Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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13 de julho de 2018

Nesse Clube a gente se vê


Na próxima semana, no dia 21 de Julho, estarei nessa maravilha de mesa "Música e cidade", no Conservatório da UFMG às 16hs (mas com programação correlata desde a manhã do mesmo dia), em companhias agradabilíssimas como as de Makely Ka e Brisa Marquesdentro da Jornada de Estudos “À escuta de mundos possíveis: músicas, cenas, territórios”, integrada às atividades do 50º Festival de Inverno da UFMG [aqui os detalhes]. 
Como tem sido habitual, vou procurar falar de modo a conjugar minhas experiências de ouvinte, citadino, pesquisador e compositor. Entre as mil maneiras de fazê-lo, me pediram também que falasse sobre Clube da Esquina, o que é sempre um enorme prazer. Mas uma indagação que me andam fazendo, e para qual não tenho qualquer resposta sistematizada que vá além das minhas próprias reflexões e algumas impressões, diz respeito ao impacto dessa constelação fulgurante de músicos sobre as gerações posteriores. Pensei em fazer uma enquete superelaborada sobre isso, usando ferramentas eletrônicas que facilitam a recolha e tabulação de dados, etc., mas por agora vou deixar isso de lado. Vou apenas pedir aos amigos e amigas da música nascidos após 1970 que deixem um depoimento aqui ou na postagem correspondente na página do blog no facebook, na extensão que desejarem, expressando de que maneira pensam e sentem que o Clube da Esquina se faz marcante na sua formação e atividade como intérpretes, arranjadores, compositores (antes que me perguntem considero que letristas cabem nessa definição), cantautores. Sei que muita gente vai poder falar desde vários ângulos, e espero que se sintam à vontade para fazê-lo, da forma mais livre possível. A única finalidade desse levantamento inicial é reunir algum material para agregar a outras coisas que sempre estão por dizer.

Peço que se possível, além de deixar a mensagem, compartilhem com suas redes e marquem quem julguem que também pode contribuir. A todos e todas que ajudarem, desde já meu agradecimento, e fica o convite para quem puder pintar lá no sábado 21. Abraços!




10 de junho de 2018

Eldorado subterrâneo da canção - Microarquiteturas e Fundamental

Por Pablo Castro

Ouvindo aqui dois discos de Rafas diferentes, ambos pertencentes ao nosso idílico Eldorado Subterrâneo da música autoral mineira.


O mais experiente, cerebral, desconcertante Rafael Macedo, nos instiga e rompe todas as expectativas mais ou menos comuns do que se espera ouvir num disco. Rafa, dessa vez longe do piano, seu instrumento mais comum nos últimos dez anos, continua fazendo superposições de acordes, sempre na contramão de qualquer tipo de padrão melódico e harmônico mais comum em canções, preferindo tirar o ouvinte do conforto com formas, letras, arranjos , escalas e acordes que apontam mais na direção de um certo atonalismo que é assaz representativo de nossa época meio niilista, bizarra, sem sentido. O curioso é que esse disco de Rafa representa, em alguma medida, um retorno a algumas de suas canções mais antigas , que ele havia preterido no seu primeiro disco. "Hoje Eu Acordei Estranho" eu lembro dele tocando numa roça há uns 15 anos. Nessa época, sua mão direita ao violão ponteava umas levadas muito originais. Agora ele volta ao violão, e junto com seu duo de ferro, parceiro de muitos anos de estrada, Bernardo Caldeira e Rafael Lima Pimenta ele retoma aquela doideira calcada em Hermeto e Kurt Cobain, esse é o nosso grande Rafa Macedo.




Já o Raphael Sales , em seu disco de estréia, faz com muita inspiração uma música modal, quase "étnica", mas muito inteligente, melodias muito apuradas, uma canção muito pertinente, que ao trazer calor no coração não doura a pílula desse mundo injusto em que vivemos. Algumas canções são baseadas nos elementos astrológicos : água, vento, fogo e terra. A produção de Rafael Dutra ( outro Rafa ) faz jus ao caráter telúrico do cantor e compositor. De destaque também o timbre muito bonito do artista, e sua capacidade rítmica altamente elaborada e engenhosa ao violão. Rapha Sales já chega completo : faz letra e música muito bem, canta bonito, e está buscando o original, o autêntico, o verdadeiro. 
É ouvindo discos assim de nossos pares que nos convencemos que o financiamento à Cultura tinha que parar de focar em EVENTOS e passar a focar em OBRAS. Esses discos tinham que tocar o tempo inteiro na Incondifdência e ser celebrados.













11 de março de 2018

O esmero não tem classe

O equilíbrio entre o ensaio de ocasião e o estudo de fundo é precário. Escrever neste blog tem sido para mim uma forma de exercitá-lo, desde sempre. Sem dúvida ainda não alcancei o ponto que idealizo, mas tem havido um trânsito interessante, com textos que nascem aqui amadurecendo e se tornando parte de reflexões mais delongadas, que tenho apresentado em eventos ou mesmo aproveitado na feitura de artigos, como no que recentemente publiquei em parceria com o amigo crítico musical, blogueiro de mão cheia e profundo conhecedor da música popular brasileira, Túlio Ceci Villaça, tratando do disco Todo mundo é bom (2016), do Coletivo Chama [aqui]. 

Neste último sábado tivemos, em horários praticamente simultâneos, dois lançamentos de artistas da mais alta estirpe do cenário musical dessas Minas, o que obviamente é dito sem desconsiderar a dimensão nacional e universal de seus trabalhos. Falo de "Titane canta Elomar na estrada das areias de ouro" no Palácio das Artes e "O anjo na varanda", de Tavinho Moura, no no Bar do Clube da Esquina, ambos em Belo Horizonte. Num daqueles dias em que a gente gostaria de se dividir em dois, compareci ao belíssimo show de Titane e não pude estar no de Tavinho, um lançamento de grande importância. O que já saquei do disco achei de alto gabarito, aliás falar isso do trabalho de Tavinho Moura é chover no molhado.






Aliás, para não ficar redundante, cito as resenhas feitas por meus parceiros Makely Ka para o disco de Titane e Pablo Castro para o show e disco de Tavinho, ambas disponíveis na página de Facebook deste mesmo blog. Obviamente, sugiro que aproveitem o ensejo para conhecer o trabalho de ambos, cuja qualidade os leitores que ainda não conhecem facilmente constatarão. Vamos a elas:

"A proposta de gravar um álbum com a obra do compositor preenche uma lacuna no nosso cancioneiro e se justifica pelo ineditismo do registro de um conjunto de suas canções com forte herança ibérica numa voz feminina de tradição popular. Na linhagem trovadoresca que remete aos provençais e galego-portugueses, Titane estabelece um arco atemporal atualizando a força ancestral dessa obra contemporânea no universo cancional brasileiro. A obra de Elomar é um portal entre dois universos, dois mundos distintos, uma fenda no espaço-tempo para penetrar em um imaginário mítico-poético atemporal. A localização geográfica habitada por seus personagens pode ser visualizada facilmente nos mapas, na divisa entre o norte de Minas e o sudeste da Bahia, mas através do prisma elomariano tudo parece transmudado e se desvela um outro universo.
Titane por sua vez sempre pautou sua carreira pelas escolhas rigorosas, do repertório aos arranjos, tudo sempre foi feito de forma a desafiar os limites de sua interpretação, sustentada por uma voz afiada como lâmina. Seu caminho até aqui é único e seus passos sempre foram firmes a ponto de transformá-la numa das mais importantes intérpretes brasileiras. Ela agora se embrenha nas estradas das areias de ouro, no sertão profundo, provavelmente um de seus maiores desafios, trazendo de sua viagem ecos de outrora, visagens do futuro, regalos do presente.
Titane, em trinta anos de carreira ainda não havia se dedicado a um único compositor. Da mesma forma não há registro fonográfico de outra cantora que tenha realizado um trabalho a partir de um conjunto de canções selecionadas da obra de Elomar. É um encontro especial que celebra outros encontros.
Entre eles, o encontro de Titane e Hudson Lacerda, violonista de grande precisão técnica, compositor erudito impregnado pela música popular brasileira, Hudson é um dos responsáveis pela transcrição de partituras do rigoroso Cancioneiro de Elomar Figueira Mello, obra fundamental de registro com um recorte específico e imprescindível da produção elomariana.
Celebra ainda o encontro do erudito com o popular em uma perspectiva subliminar ao optar por um formato acústico que remete tanto à sofisticação das formações camerísticas quanto à simplicidade de um recital de música popular, destacando a arquitetura dos arranjos já intrínsecos às composições e valorizando a imponência da voz em estado bruto.
Cruzando referências dos negros trazidos para trabalhar no garimpo do ouro e do diamante no Sudeste com a herança hibérica disseminada pelos europeus no Nordeste brasileiro, o encontro da cantora mineira da cidade de Oliveira e do compositor baiano de Vitória da Conquista promove uma aproximação de universos diferentes mas complementares, do ancestral com o contemporâneo, do sertão com o cerrado." Por Makely Ka
Sobre o show em si, acrescento que a performance segura de Titane, sempre em contato direto com a terra e encantando o público com a presença cênica e a força de sua voz, completou-se com a poderosa inserção de trecho do Dom Quixote de Cervantes tratando da condição feminina, como a própria cantora explica nessa boa matéria do Estado de Minas. O desempenho dos músicos que lha ladearam no palco foi impecável, e ela gentilmente reservou a cada um uma apresentação especial, mais que devida. Foram eles meu Hudson Lacerda (violão)e André Siqueira(bouzouki), meu querido parceiro Kristoff Silva (diretor musical do álbum, que cantou lindamente e percutiu delicadamente marimba), Aloízio Horta (contrabaixo acústico) e Toninho Ferragutti (acordeom). Nesta apresentação no Programa Sr Brasil é possível ter uma pequena provinha:



O mestre Tavinho Moura lançou mais um disco ontem, O Anjo na Varanda, modestamente e discretamente no Bar do Clube da Esquina. Sua obra parece marcenaria musical. Ele faz canções com um frescor, aparentemente sem nenhuma ideia pré-concebida sobre o que deveria ser uma canção, que tipo de letra e forma e mesmo harmonia deve ter uma canção. Ele faz canções como objetos sensíveis, como móveis, quadros, cadeiras, mas nada funcionais , apenas objetos nutridos de uma integridade de uma originalidade acachapantes.
O seu canto é rigorosamente atado à melhor prosódia possível, um cuidado metódico. É sempre notável como, em comparação com versões de suas canções na voz de Beto Guedes, um cantor mais animado e emocionado, Tavinho imprime uma sobriedade, um certo comedimento, como para que evitar que a música se superponha à palavra.
Acompanhado pelo insubstituível Beto Lopes , com participações vocais especialíssimas de Mariana Brant, Bárbara Barcellos e Amaranto, Tavinho Moura fez um show bonito, mas o que interessa em sua apresentações é a sua obra, antes de mais nada : trata-se de um criador talhado, mas com temperamento de artesão , com uma profundidade e uma convicção que não dá espaço para qualquer tipo de exagero ou afetação.
Eu aconselho vocês ouvirem esse disco recém-lançado, mas também toda a obra desse compositor extremamente original que temos. Tavinho é gênio. Por Pablo Castro
Do mesmo modo, para completar a apreciação, encaminho aqui um belo texto de apresentação escrito pelo próprio Tavinho e uma pequena provinha.





Para além dos evidentes laços geográficos, que demonstram a incontestável pujança da música popular feita em nosso estado, no contexto nacional e internacional - e deixo a provocação: vejamos a frequência com que ambos os discos serão lembrados naquelas famigeradas listas de melhores ao final deste 2018 - o que quero ressaltar é essa qualidade compartilhada em ambos e afirmada em tantas obras que integram a história de nossa música popular: o esmero, o apuro, o rebuscamento, a elaboração que perpassa esse grande oceano de canções, arranjos, gravações, interpretações e apresentações. Dentre os grandes fenômenos da história da cultura no século XX certamente poderemos posicionar a explosão das distinções apriorísticas entre as hierarquias socialmente construídas para criar, reproduzir, circular e ouvir música. Não resta dúvida de que o desafio às fronteiras previamente estabelecidas, valor estético consagrado na modernidade, teve nos músicos populares alguns de seus melhores protagonistas (aqui não resisto a uma ponte com a trajetória de Piazzolla, cuja biografia foi alvo de uma recente postagem, mas remeto-me ainda à resenha que escrevi do livro O triunfo da música, de Tim Blanning). Mas se o liquidificador energizado pela indústria fonográfica tritura ingredientes e põe no balcão tantos milkshakes cuja variação de sabor mal esconde sua semelhança, não a livra, definitivamente, das contradições que são necessárias admitir para que uma certa magia ponha em movimento o câmbio dos gostos. Seu sabor de mercadoria não pode descartar a insistência de outros códigos concomitantes, de outras ordens que não lhe são completamente coincidentes, como as que regem o campo das artes (ver Artistas da fome e o valor da bolacha) ou o do trabalho do artesão, com seus modos de fazer, estética e esmero. É um lugar comum dizer que a música popular historicamente foi definitivamente imbricada à fonografia. Mas como historiador tenho o cuidado de notar que a primeira antecede à segunda, e de que na receita que a compõe há traços de fazeres musicais anteriores e contrastantes à própria modernidade, ao capitalismo e seus valores. Há gente que esquece disso. E o esquecimento é um dos grandes males de nosso tempo. Aparece, por exemplo, quando se constitui uma percepção binária sobre o objeto música, através de associações mecânicas entre os sujeitos em seus lugares sociais de origem e a lógica de sua produção e consumo. Criou-se uma espécie de fronteira artificial, felizmente desconhecida pela maioria dos músicos, mas obviamente muito conveniente para a vida dos críticos e também dos tais "influenciadores de rede social", cujas opiniões são tão estereotipadas quanto a do um fantasioso bunker  de defensores do bom gosto que pretendem explodir, ignorando que tal já foi feito ao longo do próprio século XX. Uma boa mostra disso se encontra nesta postagem recente, crítica de uma crítica ao último single da cantora Marina Lima. A revolta extemporânea contra o elitismo que pauta tais críticos e de modo geral nuns tantos autointitulados ativistas da cultura, ao desconhecer as rupturas e aproximações materializadas claramente na obra de um Elomar, de um Tavinho, e de resto  um sem número de criadores que povoam a grande galáxia de nossa música popular, aparenta ser inclusiva e tolerante, mas é finalmente conformista, paternalista e excludente, pois sua consequência é subestimar as possibilidades de fruição e elaboração daqueles que supõe defender, além de manter canais fechados onde deveria querer abri-los, como eu já havia considerado nessa postagem em comentário a um texto do Hermano Vianna. Este é um esforço em andamento para superar generalizações e relativizações, e nesse sentido as apreciações dos trabalhos de Titane e Tavinho Moura me pareceram ótimos catalizadores de um raciocínio que ainda preciso burilar, mas que essencialmente trata de reconhecer que o esmero não tem classe, o que não equivale nem de longe a desconsiderar a importância da classe como categoria para pensar sobre estética e criação - o mesmo para qualquer outra categoria chave como gênero, etnia, espaço, campo, tempo, etc. - mas sim entender que a limite para sua influência, como apontei anteriormente em A origem de classe na música popular não é o seu ponto final. Na verdade, me parece estratégico para a compreensão da vitalidade das culturas populares reconhecer que o esmero não é um elemento estranho a elas, incorporado num enxerto de erudição, de valores elitistas. É mais lógico reconhecer que ela tem suas próprias maestrias e sofisticações, através das quais muitas pontes foram construídas como podemos constatar através de estudos tão diversos como os de Ariano Suassuna ou de Peter Burke. Eventualmente imperceptíveis ao ouvido academicista de anteontem, mas que paradoxalmente hoje estão inaudíveis para a crítica pós-modernosa. Se queremos entender as hibridações e trânsitos que de fato foram responsáveis pela demolição de barreiras culturais e consequente polinização mútua de tantas expressões que nos movem, é preciso superar essa audição folclorista invertida, que na prática expropria todo o oceano de variedade e qualidades de ouvintes que são convencidos que a poça d'água que lhes é oferecida lhes basta porque é sua, quando na verdade é deles tanto o mar quanto o sertão.

19 de outubro de 2017

Valeu, sô: Paul em Beagá, mais uma vez, e a lista das que ele não toca!

Mais uma noite (quando eu poderia imaginar, nos meus verdes anos de beatlemania, que iria escrever isso!) memorável. Tive essa alegria, e ainda espero tê-la novamente (e decididamente agora só vou pra ficar bem perto do palco, de arquibancada já estou bem satisfeito kkk).
Dessa vez resolvi que ficaria no fundo do estádio, mas de frente, só pra variar mesmo - acho que valeu a tentativa. Conformado já estava que dali a gente acaba olhando mais o telão mesmo. O show começou, como de se esperar, em alta voltagem, com "A Hard day's night" e aquele cartão de visita - sim, esse cara aí é um Beatle e isso atualmente é o mais próximo que vc pode ter de assistir um show deles. A fórmula infalível que garante a 'satisfaction guaranteed' é a inevitável mescla de altas doses do repertório consagrado dos 4 cavaleiros do após-calipso, alguns hits de sua carreira com Wings e solo, uma ou outra canção mais recente (nesse show para mim o ponto 'fraco', já que sinceramente coisas como Save us, Queenie Eye e esse caça-níquel com Kayne West são totalmente dispensáveis) e uma ou outra surpresa. Infalível, porque na hora em que solta uma ou outra inusitada ou relativamente desconhecida (para o delírio de quem conhece melhor a obra sempre tem algum agradinho, como "1985", ou "Here today" bela homenagem ao John lamentavelmente desconhecida do grande público, na sequência já tira da cartola uma "Maybe I'm amazed', uma "Can't buy me, love", e o pique não cai. Realmente, como já apontou o Vladimir M. A. Souza o som estava meio estranho no início, a voz do Paul às vezes encoberta pela banda. E claro que com 75 anos ele não pode cantar todas aquelas notas dos discos e tal, mas sabe como poucos o que faz e segura a peteca, inclusive no bis lá pras 3 horas de show mandando "Helter Skelter". A banda é muito boa, por sinal, bem competente, e talvez o destaque mesmo seja o Abe Laboriel Jr., batera vigoroso e carismático. Faz a falta a banda ter um guitarrista como o Robbie McIntosh, com assinatura. Mas os caras dão conta do recado. Em matéria de arranjos é uma pena não ter quarteto de cordas, naipe de sopros, instrumentação para dar outra qualidade a várias das escolhas de repertório. Quem já viu um vídeo das turnês Wings Over alguma coisa sabe o que eu estou falando. Das surpresas eu curti muito "In spite of all the danger", achei grande sacada ele mandar essa 'antiguidade', é como um vestígio arqueológico de McCartney, Já mostra o alto teor pop das melodias, e a manha de inserir pequenos trechos cantarolados que viram uma marca inconfundível de certas canções. E o arranjo pra "You won't see me"? Pra mim a parte acústica - outra marca registrada dos shows de McCartney - foi sensacional, e com certeza nenhum outro show de rock de estádio no mundo pode propiciar isso. Nota especial para 'Blackbird', precedida de uma dedicatória aos Direitos Humanos - para além de sua enfadonha correção política, nessa realmente Paul foi ao âmago do que uma canção pode significar politicamente, sin perder la ternura. Matou de raiva os coxinha na plateia, deu pra sentir. Falando em público, emoções muitas pela noite, claro, como coros incríveis em "Something" e "Eleanor Rigby" (quem mais no mundo pode ter 50 mil ou mais cantando uma canção desse naipe?) e lógico, as "Let it Be" e "Hey Jude" da vida, que não podem faltar. O medley final de Abbey Road fecha o bis com chave de ouro, ainda que eu não tenha achado os solos de guitarra particularmente interessantes dessa vez. Enfim, falar que foi um show inesquecível é chover no molhado (que bom que não choveu literalmente). Finalmente, foi uma alegria a parte ter a sorte de compartilhar os momentos com os queridos Fabiano Buchholz de Barros e Michele (que formam uma das famílias mais lindas que eu conheço). Esbarrei com o Pedro Morais ao final mas infelizmente encontrei menos amigos e amigas do que eu gostaria. Sobretudo, a felicidade maior foi viver essa noite ao lado da filhota Marilu, companhia mais especial para dividir cada minuto. Tínhamos uma brincadeirinha nossa, de eu tentar adivinhar qual seria cada próxima - claro que eu já tinha dado uma sacada no repertório dos últimos shows, mas juro que não colei rsrsrs. Ela é simplesmente uma pessoa adorável, daquelas que mereceria ser personagem numa canção do Paul. E que venha o próximo!

Nota sobre a pirotecnia: faz parte e tal, mas tem hora que é exagero. Às vezes parece que o público está torcendo para o raio laser ao invés de ouvir a música. Teve uma hora que a câmera filmou alguém filmando do celular e projetou isso no telão. Distópico é pouco. Mas claro, quer o quê, é sociedade do espetáculo, malandro!


P.S. A lista das que ele não toca (escrita em 13/10)
Dei-me conta ontem que não estava devidamente conectado com a proximidade do show de Paul McCartney, que em poucos dias estará em BH para falar uai de novo. Não posso estar ansioso como das outras vezes, pois na 1a. vez era efetivamente a primeira, e na 2a. era a 1a. em minha própria terra. Agora o sabor é diferente, talvez de a última - melhor que não seja - e por isso de repente subconscientemente adio algumas sensações. Mas meio que para me penitenciar fiz aí uma lista com 40 que ele - salvo um ou dois deslizes e exceções permitidas (como Junk que foi tocada no acústico MTV) - jamais tocou ao vivo e tende a não fazê-lo. Fui juntando de cabeça sem muito critério, fora o de ir lembrando e achando os vídeos e não colocar NENHUMA do período dos Beatles - e pode ser que por isso tenha entrado uma e outra ficado de fora. Isso me fez deixar fora muuuuita coisa que gosto. Não é nada de achar melhor ou pior, apenas um demonstrativo de que o cara tem um repertório gigantesco que para a maioria dos mortais seria indispensável de tocar e que ele pode até mesmo ignorar inclusive hits e faixas que deram títulos a discos - lamentavelmente para quem conhece a fundo sua obra.  
 

27 de maio de 2016

O "falso inglês" na BH Beatleweek

Motivado por uma conversa recente com o colega pesquisador e igualmente beatlemaníaco de carteirinha Lauro Meller, que não por acaso encontra-se atualmente em Liverpool fazendo o pós-doutorado, lembrei-me de uma pesquisa em campo realizada no final de 2013, por ocasião da 2a. edição da BH Beatleweek. Esse trabalho acabou sendo apresentado em alguns eventos acadêmicos e foi finalmente publicado esse ano, no artigo que escrevi junto com o Pedro Marra, pesquisador e coautor em várias empreitadas e colega de grupo de pesquisa no Nucleurb/CCNM  da UFMG. O artigo completo, Praças polifônicas: o som e a música popular como tecnologias de comunicação no espaço urbano, publicado na Revista FAMECOS do PPGCOM da PUC do Rio Grande do Sul, pode ser acessado aqui
O trecho que destaco acho bem expressivo da nossa metodologia, da forma como procuramos pensar a articulação entre o espaço urbano e o som  simultaneamente em seus aspectos materiais e simbólicos, e passa de uma descrição mais geral do ambiente (complementada pelas fotografias que tirei) para a análise de uma situação bem particular, ocorrida dentro do evento, para em seguida, na análise, adotar uma perspectiva panorâmica, global, sem contudo descuidar do objeto em seu contexto micro, local:


"Deve notar-se que os quarteirões fechados proporcionam uma acústica adequada da forma como configuram lacunas entre duas fileiras de edifícios que não são altos, mas atuam como paredes. Os bares ou cafés que promovem apresentações de música ao vivo aproveitam-se dessa arquitetura, posicionando palcos improvisados e equipamentos de som dos músicos de costas para as avenidas e para o interior das ruas fechadas, onde estão posicionadas as suas mesas e cadeiras dobráveis. Percebemos, por um lado, um esforço para demarcar os limites da propriedade – o que amplia para o espaço da rua a fronteira do bar e reproduz, portanto, a lógica privada dos espaços comerciais – e marcar o perfil do público que se sentam em suas mesas para comer enquanto conversa e ouve música, e, do outro lado, uma série de práticas que desafiam ou tentam adaptar-se aos limites impostos. O caso da Status parece particularmente significativo:

As divisórias ostensivas de fato reforçam a divisão que de alguma forma já opera ali no quarteirão fechado da Status e do McDonald’s. Os meninos pobres, catadores, moradores de rua, hippies e pedintes ficavam nas margens, embora por vezes se aventurassem em passar entre as mesas e pessoas que estavam em pé na área delimitada por elas em frente aos bares. Em geral para pedir dinheiro ou catar latinhas. Um deles interagiu comigo, um senhor que carregava um saco de lixo nas costas, mas não catava nada. Bebia uma cerveja e ofereceu colocar um pouco no meu copo, mas neste havia pequenos churros que comprara no Fujiama, na esquina seguinte à do quarteirão fechado. Ofereci e ele aceitou um, trocamos sorrisos, e ele seguiu passando no meio das pessoas. Em outro momento, enquanto uma das bandas (Nélson e os Besouros - RS) tocava Twist and Shout, passou por mim um adolescente, descalço, sujo e maltrapilho, tentando acompanhar a canção num “falso inglês” como aquele que utilizam os lavadores de carro “otcheiquirobeibe/ pissensau...[well, shake it up, baby/twist and shout]” e coisas do tipo.[1]

A atividade de catar latinhas assinala uma liminaridade aí, na medida em que as latas são simultaneamente o resto do consumo dos clientes do bar e o ganha pão dos catadores (figura 6). O ‘falso inglês’ por sua vez representa um marcador de diferença. A apropriação realizada pelo jovem que passou por mim demarca a tensão entre o inglês globalizado que circula através de uma canção muito veiculada pela indústria cultural e sua forma “localizada” em que se guarda a sonoridade mas se impõe uma dicção abrasileirada. Ao cantá-la desse modo o rapaz não deixa de assinalar que encontra uma forma de integrar o fluxo global do qual a canção participa, ao mesmo tempo em que se encontra desprovido do capital cultural/social que o habilitaria a estudar inglês regularmente para apropriar-se com precisão do que está cantando. Usamos “localidade” aqui como categoria relacional e contextual, “[...] constituída por uma série de elos entre o sentido de imediaticidade social, as tecnologias de interatividade e a relatividade dos contextos” (Appadurai, 1996, p.178). Neste sentido, ao apropriar-se e “transcultural” em seu contexto o que emite a aparelhagem de som, esse sujeito participa da produção espacial da “localidade” (Appadurai, 1996, p.179)."
[GARCIA e MARRA, 2016]

Fig. 6: Público nas mesas da Status durante a BH BeatleWeek, com palco ao fundo; Plano mais próximo da borda do quarteirão fechado, mostrando artesãs e ambulantes nos bancos de pedra,
14 de dezembro de2013. Detalhe para as grades de separação em 2° plano.
Fotos: Luiz Henrique Assis Garcia





[1] Luiz Henrique Assis Garcia. A. Relato de campo, durante a BH Beatle Week. Praça da Savassi. Belo Horizonte, 14 de dezembro de 2013. 1p.

11 de maio de 2016

BH não é o Texas e as Minas são Gerais

Provocado pela matéria publicada no site noisey, "BH é o Texas: o rock triste e a cena fantasma de Belo Horizonte" (completa, aqui), meu parceiro Pablo Castro escreveu esse comentário que foi muito além da matéria - diga-se de passagem, jornalismo ruim, incapaz de dar voz a outros pontos de vista a respeito do assunto que trata ou verificar determinadas informações.

Por Pablo Castro
Para além de ser contestado quase que unanimemente pelos próprios roqueiros da cidade, o conteúdo da matéria " BH é o Texas " incorre no mesmo erro ancestral do rock : se fechou em si mesmo, como uma espécie de torcida de futebol difusa e desorganizada, querendo o tempo inteiro estigmatizar qualquer influência que seja em alguma medida brasileira, ainda que o rock seja um de seus elementos, como a Tropicália e o Clube da Esquina, respostas diferentes para questões semelhantes
Eu acho engraçado por dois motivos : da cena autoral de MPB da cidade eu sou talvez o que mais diretamente conversa com a influência do rock, e também me considero o que mais afirma minha afinidade e minha admiração para com a obra do Clube da Esquina. Isso contudo não significa nem que meu trabalho é de rock nem que eu tente imitar ou recauchutar o Clube , que é uma das várias facetas da minha busca como compositor. É possível amar uma obra, ser influenciado por ela e ao mesmo tempo não querer repeti-la. E mais, conheço, no estado de Minas, excelentes experiências criativas mais inequivocamente informadas pelo Clube e que também não lhe são imitações, como o que faz meu amigo Clayton Prosperi , que esteve aqui semana passada , a quem não pude assistir justamente por ocasião da minha apresentação com o Lô na casa A Autêntica. Até porque o que se chama de Clube da Esquina tem lados muito diversificados, Toninho Horta de um lado, Tavinho Moura de outro, Nelson Ângelo de um lado, Beto Guedes de outro. Não se trata de forma alguma de uma obra homogênea. A genialidade de Milton de alinhavar tão heterogêneas direções nos mesmos discos tem a ver com a sua própria capacidade de sintetizar esse mosaico de forma bem acabada.
O que é chamado de rock hoje é qualquer agremiação musical que olha e olhará sempre para fora e não enxergará o que está próximo, desde que tenha guitarras elétricas , baixo e bateria. Acho que isso é uma opção, claro, mas depois não reclamem que a "cena não dialoga". Nem mesmo as bandas clássicas da década de 90, como Cartoon, Calix e Somba, ainda na ativa, são sequer mencionadas por uma matéria que credita a reputação do Graveola ao Fora do Eixo (???) , e que fala de umas bandas de que eu realmente nunca ouvi falar.
A música de Minas é grande, e variada. É a maior província do Brasil, mas provavelmente é o maior celeiro. A mim não me interessa me filiar a um nicho que se considera escolhido por Deus ou pelo Diabo a ser algo "oxigenado" por quem ignora a grandeza do que ultrapassa os cercadinhos do que se chama de rock. Sou músico pela música, e ela é muito maior do que uma espécie de super-gênero meio messiânico.
Apenas para finalizar, o compositor de mais estofo da minha geração, do Rio de Janeiro, qualifica a produção de canções em Minas como a mais rica do Brasil. E ele não se preocupa se é rock, baião, balada, sertão, barroco, música de câmara, valsa, arrasta-pé, reaggae ou que seja. A nossa música vai mais além.

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4 de dezembro de 2015

Entre o Divino e o Paraíso

Ontem, uma noite memorável para comemorar a conclusão de um semestre muito atípico, mas com as suas recompensas. Depois de um dia longo de trabalho e um nó górdio no "sistema" que dei e obviamente não posso desfazer por minha conta, fui ao Palácio das Artes/Sala Juvenal Dias para assistir a ousada performance - que teve sopro, terra, televisão, vídeos mucho locos, mas, sobretudo, fortes canções, lindas interpretações e extrema musicalidade - de uma dupla Kristoff Silva​ + Thiakov Davidovich​  que não seria suficiente chamar de dinâmica. Se Quentin Tarantino receber minhas ondas telepáticas e fizer um futuro longa no Brasil, eles estarão na trilha e no elenco. Não poderemos viver mais sem o Dois na quinta. Parabéns tb ao BDMG, que banca. Quando um banco faz algo de bom nesse mundo, é pra elogiar.

Pensam que acabou? Não, tava só começando...
Dirigi-me em seguida para Santa Tereza, capital mundial do Clube da Esquina, para assistir ao meu parceiro e grande amigo Pablo Castro desfiar, por algumas horas em que o tempo ficou suspenso, seu repertório impecável de canções do Clube, umas 35, segundo contas, entre antenas como Travessia ou Amor de Índio a lados B ou além, como Como o machado, a que ouvi cantando de olhos fechados, literalmente tomando por sua beleza estranha e única. Foi no QG/bar do museu do Clube da Esquina, para o deleite de um público completamente devotado a essa obra grandiosa, e também para o de nosso admirado Márcio Borges, cuja empolgação é uma tradução cabal da perenidade e vitalidade do que o Clube representa para as gerações seguintes. No intervalo fomos ali esticar as pernas e trocar uma ideia, uns reles metros acima de uma certa esquina. Acho que dá pra imaginar, é literalmente ficar entre o Divino e o Paraíso


No segundo tempo, teve também a ótima participação do Fred Borges, dividindo as vozes com o Pablo em mais uma leva de pérolas do Clube.

Mas tem um bônus que eu não posso deixar de mencionar, a grata surpresa de ver este blog, citado pelo Pablo na matéria sobre o show feita pelo Estado de Minas, no contexto da Semana do Clube da Esquina:

"Pablo Castro está tão ligado aos artistas mineiros, que escreveu a apresentação dos songbooks de Lô Borges e Beto Guedes, em 2013. Em parceria com o professor da UFMG Luiz Henrique Garcia, realizou a série As 30 mais geniais do Clube da Esquina, um conjunto de textos no qual comenta composição, harmonia, letra e referências de cada uma das canções. A série está disponível no blog www.massacriticampb.blogspot.com.br e já virou até referência bibliográfica." [matéria completa, aqui]

É mole ou quer mais?