Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Este sempre foi um dos meus discos preferidos do Gil, alegria extra tê-lo em vinil. Transpira humor moleque, ousado, desafiador, ressaltado ainda mais pela participação dos Mutantes, certamente no ponto culminante da aproximação deles com o tropicalismo, musicalmente falando. Há uma saborosa ambivalência na nomeação dele para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Claro, esse jovem iconoclasta aí mudou muito, como tinha que mudar mesmo. Aliás fez da mudança um mote constante de sua arte. A vetusta ABL também muda, mas a passo de tartaruga. Agora os caminhos se cruzaram, como há décadas atrás não seria possível. Não deixa de ser um sinal significativo de disposição pelo encontro, e até uma pitada sutil de autoironia, sempre necessária às pessoas e instituições que desejam alguma forma de renovação.
Sem deslumbre, vejo com bons olhos (e ouço com bons ouvidos) a "consagração" de um dos nossos principais cantautores como "imortal". Lógico, a ABL busca respaldo e repercussão, sentando em uma de suas cadeiras um representante indubitável da excelência alcançada na canção popular brasileira. Vamos combinar que demorou demais. Acho desnecessário discutir a pertinência da indicação, aliás acho que se a porta abriu tem uma fila bem grande aí de compositores cujo trato com a língua portuguesa à brasileira é inclusive muito mais meritório e relevante do que o dispensado por figuras que já estão lá sentadas. Falar que há politicagem? Redundante. Reconhecendo aliás, o traquejo político de Gil, podemos até esperar que ele lidere nos próximos anos uma disposição interna por abrir mais a instituição, quem sabe aproximá-la um pouco do "dia-a-dia" cultural de nosso país. Capacidade e atenção midiática para tal, ele tem.
Por fim, ante certos comentários apressados e desmemoriados cabe lembrar que a Casa teve entre seus fundadores Machado de Assis. Logicamente sua composição, ao longo de décadas, reflete sobremaneira o componente de desigualdade social e o traço étnico decorrente da escravidão que por aqui vigorou por séculos, amém. Mas reflete igualmente, desde o início, os conflitos e contradições que disso decorrem. Teve, nos seus primórdios, por exemplo, figuras destacadas do abolicionismo, como Castro Alves, um dos patronos, e entre os fundadores José do Patrocínio, filho de vigário com uma negra mina escravizada.
Como diz o grande Peter Burke, a função do historiador é "lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer". Ouçamos pois a voz que ressoa desde 1968, para saudar o que há de mais hilário e alegórico na conversão carnavalesca da farda da ABL vestida, em distintos contextos, por Gilberto Gil.
Aproveitando o ensejo do show de reapresentação do álbum Refavela de Gilberto Gil, por ocasião dos 40 anos de sua gravação, insiro aqui a entrevista que meu parceiro Pablo Castro concedeu à Rede Minas comentando o discos como um todo e suas canções.
É uma ambição antiga produzir conteúdo em vídeo para este blog, o que por enquanto tem se mostrado inviável, mas essa carona veio muito a calhar.
Como sempre a sessão Bolacha Completa traz o link para a audição do disco, informando que não detém direitos nem hospeda conteúdos, ficando totalmente à disposição para atender qualquer determinação dos respectivos proprietários.
Tempo de férias é tempo de dedicar um pouco mais de atenção ao blog. Tirar a poeira aqui e ali, arrumar links quebrados, pensar em novidades, retomar ideias que a falta de tempo não permitiu levar adiante. Enquanto isso vão pintando postagens sugeridas por conversas ou navegações internáuticas, como por exemplo o comentário que segue, do meu parceiro Pablo Castro, sobre as "canções irmãs".A curiosidade extra é que a inspiração foram canções compostas por compositores irmãos [o que pode vir a ser tema de outra postagem]. Obviamente a grande amizade entre parceiros ou companheiros de banda pode ser vista como uma forma de irmandade também, o que certamente é verdadeiro para todos os que estão mencionados no comentário:
"Lô e Márcio Borges fizeram uma espécie de sequência da balada Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, chamada Onde a Gente Está, com o mesmo tipo de abordagem.
Adoro canções irmãs. Os Beatles fizeram muitas vezes isso. George fez Here Comes The Sun e depois Here Comes the Moon, While My Guitar Gently Weeps e depois This Guitar Can´t Keep From Crying.
Paul fez Yesterday e depois Tomorrow, Blackbird e depois Bluebird. Caetano fez Você é Linda e depois Você é Minha. Gil foi além : Refazenda, Refavela, Rebento, Realce, e também Extra e Raça Humana. São canções irmanadas. São como côncavos e convexos. "
Lô Borges, Márcio Borges e Wanderson Eller em intervalo de show de Lô no Circo Voador. Rio de Janeiro, RJ - 1986. [Acervo Museu Clube da Esquina]
Acabei fazendo uma playlist com a maioria das citadas para acompanhar a leitura.
Motivado pela coluna Como e por que nascem as canções, apresentada pelo jornalista João Máximo na Rádio Batuta do IMS, recuperei alguns trechos da minha tese de doutorado que tocam nesse assunto. Boa desculpa para colocar Carmem Miranda e Assis Valente em pauta neste sábado. O extrato foi retirado das págs. 80-86:
Por isso mesmo a construção, a partir dos anos 30, de uma identidade nacional calcada na mestiçagem, precisa ser entendida enquanto resposta a uma crise de hegemonia para a qual concorrem o populismo varguista, a atuação de intelectuais como G. Freyre, Mário de Andrade ou Villa-Lobos e as formas de mediação postas através dos meios massivos no contexto de modernização que se evidencia na emergência das massas urbanas. No caso brasileiro, a música desempenhou um papel decisivo dentro do projeto nacionalizador (VIANNA, 1995; SQUEFF & WISNIK, 1983; MARTÍN-BARBERO, 1997).
O projeto de legitimação nacional passava então por criar uma forma de compromisso com as massas urbanas, e, portanto atender de alguma forma suas reivindicações. Mas é preciso notar que a presença de um “novo modo de existência do popular” na cidade, através das massas urbanas, “(...) desorganiza a visão centralizada homogênea e paternalista da cultura nacional” (SQUEFF & WISNIK, 1983: 133). A cidade, portanto, torna-se o palco de um processo de hibridações em “(...) um mercado musical onde o popular em transformação convive com os dados da música internacional e do cotidiano citadino.” (SQUEFF & WISNIK, 1983: 148). Estas observações vão na mesma direção do apontamento de BHABHA sobre as relações entre o espaço urbano e o “popular”: “(...) é a cidade que oferece o espaço no qual identificações emergentes e novos movimentos sociais do povo são encenados.” (BHABHA, 1998: 237).
No caso brasileiro isso parece especialmente marcante, pois, como aponta WISNIK, a música popular “(...) constitui um artesanato que foi se desenvolvendo nas dobras e nas sobras, nas barbas e nas rebarbas do processo de modernização do país (...)” (WISNIK, 2004: 178), inserindo-se no mercado e na cidade, adotando procedimentos da poesia culta e se reproduzindo no contexto da indústria cultural, sem descolar-se completamente do contato com a cultura popular não-letrada, sem prender-se aos critérios de filtragem da cultura erudita e sem adotar unicamente os procedimentos de estandartização dos meios massivos.
Segundo TATIT, dois eventos marcaram a produção de canções neste período: a institucionalização do carnaval e a consolidação do rádio (TATIT, 2001: 226). E todos dois configuram o esteio da incorporação do samba, por conseqüência, daquilo que Ênio SQUEFF denominou “gesto” do negro, encarnado na simbiose entre trabalho e ritmo que configurava uma estratégia de sobrevivência ( SQUEFF & WISNIK, 1983:44-45). O samba, como diria Hermano VIANNA, tinha “(...) ‘tudo’ a seu dispor para se transformar em música nacional”. E, por isso mesmo, opera-se uma colonização interna, já que a definição do samba como “o” ritmo nacional desloca outros gêneros para a classificação regional (VIANNA, 1995: 110-111). O resultado mais bem acabado do projeto é o samba exaltação, cujo carro chefe foi Aquarela do Brasil, de Ary Barroso.
Neste ponto, “salta aos ouvidos” a importância do papel desempenhado pela Rádio Nacional. Seu alcance (ondas curtas e médias) era, de fato, nacional. Seus programas de maior audiência incluíam música popular e eram todos irradiados do Rio de Janeiro. Segundo Ruy CASTRO, seu
“(...) departamento musical (...) era um cenário de Primeiro Mundo. Nele cabiam nada menos que seis estúdios e o auditório (...) O elenco fixo – e contratado! – era um who’s who da música brasileira, com cerca de 160 instrumentistas, noventa cantores e quinze maestros, entre os quais Radamés Gnatalli, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli“. (CASTRO, 1990:60)
Toda esta estrutura estaria posta a serviço de “cantar a nação”. Inclusive permitindo a execução de arranjos mais exuberantes, grandiosos, nos estúdios de gravação ou das rádios. A instrumentação simples dos “regionais” foi sendo substituída por grandes orquestras. Neste ponto, Santuza NAVES chama a atenção para a influência que o jazz norte-americano exercera sobre as formações instrumentais dos conjuntos brasileiros, exemplificando com a viagem d’ Os Oito Batutas a Paris em 1922, na qual Pixinguinha ganhara um saxofone. Implementava-se, segundo a autora, uma estética do excesso, bem visível no choro (NAVES, 1998:174). Parece-me, nesse momento, que arranjadores como Radamés Gnatalli ou o próprio Pixinguinha procuravam utilizar os recursos dos instrumentos para equiparar tecnicamente o samba a outros gêneros identificados como “nacionais” em outros países (tango argentino, fox norte-americano, etc.) mas sem perder o referencial estético que se afirmava no samba. Em 1928, o crítico Cruz Cordeiro acusaria Pixinguinha de sofrer influência norte-americana, inclusive no Carinhoso. Mas, como bem coloca VIANNA, foi exatamente a consolidação do samba carioca como música nacional que deu fundamento às ameaças de influência alienígena (VIANNA, 1995: 117-118).
O discurso sobre o “nacional” precisava, assim, criar um embate com o estrangeiro. Teremos aí um rico veio de temática composicional, particularmente a que trata das relações entre a música brasileira e a norte-americana, com canções como Não tem tradução, de Noel Rosa, Brasil pandeiro, de Assis Valente ou Chiclete com banana, do repertório de Jackson do Pandeiro. Na letra das duas últimas, vê-se claramente que os signos do nacional – gêneros / instrumentos musicais, lugares e comidas – são contrapostos e valorizados diante dos signos do estrangeiro norte-americano. Enquanto Brasil pandeiro constata o interesse do “Tio Sam” em conhecer e dançar a batucada, Chiclete com banana impõe uma condição de igualdade nos termos da troca, pois para pôr bebop no samba exige como compensação que o boogie-woogie adote o pandeiro e o violão.
Não surpreende estas duas últimas terem sido regravadas no início dos anos 70, pelo grupo Novos Baianos (LP Acabou Chorare, 1972) e por Gilberto Gil (LP Expresso 2222, 1972), respectivamente. Vale notar que o arranjo dos “novos baianos” é bem mais tradicionalista do que o do “velho” baiano Gil, fazendo uso do instrumental característico do conjunto “regional” (violões, cavaquinho, bumbo, pandeiro). A gravação de Gil, por sua vez, busca efetuar a proposta de fusão de gêneros apresentada na letra, especialmente pelo trabalho violonístico que cruza procedimentos de blues, jazz e rock com samba, resultado que pode ser atribuído ao seu desenvolvimento como instrumentista no período do exílio em Londres
(...)
Interessante que Carmem Miranda não tenha querido gravar Brasil pandeiro, que Assis Valente lhe ofereceu quando de sua partida para os Estados Unidos em 1939. Se a canção enunciava o interesse do Tio Sam pela batucada, também perigosamente propunha uma equivalência entre as culturas, ao propor que o mesmo “anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato”. Posteriormente, ao ser acusada de se americanizar, ela responderia com a gravação da canção Disseram que voltei americanizada, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva.
A bibliografia do trecho citado:
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
CASTRO, Ruy. Chega de saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
MARTÍN BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.
NAVES, Santuza Cambraia. O violão azul: modernismo e música popular. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.
SQUEFF, Ênio & WISNIK, José.Miguel. O nacional e o popular na cultura brasileira: música. São Paulo: Brasiliense, 1983.
TATIT, Luiz. Quatro triagens e uma mistura: a canção brasileira no século XX. In: MATOS, Cláudia; TRAVASSOS, Elizabeth; MEDEIROS, Fernanda. Ao encontro da palavra cantada. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001, pp. 223-236.
VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
WISNIK, José Miguel. Sem receita: Ensaios e Canções. São Paulo: Publifolha, 2004.
Enquanto preparo minhas considerações para uma banca sobre o
tropicalismo de Caetano e o cinema de Glauber amanhã na Escola de Música
da UFMG, me deparo com esse texto de Gil no Pasquim que não conhecia.
Agora me chama atenção pelo embate que assume com o MIS ao recusar o
prêmio Golfinho de Ouro. Se tiver tempo farei um post maior no Massa
Crítica. Por agora, fica a curiosidade. Olha um trecho : "O que meu pai
precisa saber é que o museu sempre esteve contra o meu gorjeio, que
sempre achou desnaturado, desarmonioso, inautêntico e incômodo; sempre
esteve contra tudo que na música, no disco e na TV, tenha tido um
sentido de abertura compatível com a liberdade criativa de um povo novo e
fogoso como o brasileiro. Pelo que sei as aristocráticas e puritanas
prateleiras do museu não guardaram até hoje um só programa do Chacrinha,
o mais lindo que alguém jamais pôde encontrar em qualquer televisão do
mundo". Texto completo, aqui
Uma das formas de repercussão cultural que considero particularmente interessante é o comentário. Uma breve notícia, ao ser comentada, dependendo da argúcia ou mesmo da verve de quem a comenta, pode desencadear um imenso debate, que por vezes pode superar a condição de festival de verborragia e realmente acrescentar algo, lançar uma nova luz sobre o que motivou a discussão inicial ou ao menos representar uma reunião de posições relevantes para que o debate possa seguir e se aprofundar. Hoje em dia isso acontece com frequência via facebook mas às vezes sinto que o encadeamento do processo se perde quando o tempo passa e o ímpeto suscitado pelo comentário arrefece. No caso abaixo achei que valia a pena transformar em postagem, na tentativa de deixar ao menos um registro que fosse além das "linhas do tempo"...
A notícia
A Retratos da Vida descobriu o cachê que Caetano Veloso e Gilberto Gil
vão receber para cantarem no réveillon de Salvador. Cada um dos baianos
embolsará R$ 600 mil. A festa está sendo organizada pela empresária
Flora Gil, cujo sobrenome entrega de quem ela é mulher. A virada do ano
na capital da Bahia está sendo financiada com dinheiro público e de
empresas privadas.
Caetano e Gil vão receber, cada um, 600 mil reais para cantar no
reveillón de Salvador. Estou pra escrever um artigo mais longo sobre
esse assunto, mas já cabe aqui apontar em que medida esses dois
baluartes do tropicalismo se tornaram uma espécie de coronéis da cultura
brasileira. Nada justifica um cachê desse porte, ainda mais para dois
milionários. Ao invés de propor um debate sobre o sucateamento
da música brasileira, eles se contentam em engrossar sua fortuna com
dinheiro público. Injustificável.
O comentário do debate no facebook, por Luiz H. Garcia
Acho que algumas coisas se perdem e argumentos truncam
quando não fica claro onde estão os nós. Primeiro, quando se trata de
dinheiro público não se pode raciocinar estritamente dentro de uma
lógica de mercado. Cabe exigir sempre transparência e responsabilidade
dos administradores, e aí cabe questionar o montante, mas também a
própria decisão. Por que o Estado, que nem dá conta de garantir com boa
qualidade os serviços essenciais, gasta recursos com festa de reveillon,
inaugurações e afins? Mesmo que seja legal, será legítimo? Assim, mesmo
com zero desvio, zero superfaturamento, zero favorecimento de x ou y,
mesmo assim seria questionável. E outra coisa, prefeitura tem que pensar
em política, em equipar a cidade,com esse dinheiro dá pra fazer coisas
que atenderiam gerações, anos e anos, ao invés de fazer um espetáculo de
uma noite cujos benefícios, por mais que existam, se dissipam
rapidamente. Por que as empresas, que se interessam pela publicidade
direta ou indireta desses eventos, não pagam a conta toda do bolso
delas? Não dizem que a propaganda é a alma do negócio? Então? Os
argumentos até aqui nem colocam em questão quem são Gil e Caetano, nem a
qualidade ou perenidade da obra deles, sequer da atuação deles como
cidadãos. Personalizar e medir afetos e desafetos não funciona, aliás é
um verdadeiro traço de cordialidade, no sentido proposto por Sérgio
Buarque de Holanda. Entrar nessa de quem merece, quem não merece, não é
razoável até porque no final vamos ter que encarar que vivemos numa
sociedade totalmente desequilibrada em relação à forma de remunerar o
merecimento (há exemplos acima). Isso portanto já é uma premissa. Agora o
nó mais apertado, difícil de debater é a questão ética. Sem
bom-mocismo, sem cinismo, devemos debater isso sim. Para efeito de
raciocínio novamente não interessa quem são Gil e Caetano. Interessa que
são cidadãos brasileiros e que vão se apresentar em espaço público.
Seria mesmo absurdo demais desejar que dois cidadãos nessas condições
propusessem cachês menores, que ainda fossem plenamente satisfatórios
para remunerar uma noite de trabalho, por considerar a dimensão pública
dessa apresentação?? Queremos um Estado transparente, administradores
responsáveis, mas nós não precisamos agir assim?? E mais, ante um
comportamento cuja legitimidade é questionável, devemos é nos calar
porque no fundo supostamente gostaríamos de estar na mesma posição para
ter o mesmo comportamento? E quem age assim não deve nem ao menos
receber a crítica? Sem romantismo, repito, mas é possível aperfeiçoar
uma democracia esperando que um Estado comprometido com o bem público
brota por geração espontânea, que bons governantes descerão de discos
voadores? Enfim, um debate mais que urgente e importante, que é bom que
seja feito sem pequenez, sem picuinha, sem personalismo.
Pena que não se produzam aqui mais publicações como essa organizada por Carlos Basualdo, em edição primorosa da Cosac Naify, de grande apuro visual e combinando ensaios recentes, textos de época, documentos, obras e reproduções gráficas, num conjunto que agrada e ao mesmo tempo é de grande utilidade para o pesquisador interessado pelo tema. Sua única falha, de certo modo sintomática, é a ausência de músicos em qualquer dos textos analíticos ou balanços de época, que não sejam os próprios partícipes - e talvez mesmo aí um foco demasiado centrado em Caetano e Gil, vício compartilhado por quase tudo que se produz sobre o lado musical do tropicalismo. Daí que me pareceu uma ótima ideia uma postagem especial da seção "Na estante", fugindo um pouco da forma enquadrada da resenha e apresentando o livro junto com essa arguta e sintética análise do meu parceiro Pablo Castro para um trecho de um dos artigos do mesmo. Devorem sem moderação:
“Talvez os softwares livres do ministro Gilberto Gil criem um ciberespaço onde o espírito tropicalista se reproduza em inteligências artificiais e virtuais, na periferia de um novo império americano que o rock amado com tanto custo por determinados jovens baianos dos anos 60 nem sequer podia imaginar”. Hermano Viana. Políticas da Tropicália. in: BASUALDO, Carlos (org.). Tropicália: uma revolução na cultura brasileira (1967-1972). São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 142.
Com essa frase lapidar é possível antever em que se transformou o conceito tropicalista, ou pelo menos o seu uso na atual guerra ideológica em torno de cultura, política e ativismo: ao invés de proporcionar uma janela antropofágica para o mundo, em que o enlatado gringo era fagocitado e reelaborado por um espírito brasileiro não subalterno, dedicado a traçar, a partir de um mosaico de referências variadas e mesmo díspares, uma salada de possibilidades estéticas emancipatórias, o que enxergamos hoje é um ataque a toda e qualquer altivez autônoma do espírito brasileiro em nome de uma panacéia do "roque amado ", envelhecido , indiferenciado e completamente desvinculado de qualquer raiz cultural -musical brasileira, uma espécie de "software livre" musical que é o único denominador comum de gerações e gerações que não conheceram a riquíssima música brasileira pré e mesmo pós-tropicalista, por força das contínuas investidas imperialistas contra a música nacional : primeiro, sucatearam a indústria fonográfica brasileira de modo a incorporá-la às majors ; em seguida, extinguiram a estreita brecha por onde a música brasileira não totalmente dominada pelo processo industrial era alçada a multidões através da Tv e do rádio , instituindo a maior "cadeia nacional " de Tv de que se tem notícia no mundo ocidental, e fortalecendo o jabá no sistema radiofônico, sufocando as expressões simbólicas locais e instituindo um filtro apertado , controlado por pouquíssimas mãos, sobre o que era alçado a nível nacional, desfazendo os laços entre a música brasileira e seu povo, descaracterizando a formação musical do ouvinte ; e, por fim, nos últimos anos , aparentemente através da participação política do próprio Gilberto Gil enquanto ministro da Cultura, se propulsionaram investidas nebulosas contra o artista e o autor brasileiro, o que o crescimento da rede FDE, agigantada nos anos Gil, deixa evidente, alimentada com dinheiro público de editais e estatais, com tentáculos na grande mídia , em vários partidos e nos primeiros escalões das secretarias de cultura e do Minc.
Também se destaque o papel de uma certa intelectualidade acadêmica com relações no mínimo suspeitas com "gestores culturais " , atuando nos dois lados da equação : como legitimadores de certos "processos" e beneficiários de determinados investimentos culturais , alguns públicos e outros de origem obscura.
Assim, a premissa antropofágica tropicalista se converteu em salvo-conduto contra toda e qualquer crítica cultural que problematize a progressiva homogeneização e rebaixamento das expressões musicais no Brasil ; um relativismo absolutista que , por meio do nivelamento por baixo de tábula rasa, iguala tudo a qualquer coisa, e , ao contrário de revelar a potência política da música, em seu conteúdo imanente, faz dela um mero pretexto para objetivos político-econômicos extremamente perversos do ponto vista do auto-reconhecimento de um povo e sua soberania artística, intelectual e cultural. Pablo Castro
A página Delta Blues [para conhecer, aqui] apresenta um acervo fotográfico sensacional e estava pensando em postar um apanhado por aqui sem maiores explicações, deixando a beleza das imagens sobressair. Mas enquanto pensava no título lembrei-me dessa canção do Gil, gravada no exílio londrino, e me pareceu muito apropriado dela sacar o título e deixá-la "sonorizar" as fotografias. Apreciem sem moderação.
Na ordem, de cima para baixo: Skip James; John Hurt; Fred McDowell; Jesse Fuller; Bessie Smith; Big Joe Williams; Junior Wells e Buddy Guy; Bo Carter; BB King; Big Bill Broonzy