Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Uma querida amiga e colega me marcou agorinha nesse compartilhamento no mínimo inusitado. Em meados dos anos 1980, quando a redemocratização no Brasil coincidiu com a adoção da Perestroika e da Glasnost, políticas de abertura econômica e política na antiga URSS, o então presidente José Sarney articulou, segundo consta com patrocínio de uma fábrica de tintas (cuja logomarca constaria da contracapa), a gravação de um LP (traduzindo no Google o título fica: Brasil - País de Todas as Cores, com produção do saudoso Zé Rodrix), como forma de presente sua viagem diplomática àquele país, em que nomes consagrados no cenário da música popular brasileira, incluindo gente como Alceu Valença, Moraes Moreira, João Bosco, Belchior, Leila Pinheiro, Wagner Tiso e Jards Macalé gravaram canções feitas a partir das traduções de poemas de grandes nomes da poesia russa, como Maiakóvski, Serguei Iessiênin e Velimir Khlébnikov. Ocorre que, segundo informa quem postou o "vídeo de áudio" , quem traduziu (não sei se um ou vários tradutores) processou (quem? O governo federal?) por falta de autorização e imagino que igualmente dos devidos créditos. Difícil apurar mais do que isso. Além de tudo, dada minha completa ignorância do russo, o pouco que pude fazer fica na dependência total do tradutor do Google. Fica a curiosidade da página do site Discogs, em que o disco se encontra elencado, e a gente se diverte com a grafia em alfabeto cirílico de nossos mestres, como esses dois aqui que são fáceis de adivinhar Жоао Боско e Жоелью-Де-Порко. Ali também não há crédito de tradução, mas dá pra saber a autoria original do poema que foi musicado por cada um dos brasileiros.
Dessas coisas que só acontecem no Brasil, e se não alivia em nada a biografia política profusa em conchavos e outras obscuridades de José Sarney, serve hoje para nos lembrar de um tempo em que um contingente maior de políticos brasileiros, inclusive seu presidente, mantinha, nem que fosse por aparências, uma relação de apreço pela cultura brasileira e seus melhores artífices, bem como uma atividade diplomática responsável. Vale muito a audição, dada a excelência dos poemas e da grande maioria dos músicos que se ocuparam em torná-los canções, verdadeiras transcriações que azeitam com jeitinho brasileiro a densidade poética dos russos. Pra não pesar selecionei só algumas, mas é possível ouvir a reprodução do disco todo.
Enquanto estamos encarando essa famigerada quarentena, especialmente apreensivos no Brasil em razão do comportamento criminoso, irresponsável e equivocado de algumas das principais figuras governamentais nacionais, inclusive o próprio presidente, aqueles que atuam na seara musical e cultural estão duplamente desafiados: de um lado, lidar com as tremendas preocupações e dificuldades materiais que esta crise de saúde pública promove e lhes alcança forte e imediatamente, pelo impedimento necessário das aglomerações com o justo objetivo de reduzir a velocidade de contágio e a escalada de casos graves, que lhes inviabiliza realizar apresentações ao vivo e outras atividades essenciais de sua profissão; de outro, responder ao chamado por sua contribuição artística e cultural, um bem indispensável em qualquer circunstância mas particularmente urgente de alcançar num momento em que uma parte considerável da população mundial está reclusa. Em nosso caso esses desafios se tornam ainda mais agudos e dramáticos, pelo fato de não termos no país políticas adequadas para garantir a sustentabilidade dessas atividades profissionais para além daquele recorte imposto pelo mercado e sua lógica cultural industrial massificada própria. Aqui e ali constatamos algumas iniciativas, como lançamentos de editais para projetos de apresentações online, das janelas, ou auxílios econômicos mínimos que o Congresso procura aprovar e que em alguma medida mitigam essas dificuldades.
Não sou produtor, não sou uma pessoa da área de marketing, nada disso. Sou pesquisador e também compositor. Tenho por isso parceir@s e amig@s que abraçaram a música como profissão, dela tiram seu sustento e dela fazem uma razão de viver. Pensei assim em criar essa postagem "painel" de programação de apresentações online e mais coisas que for o caso de agregar. Este não é um blog comercial e sim pessoal, e eu o atualizo sozinho. Sendo assim assumo a princípio como editor que esta seleção (ou se formos empregar um conceito bastante em moda, esta curadoria) baseia-se essencialmente nos meus vínculos artísticos e de amizade. Na medida do possível e desejável, através de comentários ou de compartilhamentos pela página oficial do blog no Facebook, outros trabalhos podem vir a ser incorporados.
A ideia, ao menos agora, é que concentrando tudo nessa postagem, as lives e vídeos que estiverem fazendo agora circularão de uma vez só, para o público que cada um consegue alcançar. A postagem tem duas seções. A primeira funciona como um Arquivo, ou seja, incorpora na página aquilo que já aconteceu, que de repente alguém não viu ou quer rever. Como vários desses meios atuais de difusão são tremendamente efêmeros, esta função enseja um pouco a aplicação prática das pesquisas que faço sobre patrimônio cultural e música popular. A segunda é uma seção de Anúncios, em que vou recebendo e atualizando a programação futura com seus respectivos links ou contatos.
Por fim, a seção de comentário do blog Massa Crítica Música Popular fica sempre aberta e quem quiser pode deixar críticas, comentários, sugestões e links com sugestões para lives e outras atividades que quiser recomendar. Por agora é isso e fiquem o máximo e melhor possível de Quare(A)ntena.
Arquivo:
Da série "Co-vídeos" do meu parceiro Maurício Ribeiro, atualmente pousado em Valência, Espanha. Com Vinícius Augustus, em Belo Horizonte, Brasil; Joana Radicchi, em Lisboa, Portugal; e Edson Fernando, em Bhopal, Índia; a música é "Ventania no cerrado", que dá título ao disco homônimo. (19/04/2020)
Do meu parceiro Benji Kaplan, de NY: "Canção da esperança" "Song of hope" (30/03/2020)
Show live do Parceiro Makely Ka: Rio Aberto - Instrumental de Violas em Quarentena
Livesdo meu parceiro Artur Araújo no facebook:
LIVE autorais e versões - 29/04/2020
Live Belchior I - 15/04/2020
Live Temática Clube da Esquina
Live solidária (03/04/2020)
Belchior Live parte II - 22/04/2020
Lives do meu parceiro Pablo Castro no facebook:
Pablo Castro canta Lô Borges (25/04/2020)
Pablo Castro autorais I - 24/04/2020
Pablo Castro canta Chico Buarque II (20/04/2020)
Pablo Castro canta Tom Jobim III (20/04/2020)
Pablo Castro canta Tom Jobim II (18/04/2020)
Pablo Castro canta Tom Jobim (16/04/2020)
Pablo Castro canta Milton Nascimento II (15/04/2020)
Pablo Castro canta Milton Nascimento I (13/04/2020)
Pablo Castro canta Genesis na formação clássica (11/04/2020)
Pablo Castro canta Paul McCartney (09/04/2020)
Pablo Castro canta João Bosco (2a. parte) (09/04/2020)
Pablo Castro canta Djavan (06/04/2020)
Pablo Castro canta John Lennon (04/04/2020)
Pablo Castro canta Gil (02/04/2020)
Pablo Castro toca Clube da Esquina - II (01/04/2020)
Pablo Castro toca Clube da Esquina - I (31/03/2020)
Songbook Chico Buarque (30/03/20)
Álbum All things must pass - George Harrison (28/03/2020)
Artur Araújo Hoje faço minha primeira live às 17h no @festivaldasaladecasa. Vai ser um barato poder compartilhar minhas canções com vcs e bater um papo sobre música nesse domingão. Nos vemos lá!
Makely Ka Próxima sexta-feira, dia 3 de abril, faço uma transmissão ao vivo do show “Rio Aberto”, instrumental de viola (...) a partir das 20h simultaneamente em todas as redes e plataformas que utilizo (YouTube, Facebook e Instagram). Mais informações aqui.
Artur Araújo Nessa quarta farei a próxima live com releituras de canções (boa parte não tão conhecidas), das quais me apropriei como intérprete. A live será na minha página do instagram @arturaraujooficial. Aproveito também pra anunciar que nessa sexta (3/04) às 17h, farei uma aqui no face mesclando autorais e releituras.
Thiakov
Hoje à noite (01/04) vou fazer o repeteco da live/aula sobre as guitarras dos Beatles - frases, solos e bases. Dessa vez vai ser aqui no Face.
Canais: Campanha: a ideia é ajudarmos uns aos outros a alcançar 1000 inscritos no YouTube para monetizar nossos canais (significa que o YouTube irá começar a te pagar por cada visualização).
Se inscreva no meu canal abaixo e deixe o link do seu próprio canal no YouTube nos comentários abaixo e te seguirei de volta!
A canção é solene, a melodia é meio soturna, mas reflexiva mais que doída, o andamento é lento. Dylan faz uma espécie de sermão laico da montanha, testemunho e testamento em trova de sua geração a partir da crônica da morte de Kennedy que se desenrola como um verdadeiro sobrevoo pela paisagem histórica de seu país em 1963, rendendo nesse percurso uma homenagem monumental ao repertório de canções que ele coleciona como uma amostragem abrangente e candente do som de seu tempo, uma espécie de radiografia musical geracional. Imagino que em seu país cale muito mais fundo que no resto do mundo, mas também nos toca de algum modo:
"Business is business, and it's a murder most foul"
Negócio é negócio, e é o assassinato mais imundo.
Falou tudo (e mais um pouco, já que são 17 minutos de gravação)!
Murder Most Foul Bob Dylan
Twas a dark day in Dallas, November '63 A day that will live on in infamy President Kennedy was a-ridin' high Good day to be livin' and a good day to die Being led to the slaughter like a sacrificial lamb He said, "Wait a minute, boys, you know who I am? " "Of course we do. We know who you are. " Then they blew off his head while he was still in the car Shot down like a dog in broad daylight Was a matter of timing and the timing was right You got unpaid debts; we've come to collect We're gonna kill you with hatred; without any respect We'll mock you and shock you and we'll put it in your face We've already got someone here to take your place
The day they blew out the brains of the king Thousands were watching; no one saw a thing It happened so quickly, so quick, by surprise Right there in front of everyone's eyes Greatest magic trick ever under the sun Perfectly executed, skillfully done Wolfman, oh wolfman, oh wolfman howl Rub-a-dub-dub, it's a murder most foul
Hush, little children. You'll understand The Beatles are comin'; they're gonna hold your hand Slide down the banister, go get your coat Ferry 'cross the Mersey and go for the throat There's three bums comin' all dressed in rags Pick up the pieces and lower the flags I'm going to Woodstock; it's the Aquarian Age Then I'll go to Altamont and sit near the stage Put your head out the window; let the good times roll There's a party going on behind the Grassy Knoll
Stack up the bricks, pour the cement Don't say Dallas don't love you, Mr. President Put your foot in the tank and step on the gas Try to make it to the triple underpass Blackface singer, whiteface clown Better not show your faces after the sun goes down Up in the red light district, they've got cop on the beat Living in a nightmare on Elm Street
When you're down in Deep Ellum, put your money in your shoe Don't ask what your country can do for you Cash on the ballot, money to burn Dealey Plaza, make left-hand turn I'm going down to the crossroads; gonna flag a ride The place where faith, hope, and charity died Shoot him while he runs, boy. Shoot him while you can See if you can shoot the invisible man Goodbye, Charlie. Goodbye, Uncle Sam Frankly, Miss Scarlett, I don't give a damn
What is the truth, and where did it go? Ask Oswald and Ruby; they oughta know "Shut your mouth, " said the wise old owl Business is business, and it's a murder most foul
Tommy, can you hear me? I'm the Acid Queen I'm riding in a long, black limousine Riding in the backseat next to my wife Heading straight on in to the afterlife I'm leaning to the left; got my head in her lap Hold on, I've been led into some kind of a trap Where we ask no quarter, and no quarter do we give We're right down the street from the street where you live They mutilated his body, and they took out his brain What more could they do? They piled on the pain But his soul's not there where it was supposed to be at For the last fifty years they've been searchin' for that
Freedom, oh freedom. Freedom cover me I hate to tell you, mister, but only dead men are free Send me some lovin'; tell me no lies Throw the gun in the gutter and walk on by Wake up, little Susie; let's go for a drive Cross the Trinity River; let's keep hope alive Turn the radio on; don't touch the dials Parkland hospital, only six more miles
You got me dizzy, Miss Lizzy. You filled me with lead That magic bullet of yours has gone to my head I'm just a patsy like Patsy Cline Never shot anyone from in front or behind I've blood in my eye, got blood in my ear I'm never gonna make it to the new frontier Zapruder's film I seen night before Seen it 33 times, maybe more It's vile and deceitful. It's cruel and it's mean Ugliest thing that you ever have seen They killed him once and they killed him twice Killed him like a human sacrifice
The day that they killed him, someone said to me, "Son The age of the Antichrist has only begun. " Air Force One coming in through the gate Johnson sworn in at 2: 38 Let me know when you decide to thrown in the towel It is what it is, and it's murder most foul
What's new, pussycat? What'd I say? I said the soul of a nation been torn away And it's beginning to go into a slow decay And that it's 36 hours past Judgment Day
Wolfman Jack, speaking in tongues He's going on and on at the top of his lungs Play me a song, Mr. Wolfman Jack Play it for me in my long Cadillac Play me that "Only the Good Die Young" Take me to the place Tom Dooley was hung Play St. James Infirmary and the Court of King James If you want to remember, you better write down the names Play Etta James, too. Play "I'd Rather Go Blind" Play it for the man with the telepathic mind Play John Lee Hooker. Play "Scratch My Back. " Play it for that strip club owner named Jack Guitar Slim going down slow Play it for me and for Marilyn Monroe
Play "Please Don't Let Me Be Misunderstood" Play it for the First Lady, she ain't feeling any good Play Don Henley, play Glenn Frey Take it to the limit and let it go by Play it for Karl Wirsum, too Looking far, far away at Down Gallow Avenue Play tragedy, play "Twilight Time" Take me back to Tulsa to the scene of the crime Play another one and "Another One Bites the Dust" Play "The Old Rugged Cross" and "In God We Trust" Ride the pink horse down the long, lonesome road Stand there and wait for his head to explode Play "Mystery Train" for Mr. Mystery The man who fell down dead like a rootless tree Play it for the Reverend; play it for the Pastor Play it for the dog that got no master Play Oscar Peterson. Play Stan Getz Play "Blue Sky"; play Dickey Betts Play Art Pepper, Thelonious Monk Charlie Parker and all that junk All that junk and "All That Jazz" Play something for the Birdman of Alcatraz Play Buster Keaton, play Harold Lloyd Play Bugsy Siegel, play Pretty Boy Floyd Play the numbers, play the odds Play "Cry Me A River" for the Lord of the gods Play Number 9, play Number 6 Play it for Lindsey and Stevie Nicks Play Nat King Cole, play "Nature Boy" Play "Down In The Boondocks" for Terry Malloy Play "It Happened One Night" and "One Night of Sin" There's 12 Million souls that are listening in Play "Merchant of Venice", play "Merchants of Death" Play "Stella by Starlight" for Lady Macbeth
Don't worry, Mr. President. Help's on the way Your brothers are coming; there'll be hell to pay Brothers? What brothers? What's this about hell? Tell them, "We're waiting. Keep coming. " We'll get them as well
Love Field is where his plane touched down But it never did get back up off the ground Was a hard act to follow, second to none They killed him on the altar of the rising sun Play "Misty" for me and "That Old Devil Moon" Play "Anything Goes" and "Memphis in June" Play "Lonely At the Top" and "Lonely Are the Brave" Play it for Houdini spinning around his grave Play Jelly Roll Morton, play "Lucille" Play "Deep In a Dream", and play "Driving Wheel" Play "Moonlight Sonata" in F-sharp And "A Key to the Highway" for the king on the harp Play "Marching Through Georgia" and "Dumbarton's Drums" Play darkness and death will come when it comes Play "Love Me Or Leave Me" by the great Bud Powell Play "The Blood-stained Banner", play "Murder Most Foul
Meu caríssimo amigo Guilherme Lentz, um homem de Letras, e de Beatles, postou agorinha essa canção da fase solo de Harrison, Cockamamie Business. A letra é ótima. Deu na telha de tentar entender essa gíria.
Diz o "sr. google" que veio de decalcomanie, portanto um empréstimo do francês. Sigo em frente para sacar que o negócio tem a ver com o uso do decalque como técnica pelos surrealistas. Procede. O mais provável é que do francês para o inglês, especialmente o das camadas populares, a palavra decalcomanie se modificou.E ainda tem um detalhe estatístico (o google deve estar usando os textos escritos digitalizados como base pra isso, imagino): o auge do emprego de "decalcomania" é nos anos 1950s (gráfico 1), e a curva ascendente do uso de "cockamamie" (com o sentido de implausível, ou como nós usamos às vezes "surreal") começa justo nos anos 1950 (gráfico 2).
Aproveito para recomendar esse útil e inspirador - como todos - livro de Williams, Palavras-chave. Devia ser 1998, pois já havia iniciado o mestrado e tinha ido à Unicamp entre outras coisas procurar para copiar alguns livros que não havia na biblioteca da Fafich da UFMG, um deles era o Keywords do Raymond Williams, e acabei encontrando também a edição inglesa do Costumes in common do Thompson, que não estava nos planos mas acabei xerocando um capítulo. O Palavras-chave é basicamente um dicionário de ciências humanas e sociais, recortando no léxico aquilo que seu autor, estudioso marxista da história da literatura e da cultura britânicas, chamava de vocabulário em "cultura e sociedade".
Meu parceiro Pablo Castro, costumeiro colunista convidado neste blog, produziu nos últimos dias dois textos com sua habitual contundência e bastante conhecimento de causa, sobre as relações desiguais na dinâmica do intercâmbio cultural através de meios massivos e a política de fomento à Cultura no Brasil. Embora o estopim de tais reflexões tenha sido a recente publicação do edital provido pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura em Belo Horizonte, optei por reunir os textos subsequentes à primeira postagem que ele fez, por serem mais abrangentes e menos dependentes dessa contextualização específica. Aponto ainda que o tema é de relevância maior num momento em que o atual governo federal, em seu ímpeto destrutivo, procura de todos os modos aparelhar e dirigir o fomento à cultura no Brasil de acordo com os interesses de grupos de extremistas religiosos e conservadores, fora ocupar-se dos costumeiros desvios criminosos, pretendendo, para tal fim, extinguir fundos públicos, inclusive alguns dos mais importantes no fomento à Cultura [aqui]. Cumpre frisar que aqui temos a proposta de um debate crítico que abrange o passado, o presente e o futuro da criação cultural, em especial a devotada à música popular, em nossa cidade, estado e país. É bom que ele não seja feito em termos estritamente acadêmicos, e igualmente não seja feito no registro do senso comum. No lugar de editor, é lógico que eu posso salientar que guardo aqui e ali minhas discordâncias ou que recorreria a outros termos e conceitos. Mas tirando uma ou outra ponderação que farei ao final, em notas numeradas (retomando algumas observações que já fiz nos comentários das postagens originais destes textos do Pablo no facebook), concordo com a espinha dorsal do que está dito a seguir.
O
Que É Dependência Cultural e Por Que Seu Combate Deveria Ser Prioridade
Máxima do Investimento em Cultura num País Periférico ?
Oriundo
de décadas passadas, e praticamente varrido da universidade brasileira
depois dos anos 70, o conceito de Dependência Cultural se refere à
subordinação sistemática de uma cultura nacional ou local à Cultura
Metropolitana, seja ela nacional ou mundial . É o correlato na Cultura
da questão da dependência econômica macro-societal [1] . Indícios de
Dependência Cultural são a falta de sinergia artística em dada cena
cultural, a fragmentação das obras e dos artistas, a profunda
padronização, a partir de padrões externos, de suas formas culturais, a
desvalorização simbólica das expressões locais e/ou nacionais ,
tornadas marginais diante dos padrões da Indústria Cultural , a ausência
de perspectiva histórica na avaliação e na oferta de Cultura nacional
e/ou local, a falta de presença midiática da produção cultural local
e/ou nacional, e, por fim, a absoluta inviabilidade prática de autores
de viver de sua produção artística [2]. Nesse ponto, é bom observar
que o conceito de dependência cultural não se refere a um "atraso", mas
sim a uma relação de subordinação sistemática das expressões culturais
de um recorte local ou nacional com relação aos centros irradiadores de
cultura - leia-se Indústria Cultural. Se tomarmos esses indícios
como algo a ser levado em conta num diagnóstico sério de uma
determinada cena local , em país subdesenvolvido e dependente, as
secretarias de Cultura de um estado como Minas Gerais e uma capital como
Belo Horizonte deveriam se dedicar , de maneira prioritária, a combater
essa dependência. Hoje, em Belo Horizonte, na área de música
popular, historicamente responsável pelos maiores feitos em termos de
distinção de identidade do estado e da capital, consubstanciados
sobretudo no mundialmente consagrado Clube da Esquina, apenas um número
ínfimo de artistas mineiros poderiam se apresentar no palco mais
clássico da cidade, o Palácio das Artes, com um número de pessoas
interessadas. Desde o Clube da Esquina, tivemos o surgimento de um
grande número de cantores e compositores de alto nível, reconhecidos em
searas específicas em outros lugares do país e do mundo ; mesmo assim,
nenhum deles consegue se apresentar no maior palco da cidade. Posso
citar aqui , de cabeça : Celso Adolfo, Tadeu Franco, Paulinho Pedra
Azul, Sérgio Santos, Titane, Marina Machado, Alda Rezende, Kristoff
Silva, etc. , etc, etc. Alguns desses excelentes artistas largaram a
carreira, outros a levaram na base do esforço pessoal, mas com
dificuldades absolutamente extraordinárias de manter o ímpeto de
construir uma obra. É incontornável concluir que essa falta de
continuidade histórica da música popular mineira não se deve a algum
defeito desses artistas, mas se deve a uma razão estrutural : somos o
estado do Sudeste, e talvez do Brasil, mais prejudicado e inviabilizado
culturalmente pelo domínio avassalador do chamado eixo Rio-São Paulo,
estabelecido sobretudo pelos militares pelo surgimento da rede nacional
de Televisão , que destruiu nossa TV local, com programação exclusiva
feita aqui, a antiga TV Itacolomi [o MIS-BH realizou exposição sobre o tema]. A despeito de ser o estado
com a maior lei de incentivo à Cultura do Brasil, Minas segue sendo um
túmulo de talentos. Pudera : todo o ecossistema de Cultura , desde os
editais do Estado e do Município, até o rol dos produtores locais de
shows e concertos, são condicionados a priorizar, de todas as maneiras
possíveis, os artistas cariocas, paulistas, pernambucanos, baianos, pra
não falar nos "internacionais", em detrimento dos artistas locais. Ser
daqui desvaloriza um artista como um defeito de nascença. Vejo
artistas medianos da dita cena "independente do país" virem aqui várias
vezes por ano e receberem cachês 10 vezes maiores do que artistas locais
com maior qualidade, originalidade e experiência. Isso nos editais
públicos, não apenas em eventos privados.[3] Uma cidade sem
artistas saudáveis, que tenham condições mínimas de acessar a veiculação
de seus trabalhos e a formação de um público, é uma cidade sem
identidade. O que se depreende até mesmo na exuberância do Carnaval
redivivo de BH : somos um carnaval cover, em que os nossos grandes
talentos são levados a se tornarem antes de mais nada repetidores de
obras consagradas, como que já conformados da impotência de fazer com
que novas canções possam de alguma forma ser conhecidas do público
local. Com isso, os editais pautados em conceitos identitários e
empacotados de fora, que não se preocupam com a identidade coletiva de
um lugar, mas com as identidades fragmentadas a priori em termos de cor,
raça, gênero , o que se alcança na verdade é uma acentuação da
dependência e do subdesenvolvimento cultural e uma homogeneização ainda
maior , nadando a favor da corrente da dominação da Indústria Cultural,
tanto a nacional, configurada no eixo RJ-SP, quanto na mundial .
Por Que Políticas Públicas Multiculturalistas São Um Atraso Num País Sincrético ?
Ao analisar a forma como os ditames multiculturalistas foram
introduzidos nas políticas públicas de Cultura no Brasil, fica patente
que o subproduto dessa imposição é um ataque ao sincretismo e à
permeabilidade cultural que se deu na cultura nacional em séculos de
miscigenação e misturas culturais que fizeram do país o exemplo mais
original , reconhecido por vários argutos observadores estrangeiros, de
sincretismo cultural do planeta. Resumidamente, a teoria
multicultural parte do pressuposto que existem grupos culturais
totalmente estanques, separados e apartados da sociedade oficial .
Enquanto esse ponto de partida faz todo o sentido em países como a
França, a Inglaterra , a Indonésia, a Bolívia, o Paraguai, a Alemanha e
os Estados Unidos, no Brasil ele configura um retrocesso de séculos [4] .
Mas mesmo nesses países, a ideologia multiculturalista , ou seja, os
preceitos advindos de uma visão de culturas apartadas e impenetráveis,
embora pareça progressista, na prática também aprofunda o apartamento
cultural de populações que poderiam se integrar em vista de, no mínimo,
lutar pelos seus interesses objetivos de classe. Por outro
lado, a imposição dessas políticas no âmbito da Cultura no Brasil é um
retrocesso de séculos. Para isso, basta olhar para a nossa cultura e
perguntar : Pixinguinha fazia música negra, ou música brasileira,
resultado da combinação de uma harmonia européia com ritmos africanos ? O
Clube da Esquina, liderado por um negro adotado por família branca, é
música negra ou música branca ? Caetano Veloso faz música branca e
Gilberto Gil faz música negra ? A Bossa nova era branca mesmo quando
todos os seuis criadores citem um músico negro, Johnny Alf, como seu
precursor ? Mesmo na metrópole cultural do planeta, os Beatles, o
maior fenômeno de vendagens da história, um quarteto inglês, fazia
música branca ou música negra ? O jazz, talvez o maior fenômeno criativo
de música no século XX, é música negra ou música branca ? Resposta,
nenhum dos dois. Toda a cultura humana do planeta nasce de
processos sucessivos de hibridizações, sejam eles por imposições,
mesclas, trocas, empréstimos e apropriações. Negar isso é negar a
própria natureza da cultura humana. Nada disso significa que não
há opressões por trás desses processos, reconhecer a mistura não é
advogar uma pretensa harmonia ou simetria onde ela não há . Por outro
lado, afirmar o caráter híbrido das culturas humanas é crucial para
perseguir o objetivo dessa harmonia. Afinal de contas, não é um mundo
mais harmônico que queremos construir, nós da esquerda ? Defender a
priori qualquer forma de purismo é rumar na direção oposta. Mais
do que isso, a ideia de combater as desigualdades na ponta, no âmbito
das expressões estético-culturais, e não na raiz, na verdade não só não
reduz as desigualdades, como também aponta para a perpetuação dessa
separação , ao contrário do que se diz pretender atingir. Quando
um edital de cultura coloca como critério de pontuação geral a promoção
de purismos politicamente orientados ele trata a cultura como um
invólucro vazio que só pode ser tratado como um cabo de guerra, não como
uma esfera criativa que possa resultar em originalidades. É
precisamente por isso que esse tipo de política gerará sempre uma maior
homogeneização, não o contrário. Sobretudo a naturalização dessa
ideologia multiculturalista num país original, diverso , multifacetado e
miscigenado como o Brasil, é um evidente retrocesso. Por fim,
analisar números e dados numa política de Cultura só faz sentido como
pano de fundo para um cena cultural, onde haja sinergia, mútuas
influências e cooperações artísticas, além de uma ideia de história
cultural . Cultura não existe sem história, arte não existe sem história
, e burocratas de órgãos de Cultura têm obrigação de conhecer essa
história. Eles não estão lidando apenas com dinheiro.
Por Pablo Castro
Notas do editor: [1] A consagração do conceito de globalização e o subsequente debate em torno de sua acepção propriamente cultural levaram à adoção de outros termos para tentar compreender o fluxo assimétrico das trocas culturais. Assim faço questão de frisar que os estudos acadêmicos dos anos 1980 em diante nunca desconheceram os desequilíbrios nas trocas culturais em diferentes recortes espaciais e temporais, foram simplesmente obrigados a estudá-las em novos termos para dar conta dessa outra dinâmica. Como já escrevi sobre isso em minha Tese e neste artigo dela derivado publicado na excelente revista argentina El Oído Pensante, “Só
ponho bebop no meu samba...”: trocas culturais e formação de
compositores na formulação da MPB nas décadas de 1960 - 70, convido o leitor a aprofundar-se por aqui. [2] Remeto a postagem anterior, Artistas da fome e o valor da bolacha
[3] Eu só gostaria de
acrescentar que essa estrutura, que do jeito que está já soterra
talentos, inclusive muitos que nascem e/ou vivem no epicentro do eixo
mas são marginais até mesmo ali e em relação até ao que se denomina
"cena alternativa".
[4]Na verdade essa teoria não faz
sentido em lugar nenhum. Cultura é troca. É mistura. Aquilo que se nos
apresenta como particular de um dado grupo, em um dado momento, já
pertenceu a outros, mudou de forma, deslocou-se no tempo e no espaço.
Multiculturalismo é um tipo de conformismo da Cultura, com fundo falso.