Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

8 de janeiro de 2012

Confirmado o título do novo álbum de Paul McCartney

[Paul confirms brand new album title and reveals full tracklisting and artwork]
O site oficial divulgou ainda a lista de faixas e a arte da capa (acesse aqui), trazendo ainda a explicação para o título, tal como já havia dado aqui no blog (ver aqui ou here). A novidade é a aparição de Baby's Request (provavelmente em nova gravação), como um dos bonus na edição de luxo, justamente uma das suas composições que mais dialogam com o repertório escolhido para o disco. Adoro, pena estar meio escondida no obscuro "Back to the egg", derradeiro LP dos Wings...Esse filminho acho divertido, foge do óbvio.

JazzMan!: Biografia conta trajetória da diva do jazz Nina Si...

Biografia conta trajetória da diva do jazz Nina Simone: livro descreve a turbulenta existência da cantora desde seu início como menina prodígio no interior da Carolina do Norte até sua morte no no sul da França em 2003.
 Publicado em Exame.com 04/01/2012
Texto de Carlos Gosch, da

Quando a MPB ocupava o horário nobre

Em outros tempos, a MPB ocupava o horário nobre da TV brasileira. Pode-se até dizer, sem medo de errar, que a MPB tornou-se o que é entre outras coisas por sua grande articulação com a televisão brasileira, da explosão dos festivais às trilhas de novelas, da presença constante de seus grandes nomes em programas musicais, infantis, especiais, de entrevistas, e por aí vai. Para mim parece claro que o afastamento entre MPB e TV, da década de 1980 em diante, tem consequências evidentes na mudança de seu patamar de mercado e do perfil de seu público, distanciando-a do caráter massivo que assumira em meados da década de 1970.
Como documento significativo daquele momento posto trecho do show que Gilberto Gil e Caetano Veloso fizeram em março de 1972 no Teatro Municipal do Rio, ao retornarem do seu exílio londrino. A apresentação foi gravada e exibida pela TV Globo dentro da faixa "Sexta Nobre". Gil mostra ao público uma canção então inédita, Expresso 2222, que daria nome ao seu próximo disco.

5 de janeiro de 2012

De volta ao acústico

Enquanto preparo uma fornada de postagens mais densas, vou colocar umas coisinhas pra manter o blog "com ritmo de jogo". Nessas voltas que a internet dá, ou que a gente dá na internet, encontrei essa versão acústica do clássico Roundabout do Yes. Isso trouxe à tona duas lembranças significativas. A 1a. é de quando ouvi a música pela primeira vez, quando era criança, numa fita k7 do meu pai. Era uma coletânea com várias bandas e gêneros diferentes. Para ouvir a faixa de novo, tinha que rebobinar a fita até o ponto certo...Hoje ouvi num computador, assistindo um vídeo que "carrega" em poucos segundos. Dá o que pensar sobre as experiências proporcionadas por diferentes suportes tecnológicos. A segunda é da década de 1990, quando apareceram gravações de músicos populares que geralmente utilizavam instrumentação eletrificada no formato "acústico". Antes disso virar grife, modismo, ser banalizado e praticado sem qualquer critério, vieram à tona grandes trabalhos como o de Paul McCartney, o de Eric Clapton e o de Gilberto Gil. Naquele momento, no meio de tanta zoeira eletrônica e metaleira, essas gravações surgiram como sopros de novidade, despojamento e suavidade. Evidentemente, com imediatos desdobramentos mercadológicos. Poderei retomar isso mais adiante quando voltar a falar da retomada atual do repertório da 1a. metade do século XX. Enquanto isso, deleitem-se...

  
Yes,Roundabout

 
Gil, Palco
 
 McCartney, Be bop a lula

Clapton, Walkin' Blues

3 de janeiro de 2012

Grandes encontros e histórias de compositores: afro-sambas

Instigado pelo Marcelo Gloor, vou tratar do grande encontro de Vinícius com Baden Powell. Lembro com nitidez o momento exato em que descobri, numa das entrevistas do Pasquim, revisitadas durante a pesquisa do doutorado, um detalhe que escapa de muitos relatos (inclusive dos protagonistas!) sobre a história dessa reunião espetacular. Segundo Baden [O Pasquim, n°35, 09-15/02/1970, p.15], Berimbau foi composta por volta de 1960, e só posteriormente incorporada por Vinícius no conjunto dos “afro-sambas”, que seriam reunidos no LP Os Afrosambas (Forma, 1966).




Outra pista apareceu numa fala de Edu Lobo em mesa de debate promovida no n° 4 da Revista Civilização Brasileira, em 1965:
“(...) Mas nossa música não parou aí. Surgiram variações da bossa nova original, que só atestam sua riqueza. Até que surgiu Baden Powell que introduziu o elemento afro, no caso, o samba negro, com batida (‘Berimbau’ é um exemplo) e com influência de Villa-Lobos (...)”

Muito poderia ser dito a partir desse trecho, inclusive sobre o sentido que tinha então o termo "afro", certamente diferente do atual. Mas interessa aqui é constatar que os afro-sambas não podem ser interpretados como mero desenvolvimento dentro da bossa nacionalista de meados dos anos 1960, pois rompem com alguns de seus padrões, especialmente na sua concepção rítmica e execução violonística. Por outro lado não podem ser percebidos como projeto de ruptura total, uma vez que não foram criados ou recebidos assim no contexto de sua produção e recepção inicial. Por fim, vale ressaltar que as discussões sobre o nacional e o popular daquele momento foram acirradas e geraram muitos desdobramentos historica e esteticamente relevantes para a música popular brasileira. Os afro-sambas são prova disso e mereceram inúmeras regravações, dentre tantas maravilhosas destaco o disco primoroso de Mônica Salmaso e Paulo Bellinati: