Topei com essa versão aparentemente completa e com um certo tratamento dessa apresentação do programa Ensaio exibido em 1970 na extinta TV Tupi, reunindo em apresentação singular Gal Costa e o Som Imaginário, além da inserção particular de Tom Zé. Registro preciosíssimo para a história da MPB.
Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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10 de setembro de 2015
Grandes encontros da Música Popular
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1 de dezembro de 2014
Na lata, Tom Zé!
Vira Lata na Via Láctea, novo disco de Tom Zé, é uma verdadeira sonda mambembe lançada às profundezas da galáxia canção.Se tem um filme com esse nome passando no cinema, é usurpado, é equivocado, é desviado, pois o único disco voador que merece o título é esse: interestelar. E assim, brincando entre as palavras e as estrelas, Tom Zé capta com antenas atentas o que nos atenta a todos.Obras-primas instantâneas como Pour Elis - encontro com o ET de Três Pontas - provam que a canção não morrerá nem mesmo se o planeta Terra morrer, porque ela já foi, há muito tempo, pro espaço.
Entrevista de Tom Zé sobre o disco, aqui
Texto de apresentação do próprio:
Desde 76 os discos que faço têm sido cozinhados numa só panela e por um só assunto-tema. Agora, lembrando a arquitetura das igrejas românicas do século XI, este cd se apresenta com Capelas Irradiantes, construídas em torno de uma edificação central, cada uma abrigando uma parte do culto – aqui cantado e profano. As Capelas Irradiantes (nome que a gente repete com prazer) foram construídas em estilo e arquitetura muito variados e nós, neste disco, embora recorrendo apenas a texturas sonoras, também atacamos o tédio com bárbara ojeriza*. Não foi um plano. Diante da arrancada que a direção artística de Marcus Preto engatou, a forma irradiante se impôs com a presença de estilos apartados como os de Milton Nascimento, Criolo, Tim Bernardes, Trupe Chá de Boldo e Caetano Veloso (a primeira parceria que fazemos e - cantamos juntos). Elis Regina inspirou a presença de Milton: eu transformara em canção um texto escrito por Fernando Faro, como introdução de um vídeo, no primeiro aniversário da morte dela. Marcelo Segreto e sua Filarmônica de Pasárgada, Tim Bernardes (O Terno) e a Trupe Chá de Boldo, ao lado de Tatá Aeroplano e Gustavo Galo, trouxeram para o disco a Geração Y, esta já no ensaio geral do que Santaella chama de pós-humano. Nessa puxada, podemos chamar a vestimenta feita por Kiko Dinucci – arranjos secos e descarnados – para Retrato na Praça da Sé e o samba-editorialista Banca de jornal – uma pós-partitura-em-crise. O disco foi gravado por essas diversas bandas e cantores, mas vou lançá-lo e arrodear o planeta com o meu próprio conjunto: Daniel Maia, produtor, técnico, alguns arranjos, guitarra, violão e baixo; Cristina Carneiro, teclado e vocal; Jarbas Mariz, viola de 12, cavaco, percussão e vocal; Felipe Alves, contrabaixo, violão, cavaco e vocal; e na bateria, o calouro da banda, Rogério Bastos, também tratado por Rogério Duprato. TOM ZÉ
[N.E.] compartilho também o texto do colega pesquisador e blogueiro Leonardo Davino, que em seu Lendo Canção tratou do disco e em especial da faixa "Banca de Jornal" [aqui]
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6 de dezembro de 2013
Na estante (ou não)
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6 de agosto de 2012
O caso da censura
Ao ver o trecho do documentário Fabricando Tom Zé (2006) em que o mesmo discorre, da maneira que lhe é peculiar, sobre a censura nos idos da Ditadura Militar, acabei retomando alguma coisa do que escrevi sobre o tema.
Lembro-me, durante a pesquisa, de vários casos em que a sensação opressiva que vinha da constatação de como a liberdade é frágil, como mentes canhestras podem suprimir o espírito criador, convivia com o riso nervoso diante dos absurdos desprendidos da realidade com que me deparava. Fundindo dois ditos populares numa caixadágua só, eram 'muitos chifres para poucas cabeças de cavalo'. Era simplesmente insano, mas justamente por ser tão imprevisível a censura podia ser burlada. Como escrevi...
"A censura pontual e fragmentada consistiu um mecanismo dúbio, que vetava apenas as formulações mais evidentes e textuais (podia atacar imagens, frases e letras, mas não a música). Tal permitiu aos compositores desenvolver mecanismos de burla e uma linguagem sofisticada e metafórica que a censura ou não detectava ou tolerava. Entretanto, o mecanismo acabava por produzir uma internalização automática, de forma a fazer do compositor seu próprio censor. O que a princípio poderia parecer uma espécie de jogo (lembremos da criação do Julinho da Adelaide de Chico Buarque), onde as negociações simbólicas entre Estado-mercado-artista operavam de forma a não inviabilizar a produção de discos, foi se tornando desgastante, principalmente em se tratando de apresentações ao vivo, visivelmente mais censuradas. A censura deveria ainda compatibilizar sua função política com o interesse do regime no crescimento dos meios de comunicação de massa e garantir o lucro de seus donos privados nacionais e estrangeiros.(...) Esta operação em várias frentes (execução em rádio, ao vivo, gravação em disco) e a pontualidade dos cortes permitiu à censura se compatibilizar com os interesses da indústria fonográfica. As próprias possibilidades técnicas da indústria fonográfica facilitavam este tipo de censura, como a inserção de palmas para encobrir trechos censurados do disco ao vivo de Chico e Caetano. Ao mesmo tempo, permitia corrigir eventuais brechas e liberações, como no caso de Apesar de você : ao perceber a re-significação coletiva que promovia a canção a hino contra a ditadura, os órgãos censores a retiraram rapidamente de circulação. Vemos que a censura não se limita a uma proibição, uma repressão simbólica. Tão importante quanto aquilo que ela não deixou “passar” é o que ela deixou passar e o que ela não foi capaz de detectar. Lembremos que os diferentes momentos políticos do regime tem correspondência com diferentes estratégias de censura. De fato, no seu período inicial a ditadura conviveu perfeitamente bem com canções críticas e explícitas, para depois iniciar perseguições políticas e pessoais que ultrapassaram os próprios meios da censura.
Os prazos e burocratismos que delongavam sobremaneira a liberação de canções para shows exerciam uma considerável pressão econômica sobre o músico, na medida em que os atrasos poderiam prejudicar suas apresentações (...) A ausência de uma legislação referente à censura musical tornava-a ainda mais indiscriminada e sem critérios, e a atuação errática e subjetiva dos censores fazia ficar ainda mais complicada a vida dos compositores. As contradições geradas pela inoperância burocrática, pelos conflitos de poder entre órgãos e autoridades “competentes”(Dentel, Polícia Federal, ministérios), pelo caráter empresarial dos veículos de comunicação dependentes do Estado pelo sistema de concessão e pelo caráter informal da censura (muitas vezes aplicada com um mero telefonema), garantiram aos compositores, jornalistas ou escritores uma certa margem de manobra. Entretanto, estas mesmas relações conflituosas, excepcionais, davam ao Estado um poder de controle para além da capacidade de reprimir idéias. O Dentel poderia suspender funcionários ou mesmo uma empresa, o que provocava o recrudescimento da censura interna e mesmo da auto-censura, uma vez gerado o clima de medo e suspeição entre colegas. O ritmo burocrático e autoritário produzia um sentimento de desesperança e imobilidade diante daquele estado de coisas. O efeito psicológico da repressão, engrossado pela censura prévia e irrestrita, acabou por incentivar a censura interna em redações e mesmo a auto-censura entre os próprios compositores." (GARCIA, 2000)
Bibliografia
Bibliografia
GARCIA, Luiz Henrique Assis. Coisas que ficaram muito tempo por dizer: o Clube da Esquina como formação cultural. 2000. 154 p. Dissertação (Mestrado) - História, UFMG, Belo Horizonte, 2000.[link]
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