Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

30 de novembro de 2011

Resenha criativa

Já estamos listando resenhas do filme "Alta fidelidade", essa é muito boa, coisa de profissional.
Afinal, foi feita pelo crítico Pablo Villaça.
Confiram um trechinho (e a completa, aqui):

Mas não é só o humor de Rob que oscila: seu coração também se revela bastante volúvel. Até mesmo sua dor-de-cotovelo com relação ao término de seu namoro é prova cabal disso, já que ele mesmo confessa ter se interessado por outras garotas enquanto ainda morava com Laura (Hjejle). Assim, a Alta Fidelidade do título não se refere apenas ao mundo musical de Rob, mas também representa a definição de seu comprometimento com a namorada - tornar-se fiel é um passo importante para seu crescimento. Mesmo assim, não podemos ignorar a curiosa analogia presente no título do filme: afinal, o comportamento eternamente adolescente e imaturo do rapaz acaba se refletindo no próprio contraste entre o vinil (símbolo do passado) e o CD (o presente, o futuro). Não é à toa que a primeira atitude de Rob ao decidir dar novos rumos a sua vida é produzir um CD (renovação), mesmo que ainda utilize seus vinis (sua bagagem, seu aprendizado) na festa de lançamento do mesmo.

24 de novembro de 2011

Na estante - A história por trás de todas as canções

Enquanto leio "A história por trás de todas as canções", de Steve Turner, penso que a obra dos Beatles deve ser a mais escarafunchada em todos os tempos, talvez pela combinação sem igual de sua imensa popularidade e sua inesgotável criatividade. E o que mais impressiona, é que, com tudo isso, com toda a bibliografia, com todos os inquéritos, todas as razões de ser e todas as fontes de inspiração arroladas, ainda assim resiste o mistério de sua criação única e irrepetível.

 



Resenha "twitter" do livro - bonito, bem feito, para iniciação apesar de lacunas e lugares comuns.

Já que o assunto é lista

Jimi Hendrix é melhor guitarrista de sempre, diz a Rolling Stone: veja aqui top 100 completo (at.) Como sempre, esse negócio de lista é controverso. Desde os nomes até a ordenação, tudo pode ser discutido. Ainda por cima, os critérios nunca ficam claros, pois o que interessa é a sanha classificatória, que certamente rende repercussão às revistas que publicam essas classificações.
De cara, já acho que as listas não deveriam misturar gêneros e gerações, pois os parâmetros de comparação vão ficando escassos, porque os valores estéticos mudam.

Música Popular e Colecionismo VI - resenhas dos alunos

Pois é, o semestre está chegando ao fim. Alunos fazendo trabalhos, professores corrigindo. Uma das atividades da optativa Música Popular e colecionismo foi produzir uma resenha depois de assistir o filme "Alta fidelidade". Fiquei muito satisfeito com os resultados e combinei com eles que iria postar no blog. Confiram alguns trechos...
"Rob Gordon tem uma loja de discos, seu apartamento mais parece uma loja de discos, seus dois amigos, funcionários ou seja lá o que for (...) foram contratados para um acontecimento há 4 anos atrás e depois disso nunca mais foram embora – nesse trio cujo papo quase sempre é música ou a construção de um top Five qualquer coisa é que rola boa parte da comédia da vida privada do sujeito colecionador do universo do fetiche e do colecionismo."
"Muito legal a construção deste universo, os personagens são divertidos, a trilha sonora é intensa e tem peso de Bruce Springsteen (que faz uma pequena ponta no filme, como ele mesmo) Velvet Underground, passando por Bob Dylan, Marvin Gaye e Queen, entre dezenas de outros (...) filme leve pruma tarde na universidade, gostoso de ver, gostoso de ouvir.
A partir de hoje, depois de ver o filme, ler alguns textos sobre música e colecionismo, entrevistar um colecionador, conhecer outros que foram entrevistados por outros alunos e pelas discussões em sala, minha percepção acerca destes caras é que primeiro são pessoas normais como todos nos o que os tornam diferentes é a relação destes sujeitos com seus tesouros, com seus fetiches, com suas coleções sejam elas de qualquer tipo, suas formas de ordenar ou de construir suas coleções, como ocorre essa transformação como surge este interesse e como o estado, a mídia ou apenas outras pessoas nos ajudam a construir, iniciar ou aumentar a nossa coleção, o poder e o interesse por traz de tudo isso. "
Aloísio Santos de Sá
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18 de novembro de 2011

Aula de Música: Viva Zapátria

Tem canções que na primeira audição deixam a marca, que nos emudecem e transformam tudo o que não é seu próprio som em silêncio. Foi assim que ouvi, há tantos anos, numa fita cassete Viva Zapátria (Sirlan/Murilo Antunes) e hoje, ao ver uma postagem do Pablo Castro sobre ela, lembrei de como me senti. Isso é o processo da memória, em que sentidos definidos no íntimo de uma experiência pessoal se entrelaçam definitivamente aos significados compartilhados, pois de modo inequívoco Viva Zapátria é um monumento erguido em letra e música que preserva a lembrança da coragem no enfrentamento da censura e do autoritarismo nos "Anos de Chumbo".
O texto do Pablo: O Brasil tem Tom Jobim, Chico Buarque , Caetano, mas tem também caras capazes de fazer uma música como essa, umbilicalmente ligada à nossa história recente e absurdamente bonita, perene, canção trágica e épica , que selou o destino de seus autores : Sirlan De Jesus e Murilo Antunes ! Se você nunca ouviu, vai se surpreender ...


Pequeno trecho do depoimento do Murilo Antunes ao Museu da Pessoa (confira completo aqui)


"O pau estava quebrando em 68, quando eu fiz minha primeira música, chamada “Super-herói”. E a outra, “Viva Zapátria”, que eu fiz com o Sirlan."



[Em janeiro de 2014, acréscimo do editor]
Quis o destino que algum tempo depois dessa postagem que o meu parceiro Pablo viesse a gravá-la com Sirlan numa circunstância especialíssima, aqui relatada por ele:
Sirlan e Murilo Antunes fizeram uma canção que assombrou Astor Piazolla e o convenceu a participar do Festival da Internacional da Canção , 1972. A ditadura impediu que a música vencesse o Festival, e impôs ao Sirlan uma das maiores mordaças entre os compositores brasileiros, só comparável ao Taiguara.

Felizmente, a canção era forte o suficiente pra atravessar 40 anos incólume e atualíssima. E, mais felizmente ainda, eu, que ajudei a difundi-la em gerações posteriores, tive a honra e a felicidade de cantá-la junto com um de seus autores, Sirlan, no filme "Come se a vida Fosse Música" sobre a obra do letrista e poeta Murilo Antunes.

A letra

Esse meu sangue fervendo de amor

Aterrisam falcões, onde estou?
Carabinas, sorriso, onde estou?
Um compromisso a sirene chamou
Duplicatas, meu senso de humor
Se perdeu na cidade onde estou.

Viva Zapátria, saudou esse meu senhor
Beijos, abraços, ano um chegou
Salve Zapátria, ê, viva Zapátria, ê
Esta cidade foi uma herança só.

Viva Zapátria, saudando o senhor
Horizonte aberto onde estou
Esta América mãe onde estou."

A canção 



O vídeo extraído do DVD"Como se a vida fosse música"