uma aventura. Os amigos apareciam para visitar e acabavam gravando, as ideias iam fluindo e a gente estava partindo naturalmente para fazer um disco com produção própria sem cogitar as dificuldades que viriam pela frente. [grifos nossos] 

Escolhi citar alguns trechos que complementam bem o que estou querendo dizer:


Embora tenha se aprimorado tecnicamente ao longo dos anos que ultrapassam as demarcações desse trabalho, notamos que desde seu primeiro disco autoral, Toninho Horta possui uma concepção integrada de composição, podendo-se considerar a pluralidade uma das principais marcas distintivas de seu processo criativo. Suas composições possuem harmonias elaboradas, longas introduções instrumentais e interlúdios, e são permeadas por improvisos e contracantos, que dialogam, também, com os arranjos de base e orquestrais e com o conteúdo poético das letras. Essa particularidade é bastante aparente no álbum Terra dos Pássaros pelo fato de Horta ter participado de todas as etapas de criação, tocando diversos instrumentos, elaborando os arranjos de base e orquestrais e cantando. 

Tanto a integração da canção com o arranjo, como a alta densidade sonora, proporcionada pela soma de timbres diversos, que demarcam a produção do Clube da Esquina, distinguem a concepção composicional de Toninho Horta. Outro aspecto relevante de seu pensamento musical é a forte ligação com a canção, embora tenha adquirido grande reconhecimento de público e mídia por seus atributos de instrumentista. Horta dedicou-se à música instrumental em discos lançados durante o período em que viveu nos Estados Unidos, entre o final da década de 1980 e o final dos anos 1990, no entanto, a canção predomina como opção estética em seus discos autorais. Esse aspecto pode estar relacionado com sua maneira de compor. Conforme sua própria descrição, toca os acordes e o acompanhamento rítmico ao violão, enquanto canta as melodias em vocalize:

Nunca desenvolvi o lado de violão solo, sempre preferi utilizar a voz. Para compor eu canto as melodias junto com os acordes, então acabei virando cantor. Acho que isso virou uma marca do meu trabalho, esses vocalizes que faço. (HORTA, Toninho. In: GOMES & CARRILHO, 2007, p.25)

Sobre a produção do disco, propriamente, destaco:


No caso de Toninho Horta, o processo de elaboração de seu primeiro disco autoral teve início com sua participação como instrumentista nos álbuns Milton (Milton NASCIMENTO, 1976) e Promises of the Sun (Airto MOREIRA, 1976), nos Estados Unidos. As gravações do álbum Milton terminaram antes do tempo previsto, com horas de estúdio e fitas de gravação já pagas a serem utilizadas. Milton Nascimento cedeu o material remanescente a Toninho Horta, que começou a registrar suas canções. O letrista Ronaldo Bastos, produtor do disco de Milton Nascimento, associou-se a Horta na idealização e na produção de seu disco. Os mesmos músicos que tocaram no álbum Milton, como Raul de Souza (trombone), Robertinho Silva (bateira/ percussão), Airto Moreira (bateria/ percussão), Laudir de Oliveira (percussão), Novelli (contrabaixo) e Hugo Fattoruso (piano/ órgão/ sintetizadores), gravaram as bases de Terra dos Pássaros. Além dos músicos citados, Milton Nascimento cantou em duas faixas. Com essa ajuda inicial, Toninho Horta registrou as bases das canções e, junto com Ronaldo Bastos, retornou ao Brasil para apresentar o projeto a algumas gravadoras, que recusaram a proposta, devido à imprevisibilidade lucrativa da produção. Mesmo assim, decidiu dar continuidade à gravação de forma independente, entre julho de 1976 e setembro de 1979, destinando, paulatinamente, seus recursos financeiros para a realização do disco e acrescentando, aos poucos, instrumentos e detalhes às músicas. (...)  Ainda que tenha realizado seu disco de forma independente, após ter finalizado as gravações de Terra dos Pássaros, Horta conseguiu um acordo com a gravadora EMI-Odeon, que propôs a gravação de um novo álbum, comprometendo-se a prensar, distribuir e licenciar seu disco inaugural.(...) Assim, pode-se falar em um quadro de complementaridade que passou a existir entre a produção independente e as grandes gravadoras (DIAS, 2000, p.129)

Separei ainda o link para o depoimento de Toninho ao Museu Clube da Esquina [completo, aqui]. Um trechinho em que ele comenta duas canções do disco: “Diana”/ “Céu de Brasília”
A Diana era uma cachorra. Às vezes falo nos shows: “Vou tocar uma música chamada ‘Diana’, minha e de Fernando Brant. Se tiver alguma Diana na platéia, me desculpe, mas a música foi feita pra uma cachorrinha”. Com “Céu de Brasília” eu falei: “Tenho uma música que eu quero que chame ‘Céu de Brasília’”. Mas ele nunca tinha ido a Brasília. E fez uma letra que parecia que ele vivia em Brasília. Enfim. Vale dar grandes mordidas nessa bolacha.


4 de novembro de 2014

Outras 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro - 2a. parte

Retomando agora, após permanecer em estado de hibernação e enfrentar uma longa seca, a nova lista de mais 30 canções geniais do Clube da Esquina retorna em grande estilo, para embalar, com as costumeiras análises minuciosas de meu grande parceiro e amigo Pablo Castro. Sem mais delongas!
6. Aqui, oh!
Agora, de Toninho Horta e Fernando Brant, samba acelerado e molhado de tempero harmônico que só Toninho sabe fazer :
A ironia dissimulada da letra de Aqui, oh! pode levar o ouvinte a se enganar, julgando ser um samba mineiro exaltação ; trata-se, na verdade, de uma crítica sagaz a Minas Gerais, onde “alegria é guardada em cofres, catedrais “ , “ tem benção de Deus todo aquele que trabalha no escritório”, onde “um caminhão leve quem ficou por vinte anos ou mais” ... os desníveis e o sentido profundamente vertical das montanhas são traduzidos pela austeridade, a severidade do julgamento, o rigor da moral cristã, a condenação ao “trabalho sério”, a vida dignificada na penitência da avareza , no recolhimento e na apropriação sacramental da riqueza, e a humilhação de ter que ir a pé até o “pai”, figura suprema da encarnação da autoridade e dos deveres de um homem de bem. Até mesmo a redenção do amor encontrado na varanda, que representaria um escape desse universo rígido e opressor, em modulação na harmonia, é subitamente enquadrada na mesma equação em que tudo o mais é posto, como mais um dos frutos benditos concedidos pelo senhor ao homem honrado que cumpre suas obrigações. ( Em “Ele Falava Nisso Todo Dia”, de Gil, o protagonista da narrativa tem um destino tragicômico , em decorrência da busca incessante da segurança financeira ...) O eu lírico dessa canção se compraz com a ironia de sua mirada a Minas, sem cair no amaldiçoamento de Crônica da Casa Assassinada , do romancista Lúcio Cardoso, para quem Minas , segundo suas palavras, deveria ser simbolicamente destruída, por ser fonte de repressão atávica, mas também longe de uma louvação ufanista banal ; Minas aparece aqui como espelho de sinais ambíguos e invertidos da vida que se preconiza e aquela que, de fato, se vive, ainda que a pé e sem um tostão.
Toda essa ambigüidade e profusão de sentidos é expressa pelas harmonias altamente temperadas de Toninho Horta, embora encadeadas em firme quadratura , num tom de Mi Maior ; a forma já menos clássica, com uma parte A de 20 compassos , desembocando em uma breve parte B , modulada para Fá Sustenido, “na varanda eu vejo o meu amor”, em seis compassos, seguida por uma espécie de estribilho : “bendito é o fruto dessas Minas Gerais” .
Interessante notar como o movimento pendular dos dois primeiros acordes da música, E7M(9) e C7M(13)(9), depois dá lugar a um tempo mais longo de E7M , seguido por um Lá alterado , A7(9)(#11)(13) , depois do que o ritmo harmônico se acelera . O percurso harmônico insinua uma modulação não-confirmada para Sol Maior, com Am7(9) e D7(13) , quando o que vem é a cascata de dominantes, G#7(13), G#7(b13), C#7(11)(9) , C#7(b9)(#11) , e voltando ao tom por meio da sequência F#m(7)(9) ( Segundo grau do campo harmônico de Mi Maior) , G#m7(9) ( Terceiro grau alterado, pela nona justa, do mesmo campo harmônico) , Am7(9) (Quarto grau menor) e B7(11)(b9) (Quinto grau dominante do homônimo Mi Menor) . e voltamos, brevemente ao tom de Mi, para mais uma volta ao dominante do dominante do dominante (C#7(b9) ) e enfatizamos mais tempo o Dominante do Dominante, F#7(9)(13). Esse acorde tem um sentido irônico, quase jocoso, o que enfatiza a mensagem provocativa da letra. E ele é repetido como um amuleto modal para os vários compassos de improviso que costumam preencher essa canção, transformada por muitas vezes em tema para improvisação.
A primeira versão dessa canção saiu no disco da igrejinha, o Milton Nascimento de 1969, com o próprio Toninho no violão e no contracanto; de fato, essa era a primeira composição dele a ser gravada por Bituca, de uma série de pérolas, e também traz a assinatura do então jovem Fernando Brant. Mais tarde, em 1983, Toninho lançaria uma versão de Aqui, oh! no seu segundo disco, já com uma instrumentação mais recheada e virtuosística a provar o desafio de improvisar sobre tão elaborada harmonia. De todos os membros do Clube, o único a fazer frequentemente sambas foi o Toninho, mas sambas tão molhados de sua concepção harmônica, que passaram despercebidos aos guetos tradicionais do gênero.

Aqui , Oh! ( Toninho Horta e Fernando Brant)

Oh Minas Gerais
Um caminhão leva quem ficou
Ou vinte anos, ou mais
Eu iria a pé
Oh, meu amor
Eu iria até meu pai
Sem um tostão
Em Minas Gerais a alegria é
Guardada em cofres, catedrais
Na varanda eu vejo o meu amor
Tem bênção de Deus
Todo aquele que trabalha no escritório
Bendito é o fruto (x3)
dessas Minas Gerais
(Minas Gerais...)




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7. Nascente ( Flávio Venturini – Murilo Antunes )
Balada suprema de Flávio Venturini e Murilo Antunes, já eternizada em dezenas de releituras, Nascente lhes valeu o convite para o ingresso no restrito grupo de compositores gravados por Milton Nascimento, na década de 70, quando, depois da estréia em gravação do primeiro disco de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico, de 77, ela foi regravada no Clube da Esquina II , no ano seguinte, com participação vocal do próprio Flávio , e arranjo do grande Francis Hime.
Mas a versão que tenho como base é mesmo a primeira, de Beto, em que este canta seu falsete metálico e executa a bateria, o compositor Flávio no órgão, Novelli ao piano, Nelson Ângelo ao violão e Toninho Horta no baixo e na orquestração. A introdução se vale de ataques repentinos e suspense que vai sendo cautelosamente criado pela alternância de piano, violão, órgão e os pratos do cantor. Essa introdução, que depois volta sob a função de interlúdio instrumental, é essencial para o efeito que a melodia vocal causa ao entrar a voz : atacando, depois de um salto, dramaticamente a quarta justa da escala do tom recém-descoberto Sol Maior, o começo da melodia é já uma espécie de apogeu antecipado, de uma força incomum para a primeira frase vocal.
A letra, de um erotismo a um mesmo tempo incandescente e contido, vagueia entre metáforas visuais, quando a “estrela” aponta a nota mais aguda e alta da tessitura melódica, e surpreende pelo cume de seu salto ; nada é devidamente desentranhado desse rol de imagens que seja mais prosaico ; ao contrário, o sentimento da canção jorra muito além do que qualquer racionalização pudesse explicar. E Nascente é uma das baladas com maior carga de emoção que pode acometer um cantor : as poucas e sintéticas frases da música tem em cada nota uma densidade emotiva fora do comum.
A forma também é engenhosa, embora também firmemente ancorada em quadraturas. A introdução nos leva a um passeio de Mi Menor até a clarificação de Sol Maior, seu relativo, em 8 lentos compassos , cada um nos respectivos acordes : Em7 / F#m7 / F7M / F#m7 / D7M/F# / F7M(9) / Em7(9) / Eb6(b5) / D7(4)(9) . Então, a voz entra “clareando” , em appogiatura da quarta para a terça maior, em duas notas longas , de meio compasso cada. Segue-se uma inclinação para o relativo Mi Menor, a partir do qual o ritmo harmônico dobra e mais uma vez se inclina para o mesmo Mi Menor. Dessa vez, a descendente do baixo nos leva a C7M( quarto grau), alternando com C#m7(b5), e proporcionando uma ambigüidade clássica entre um tom maior e seu relativo menor, no caso, Sol Maior e Mi Menor. Logo em seguida, temos a repetição do desenvolvimento da parte A, a partir do momento em que aparece o Mi Menor. Trata-se de um efeito formal sutil , distintivo, e nada vulgar, de fazer o giro na canção sem voltar sempre no mesmo começo do ciclo.
Nascente carrega em si , dessa forma, os méritos de seu grande sucesso, e aponta , de certa forma, a direção de seu compositor : baladas românticas tomadas de grandes metáforas visuais e jorros de emoção melódica e alguma ambigüidade harmônica. Tanto é assim que Flávio Venturini, assim que saiu do 14 Bis, lançou um disco tendo ela como canção-título, inaugurando uma bem sucedida carreira muito pautada já por essa canção. "

Nascente ( Flávio Venturini - Murilo Antunes )

Clareia manhã
O sol vai esconder a clara estrela
Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos
A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento, louco de prazer e desejos
Ardentes




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8. Bodas ( Milton Nascimento e Ruy Guerra)
O cineasta, poeta , dramaturgo e letrista Ruy Guerra era parceiro de Milton Nascimento, antes e depois de escrever a peça censurada Calabar*, ao lado de Chico Buarque e assina algumas das letras mais violentas** contra a ditadura militar que figuram no cancioneiro do Clube da Esquina. Destacam-se Canto Latino, E Daí, e Bodas.
O sax-tenor Paulo Moura imita as trombetas do inferno que foi a invasão das Américas pelos europeus, e um ataque imperial de Robertinho Silva em seus tambores é transmutado em momento mágico pelo phaser da guitarra de Toninho Horta, enquanto Bituca anuncia : Chegou num porto um canhão, dentro de uma canhoneira , neira, neira, neira , neira ...
O eco das terminações de tais ícones da tecnologia bélica, os índices da riqueza e da violência, da rainha ao capitão, a pólvora e a taça de prata, todos esses objetos que representam a fome que eles tinham de cacau e sangue, reproduzem os desdobramentos nunca apagados de toda a opressão e do genocídio que o processo de colonização significou, a despeito de tudo ter sido feito em nome do Senhor. Não se mata assim uma única vez, e a volta e a repetição de cada um desses golpes é amplificada pelo canto quase grito de Milton, nas grimpas de sua voz retumbante.
“Deus” aparece aqui no seu verdadeiro papel de salvaguarda moral para todos os tipos de atrocidades cometidas em nome da bandeira inglesa, e de tantas outras. A Corte atenta e faminta pelo cacau dessa mata, mata , mata , mata , é , por fim, satisfeita.
Os acordes giram em torno de Si Bemol Maior, com aparições de Fá Maior, Sol Menor, e Dó com Sétima suspenso , e Mi bemol Maior. Diríamos que a tonalidade oscila, no percurso da canção, entre Si Bemol Maior e Fá Maior, com uma breve passagem por Sol Maior ( Minha vida e minha morte ...) Mas essa canção não passa por uma resolução progressiva de tensões hamônicas, antes usando, longamente, cada acorde como uma cena épica e dramática do que conta a letra. O recurso do eco indefinido, a falta de pulso regular, a introdução cerimonial e a violência do canto nos levam direto a um lugar-tempo histórico onde ainda lateja a dor de tanto sangue derramado em nome da moral e dos bons costumes.
Bem apropriado para o momento histórico que estamos vivendo. 


*N.E. Me ocorre que o recurso de remeter ao tempo histórico da colonização tratando simultaneamente dos conflitos próprios daqueles tempos de chumbo constitui não uma semelhança entre Bodas e a peça Calabar, mas também um ponto de convergência entre várias canções populares do período. Um ponto a ser devidamente explorado pelos historiadores, para além do recurso didático - muito válido, diga-se de passagem - de recorrer a estas canções para interpretar a leitura que fazem do período em questão. 

** N.E. Quanto a isso remeto o leitor à análise comparativa proposta por Túlio Villaça entre Bodas e Mathilda Mother do Pink Floyd, em seu ótimo blog Sobre a canção [aqui]


 
Bodas 

chegou no porto um canhão
dentro de uma canhoneira, neira, neira...
tem um capitão calado
de uma tristeza indefesa, esa, esa...
deus salve sua chegada
deus salve a sua beleza
chegou no porto um canhão
de repente matou tudo, tudo, tudo...
capitão senta na mesa
com sua fome e tristeza, esa, esa...
deus salve sua rainha
deus salve a bandeira inglesa
minha vida e minha sorte
numa bandeja de prata, prata, prata...
eu daria à corte atenta
com o cacau dessa mata, mata, mata...
daria à corte e à rainha
numa bandeja de prata, prata, prata...
pra ver o capitão sorrindo
foi-se embora a canhoneira
sua pólvora e seu canhão, canhão, canhão...
porão e barriga cheia
vai mais triste o capitão
levando cacau e sangue, sangue, sangue...
deus salve sua rainha
deus salve a fome que ele tinha.

https://www.youtube.com/watch?v=lurFsYB3peE
https://www.youtube.com/watch?v=fOxPv9vDlLM

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 9. Ponta de Areia ( Milton Nascimento – Fernando Brant) 

A despeito de ser um compositor que costuma navegar as águas mais profundas e tortuosas das páginas da música popular, Milton Nascimento tem um canal fino de acesso ao mais infantil das cirandas de roda, capaz de desenhar as melodias mais singelas em acordes perfeitos, sob as quais ocorrem as mais heterodoxas passagens rítmicas sem que se aperceba delas, tal a integridade da frase melódica e da forma. Em certas ocasiões, a simplicidade formal é incrível, como nesta pérola, que consiste na simples reexposição de uma frase "a" e uma variação dela, "a´". Em Raça vemos esse mesmo minimalismo melódico.
Claro que esse aspecto hai-cai da melodia é dirimido pela longa introdução de sua gravação primeira, no disco Minas, com as sinuosidades do sax de Nivaldo Ornellas e a felliniana ambientação musical e percussiva que segue, interrompidas pelo canto idílico de crianças no jardim de infância, em Fá Maior; desse jardim somos catapultados de súbito uma quarta acima, em Si Bemol, tom que vai predominar daí até quase o fim, com o surreal falsete miltoniano em suas pontas mais agudas. Um coro sacro sustenta a primeira estrofe que enuncia o último ponto da estrada de ferro que ligava Minas à Bahia*; a estrada de ferro, antes índice máximo da tecnologia mundial dos transportes, curiosamente aparece como elemento da natureza, da paisagem já tomada, e agora despido de sua força-vital ; “mandaram arrancar”. Em torno da estrada de ferro todo um cenário se constitui e se desvanece , e vai se perdendo numa nostalgia que se verifica, também, em Saudade dos Aviões da Panair, também letra de Fernando Brant. Os meios de transporte "ultrapassados", como o bonde, o trem, e os antigos aviões, são tomados como eixo lírico de toda uma visão de mundo que tem no Brasil - e no interior do país - seu centro geográfico. A passagem do tempo impele um trabalho contínuo de destruição e ressignificação do que antes era progresso e hoje é nostalgia ; mas esse tempo histórico não é tido como natural, e o sub-texto da canção é uma condenação velada ao desenvolvimentismo do Brasil Grande, com suas Transamazônicas e o sucateamento das ferrovias, ao mesmo tempo que a Feira Moderna da televisão nacional anunciava o encurtamento das distâncias, enquanto outras só se alargavam.
Notável, voltando aos aspectos estritamente musicais, é o solo desenvolto e de arribação de Nivaldo Ornellas, assim como a articulação entre bateria, Paulo Braga, baixo elétrico, Novelli, e piano elétrico, Wagner Tiso, para a levada pop de uma música tão idiossincrática em sua métrica: um compasso de 4/4 é seguido de um de 5/4, em ambas as frases da melodia; porém a acentuação sugere outras possibilidades de divisão de compassos, como um compasso de 4/4, um de ¾ e um de 2/4 . E é incrível como as platéias mais leigas nunca se confundem com isso, como a reafirmar a naturalidade da divisão melódica. Cantigas de roda com esse tipo de característica não ocorrem a qualquer compositor.
Regravada uma infinidade de vezes, trata-se de uma das mais consagradas loas da dupla Nascimento e Brant, e é natural que a grandeza da música se justifique por sua simplicidade misteriosa e reveladora.


*N.E. A Estrada de Ferro Bahia Minas (EFBM) era uma linha ferroviária brasileira que ligava o norte de Minas Gerais com a cidade de Caravelas no litoral sul da Bahia. Teve como diretriz a ligação do arraial de Ponta de Areia, próximo a cidade de Caravelas, à cidade de Araçuai no interior de Minas Gerais,numa extensão de aproximadamente 600 km. (Rodney Vogel no You Tube).  Cabe lembrar que Fernando Brant, à serviço da revista O cruzeiro, produziu o texto de foto-reportagem a respeito do encerramento das atividades da linha, que segundo o próprio lhe inspirou a criar a letra da canção.

https://www.youtube.com/watch?v=kXABM6vuCmM
https://www.youtube.com/watch?v=L2AI5S76WIg
https://www.youtube.com/watch?v=eApasQ8a1Zs
https://www.youtube.com/watch?v=GNhMmdbNqso
https://www.youtube.com/watch?v=ebCi2x48U6c
https://www.youtube.com/watch?v=V7snPl8L6Zg
https://www.youtube.com/watch?v=OYV11DtFPWI [com imagens do trajeto Bahia-Minas]

Ponta de Areia ( Milton Nascimento – Fernando Brant) 

Ponta de areia ponto final
Da Bahia-Minas estrada natural

Que ligava Minas ao porto ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar

Velho maquinista com seu boné
Lembra do povo alegre que vinha cortejar
 
Maria fumaça não canta mais
Para moças flores janelas e quintais

Na praça vazia um grito um ai
Casas esquecidas viúvas nos portais



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10. Uma Canção ( Lô Borges e Ronaldo Bastos)
O cancioneiro nacional é repleto de meta-canções extraordinárias, desde Feitio de Oração, de Noel Rosa e Vadico, até Festa Imodesta de Caetano Veloso, desde O Compositor Me Disse , de Gilberto Gil até Corrente, de Chico Buarque, para não falar na sensacional Letra de Música, de Kristoff Silva e Makely Ka, célebre no nosso eldorado subterrâneo. “Enquanto o ouvido duvida o olho trabalha, dilatando a pupila pra ver nublado brotar a lágrima” . Poucas são tão singelas quando Uma Canção, lamento em Mi Menor cantado com ecos joãogilbertianos por Lô Borges, enquanto dedilha seu violão de cordas de aço e assobia a melodia despreocupadamente.
O lirismo melancólico, inscrito no cromatismo melódico descendente inicial, em campo claro de Mi Menor, passando pelo sexto e quarto graus ( Dó e Lá Menor) , é dos mais distintos, ilustrado por inspiradas imagens pontuais que apontam para o caráter sintético do objeto canção. A leveza que sustenta o peso, o raio que penetra o desvão, o cheiro que carrega o tempo, e lâmina de tal precisão: imagens cristalinas na descrição do ato de compor, lapidar um objeto fugaz, abstrato e ao mesmo tempo depositário de tanto sentido.
A valsa flui enquanto o desenho harmônico acumula graus de suspense e resoluções diferidas, como em A7(9), e aquela dicção típica de Lô se encontra nas equilibradas alternâncias entre graus conjuntos e saltos ; no aspecto forma, temos apenas um A com algumas variações no fim de sua segunda seção, que tem uma extensão de 14 compassos, na seguinte disposição : 3+4+4+3 . Essa extensão muda, assim como a resolução harmônica, ao fim da terceira estrofe, e ainda numa outra variação para o fim da música, com aparições elegantes de empréstimos modais do modo frígio e a resolução no homônimo maior. Coisa de gênio. Das suas maiores baladas, Uma Canção adquiriu monumental reputação em rodas de violão de amantes da música mineira.

Uma Canção (Lô Borges e Ronaldo Bastos)



Uma canção é leve e pode sustentar
Toda emoção
Que pesa demais
E num passe de mágica faz voar
É gota d'água e faz transbordar
Vai na enchente arrastando
O que pode transformar
Em nuvem do céu
Da inundação
Uma canção é clara e pode penetrar
Negro desvão
Que um raio de sol
Com a súbita chama faz clarear
Um viajante que se fez perder
Por sua estrela se inicia
Nos mistérios de querer
A lâmina ser
De tal precisão
Qualquer pessoa pode assoviar
A voz humana se decifra
Quando canta por prazer
De juntos trilharmos uma canção
Uma canção é lenha e pode consumir
Uma paixão, um caso de amor
Que o som das palavras vai traduzir
É rima simples e retém calor
Se ilumina quando toca uma pessoa
Que se quer bem perto da brasa do coração
Uma canção tem cheiro e pode transportar
Uma fração de um tempo qualquer
Que a gente viveu num outro lugar
É diamante para lapidar
Na pedra bruta segue o veio da beleza
Quando faz soar cristalina revelação...

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20 de novembro de 2013

Um Brasil bem perto daqui

Parei tudo aqui e estou ouvindo, com grande interesse, o LP Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara (1976) de Taiguara, só agora relançado no Brasil em CD [uma boa reportagem sobre o disco, aqui]. O som é exuberante, elaborado, e as letras contundentes, cinematográficas, brilhantes. Um disco denso, desafiador, que burlou a censura mas acabou sendo recolhido poucos dias depois de seu lançamento. Retrato vivo de seu tempo e simultaneamente uma leitura da história do Brasil e do continente americano. Feito no emblemático ano de 1976, que já abordei em outras postagens do blog. Além das 13 faixas compostas por Taiguara, figura uma versão solitária, e mais do que significativa, de Três Pontas (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos). Não é pura coincidência o disco ter sido gravado na EMI-Odeon, casa que abrigou boa parte daquela turma simbolicamente reunida numa certa esquina. O diálogo com o Clube e com as pontes panamericanas propostas por Bituca e cia. é mais do que audível, e reverbera também pela atuação de seus membros ilustres como Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornellas e Novelli. Entre outras feras presentes, incluindo Hermeto Pascoal (responsável por alguns dos arranjos), Jacques Morelembaum, Paulo Braga...
Vale conferir ainda o site oficial do CD, bem cuidado e fazendo jus à obra que motivou sua existência. Destaque para as seções "letras" (traz fichas técnicas faixa a faixa), "entrevistas", "depoimentos" e "a censura". Mas todo o sítio vale a visita. E agora vamos ouvir que é o que mais interessa:

P.S.
Um dos melhores atrativos de manter o blog é a possibilidade de ir incorporando novos elementos e aperfeiçoando as postagens. Não é que hoje (28/12/2013) meu parceiro Pablo Castro, habitual colaborador aqui, resolver escrever algumas linhas sobre o disco. Também vale a leitura o certeiro texto do excelente cantautor Makely Ka, aqui.

Por Pablo Castro:
Acabo de escutar a obra-prima de Taiguara , seu disco censurado Imyra, Tayra, Ipy , Taiguara, de 76, ano em que nasci. Na verdade, eu já era familiar com seu disco Piano e Viola, de 72, que constava na coleção de vinis de meu pai. Eu gostava daquele disco, reconhecia o refinamento de suas melodias e seu domínio expressivo do piano, embora considerasse que ele sucumbia a algumas soluções excessivamente sentimentais e torrenciais em alguns momentos. Impressão parecida tive outro dia a escutar um LP anterior, de 69.

Mas Imyra,Tayra, Ipy, Taiguara é arrebatador. Essas torrentes emocionais que sempre acompanharam suas músicas dessa vez são totalmente naturais e a orquestração, simplesmente fantástica, épica e expressiva, está entre as mais inspiradas de toda a produção fonográfica brasileira. As canções são nada menos que estupendas, começando com um refrão que diz : " eles querem lotar o maracanã" , aliando as assertivas pianísticas de Taiguara com um nível de orquestração que beira o sentimento sinfônico. Esse trangredir de fronteiras se vale também de experimentações tecnológica, com o uso despudorado de reverbers, ecos, truques analógicos, e também da retórica intrumental de nomes como Hermeto Pascoal , Toninho Horta , Nivaldo Ornellas, Wagner Tiso , Jacques Morelembaum, Zé Eduardo Nazário, Novelli , Paulo Braga, Lúcia Morelembaum . Esse disco realmente é um Rio Amazonas de expressividade grandiosa , o que também transparece no canto arrojado do cantautor, se valendo de notas longas, falsetes, sempre com melodias rigorosas em suas redondezas. A harmonia transparece um diálogo com Milton Nascimento, para cuja canção Três Pontas ( em parceria com Ronaldo Bastos ) ele apresenta um arranjo espetacular, que chega a superar o original.

As letras falam do auto-exílio ao pé da letra e daquele auto imposto pela censura no Brasil. A sua atualidade é tocante. Que justamente esse disco tenha sido totalmente censurado é mais um testemunho de um crime da ditadura militar contra a cultura brasileira. Que ele e seu autor ainda não tenham sido redescobertos e consagrados pela grandiosidade de sua obra atesta a nossa empobrecida relação com a memória musical de um país que é um país de canções : aquele Brasil idílico de que teimamos não conseguirmos nos desvencilhar.





P.S. 2019
Encontrei esse trecho do programa Metrópolis de 2014, com depoimentos de Wagner Tiso, Jacques Morelembaum e Novelli a respeito do processo de gravação do disco, do trabalho com Taiguara e dos acontecimentos que cercaram aquele período.


22 de setembro de 2013

De novo na esquina os homens estão... pintando as cores do clube



Na última quinta fui ao show de estreia de As Cores do Clube, grupo que reúne diferentes gerações de músicos associados ao Clube da Esquina pelo sangue, pelo suor e pelo som, capitaneados com toda a autoridade e brilhantismo por Toninho Horta. Fiquei esses dias todos pensando em escrever resenha, em comentar, em recordar. Acho que não farei nada disso. Muitas das coisas que passaram pela minha cabeça não querem tomar a forma de palavras. Acho que, essencialmente, por uma coisa que eu disse ao final do espetáculo, que me sentia ali, pela primeira vez em muito tempo, na "mera" condição de espectador. Deixei de lado as pesquisas, deixei de lado a porção crítico, a porção historiador, a porção compositor. Estava ali somente de Luiz, ouvindo, vendo, curtindo. Vou simplesmente sair escrevendo e ver no que dá. Vendo que era estreia, que um detalhe aqui ou ali não sai como se espera. E daí? O público, de inicio meio indolente, foi entrando no ritmo e participando cada vez mais, contagiado pela energia que sobrava no palco. O clima de informalidade, de intimismo, os sorrisos, a emoção, os abraços, em momento algum põem em questão a competência dos músicos, pelo contrário, revelam sua humanidade, sua carne e seu osso. E como é bom ver que ali há pessoas e que são elas, com seus limites e talentos, que fazem o verdadeiro show. As trocas constantes de instrumentos, dos protagonismos, dos apoios, revelavam a atmosfera impregnada de musicalidade. O repertório precioso, que eu cantava a plenos pulmões uma canção atrás da outra, nos deixa com a certeza do peso da obra do Clube, em profusão generosa, sem economia. E ainda ficaram, claro, algumas pérolas de fora, mas é bom que fica a vontade de ouvi-las numa próxima apresentação. Vou me permitir não comentar detalhadamente pra não deixar a desejar, não deixar de fora um ou outro momento, nem nada nem ninguém. Vou também apelar para o clichê sem nenhuma cerimônia, e comparar o grupo com aquele time de futebol bem equilibrado e entrosado, que mistura craques experientes com a juventude da base, fórmula que ganha campeonato. É por aí. Depois se calhar de escrever mais, de fazer resenha, farei. Quem quiser deixar suas impressões, recordações, opiniões, deixe que será de grande valia. Por agora fica a sensação - sinestésica - de que as cores do clube pintaram muito bem.

Sonho Real (Lô Borges & Ronaldo Bastos)




Foto de divulgação anterior ao show "De novo na esquina os homens estão.." Sobem ao palco do Teatro Bradesco no próximo dia 19: Toninho Horta, Telo Borges, Paulinho Carvalho, Beto Lopes, Rodrigo Borges, Gabriel Guedes, Ian Guedes, Tutuca Tiso. Participações especiais de Carla Villar, Bárbara Barcellos, Esdra Nenem e Nelson Angelo.

8 de dezembro de 2012

As 30 mais genais do Clube da Esquina, por Pablo Castro - LISTA 1 Parte 4

Parte 4, feita no sufoco num sábado com mais trabalho que diversão. Mas vamos que vamos, e quem quiser passar pelas outras partes pode conferir aqui mesmo a lista completa do blog:

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Lista do Clube - a saga continua ! N° 19 UM GOSTO DE SOL, Milton e Ronaldo Bastos. Ponto de interseção com a mais consagrada Cais, dos mesmos autores, Um Gosto de Sol se revela, por outro lado, um viés talvez mais existencialista - em vez de "e sei a vez de me lançar", o que implica, apesar de todo o ceticismo, ainda uma ação, temos aqui a memória de um enigmático relance como prova da inexorabilidade da perda ou, para uma pera esquecida na fruteira, o apodrecimento dos sonhos e do riso que não voltam mais... 

A incompletude humana se espelha nas reticências do que é dito, e sobretudo do que não é dito mas é intuído e sentido na música. Um Gosto de Sol é a ocasião propícia para o piano de Bituca, num 6/4 fluido que as divisões "estacatas" dos acordes são contrabalançadas pelas longas notas da linha de baixo ( no piano), enquanto o sutil reverb na voz de Milton corrobora o distanciamento de toda a cena. 

O tema final , na verdade é o mesmo que aparece no fim de Cais, e consiste numa linha de baixo descendendo sobre blocos de acordes em Dó Menor ( Um Gosto de Sol é em Dó Maior) e, de fato, a melodia é o baixo, que, depois de transpor o trecho primeiro para a subdominante, modulando em seguida ao relativo maior, passa por um acorde aumentado e a melodia em escala de tons inteiros, o que confere um distinto senso de perda de direção que na verdade é o subtexto de toda a canção. Gravada no disco Clube da Esquina (1972), é o momento mais dramático do disco.

UM GOSTO DE SOL

Alguém que vi de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira

Alguém sorriu de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira


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A vigésima escolhida é SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar), canção de Milton e Fernando Brant na rara métrica de 5/4, tematizando o passado pré-64, o tempo dos bondes, da primeira coca-cola, da campanha da Itália, sobretudo da companhia aérea brasileira Panair, perseguida pelo regime militar e que faliu poucos anos depois do golpe. E tematizando, também, por outro lado, a conversa do bar, de forma que os dois títulos da música incorporam na verdade os dois temas da letra. Como é comum nas melhores letras do Clube, vozes ocultas e frases malditas aparecem como assombrações do passado na camisa de força de Minas, o lado sombrio da cultura montanhesa- "no fundo do quintal morreu, morri a cada dia dos dias que eu vivi". O coro semi-afinado de bebuns homens comuns na mesa do bar conduz a música até que Milton assuma, com sua voz de Deus: nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar. Percussões variadas e agudas, violões rasqueados e súbitos, coros gregos, sussurros sombrios, os meninos Paula e Bebeto, guitarra de Toninho Horta, um caleidoscópio de sons e memórias... Para a magnífica coda, a tempo vira para 3/4, e o ciclo de quartas desce como um carrossel enquanto a cena é vista cada vez de um ponto de vista mais distante, em volta da cidade .... Absolutamente magistral!

SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar)

Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeira

E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levei um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno nas asas da Panair

E lá vai menino xingando padre e pedra

E lá vai menino lambendo podre delícia
E lá vai menino senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado sem pavor
O medo em minha vida nasceu muito depois
descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair

Nada de triste existe que não se esqueça

Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere o coração
Nada de novo existe nesse planeta

Que não se fale aqui na mesa de bar

E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta
Que no fundo do quintal morreu
Morri a cada dia dos dias que eu vivi
Cerveja que tomo hoje é apenas em memória
Dos tempos da Panair
A primeira Coca- Cola foi me lembro bem agora
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair

Em volta desta mesa velhos e moços

Lembrando o que já foi
Em volta dessa mesa existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas existe a rua
Vivendo seu normal
Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais
Em volta da cidade


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FAZENDA é a de número 21, letra e música de Nelson Ângelo, que abre o disco Gerais (1976), dando o tom mais 'regional' de um álbum que contém coisas como Calix Bento, Carro de Boi, Circo Marimbondo, a andina Caldera e Volver a los 17 e a indígena Promessas do Sol

O poder de síntese do músico Nelson Ângelo na feitura dessa letra é de se admirar, tecendo por meio de imagens todo o cenário de uma experiência tão comum daquela época: as férias na fazenda de algum parente... cabe ressaltar que o cancioneiro do Clube tem um lugar deveras importante para o tema da infância: podemos citar Era Menino ( Beto Guedes , Tavinho Moura e Murilo Antunes), Tesouro da Juventude ( Tavinho e Murilo) [já comentada na 1a. parte desta lista], Pablo ( Milton e Ronaldo Bastos), Gabriel ( Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Maria Solidária ( Milton e Fernando Brant) Dindilin (Tavinho Moura e Fernando Brant ) Bola de Meia, Bola de Gude (Milton e Fernando) e outras. 

Fazenda incorpora esse olhar pelas experiências sensoriais que a Fazenda e a vida lúdica das férias representam, especialmente intensas quando se é criança. Musicalmente ela se baseia em uma frase melódica simples, com apenas 3 notas, mas escolhidas a dedo: a quinta , a sétima e a sétima maior de um tom menor (no caso, Si), numa sequência de 3 acordes menores : Bm7, Gm7 e F#m7. Nesse caso, parecemos estar em Si menor ou seu relativo Ré maior. ( Milton talvez seja o grande precursor em encadear belamente sequências de acordes menores sem maiores relações clássicas de parentesco harmônico) 

Na segunda sessão desse grande A, que leva a um "proto-refrão", vamos para Lá maior, tom próximo do anterior, e a melodia , mantendo sua unidade, sobe o perfil a alturas maiores, a voz de Milton com seu costumeiro reverb divino , parece vir do alto da montanha : e no amanhã , nós ... 

A orquestração de Nelson Ângelo risca notas agudíssimas, algumas curtas, outras longas, mas sempre em uníssono, em vez de acordes; enquanto as flautas colorem bicas no quintal, Beto Guedes canta algo como " tinha arara " como segunda voz e na despedida, com a bateria espetacular de Robertinho, ficamos suspensos naquele fio de memória ... 

Ficha Técnica: 
Milton Nascimento - Voz e Violão
Nelson Ângelo : Viola de 10, violão e orquestração
Novelli : Baixo e piano
Robertinho Silva : Bateria
Beto Guedes : Vocal, se não me engano...



FAZENDA

Água de beber

Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós(2x)
Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá(4x)


 

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MILAGRE DOS PEIXES é a escolhida de número 22, na lista das 30 melhores do Clube da Esquina. Parceria entre Milton e Fernando Brant, deu nome ao disco de estúdio, o mais experimental de Bituca, e o de orquestra ao vivo, o mais grandioso. 

Nessa música Milton consagra de vez sua assinatura harmônica, levando às últimas consequências os cromatismos harmônicos descendentes que vinham desde Canção do Sal, passando por Sentinela, Nada Será como Antes, Novena, A Sede do Peixe (que antes era um tema instrumental) , e a sublime Vera Cruz, e os movimentos harmônicos sobre o baixo pedal, que se verificam em canções como Morro Velho, Fé Cega, Faca Amolada, Maria, Maria, Ao que Vai Nascer, Os Povos, Amigo, Amiga, Cadê, Tema de Tostão e outras. 

Para leigos, esses cromatismos são pequenos grandes movimentos de fuga do campo harmônico onde estávamos no momento anterior, enquanto o baixo pedal é a manutenção de uma nota grave com a qual os acordes que mudam vão mantendo diferentes relações. 

Em Milagre dos Peixes, ambos os procedimentos são fundidos como em nenhuma outra, num equilíbrio que a destacou até dentro do repertório absurdamente rico e original de seu criador, o que logo foi notado por Wayne Shorter, com quem Bituca gravou, no mesmo ano, um álbum em parceria, Native Dancer

Milagre dos Peixes é também um dos maiores feitos de seu letrista, Fernando Brant, condensando o forte signo dos 'peixes' com o jugo verde da ditadura e da já poderosa presença da televisão, amarrando vários dos interesses fundamentais do credo, ou do ethos, do Clube , entre eles o elo redentor da amizade, o amargor da situação política, e as metáforas de longo alcance, o que permitiu que não se reduzissem àquele contexto histórico. 

A forma é exemplar : um estrilho que começa (e termina) a parte cantada, uma estrofe, um B, que leva de novo ao A e fecha com o estribilho, repetido para a improvisação vocal de Milton e um chorus clássico para improvisação jazzística. Extra-terrestre ! :)

Ficha técnica:
Mliton : Voz e violão
Toninho : guitarra
Wagner : piano e órgão
Nivaldo : sax
Robertinho : bateria
orquestração : Wagner Tiso 


MILAGRE DOS PEIXES

Eu vejo esses peixes e vou de coração
Eu vejo essas matas e vou de coração à natureza

Telas falam colorido de crianças coloridas
De um gênio televisor
E no andor de nossos novos santos
O sinal de velhos tempos
Morte, morte, morte ao amor

Eles não falam do mar e dos peixes
Nem deixam ver a moça, pura canção
Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol
E eu apenas sou um a mais, um a mais
A falar dessa dor, a nossa dor

Desenhando nessas pedras
Tenho em mim todas as cores
Quando falo coisas reais
E no silêncio dessa natureza
Eu que amo meus amigos
Livre, quero poder dizer

Eu vejo esses peixes e dou de coração


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A vigésima terceira é PEDRA DA LUA, de Toninho Horta e do saudoso poeta e letrista Cacaso. Toninho é este artista impressionante e expressionista da harmonia, e nessa canção ele já inicia o discurso com um acorde altamente dissonante , um alterado com a seguinte cifra : E7M(b10), segundo a nomenclatura do mestre mundial em teoria da harmonia, o brasileiro Fábio Fabio Adour

O que é mais fascinante é como Toninho consegue dar sequência lógica funcional a acordes aparentemente "irracionais", e a metáfora da pedra da lua converge perfeitamente à estranheza de alguns acordes. A música acaba por se revelar como uma colcha de retalhos de fragmentos de memórias, e a mãe é a figura central. A infância é mais uma vez resgatada com imagens aparentemente desconexas , pequenos jogos de palavras com múltiplas ressifignações (lembrei desse termo vendo a entrevista do Gil no Jô !), e a pedra da lua, a mais enigmática... 

A forma, que, enredando sutilmente o fim de uma estrofe com o início de outra, proporciona um aspecto cíclico, faz com que tenhamos mais uma vez , tirando a introdução vamp nesse acorde de Mi alterado já referido acima, apenas uma seção, um A repetido , enredado e diferido, mas não um B contrastante. Talvez, do ponto de vista da estrutura formal, a "lição" mais clara da apreciação da obra do Clube seja essa sinteticidade que permite as maiores aventuras harmônico - melódico - rítmicas sem que a fruição da canção se perca num hermetismo, numa música para músicos. 

Essa relação equilibrada com procedimentos arquetípicos da música popular no fim das contas aparece muito sob o aspecto da forma. Aqui, por exemplo, temos essa seção principal da música com 12 compassos, o que é um número presente , por exemplo, no blues ... temos também em comum esse clima melancólico, profundo, perene que as pedras pontudas dos acordes nos arranham os ouvidos e corações...

PEDRA DA LUA

Dia, mania

Tarde covarde, noite açoite
Minha mãe calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino levante cedo
Menino não chegue tarde
Dia folia, tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino não morra cedo
Menino não chegue tarde
Dia mania... 


--##--


A vigésima-quarta da nossa lista é PAIXÃO E FÉ, de Tavinho Moura e Fernando Brant. Esse clássico que toca todo dia na Rádio Inconfidência às 6 da tarde (ou pelo menos tocava) celebra as raízes religiosas da cultura interiorana mineira, evocando as procissões, os cultos católicos entranhados na alma alterosa. 

Tavinho, com sua harmonia arrojada de acordes perfeitos, e métrica irregular, sai de lá maior , e rapidamente para mi maior, para desembocar em sol maior no refrão. Essas constantes modulações soam como degraus ascendentes frente à revelação espiritual da fé e da paixão. A agonia fica por conta de súbitos empréstimos modais que se resolvem via cromatismos ascendentes heterodoxos. 

Milton a gravou na super-produção do disco Clube da Esquina 2, onde ele experimentou particularmente o recurso de sua própria voz dobrada (aqui alternando entre intervalos de terças e oitavas), enfatizando aquele aspecto místico - religioso do seu canto. 

Beto Guedes estrela no seu virtuoso bandolim e os Canarinhos de Petrópolis fazem o contraponto angelical dessa canção de louvor à Fé e à Paixão. Clássico Imortal, e um exemplo de como a música pode abordar a religiosidade cristã sem aquele pedantismo evangélico que tanto caracteriza o gênero gospel .

PAIXÃO E FÉ

Já bate o sino, bate na catedral

E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressureição

E sai o povo pelas ruas a cobrir

De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei

No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração

E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor