Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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13 de outubro de 2013

Os delírios não envelhecem

Acabei de voltar do show dos Mutantes tocando por completo o disco Tudo foi feito pelo sol (1974), contando com toda a formação que o gravou (Sérgio Dias, Túlio Mourão, Antônio Pedro de Medeiros e Rui Motta). Sob diversos ângulos, posso afirmar que foi um grande show, com execução primorosa e sanguínea, com direito a solos memoráveis - os "duelos" entre Sérgio Dias e Túlio Mourão foram de arrepiar - e uma usina poderosa de ritmo na chamada "cozinha", uma sincronia e entrosamento que impressionam. No rosto dos músicos estava estampado o prazer de tocar, correspondido pelo envolvimento do público. Já na terceira música todo mundo de pé, posição em que seria assistido todo o restante do show, aliás não muito longo uma vez que a proposta era executar todo o disco. Inevitável sentir ao final que seria muito bom se aquele estado de êxtase durasse mais temp(l)o. Não exagero, especialmente se for pra descrever o comportamento de uma moçada que sequer havia nascido quando o LP foi gravado, e que representava boa parte da audiência. Aliás, nessa me incluo, diria que boa parte do público deveria ter no máximo uns 25 anos... Aí entra meu filho João Paulo, ainda "di menor", que mais uma vez me deu o prazer de sua companhia num espetáculo que de alguma forma tem conotação histórica acentuada. Confesso que jamais poderia imaginar um dia ver um show dos Mutantes, fosse qual fosse a formação. Mas, falando em História, não tenho como evitar o dever de ofício. Esses dias mesmo estava a refletir sobre a forma como a recepção e a posição simbólica do rock 'n' roll mudaram ao longo das décadas. Ver os Mutantes ali, executando ao vivo um disco gravado há praticamente 40 anos, me fez retomar esses pensamentos. De cria rebelde do caldeirão afro-americano, remexido e expandido após cruzar o Atlântico e cair no gosto dos jovens cabeludos da terra da rainha, de celebração catártica do novo capaz de abalar estruturas de uma sociedade conservadora, acabou sendo convertido em clássico, em digno de tributo, em peça de museu e relançamento de catálogo. Sua trajetória é um bom exemplo de como a modernidade traga, mas não dissolve por completo em seus pulmões, as fumaças mais alucinantes que a imaginação humana possa conceber nos mais recônditos cantos da mente e do corpo. Um trecho da matéria do Estado de Minas [completa, aqui] dá uma boa pista para entender um pouco melhor o que ocorre:

“Criou-se uma mítica em torno desse disco”, resume Túlio. O frisson vem, principalmente, da parte técnica. Fãs ouvem as faixas fazendo air guitar involuntário nos solos de Sérgio Dias ou dão dedadas no moog imaginário para acompanhar Túlio Mourão. “A garotada de hoje tem acesso instantâneo e abrangente a tudo. Essa turma compara, conhece muito e encontra conteúdo, sinceridade e alta performance instrumental naquele disco”, avalia Túlio.

Atualmente o passado penetra o presente de forma intensa, e não apenas sob o signo da nostalgia propriamente dita, mas como fetiche, mercantilizado numa fórmula essencialista em que pode ser consumido como se assim fosse possível transcender a diferença do tempo e sentir-se como "se estivesse lá". Entretanto, eventualmente resta a possibilidade concomitante de ser apropriado de forma crítica, num procedimento em que conferimos aos vestígios que dele nos chegam outros sentidos na atualidade. Assim, num tempo de Pro-Tools e parafernálias digitais as mais diversas, retomar a excelência técnica e a musicalidade aguda como parâmetros de gosto pode de alguma forma ter um sentido crítico em relação ao que disponibiliza a indústria fonográfica e a produção cultural movida a leis de incentivo hodiernos. Desse modo, felizmente, os delírios não envelhecem.

11 de julho de 2012

Conjuração por uma rádio melhor

Por várias oportunidades tratei em minhas pesquisas e aqui no blog dos meios massivos e de seu papel decisivo na constituição da música popular registrada através da fonografia. Uma das linhas de argumentação tem sido mostrar, via de regra com material de época, que a programação dos referidos meios já comportou, em destaque, o que representava então o sumo da produção autoral em matéria de música popular brasileira. Isso não significa um posicionamento num dos pólos da percepção dualista em que se oponha, para emprestar os termos de Umberto Eco, os apocalípticos e os integrados. Para reconhecer os meios e sua complexidade no contexto da modernidade e do capitalismo, há que se dar conta de suas contradições e de sua historicidade. E ao fazermos isso, abandonarmos a percepção desses "meios" como entidades fechadas em si, para percebê-los envolvidos em mediações protagonizadas por diferentes atores da sociedade, na linha do que propõe Jésus Martin-Barbero em Dos meios às mediações.
Aqui não quero me alongar numa exposição teórica, pois escrevo mais para alinhavar ideias que ocorreram a partir do apelo/crítica que meu parceiro Pablo Castro (cuja essência procurei capturar na citação abaixo) lançou hoje via facebook e durante o dia foi debatido por vários participantes da cena musical belorizontina. 
"Há algum tempo eu queria fazer essa crítica e esse apelo à nossa Rádio Inconfidência: toquemos nossos artistas, não como iniciantes ou decadentes, mas como se fossem os mais importantes do país e do mundo , não apenas por serem eles daqui, mas acima de tudo porque a música que se faz aqui não está atrás da música do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Pernambuco, ou da Bahia, ou de Nova Iorque ou de Londres, em qualquer quesito importante, mas está à frente em pelo menos uma coisa : o ineditismo, por essa música autoral local hoje ser um tesouro submerso e francamente desperdiçado, como rios que nunca desaguam no mar, deixando de cumprir sua função social: se associar à vida das pessoas ser compartilhada e dar identidade ao que somos, onde estamos e no tempo em que vivemos! (...)  infelizmente a programação esmagadoramente predominante da Inconfidência consiste de um repertório das décadas de 70 e 80, ou versões pops dos mesmos velhos clássicos, e acaba por não formar público para artistas mineiros e fora da indústria ou de segmentos muito específicos do eixo Rio-São Paulo.Melhor do que tocar um disco inteiro na íntegra, talvez fosse escolher 2 ou 3 músicas mais radiofônicas de cada artista, e tocá-las com a frequência com que se tocam sucessos de 30 anos atrás, que muita gente conhece, mas que são anacrônicos. Não me parece razoável que uma rádio pública de uma cidade onde se produz tanta música de qualidade tenha uma programação tão desvinculada dessa produção. O que é contemporâneo na programação da inconfidência, parece vir de um filtro pop ( no lato sensus, o samba hoje é super pop ) muito orientado pela produção pop\samba carioca, particularmente, e fica patente que , salvo alguns nomes mineiros, mais altos na pirâmide hierárquica simbólica da MPB mineira, como Milton e o Clube da Esquina, Skank, Pato Fu, Vander Lee, todo o resto dos artistas não conseguem se "infiltrar" nessa companhia ilustre. Inverter essa equação, priorizando a produção musical local e contemporânea, formando público que não terá outra alternativa pra ouvir esses artistas, que hoje, de forma marginal e independente, tentam criativamente revigorar a cansada linguagem da canção e de outras formas de música popular, faria muita diferença nas nossas carreiras e consequentemente nas nossas vidas. O ouvinte imagino que também gostaria de conhecer essa produção. Se a Inconfidência fizesse uma pesquisa de repertório de alto nível dos últimos 10 anos da produção mineira, com certeza não faltariam canções popularizáveis e acessíveis ao público ouvinte no horário nobre, não num programa específico que vai tocar uma vez e quase nunca mais. Os programas específicos é que deveriam se ater a relíquias do passado." (link para acompanhar)
Imagino que a avaliação feita sobre a programação da Inconfidência, rádio estatal mineira, possa de alguma forma ser estendida a outros veículos de perfil semelhante. Da mesma forma que reconhecemos a música, em geral, ou qualquer uma de suas vertentes específicas, como a canção popular, como fenômenos que se dão no tempo, e que portanto se transformam pela ação dos homens, assim também devemos olhar os meios, incluindo aí o rádio, que não TEM que ser assim ou assado, mas se TORNA, entre outras coisas condicionado pelo lugar que ocupa no contexto da sociedade. E aqui tratamos de uma rádio pública, sobre a gestão da qual TODOS NÓS, como CIDADÃOS, temos o direito de opinar e interferir. Não podemos nos projetar para fora do Estado numa democracia. Do mesmo modo, aquilo que podemos, por convenção chamar MPB autoral, nem sempre esteve posicionada em certos "nichos" ou "faixas" da programação, e seu lugar em nossa história e cultura nos permite desejar e batalhar por reposicioná-la. Me incomoda demais o lugar-comum que se criou em torno do que se denomina, vagamente, de música independente, que na verdade se torna, sob um certo prisma, dependente de políticas públicas de financiamento cujas falhas temos debatido com insistência. Quase que automaticamente, imputa-se nesta "rubrica" o alheamento em relação a um público mais amplo e aos canais de circulação que não sejam "alternativos", reproduzindo por tabela uma divisão social do gosto cuja superação parece ser justamente (pelo menos para mim) um dos motores estéticos, políticos e sociais de nossa produção em música popular.
A ideia de uma carta-manifesto direcionada à Rádio Inconfidência (sugerida por nosso amigo Guilherme Lentz e progressivamente encampada por vários participantes da discussão), além de efetiva, me parece que tem alta carga histórica e simbólica. Desde já me prontifico a contribuir com sua redação. Sugiro, ainda, que seu lançamento se dê num evento público, que seja marcante e mobilize o melhor possível não só quem se envolve neste debate, mas a própria cidade. Não posso deixar de notar que o nome da rádio é Inconfidência, e o que esse nome evoca, numa leitura histórica que não seja laudatória, é a capacidade humana de se rebelar contra o "estabelecido". A critica/apelo, da forma que está posta, é justa e construtiva, e respalda uma Conjuração por uma rádio melhor.

P.S. 2019
Quase não toquei na Inconfidência e se continuar no rumo que vai, de quase passarei a nada kkkkk. Brincadeiras a parte, acabei relendo essa postagem antiga do meu blog em face desse perrengue recente. Ele é do tempo do domínio tucano, em 2012, e qualquer fantasia de que a rádio poderia reencontrar-se com o caminho de sua grandiosa História e até reinventar-se, parecia então distante utopia, o que não tirou o brio de tantos que se envolveram, esses anos todos que passaram, nessa luta mais que digna. Definitivamente, terá sido o único feito que o mandato de Pimentel deixou digno de lembrança. Agora novamente vemos a rádio Inconfidência ameaçada de sucateamento pelo governo Zema, velho lobo em pele de cordeiro novo. Esse pequeno feixe aceso num tempo difícil, ainda que - pasmem - não tão sombrio quanto o atual, que foi catapultado por um daqueles incisivos libelos do meu grande parceiro Pablo Castro, calhou de voltar às minhas vistas hoje só pra lembrar que se cairmos, vamos nos erguer novamente. E seremos Gigantes do Ar. 

Tomo a liberdade de compartilhar também o depoimento contundente, coberto de razão, dignidade e serviços prestados, do radialista Ricardo Parreiras: