Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Mostrando postagens com marcador Flávio Henrique. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Flávio Henrique. Mostrar todas as postagens

9 de julho de 2012

Lançamentos no Horizonte Belo


Com a devida autorização do autor,  reproduzo* um texto do meu parceiro de música e ideias Pablo Castro que é um verdadeiro relato/retrato do cenário musical na capital das Alterosas, feito numa semana de vários lançamentos de relevo. Fica o convite para quem tiver comparecido a um ou mais desses eventos deixar impressões/apreciações.
"Essa semana tive o prazer de comparecer ao lançamento do disco Zelig do Flávio Henrique, [mais sobre o disco] obra eclética e ousada que rompe com alguns dogmas do que se pode chamar de MPB elitizada, como o próprio autor observou, abraçando jovens das gerações posteriores e atirando pérolas para muitos lados. Legal perceber a inquietude do compositor mais tarimbado da geração da década de 90 dessas alterosas musicais.



Ontem [5/7] não pude comparecer ao lançamento do primeiro trabalho fonográfico de Gustavo Amaral [Só o Amor Constrói], companheiro Cantautor que, pra mim, ao lado de Luiz Gabriel Lopes, é o cancionista mais natural da geração pós -Reciclo, lidando criativamente com os múltiplos arquétipos da canção brasileira ; é o tipo de compositor que não tem medo de refrão, o que o aproxima deste que vos fala.[para conferir, aqui]



Hoje [6/7] tem o lançamento do disco Radar [para detectar e ouvir as faixas] de Thiakov, que vejo como irmão mais novo; tocamos juntos na Free as a Beatle, e ele participu da famigerada Banda dos Descontentes e contribuiu muito com o disco oculto [algumas pistas do disco] que ainda se lançará. Um dos músicos mais talentosos, de longe, que já conheci, capaz de tocar com destreza centenas de instrumentos, e assustadoramente fértil em idéias e soluções musicais, Thiakov vai mais pela tangente, enquanto compositor; sentem-se ecos das experiências musicais desconstrutivistas, particularmente Os Mutantes e a célebre ( porém nada unânime) banda inglesa Radiohead. Afeito a experiências lisérgico-musicais, Thiakov promete uma interessante audição no espaço 104 , hoje a partir das 10 da noite.


E amanhã [7/7] quero comparecer ao lançamento do primeiro disco solo do grande Rafael Martini [Motivo, muito bom para ouvir aqui], hoje um dos, se não o principal arranjador dessa nossa seara autoral em BH, músico completo : toca piano, violão, acordion , canta muito bem, e arquiteta seus arranjos com grande maestria e primor, polirritmicamente nos levando a a levitar , com procedimentos riquíssimos e que juntam ecos de Gismonti e Radiohead, Hermeto e Guinga, Moacir Santos e Grizly Bear. Sou-lhe grato até hoje pelo arranjo de cordas de uma canção do meu disco, O Sétimo Selo, com o qual elevou essa música a alturas que o próprio compositor dificilmente suspeitaria [para ouvir em estado de elevação, aqui].


Isso tudo pra dizer que a produção musical de BH não tem paralelo com o resto do Brasil hoje: somos unidos pelas diferenças e , ainda assim, trabalhamos juntos e enriquecemos o acervo fonográfico mineiro, nem que seja para que um dia isso seja redescoberto, já que nem na Inconfidência essa produção encontra espaço aberto e meritocrático. Mas estamos no caminho certo, a música que se faz aqui não brota de qualquer montanha !" Pablo Castro

*Pequenos acréscimos deste editor, entre [ ]

28 de janeiro de 2012

O burguês e a marchinha

Em pleno aquecimento para o carnaval, uma iniciativa pra lá de interessante, que incluiu uma homenagem pra lá de justa, o Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, que vai selecionar as melhores para o baile da Banda Mole em BH, acabou tendo um desdobramento de ordem política. Ontem o compositor belorizontino Flávio Henrique [na foto, ao lado de Juliana Perdigão defendendo a marchinha no concurso] foi obrigado a retirar da internet, sob ameaça de processo por parte do vereador Léo Burguês(PSDB), presidente da Câmara Municipal, sua composição Na coxinha da madrasta(lanche do burguês). Como diz a matéria do jornal Super, "era para ser uma brincadeira de Carnaval". Mas a coisa ficou séria e o compositor recebeu o seguinte recado: "O advogado me disse que a marchinha estava causando dano moral ao vereador". A reação do dito vereador é desmedida e descabida. Afinal de contas, não é o primeiro e muito menos o último político a ser satirizado. Trata-se de tradição salutar que dá fôlego à crítica através de expressões culturais centrais em nossa vida social, a ser defendida sempre. Numa democracia, todo aquele que assume a vida pública (hoje confundida com a deplorável expressão "carreira política") deve estar preparado para o julgamento público e político de seus atos. O assunto de que trata a letra da marchinha já estava plenamente noticiado e o que cabe ver na Justiça é a correção ou não dos atos do vereador, que de acusado quer passar a vítima. Além do mais não há uma menção direta, citação de nomes, nada que permita abrir qualquer acusação. A ameaça não passa de um abuso, digno de repúdio. E o fato é que, infelizmente, o autor não se sente suficientemente resguardado em nossa "atmosfera jurídica", o que mostra que há muito a fazer até que possamos dizer que todos os nossos direitos estão de fato assegurados. Mas não pode haver silêncio, sob pena de dar poder a esse tipo de ameaça sem embasamento. O ônus do vereador deve-se a seus próprios atos, a serem julgados nas devidas instâncias, e pelos cidadãos nas urnas. A música popular, mais uma vez, representou para nós um espaço de liberdade, do qual não podemos jamais abrir mão. O gesto censor, no atual contexto, é autoritário mas também tolo, pois só fará aumentar a repercussão e circulação da marchinha, que aliás é muito bem feita. E essa historieta ainda há de ser contada, com ares anedóticos, começando assim: era uma vez, um certo burguês...quer que eu te conte outra vez?



P.S. 2018 -  

Num tempo relativamente curto os links se quebram, as fontes somem, as imagens se esvaem. Essa fragilidade acaba tornando a internet - aparentemente um arquivo infalível e inesgotável - um prato cheio para a prática do esquecimento. Nos últimos anos a atenção pública para este fenômeno aumentou, como demonstram as discussões sobre pós-verdade, fake news, etc.
Numa intensidade diferente isso também representa um problema para a construção dos patrimônios culturais, à medida em que se confie cegamente em digitalizações, nuvens e afins. Estamos, particularmente no Brasil, engatinhando no que diz respeito a preservar para as gerações futuras o que é significativo de algum modo para compreender nosso tempo e foi criado e circula em meio digital.
Sempre penso nisso quando busco alguma postagem antiga do meu blog, como ia fazendo agora.
Quis recuperar a postagem - uma das que mais foi vista dentre todas que já fiz, "O burguês e a marchinha" - motivado pelo carnaval e também pela lembrança ao nosso agora saudoso Flávio Henrique, autor de várias pérolas e também dessa inesquecível marchinha, que justamente venceu o concurso [aqui]. Sua relevância no contexto de transformação do carnaval de rua em BH nessa década é inconteste. Apesar dos links 'caídos', o texto está intacto. Tentei recuperar ou substituir o que foi possível.