Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Nestes tempos de restrições impostas pela pandemia, tem ocorrido uma intensa atividade acadêmica e de divulgação científica nas redes. Muito mais importante que colocar essas coisas no Lattes, é a oportunidade de compartilhá-las com o maior número de pessoas. A internet é um canal importante para isso. Compartilho aqui dois encontros online que tive o prazer de participar, a convite. Vale conferir as falas e os ótimos debates que pudemos travar ao final das apresentações, contemplando inclusive participação do bom público que acompanhou.
Tive o grande prazer de dividir essa excelente mesa com Berenice Corti e Evandro Higa, nas 4a. Jornada de Investigação em Música Latino-Americana, promovida pela Unila desde Foz do Iguaçu, que nas figuras de seus professores Felipe Jose e Bia Cyrino agradeço novamente pelo convite e pelo esforço extra (grato, ainda, ao colega Lucas!) de adequar o conteúdo às exigências de veiculação do You Tube - em particular o da minha fala que trazia muitos exemplos musicais inseridos em vídeos veiculados pelo próprio YT, e paradoxalmente precisaram ser em sua maioria editados.
Intitulei minha fala "Cordilheira de sonhos numa esquina do
mundo": América Latina no som imaginário do Clube da Esquina,e este foi o resumo do que digo em minha participação na mesa:
"A
partir de conceitos de culturas híbridas, transculturação, cultura popular e
moderna tradição pensados em chave latino-americana por autores como García
Canclini, Martín-Barbero, Ángel Rama, Antônio Cândido e Renato Ortiz, proponho
um trajeto investigativo para pensar uma cartografia sonora imaginária da
América Latina na obra discográfica de Milton Nascimento e de seus companheiros
do coletivo Clube da Esquina, registrada especialmente entre as décadas de
1960-80. Tal itinerário representa uma possibilidade para entender as
possibilidades de trânsito entre culturas, artistas e públicos neste espaço
continental, inclusive para além dos marcos temporais traçados, considerando a
vitalidade de tal obra e seus criadores. "
No evento "Encontros com o Patrimônio", promovido pela Casa Fiat de Cultura, em BH, participei de uma conversa bacana sobre Santa Tereza e o Clube da Esquina, junto com a historiadora e educadora da Casa, Ana Carolina Ministério, e o ilustríssimo Telo Borges. Na minha fala Patrimônio cultural, lugares e sentidos: a esquina do Clube, apresentei uma síntese das pesquisas que venho conduzindo na UFMG, atualmente encampadas no grupo de estudos Som e Museologia (SOMMUS) que coordeno. Quem quiser ir mais fundo pode começa conferindo o podcast Patrimônio urbano e música popular, aqui mesmo no blog.
Entre os dias 2 e 4 de outubro próximo, na Escola de Arquitetura da UFMG, acontecerá o Colóquio Internacional O humor contra a violência na cidade. Juntamente com a colega Miriam Hermeto, do Departamento de História da UFMG, coordeno a sessão A canção e o humor contra a violência [todos os detalhes aqui].
Uma versão resumida da apresentação:
A canção popular se define basicamente na refinada coordenação entre música e letra, imbricadas a ponto de configurarem um ente único. Nas relações entre o formato-canção e o meio urbano, definem-se espaços de produção, circulação e consumo, estabelecendo as ligações entre seus artífices, os mediadores culturais e o público. Assim, a canção tem sido tratada como um híbrido: produto de mercado, obra de arte, expressão de representações sociais e elemento catalisador de sociabilidades. Sempre foi uma forma de pensar o social e seus conflitos, inclusive a violência, desenvolvendo uma tradição crítica marcada por recursos expressivos, como o humor, em suas diversas tonalidades: a farsa, a ironia, o sarcasmo, a sátira, o humor negro, a paródia, o nonsense, entre outros. Ressalta-se que o recurso da crítica, na linguagem cancional, emerge não apenas nas palavras, mas na relação entre texto e elementos sonoros, como melodias, ritmos, timbres, ruídos, harmonias, arranjos, citações, etc.
Procurando sair um pouco da rotina dos formatos tradicionais de eventos acadêmicos, decidimos montar uma sessão que partisse do princípio de que dedicaríamos um tempo maior para a audição e debate, após apresentações mais curtas dos 4 convidados:
As sonoridades do humor, com Guilherme Castro, Doutor em fundamentos teóricos aplicados à produção musical pela UNICAMP e Mestre em sonologia/música e tecnologia pela UFMG. Professor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e da UEMG. Compositor, guitarrista, vocalista e produtor musical.
A canção como mediadora dos conflitos sociais, com Makely Ka, Poeta, cantor, violonista, produtor cultural e compositor.
À la lanterne: humor e violência na Paris sob a Revolução de 1789, com Allysson Lima, Mestre e graduado em História pela UFMG.
“Nós vamos invadir sua praia”: violência social e marginalização geográfica na cidade do Rio de Janeiro, com Bruno Vinícius de Morais, Doutorando, mestre e graduado em História pela UFMG.
Só pra dar o gostinho montei aqui uma lista com algumas das canções que iremos debater na sessão:
P.S. Síntese do evento:
Corri pra não perder o ônibus e chegar em tempo na Escola de Arquitetura para coordenar junto com Miriam Hermeto a sessão musical do colóquio O humor contra a violência na cidade, contando com uma escalação de prima na mesa com Guilherme Castro Allysson Lima Bruno Vinícius de Morais e Makely Ka,
o prestimoso apoio da Maria Letícia Ticle e demais colegas da
organização. Com a proposta de fugir, ainda que parcialmente, do lugar
comum das mesas acadêmicas, promovendo a coloquialidade, passeamos por
diversas épocas, contextos e gêneros, ouvimos de tudo um pouco, de
marcha revolucionária francesa a rock brasileiro e samba de breque,
falou-se de Mozart a Rincon Sapiência, cantou-se alguma coisa, de
introdução de Bohemian Rhapsody a refrão de pagode. Que esse ecletismo
não engane os desavisados. Análises argutas puseram a nu os conflitos
sociais, as querelas estéticas, as disputas políticas, demonstrando como
a canção tem enorme energia centrípeta, capturando em seus termos os
embates e deles participando tantas vezes exercendo pelo humor formas de
mediação que sugerem acomodações mas também alguma forma de violência,
que pode ser do tipo que demole as convenções e os mitos, dessacraliza
os grandes e dá voz aos silenciados. Esse humor que é um recurso
indispensável para a vida democrática, hoje tão ameaçada.
Na
última sexta-feira, 18 de agosto, aconteceu na ECI / UFMG o evento Efemérides Fonográficas: discos, patrimônio cultural e memória,
organizado por mim e realizado pelo PPG - Ciência da Informação, com
apoio da Diretoria da ECI e do grupo de pesquisa Estopim [Núcleo de
Estudos Interdisciplinares do Patrimônio Cultural], coordenado por mim e
pela profa. Rita Lages Rodrigues (EBA/UFMG). Fiz um breve resumo das atividades para deixar o registro e dar uma ideia de como foi a quem não pode ir.
Pela manhã, de 9:30 – 11:30, a Profa. Dra. Veronica Skrimsjö, da Liverpool Hope University proferiu a palestra "Popular music record collecting: aesthetics, identities & practices". A profa. abordou o universo do colecionismo de discos de vinil no
Reino Unido, os perfis sociais dos colecionadores, considerando variáveis como
classe, geração, gênero e práticas colecionistas, incluindo formas de
organização e de aquisição. Discutiu ainda o fenômeno mercadológico da retomada
de fabricação dos discos de vinil e o impacto das novas tecnologias de
digitalização e acesso à música gravada em portais e redes sociais na internet.
À tarde, entre 13:30- 15:30, ocorreu a palestra: Os 50 anos de Sgt. Pepper: uma análise
contextual e lítero-musical, do Prof. Dr. Lauro
Meller, da UFRN. O prof. tratou do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, cujo lançamento completou
50 anos. Apresentou uma análise abrangente do ponto de vista contextual
e lítero-musical, acompanhada da audição das faixas, desde a composição das
canções, passando pelo intrincado processo de gravação, a confecção da capa, o
lançamento e a recepção por parte de crítica e público. Dedicou-se a esmiuçar o debate em torno da
caracterização de "disco conceitual" atribuída ao LP e da fortuna
crítica do mesmo.
Por fim, entre 16:00- 18:00, proferi a palestra "Efemérides e patrimônio na música
popular – Disco do Tênis (Lô Borges, 1972)". Discorri sobre o primeiro LP gravado por Lô Borges há 45
anos, que ficou conhecido como Disco do Tênis por sua capa. Após uma breve
introdução sobre o conceito de Efeméride, partindo de sua etimologia, caracterizei o disco como artefato e explorei suas dimensões
culturais, sociais e históricas. Através da apreciação de trechos e faixas,
apresentei uma síntese crítica do disco ao longo de sua trajetória
histórica, envolvendo a perspectiva do próprio compositor, de outros músicos e
incorporando as percepções do público através de comentários publicados no
portal You Tube. Por fim destaquei o Show de Reconstituição do Disco do Tênis,
em que seu repertório é tocado com a maior fidelidade possível às gravações
originais, discutindo as repercussões dessa proposta do ponto de vista do
debate sobre memória social, mercantilização da nostalgia e a noção de
atualização do patrimônio cultural.
Um balanço:
Efemérides discográficas foi acima de tudo um êxito naquilo que mais se
propunha a fazer, propiciar discussões de qualidade, com maior tempo de
apresentação e debate, promover intercâmbio entre áreas de conhecimento e
instituições, democratizar o conhecimento atingindo público diverso,
incluindo estudantes de graduação, pós, colegas professores, egressos,
interessados, colecionadores, músicos,
amig@s. Claro, lendo assim parece que foi muita gente. Não foi. E nem de
perto o tanto que eu gostaria, mas me importa mais uma perspectiva
qualitativa. Quem estava lá, estava pra valer. Participou com atenção,
fez pergunta, debateu. Tive a satisfação de ter alunas da graduação em
museologia acompanhando o evento o dia todo. Sem a barganha dos
famigerados certificados, sem mercenarizar o aprendizado. Talvez quanto a
isso eu ainda me dê por vencido. Aliás, me desdobrei horrores, fiz
parte da logística, peça gráfica, divulgação online e boca a boca,
insisti com quem precisou, bati foto, passei slide, fiz a minha própria
apresentação. Em meio aos percalços me senti meio o Didi naquele filme
dos Trapalhões com o Pelé, em que ele fantasticamente bate o corner e
corre na área pra cabecear e fazer o gol. Só que no caso nada disso fiz
sozinho, contei com meus colegas convidados palestrantes - o Lauro ainda fez as vezes de tradutor consecutivo, com bastante sucesso - com os bolsistas Isac Santana e Hudson Públio,
com o apoio da coordenação e da secretaria do PPGCI, diretoria,
contabilidade e serviços gerais da ECI. No público não dou conta de mencionar um por um mas sou grato a cada um, e como diz aquela famosa frase do
mundo do blues, less is more. Sobre as apresentações em si, depois tento
dar uma geral, fazer uma postagem. Abri o evento com uma fala em defesa
da UERJ e terminamos com palmas que fazem a gente continuar valorizando
e lutando pela universidade pública, pela pesquisa, ensino, extensão,
pelo patrimônio cultural, pela arte e pela criatividade do nosso povo.
Obrigado a todos que ajudaram.
O arranjo, elemento fundamental em qualquer gravação de música popular, em muitos trabalhos de historiadores acaba ficando em segundo ou terceiro plano, até pela dificuldade de dominar ferramentas que permitam uma análise pertinente. Aquelas propostas pela musicologia tradicional, por exemplo, podem ser difíceis de dominar, além de ser relativamente "estranhas" aos procedimentos próprios da música popular, aos quais muitas vezes não são adaptáveis. O avanço e a difusão de estudos próprios para essa linguagem é portanto mais que bem vindo. É imenso o benefício de contarmos hoje, nas pós-graduações em Música e também outras áreas afins que adotam a música popular como objeto de pesquisa, com cada vez mais estudiosos que tem a formação e a experiência de criação como músicos populares, o que vai consolidando um campo de pesquisa bastante relevante, especialmente entre nós, brasileiros, dada a condição especialíssima que ocupa a música popular em nossa formação social e história cultural.
Acabei de ter contato com um excelente trabalho do amigo Rafael Martini, compositor, arranjador, pianista, multi-instrumentista, músico de duas mãos cheias com recheado e premiado currículo, e que vai também trilhando muito bem o caminho acadêmico. O texto [completo, aqui] - apresentado no contexto do evento "Nas nuvens" promovido pelos programas de Pós-Graduação em Artes da UEMG e em Música da UFMG [para saber mais, aqui] - é elaborado e inteligível. O tema é de grande importância. A apresentação combina clareza, concisão, encadeamento lógico e pertinência. Quem tem uma familiaridade maior com a música e formação na área, certamente fará grande proveito, mas igualmente que está mais pra apreciador, porque está muito bem encadeado e didático, no melhor sentido que o termo pode ter.
Separei um trecho que achei bem significativo:
Observando o problema da tipificação da atividade de arranjo disposta, nessas pesquisas, frente a frente aos seus procedimentos inerentes, podemos diagnosticar seu posicionamento múltiplo, e por isso de difícil delineamento. O fato de, no universo da música popular, o arranjo ser uma “atividade-meio” (ARAGÃO, 2001), que geralmente é situado entre as etapas de composição e performance, faz com que ele possua interfaces, contamine e seja contaminado pelos procedimentos destas duas pontas da cadeia produtiva. Ao reformular, elaborar e adicionar elementos a uma composição popular com fins de prescrever (SEEGER)[1] uma performance da mesma, o arranjo se consolida como uma ponte entre as potencialidades das composições e as possibilidades da performance em direção à produção de sentido.
[1] Para noções de prescrição e descrição na notação e transcrição musical ver SEEGER, Charles: Prescriptive and Descriptive Music-Writing, in The Muscial Quartely, Vol. 44, Nº2 (Apr. 1958) pp. 184-195.
Faço votos para que muitos colegas pesquisadores aproveitem esse tipo de trabalho e possam ir aprofundando as análises sobre música popular contemplando cada vez mais o arranjo como parte de suas investigações.
Agradeço ao Rafa por ter compartilhado e parabenizo os organizadores do evento, que já está em sua segunda edição.
Resumo:Contextualização da atividade do arranjo no universo da música popular e breve análise comparada de algumas definições encontradas na pesquisa musicológica. Amparado por discussões como da conceituação da instância do “original” das obras em música popular, propõe-se uma reflexão sobre a valoração do arranjo dentro da cadeia produtiva da música popular, com especial atenção para sua situação como atividade-meio, ponte entre composição e performance, campo de “inter-contaminação” e integração entre as duas.
Palavras-chave:Arranjo musical. Música popular. Oralidade e escrita. Original em música popular
The arranger “gesture” in popular music
Abstract:Contextualization of the activity of arrangement in the world of popular music and brief comparative analysis of some definitions found in musicological research. With basisin discussions as of the regarded onhow the instance of the "original" works in popular music, it proposes a reflection on the valuation of the arrangement within the production chain of popular music, with special attention to its situation as a activity-way bridge between composition and performance, field of "cross-contamination" and integration between the two.
Keywords:Musical arrangement. Popular Music. Oral and writing. Original in popular music
[1] Mestrando, Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: rafaelmartinioficial@gmail.com