Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

30 de maio de 2026

Bolacha completa: The boys of Dungeon Lane


Me perguntaram outro dia, já que eu ando fazendo muita resenha de filme, se eu não fazia de discos. Tive que admitir que não fazia tantas. Certamente não por falta de vontade. Com certeza, sendo pesquisador, compositor, historiador da música popular, há demanda. Mas há também um senso de responsabilidade e auto-exigência, que não me perturba quando se trata de cinema, diante do qual me porto meramente como apreciador. 

Mas eis que saiu o disco novo do Paul McCartney e logo após a primeira audição completa me deu vontade de escrever ao menos um comentário geral, sem grandes pretensões. É que é realmente um prato cheio. Um conjunto de fôlego, 14 canções, quase dois terços delas escritas por sua própria conta, outras com uma mão do produtor Andrew Watt.  Paul toca com habitual proficiência praticamente todos os instrumentos, com pouquíssimos acréscimos, e poucas participações vocais, se bem que dignas de nota, como os backings de Chrissie Hynde e Sharleen Spiteri, e sobretudo o inédto dueto com Ringo Starr na simpática Home to us, composição bem dentro do conceito geral de revisitação do passado doméstico, capturado de forma certeira na velha placa remetendo à alameda liverpudliana da infância que ocupa o título ao disco. 

O tom nostálgico, dominante, não representa necessariamente um apelo estético retrô pasteurizado. A sensação é que a contribuição de Watt ajuda a temperar a receita com timbragens e cacoetes de produção de sabor contemporâneo - podemos ficar divididos com o resultado, mas de toda forma mantém um certo frescor. Sinto que o Paul finalmente deu uma amadurecida (rsrsrs) em relação a sua ânsia de soar contemporâneo, abandonando participações duvidosas ao lado de efêmeros personagens do superpop tiktokeante por um esforço mais orgânico de assimilar algo da sonoridade atualmente dominante em seu próprio estilo de compor e tocar,  algo que já era perceptível no McCartney III e neste disco conta com o auxílio de Watt, no estúdio de quem foi dado o pontapé inicial do trabalho, com o estranho acorde inicial do que veio a ser a faixa de abertura, As you lie there. Outra faixa que denota essa mesma atitude é a pop expresso Ripples in a pond.

Ao mesmo tempo é inevitável considerar em sua inteireza esse esforço de concretizar em canções as lembranças e o imaginário dos tempos idos que povoam sua mente e sua alma. E como dois lados da mesma moeda, aparecem as recapitulações tremendamente singelas e pessoais, envolvendo episódios de sua vida junto da família e amigos, especialmente seus companheiros Beatles, e, no verso, a presença resplandecente da influência de John Lennon, parceiro, interlocutor, confidente, residente renitente na memória e no afeto de McCartney. Por esse detalhe me emocionei especialmente com Salesman Saint, que me soou como a perspectiva dele para o hino folk de protesto lennoniano Working class hero, aqui elegendo pai e mãe como alegorias de uma classe trabalhadora sobrevivente no rescaldo da segunda grande guerra. Aliás, achei o trabalho de letrista de Paul nesse álbum particularmente significativo. 

No geral, Paul desfia a paleta invejável de quem tem décadas de carreira, transitando com igual fluência do rock energético e embalado no riff Come inside às baladas de tom confessional como Days we left behind, passando pelas margens da psicodelia em Mountain Top e passenado pelas margens do Mersey na cançoneta romântica com pitada de crônica social Life can be hardÓbvio que, ultrapassando a barreira dos oitenta, Paul tenha lá suas pequenas rateadas, pouco significativas. Ele mais que compensa com sua inesgotável capacidade de trabalho e amor infinito pelo que faz, nos brindando novamente com sua arte inestimável. 


Para ouvir o disco completo, acessar essa playlist:

https://www.youtube.com/watch?v=qW84Y891N3U

28 de dezembro de 2025

CATARSE


Há alguns meses, mais precisamente em maio deste ano, recebi do meu mais antigo parceiro costumeiro e contumaz, Pablo Castro, um convite instigante. A proposta era compor uma canção ao modo expresso, escrevendo a letra logo a seguir para a música que ele tinha praticamente acabado de compor. Achei ótima ideia e nos reunimos para pegar logo o touro à unha, como se diz. Era um roquenrou bem visceral, claro com alguns toques além do feijão com arroz que acrescentam à receita dos cavaleiros do após-calipso algo de brasileiro, uma síncope diferente, um batimento cardíaco mais apimentado. Recentemente inclusive me dei conta que a canção remetia um pouco ao "Punk da periferia" do Gil, ainda que isto, significativamente, não tenha vindo à baila de modo explícito na feitura da letra. 

Para trabalhar desse modo eu costumo aproveitar alguma coisa esboçada, que a combinação de intuição e experiência me permite captar rapidamente se encaixa com o que a música incita. Sendo assim, recorrendo aos arquivos eu catei esse título, acompanhado de rascunhos sem maiores elaborações. Era mais a vontade de ter uma canção assim chamada, considerando a força e apelo da palavra e o fato de não haver nada de notório com esse título. 

Em frente, então. Um ponto chave era um efeito meio beatlelesco de cruzar o coro vocal e a voz principal em uma mesma palavra como se os versos da sequência se encavalassem. Para ressaltar esse sobressalto, brincamos os sentidos possíveis da palavra olho, variando na função sintática como substantivo e verbo, e depois incorporamos óleo, praticamente homófona. Um tema forte, definido de cara, afinado com o título e com essa chave, era o dar a ver, o evidenciar. Mas, quase simultaneamente, veio o tempero, uma coisa irônica, crítica, uma verve muito nossa. Nesse caso, o esforço de trazer à tona o escondido não era resultante de uma atitude sistemática, organizada, mas de uma postura ambígua, de um jeito meio contraditório e maroto. Esses dois impulsos consegui sintetizar imediatamente no primeiro verso, "Ajo como suspeito pra disfarçar". Com a premência de produzir algo próximo do acabado em pouco tempo, o que fiz foi um experimento que não chega a ser escrita automática, mas em vários pontos soltava a caneta na trilha que a palavra anterior abria, mas "quebrava" a linearidade logo em seguida, num jogo que se retroalimenta indefinidamente. Neste caso acatei alguns pitacos do Pablo que eram muito dentro da proposta, como ir de "queda do muro" a "só pra escalar", ou um ajuste que enriquece um certo surrealismo como em "Venda, touro de ouro, PÓ DE brilhar" onde antes era "pode brilhar". Claro que a veia de historiador dá umas aparecidas nessas referências parcialmente criptografadas ao muro de Berlim e Wall Street, e a venda que remete ao véu que é uma imagem que Marx recorre constantemente para ilustrar o conceito de ideologia, a dialética essência x aparência e coisas assim em sua obra. Mas a letra também se desloca entre o público e o privado, enquanto oscila entre o escondido e o revelado. 

Em termos formais eu busquei mais rimas internas e sons muito reiterados, como "uro, urro, urro, uro"; ou o "g" em "rasga, garganta, gravata, juGular". Fiz também a referência indireta ao último disco do Pablo, O riso e o juízo. E no refrão veio certeira a citação de um verso do nosso parceiro mútuo, Makely Ka, "rimo a torto e a direito", de Eu não, gravada no disco Autófago (2008). O "eu lírico" da canção aí se afirma em suas humanas contradições e conclui decisivamente, "o que está feito, feito está", a Catarse portanto se realiza, apesar da palavra não constar da letra, o que eu eu acho deveras significativo. 



Catarse (música de Pablo Castro, letra de Luiz Henrique Garcia) – maio/25

 

Ajo como suspeito pra disfarçar

Cisco no canto do olho

Olho embaixo do pano, escancaro no ar

Do dedo-duro sussurro,  a revolta do urro

Queda do muro

Só pra escalar

Venda, touro de ouro

Pó de brilhar

Canta, rasga a garganta

Dá uma gravata na jugular

Senta, cai de maduro, vai levantar

 

Rimo a torto e a direito

E desse jeito

O que está feito, feito está

 

Rio do meu juízo pra decolar

Guardo no canto do olho

Óleo espalha do furo, escuro no mar

Um tiro pela culatra, que nada idolatra

Mira na lata

Pra destravar

Fenda, teia de renda

traio no altar

Nasce, rompe a placenta,

Foge do ventre pra respirar

Conto, não é segredo vou revelar

 

Rimo a torto e a direito

E desse jeito

O que está feito, feito está

2 de setembro de 2025

OURO SA(N)GRADO

Feliz da vida de voltar a escrever sobre uma parceria assim que a gravação é lançada e começa a chegar aos ouvidos das pessoas. Cada canção, uma história. Ou várias, ainda mais quando passa um longo período entre a lavra e o lançamento, como é o caso desta. Enquanto tento rememorar, eu já sei, inclusive como alguém que se dedica a estudar a memória, que algo já se perdeu nesse caminho. Outro tanto, quem sabe, vou ganhar agora, ao recobrar a lembrança neste instante, no presente. 

Estimo (nos dois sentidos) ter conhecido o parceiro Leandro César em meados da década passada. Tempo em que ele estava envolvido em projetos como o Festival Palavra Som e o Coletivo Casa Azul. Eu tinha retornado de Governador Valadares para BH em 2010, para tomar posse como professor do curso de Museologia da UFMG, e depois disso sei que levou algum tempo para me reconectar com a cena musical da cidade. Encontrar a galera da geração seguinte à minha agitando muito o coreto, com festivais autorais, discos, iniciativas coletivas de toda ordem, foi empolgante e estimulante. Além de tudo me comovia o fato dessa geração seguinte ter proximidade com a minha, conhecer nossos trabalhos, andar junto também. É um sentimento que ainda me toca muito, e que revela a densidade dessa cena autoral Belorizontina, Mineira, Brasileira, da qual tenho muito orgulho de fazer parte. Depois de um tempo nessa aproximação, naturalmente apareceram as primeiras parcerias. Leandro me passou duas melodias, uma delas era a que veio a ser Ouro Sa(n)grado. Acho que ela capta bem um aspecto fundamental que nos une, que é o esmero do ofício: ele como um artesão que se desdobra em tudo que cerca a música, de construir instumentos a compor, arranjar, tocar, cantar e gravar num estúdio que ele mesmo ergueu; eu um historiador e letrista, sempre querendo reunir com as palavras os sons e as histórias vividas.

Minha profissão costuma vir à baila nas sugestões feitas por parceiros quando me entregam uma melodia. Foi o caso. A princípio eu não queria fazer "mais uma" letra de canção sobre a escravidão colonial, um veio tradicional nas temáticas da música popular brasileira. Queria me arriscar numa leitura contemporânea atravessando a História do Brasil, conectando na forma de associações fragmentadas as explorações do passado e do presente. Tentei, mas não estava saindo tão bom quanto eu idealizara, o que ficou evidente pro meu parceiro até mais do que pra mim. Conversamos e eu retomei a feitura da letra numa abordagem mais sólida, tradicional, digamos assim. Mas de alguma maneira - quase sempre é assim - eu dei um jeito de adaptar a minha concepção original, casando a construção de uma narrativa relativamente contextualizada nas Minas coloniais. Logo eu, que apesar de ter sido orientando de IC da grande Carla Anastasia, queria evitar a Colônia, tema de estudos forte na UFMG, tanto que virei um historiador da cultura do Brasil República!  

De todo modo aquela intenção de fugir de uma narrativa linear, pelo menos, preservou-se. Ainda que os versos da primeira e da sexta estrofes sejam "didáticos" ao recapitular a diáspora como travessia do Atlântico no navio negreiro (aqui adotei por sugestão do Leandro o sinônimo Tumbeiro) até as Minas, as demais eu montei a partir do recurso ao "icônico", minerando substantivos que remontavam num mosaico as imagens da exploração dos corpos e dos metais nestas terras. A este garimpo uni a labuta de ourives, que foi arruar rimas internas e reiteração de sonoridades. Acho que logrei captar a dialética da colonização, como diria o grande Alfredo Bosi, reunindo na composição elementos que aludiam a diferentes aspectos da experiência social dos escravizados, ainda que ponto de vista do eu lírico seja de empatia e ênfase no processo histórico que culmina, no saldo de tantas contradições no tempo, em sua libertação e afirmação como sujeitos. 

Dentro da pegada do disco, orgânico, acústico, o arranjo - que fui ouvindo crescer num processo de gestação que o meu parceiro atenciosamente foi compartilhando comigo ao longo do tempo, quase como periódicos ultrassons - me cativou com suas cores e timbres, combinando energias telúricas que aludem à conexão do ser humano com a terra através da labuta com as da cultura que a transcende, alçando nossa imaginação ao sobrevoo que nos dá a ver as várias formas de desafio à opressão e sua superação. E que felicidade que esse canto tenha sido vestido na poderosa voz afrobrasileira de Sérgio Santos, além de tudo grande parceiro em composição de um de nossos maiores letristas, Paulo César Pinheiro. Ambos óbvias referências para qualquer compositor de música popular brasileira tratando deste tema. 

Finalmente, no título, sobrou essa brincadeirinha formal, vanguardeira, que nem sempre as artes gráficas e editoriais captam. O "n" entre parêntesis sintetiza no jogo de sentido cambiante que evoca as faces da moeda colonial e seu papel na formação do Brasil. O fascinante na canção, como linguagem, é que podemos fazer isso sem que soe como uma aula. Compor é mais aprender, com a música e a língua, e compartilhar com os ouvintes a tremenda síntese de sua conjugação. 





Ouro Sa(n)grado

Leandro César & Luiz H. Garcia

 

Quando atravessou no cativeiro

Oceano, vão entre dois mundos

Tumbeiro levou um povo inteiro

Fundo do porão, futuro incerto

 

Corrente, chibata, catedral

Seu corpo, su’alma, seu coração

Pra longe do seu chão


No dente, na tranca, no punhal

Na carne, no ventre, n’ oração

Resistiu

Na mina, na sina, no missal

No ouro sa(n)grado aluvião

 

Na fila, na vila, no curral

mercado, marcado, marginal

Senzala, serviço, união  

No veio, no seio, na prisão, na palma da mão


Mistura o metal e a fé

na lança, na face, a multidão

na dança que atravessa o vão 

Pra se libertar...


Quando aqui chegou tanto tormento

Terra dura cruz dos pés desnudos

Mineiro na lavra o dia inteiro

rude escravidão, palavra nua

 

Cansaço, no braço, um sinal

De santo de guarda de devoção

Traz perto seu irmão 


No dente, na tranca, no punhal

Na carne, no ventre, n’ oração

Resistiu

Na mina, na sina, no missal

No ouro sa(n)grado aluvião

 

Na fila, na vila, no curral

mercado, marcado, marginal

Senzala, serviço, união  

No veio, no seio, na prisão, na palma da mão


Mistura o metal e a fé

na lança, na face, a multidão

na dança que atravessa o vão

 

Pra se libertar...


5 de março de 2025

Anjo negro é o Sol que faz a Portela cantar




Acabei de assistir, em VT completo, o desfile da Portela na Marquês de Sapucaí homenageando Milton Nascimento no carnaval deste ano. Acertadamente, a meu ver, fugiram da linha biográfica explícita e cronológica. O enredo “Cantar será buscar o caminho que vai dar no sol” aborda de forma inteligente e criativa a relação do artista e de sua obra com o povo e a cultura brasileira, organizada conceitualmente na forma de uma procissão que se desloca por um dia imaginário, partindo do subúrbio carioca em direção ao interior de Minas. 
Antes de qualquer coisa, vale ressaltar a importância da homenagem em si, e o fato dela ter sido feita em vida, com Bituca lúcido e com saúde bastante para desfilar na avenida, e ir, literalmente, até onde o povo está - ainda que possamos debater à exaustão onde e como fica o povo no sambódromo, num contexto em que isso tudo virou um espetáculo multimidiático e um grande negócio. 
Sobre o desfile, não tenho grande propriedade para falar de muitos aspectos estéticos e de execução que chegaram a um patamar assombroso com todos esses anos, esforços das comunidades do samba e também, claro, com a força da grana. 
Preciso primeiro dizer que, sem ser um torcedor dedicado, acompanho os desfiles pela TV desde garoto, e escolhi a Portela como escola de predileção graças à imponência de seu símbolo, a águia, um animal que sempre me fascinou. Este ano a águia veio predominantemente em azul, com detalhes dourados, bonita e barroca. O ouro predominou junto aos tradicionais azul e branco da escola. Os carros alegóricos quase todos muito opulentos, tirando o que trazia um Milton representado jovem em meio à sua discografia e fotos dos membros da comunidade portelense que se sentem tocados por sua música, que foi o que achei mais lírico e expressivo do enredo. Me pareceu que algumas alas tentaram contrapor o excesso de brilho que a ideia de culminar tudo no sol - o próprio Milton, no último carro, raiando no dia seguinte ao da procissão - com algumas alusões à simplicidade da cultura popular. 
Até por isso achei o mirrado trenzinho azul no meio de uma ala de girassóis algo mal realizado. Creio que não captaram a essência da habilidade de Milton e seus parceiros em capturar a grandeza no simples, o extraordinário no cotidiano. Mas também não vou contradizer a sabedoria do saudoso Joãozinho Trinta, quando dizia que intelectual é que gostava de pobreza. O luxo fantasioso do carnaval é também uma provocação, um desafio ante a concentração da riqueza e injusta distribuição dos bens materiais em nossa sociedade.
A esssa afirmação se soma outra do valor da contribuição afrodiaspórica ao caldeirão da cultura brasileira, ainda que essencialmente pelo viés dos terreiros que deram solo à história do samba. Teria sido interessante, a meu ver, uma abordagem mais nítida da afromineiridade de que Milton se tornou um grande exponencial, ainda que houvessem referências salpicadas. A bateria poderia ter inovado por aí. Mas gostei das paradas introduzidas ao longo da execução, botando o povo pra cantar a cappella
No geral o samba me agradou, bem-feito, pelas mãos e mentes de Samir Trindade, Fabrício Sena, Brian Ramos, Paulo Lopita 77, Deiny Leite, Felipe Sena e JP Figueira. Eis a letra:

Manhã, Alvorada das nossas lembranças
Peito aberto, carrego esperança
Do altar de São Sebastião
Estou onde a mãe do ouro me afaga
E fiel abraçado à Águia
Vou partir em procissão

Na fé, que faz do artista entidade
E sagrada as amizades
Ardem vozes, mil tambores
Nas mãos, girassóis na travessia
Minh’alma em cantoria
Vem a tarde, vão-se as dores

Nessa estrada, é sonho, é poeira
Passa o trem azul, sigo em paz
Feito Rio… só me leva
Pra Deus filho de Maria
Tantos mares em um cais

E as raízes se juntaram
Na esquina uniram a nação
Venceram as lutas que travavam
Pra ver Zumbi no céu da canção

Noite apaga o arrebol
Num milagre ser farol
E continuar…
Quem acredita na vida
Não deixa de amar

Dorme a maldade após o temporal
Na bandeira a liberdade, vem Bituca triunfal
Cheguei com meu povo, mesmo sentimento
Onde Candeia é chama
Brilha Milton Nascimento

Iyá chamou Oxalá preto rei pra sambar
Iyá chamou Oxalá preto rei pra sambar
Anjo negro é o Sol que faz a Portela cantar
Anjo negro é o Sol na minha Portela





Não farei uma análise pormenorizada, para não sobrecarregar a leitura. Gostei das partes, do refrão intenso com a imagem central do anjo negro sendo "o sol". Se me dá muita preguiça um certo revivalismo militante que exalta monarquias africanas como se existissem num plano mítico, infalíveis e nada humanas, é válido evocar esse imaginário apenas na medida em que traduz apreço e admiração por um artista do calibre de Milton. Além de dar conta da narrativa proposta, a letra encadeia bem o padrão de samba-enredo que exalta a escola, seus símbolos, baluartes e devoções, ao mesmo tempo que faz citações espertas, ao invés de colagens óbvias. O léxico do Clube da Esquina surge com sol, girassol, trem, cais, temporal... Os compositores demonstram bom conhecimento do repertório de Bituca e seus parceiros, o que foi inclusive transposto para os nomes das alas, ainda que algumas alusões pudessem ter sido melhor aproveitadas em fantasias.  
O mesmo eu não posso falar dos apresentadores da Globo. Assistindo o VT a primeira vez achei um extremo despreparo da parte deles. Não só não indicaram boa parte das alusões, não citaram nenhum dos parceiros de Milton Nascimento - absurdo pois praticamente toda sua obra é feita em conjunto com letristas seminais da música popular brasileira - e nem mesmo souberam identificá-los quando alguns deles figuraram (sem maior destaque, e nisso vou criticar a Portela) no imponente carro branco em que eu consegui ver Wagner Tiso, Márcio Borges e Ronaldo Bastos. Claro que eles reproduzem a esparrela recente de destacar como amigos figuras como Maria Gadu e Djonga, artistas novos que ficam ali rondando agregados na abordagem marqueteira do filho adotivo de Milton.
Mas vou relevar, afinal se trata sobretudo de uma homenagem, digna do que ele representa no cenário da música brasileira e mundial. Como pesquisador que tem a trajetória longamente conectada à sua obra, e ao Clube da Esquina, e também como compositor que a tem como referência, registro minha felicidade de ter assistido mesmo que pela tela, e que se soma às minhas andanças nestes dias de carnaval por Belo Horizonte, onde eu ouvi em vários blocos - para além do que é dedicado à Esquina mais inacreditável do planeta - executando versões dessas canções que embalam nossos corações o ano todo. 

2 de janeiro de 2025

Bolacha completa: Cativo, ábum de Clayton Prósperi



Estou devendo há um tempão uma resenha desse trabalho impecável do meu parceiro e amigo Clayton Prósperi. Penso que entre as muitas conotações do título Cativo, a primeira que me ocorre é aquela de um vínculo férreo, mineral, do mesmo modo que dizemos “cadeira cativa”. Com ele, está reservado o lugar do Clayton neste vasto estádio da MPB, não na condição de mero espectador, continuador de seja o que for, e sim de criador com toda autoridade, maduro, de canções belíssimas e arranjos esmerados que receberam um registro de primeira categoria.

Cativados, no sentido hiperbólico de aprisionados, ficam os nossos ouvidos, conquistados pela inegável força desse repertório autoral que os convida a tudo. Ritmos hipnóticos, letras poéticas, harmonias ousadas, melodias voadoras. Tudo isso embalado numa produção impecável, acompanhado por gente que é do ramo, feito Tutuca, Ismael Tiso, Enéias Xavier e Teco Cardoso, entre outros. Encontramos um vasto panorama de invenção na música popular, que vai dos arranjos vocais aos solos de guitarra, das pausas sugestivas a energéticos pulsos de baixo, das faunas timbrísticas a alternâncias rítmicas que demonstram quão alargada e proficiente é a concepção de Cativo. É como se fôssemos alçados ao alto das montanhas do Sul de Minas e de lá divisássemos o mundo. Se a in/fluência da música e poesia mineira mais universal que há se apresenta, nas picadas abertas por monstros sagrados como Milton (onipresente), Toninho Horta (que toca em uma faixa) ou Drummond, também se apresenta o Prósperi com sua própria voz e caminhos, com suas teclas audazes que percutem não as cordas do piano, mas nossas fibras, neurônios, artérias.

Sim, habemos baladas, como a faixa título e Conta, ou Samba em sete, um compasso lunar, digamos assim, trova em toada como De Mar e de Drummond, hibridações que navegam por águas impressionistas até eventualmente as costas da península Ibérica, feito o par Vinheta da quietude/Inquietação (esta última em parceria com Edson Penha), ou a sutil brasilidade jobinianamente sincopada de Hora senhora. E claro, aquela mistura subversiva de fronteiras em que se pode reconhecer as pegadas dos sons imaginários de um certo Clube que ocupou a Esquina mais aberta do planeta, ouvida em Caminhante (com Talis Júlio) e Feira da fé, por exemplo.

Por fim, muito apropriado que a arte do álbum traga o traço extremamente humano da nossa querida Loló Weissman. É tudo, enfim, muito próprio e apropriado. E indisfarçável é a minha alegria em ter o Clayton como parceiro, com a sensação de que muitas canções ainda vamos botar nos trilhos dessa terra. Assim, pela Prosperidade da música popular brasileira, ouça. Se possível, de fone.




9 de agosto de 2024

Milton + Esperanza

 "E se..." Eu ficaria aqui pra sempre listando um sem número de conversas sobre música popular iniciadas por este preâmbulo. E dentre estas, destacaria aquelas que tratam de reuniões improváveis, impossíveis, inacreditáveis, ou pelo menos difíceis, por razões por vezes inexplicáveis. Mas não farei isso, claro. Tenho mais é que falar desta, que, talvez por um triz, aconteceu: a reunião de Milton Nascimento e Esperanza Spalding. A reunião da "voz de deus", nosso Bituca, um raio que só caiu uma vez no mundo, com a mais prodigiosa artista estadunidense que surgiu na cena do jazz mas já a extravasou faz tempo é o acontecimento do ano, no mínimo. Duas forças raras da natureza, separadas por hemisférios e gerações, mas unidas pela música que supera todas as fronteiras. 

Acho que o som fala por si mesmo, então, ouçamos:

Álbum completo: 

Vou inserir também os belos vídeos que estão disponíveis, além da apresentação ao vivo no Tiny Desk Concerts da rádio NPR:



















21 de julho de 2024

FORA DO EIXO


Como sempre faço, vou escrever sobre a feitura de uma canção que bateu asas e voou para fora do ninho da criação. Pensei muito antes de iniciar o relato sobre essa, procurando encontrar o melhor caminho  para contar como nasceu esse pássaro, de uma forma especialmente idiossincrática. É que Fora do Eixo foi inicialmente motivada por um episódio grave, ocorrido em 2013
, quando se expôs publicamente todo tipo de práticas nefastas e criminosas adotadas pelo coletivo de mesmo nome. Para quem quiser tomar conhecimento, lembrar ou se aprofundar, deixo o link da postagem que fiz aqui no blog à época. Em suma era a perversão mais dolorosa de um modelo de financiamento à cultura que sempre critiquei e ainda o faço, até porque sintomaticamente mesmo com esse e outros casos escandalosos nada foi feito para mudar essa concepção que no fundo dá a empresas privadas (o que no fundo era o Fora do Eixo) a gerência sobre recursos públicos recolhidos por impostos e assim o Estado acaba por bancar gratuitamente a promoção de sua marca, produtos, isso sem falar em várias burlas e desvios. O mais chocante era ali a maneira vil com que se explorava o trabalho dos artistas, num esquema que lembrava o de seitas religiosas, o que indignou muita gente, incluindo aí desde a primeira hora meu parceiro Pablo Castro, cuja crítica contundente neste caso compartilhei imediatamente. Decidi colocar em forma de letra todo meu protesto, ainda no calor do momento. Relembro aqui um trecho do original, recuperado em arquivo txt, que demonstra toda a intensidade do sentimento de raiva do "eu lírico" bravo, especialmente no refrão. 

Fora do eixo


Me deixe fora
fora do eixo
deixa que eu deixo
tô rolando meu seixo
tô rachando freixo
pra fender, pra estratocar

(ref.)
Madeixas do meu cabelo
deixa que eu sei cuidar
eu derrubo tronco
eu pego no tranco
atiro de Parabelo
zelo pelo meu lugar

Dei a letra para o Pablo em seguida, naqueles dias mesmo. Ocorre que o processo de compor música a partir da letra é geralmente mais difícil e moroso, mais ainda em parceria. Essa versão nunca ganhou a luz do dia, e muito tempo se passou até que ele me mostrasse alguma coisa que era outra, totalmente retrabalhada, ainda que trazendo ecos do que eu tinha escrito. Vinha numa levada incrível e muito brasileira, incutindo uma malemolência sincopada que se desdobrava na letra da estrofe inicial que ele tinha feito, adentrando uma linha tradicional do nosso cancioneiro popular dançante que é carregada do uso de duplos sentidos e conotações sexuais, quiçá reciclada numa chave boscoblancesca. Ao mesmo tempo trazia uma intenção de atualidade tremenda, que depois ficou perfeitamente traduzida no arranjo que remete ao maracatu eletrizado do Mangue Beat. Além de um esboço do refrão, não havia muito mais e minha tarefa era levar a cabo a letra daquele petardo. Pablo sugeriu o uso do dicionário de rimas, método que os melhores não hesitam em adotar, vide relato de gente do calibre de Chico Buarque. Pra mim era inédito, o que me empolgou, e ainda guardo vários rascunhos feitos naquela tarde/noite, que trazem desde o vocabulário pouco usual que empreguei em alguns trechos, como "usufruto" e "apetrecho", mas também muitas rimas que não entraram, incluindo aí o explícito "sexo" (rsrs). 


Nos esmeramos nas rimas internas, ricas e nas sonoridades recorrentes, como chiados e anasalados.  Observem por exemplo o paralelismo entre versos de estrofes diferentes, como "um charuto, aguardente, um despacho"; "usufruto, contente, esse cacho"; "e lhe incuto premente apetrecho". Modéstia às favas, é coisa de gente grande. Trabalhamos de forma entrosada e num processo dinâmico de ir revisando conjuntamente, trocando pitacos e risadas inevitáveis, afinal tinha algo jocoso naquela virilidade ostensiva como que temperando o rancor que vinha da reação ao fato que fora o estopim daquilo tudo. O próprio processo, cheio de idas e vindas, era muito lúdico e o condão da arte tem disso, permitindo fundir emoção e razão num resultado surpreendente que pode transcender o contexto e até mesmo os criadores, ganhando vida própria. Eu, que ironicamente estou longe de ser um pé de valsa, sentia como se estivesse dançando com a letra, num festejo popular que ganhou contornos mais níticos na gravação, especialmente com a presença da sanfona que reforça alusões a Luiz Gonzaga e seus conterrâneos musicais. Um verdadeiro rebu, uma orgia com as palavras e sons, mestiço e sacana. Não fosse pelo título, o tiro de parabelo no plexo solar do Fora do Eixo seria críptico em demasia, mas taí, nem precisa mexer a rapa do tacho. 




Fora do eixo (Pablo Castro/Luiz H. Garcia)

Ô mama me deixe fora do eixo
deixa que eu deixo
um charuto, aguardente, um despacho
enquanto essa foda me deixa um pau roxo
tem quem ache fácil
siririca em rebu é um negócio

Eia...

Ô mama me mexa a rapa do tacho
abaixa o teu facho
usufruto contente esse cacho
me sirva essa ameixa que eu boto no bucho
tem quem ache ócio
sacanagem se espalha no Face

(ref.) 
Madeixas pra lá meu cabelo, meu pelo
meu falo não calo
revele essa senha 
que eu meto essa lenha
e nós vamo queimá
Sem essa de amor pose de pós rancor
dou de parabelo no plexo solar
amor só se for pra batê e arrebatá

Ô mama me rache a lasca do seixo
agacha que encaixo
e lhe incuto premente apetrecho
ofende mas fende que eu não deixo frouxo
tem quem ache dócil
mocho na pintassilga é tão bruto

Eia...

(ref.)

14 de julho de 2024

O QUE FAZ FALTA

Este ano de 2024, com o lançamento completo do álbum "O riso e o juízo", do meu parceiro Pablo Castro, finalmente tenho a oportunidade de tratar dessa canção, composta há vários anos. Trata-se de uma balada de separação, ainda que seu andamento seja um pouco mais célere, o que cria um certo impulso que previne o resultado final de ser propriamente triste ou melancólico, ainda que não deixe de ser doído. Quando a ouvi a primeira vez, ao violão, a batida ecoava aquela que Caetano usou em "Você é linda", embora aqui o tom apaixonado convicto, em que a amada é celebrada através de sua associação a elementos e objetos percebidos pela beleza, seja substituído por outro em que o "eu lírico" se dirige a ela entre inquisitivo e perplexo, sondando os sentimentos próprios e alheios diante de seu mútuo afastamento.


Outro detalhe digno de nota é que a letra já ia bastante avançada, e o convite era para que eu a complementasse, o que basicamente consistia em fazer mais um par de estrofes e dar talvez um ou outro pitaco. Ainda que a música tenha me cativado de cara, por outro eu julguei tremendamente difícil entrar numa conversa cujo tom pessoal era evidente. Mesmo considerando os muitos anos de convivência e o nosso introsamento como compositores, seria preciso encontrar um caminho para entrar naquela história que não era minha sem parecer intruso. Só restava tentar entrar me ajustando à estética e ao teor da narrativa propostas. Tinha de um lado a forma ABABCC', de outro um texto com um repertório que remetia à MPB de voos líricos, metáforas surpreendentes e sonoridades bem marcantes, com rimas em "em", "ã", "é", "is". O anasalado era uma recorrência significativa, e apelei dos vocábulos dos mais óbvios como "maçã" aos mais improváveis, como "Irã". O eco djavanístico era irresistível, magnético como a peculiar prosódia em "ímã". Assim procurei me inspirar no estilo por vezes enigmático (porém não incompreensível ou sem sentido como querem os apressados) e inconfundível deste grande cantautor alagoano, sintetisando o inconformismo do emissor com o verso "um velho profeta réu no Irã". Num paradoxo muito humano, essa disposição revoltosa representa força e fraqueza do sujeito, diante da separação, que, por mais adiada, é inevitável.

      

O que faz falta (Pablo Castro/Luiz Henrique Garcia)

O que me faz falta fica pra além
depois de amanhã
O amor vai e volta é como um ímã

O que não se espera
pode aparecer
e a ferida se abrir

Momento de culpa, colo de mãe
demora a manhã
um tempo poeta nu no divã

Vai me perguntar
e contar pra você
onde foi que eu perdi

Não sei se lhe importa
que eu olhe pra trás
ou tente entender o que lhe conduz

Você já não volta
talvez por um triz
se o que lhe faz falta você nunca diz
se o que lhe faz falta é quem você não quis

O que me faz falta pra ficar bem
depois do café
amargo a revolta e como a maçã

A mochila pronta
pode parecer
preparada pra ir

Momento de raiva, golpe na fé
adeus num afã
um velho profeta réu no Irã

Vai me desvendar
e contar pra você
o que me fez sentir

Não sei se lhe importa
que eu pire de vez
ou tente encontrar de onde vem a luz

Você já não volta
talvez por um triz
se o que lhe faz falta você nunca diz
o que me faz falta é ver você feliz

4 de junho de 2024

ALMA MOLHADA

 ALMA MOLHADA

Eu e o Mário Wamser já nos conhecíamos há uns bons anos. E já tinha um tempinho também que acalentávamos a ideia de fazer uma canção em parceria. Nos espaços costumeiros de convivência, como o Vento Leste em BH, a gente se encontrava já brincando com isso, “e a parceria?” “agora vai”, “e aí, futuro parceiro?” e o que mais se possa inventar em torno de uma expectativa que fica sendo adiada, por nenhum motivo em especial, simplesmente pela falta da fagulha inicial. Ano passado, numa noite daquelas teve mesmo uma tentativa curiosa, meio à moda antiga, na mesa de boteco. Com nossa musa inspiradora ali por perto, decidi caçar papel e caneta na hora e sapecar alguma coisa de pronto. Até saiu, mas depois a letra não era assim tão inspirada, e a música não estava ali dormindo à espera de ser despertada. Esse modo de compor costuma ser mais raro, especialmente em parceria. Tem outra situação que é musicar poema, mas aqui não seria propriamente isso, quando eu escrevo antes já penso na forma de canção. Enfim, não foi daquela vez. Mas estava esquentando, como se diz no “chicotinho queimado”. Foi então que em janeiro desse ano ele me manda uma gravação com um tema, cantarolando e tocando aquele violão todo trabalhado dele. Aí bateu a responsa. A música tinha umas quatro partes diferentes, bem definidas e articuladas, de modo a sugerir uma narrativa consequente, lógica. Ela tinha leveza, mas de alguma forma também uma sensação de desafogo. Foi justamente o que ele explanou num pequeno áudio que enviou em seguida, acrescentando que queria poucas variações na letra já que pretendia repetir a forma toda. Acessível, “popularmente falando”, e bem mineira, portanto sem banalidade. Lá fui eu. Embora um esboço não tenha demorado tanto a sair, eu não costumo fazer o famoso “monstro”, ou seja, uma letra guia só pra marcar a melodia, divisões, acentuações, etc. Faço às vezes uns tracinhos, como se contasse as sílabas, e quando a nota se alonga eu faço o traço longo. Cada vez mais eu tento acertar de primeira, me impondo o desafio de chegar o mais perto do desejado e depois ir só cortando as arestas. Neste caso eu fui por partes, como diria Jack... vocês sabem... O “B” (ou ponte) deixei por último, era o mais difícil, porque tinha que funcionar na letra como na música, ou seja, ser um tipo de ponderação ou questionamento dos versos iniciais “A” e ligá-los às partes subsequentes, em que o “C” é o clímax e o D uma espécie de epílogo. Eu fui entendendo isso enquanto fazia, que precisava levar o “eu” do seu alegre e lírico despertar até um estado mais reflexivo, em que ele encontra a paz depois da tormenta - provavelmente isso é um ponto de identificação com a canção para mim, para o Mário e para qualquer ouvinte dela: quem nunca?  Por isso a palavra “chuva trás da curva” (bem mineiro :P) foi uma espécie de centro gravitacional, indicando que a fumaça já se dissipara e lançando no tempo presente a disposição de seguir adiante, viver, tocar violão, “te” encontrar (sempre lembrando os Beatles da primeira fase, mestres da interpelação direta do intérprete para o/a ouvinte). Essa chamada trás no final uma espécie de convite convicto, imperativo, para que o ouvinte compartilhe essa onda, encha os pulmões, dance, e claro, escute a música (se for essa mesmo, melhor ainda, vale a propaganda subliminar rsrs). Tudo portanto terminaria no gesto final de respirar, depois do sufoco, e a princípio “Respira” era também o título da canção, mas meu parceiro veio com a sugestão de “Alma molhada” (foi uma repaginada dos versos do Brant em Nos bailes da vida) e eu gostei, tem personalidade e deu mais cara de música mineira mesmo rsrs. Acho que poucas experiências na vida me ensinam tanto sobre co-laboração quanto a parceria para compor. Não é simples traçar a linha entre até aonde vai a nossa personalidade e onde começa sua dissolução num recipiente diferente em que a criação é compartilhada. Saber receber isso é bonito, e tenho tido sorte. E banhado minha alma muitas e muitas vezes!

Alma molhada (música: Mário Wamser; letra: Luiz H. Garcia) jan-2024

 

A         Tirei

            Os meus pés do chão

Eu valsei no vão

Entre qualquer lugar

e a hora de acordar

 

A’         Sono leve

Despir do lençol

Servir um café

Um brinde ao sol alçar

nessa manhã sem par

 

B         Um dia que a gente respira

Depois que dissipa a fumaça

a alma molhada de sonho

deságua

 

C         Chuva

Trás da curva lá já lavou

nuvem passageira

outra vida inteira

agora quero andá(r)

Pego a trilha

Aprendendo sem decorar

Pra valer viver, tocar um  violão, quem sabe te encontrar?


D         Enche seus pulmões

Põe as mãos na arei_a

Dança em pleno ar

Ouve um som na vei_a

Respira 



24 de maio de 2024

O BRASIL QUE CAI NO SAMBA

 O BRASIL QUE CAI NO SAMBA



Tava doido pra contar a história dessa canção que acabou de sair, quentinha, no EP Novelo da jovem cantora Flor Grassi [
aqui para ouvir tudo, que tá lindo!]. Certa manhã, final de semana, já estava combinado de encontrar meu parceiro Dan Oliveira, no estúdio Música aos Montes. Era pra fazer uma letra pra uma música nova dele, já meio que na leva das que poderiam figurar em seu primeiro disco solo, que estava começando a ser aventado. Ocorre que eu acordei animado e do nada me veio (fato raro) uma melodia sincopada, um esboço de um sambinha simpático e maroto. Essencialmente era o verso de “O Brasil que cai no samba”. Eu já no ônibus, indo, meio catando as palavras, não estou certo se apenas mentalmente ou se anotei em algum lugar, pois como eu estava indo pra fazer uma letra certamente levei papel e caneta. Cheguei lá com essa primeira parte ainda sem acabamento, e dois motes principais: o primeiro era uma espécie de antídoto de alegria aos maus bocados dos primeiros anos do governo Bolsonaro - era meados de 2019; o segundo, meio derivado, era a afirmação da brasilidade a partir da reação à infâmia e ignorância da turba reacionária, cuja metonímia seria aquele bordão “o Brasil jamais será vermelho”, que desconhece a origem da própria palavra que dá nome a nosso país. Preciso dizer que estava muito eufórico e compartilhei com meu parceiro aquele germe de canção na esperança de que ele gostasse e topasse levar o rebento adiante. Pois ainda que eu tenha uma limitada leva de obras só minhas, arranhe no violão e cante para consumo próprio, os parceiros com quem componho estão em outro patamar, e no caso do Dan eu nem hesitei porque estava certo de que ele iria levar o samba à maioridade. Dito e feito, num piscar de olhos ele consolidou a primeira parte, colocando a solução melódica da estrofe que traz uma espécie de brequinho, muito característico, e ainda fez uma segunda parte. Eu ia engordando a letra e me veio a ideia de homenagem a referências musicais, como Tom Jobim, João Gilberto, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga. Bem manjado mesmo, sem grilo. Um nome puxa outro, inclusive pela sonoridade. Até cheguei a pensar em colocar mais, ia virar uma “Paratodos do samba”, mas como sempre eu já tinha tanta ideia, que era o risco da síndrome de Bye, bye Brasil, ou seja, de fazer uma letra quilométrica e depois ter que cortar. São nomes que são pilares, então achei que estava de bom tamanho. Não deixa de ser curiosidade o fato de que o João era o único vivo da turma, mas agora também está jogando na seleção da posteridade. Com o resto da música rolando, eu botei o Brasil caindo no samba e depois ataquei o B, em que me ocorreu dar uma tensionada no excesso de lauda, então meti “Chega de saudade dessa terra” e taquei uma carga panfletária mesmo, esse é um traço meu, contra o qual não luto. E foi em frente com a espetadinha em outro símbolo nacional, o futebol, que tá “mal da perna” já faz um tempo. Mas não rompi o clima de festa – que o arranjo à la Novos Baianos e a interpretação graciosa da Flor ressaltaram ainda mais - e ainda deu pra citar vagamente uma canção do Chico que eu adoro, Feijoada completa, aí pra mencionar esse equivalente culinário do samba, também tributário da mistura que nos constitui. Qualquer crítica cultura me questionaria por usar “samba” e “Brasil” como entidades, reproduzir clichês sobre a identidade nacional, mas isso aqui não é tese, é letra de canção. Que sim, transporta ideias e por isso mesmo merece ser pensada e esmerada. Levei pra casa, finalizei, batemos o martelo, fizemos uma gravação caseira, mas o mundo ainda ia dar muitas voltas até a canção chegar a este momento de lançamento. O estado de felicidade que me tomou ao acordar com uma melodia pintando na cuca floresceu durante esse tempo, com tanta gente legal regando a planta. Que o povo não seja privado desse fruto, bora espalhar esse som o máximo possível. Caiam no samba!

P.S.: Ah! De quebra eu ainda comecei a letra da outra, a que eu fui lá fazer, inspirada num documentário sobre Tarkóvski, mas essa história deixo pra contar em breve.

O Brasil que cai no samba (Luiz Henrique Garcia e Dan Oliveira)


Vem ver o sol nascer hoje, majestoso,
O Brasil, amoroso
O Brasil, que dá gozo
O Brasil que cai no samba

Na rua a gente se encontra, se abraça
O Brasil, sem farsa
O Brasil, tá na praça
O Brasil que cai no samba

Ao som de Tom e João, Pixinguinha
O Brasil, caminha
O Brasil da Chiquinha
O Brasil que cai no samba

Chega de saudade dessa terra
De privar o povo dos seus frutos
Saiba que o futuro é feito agora
Na hora de colher a própria História

Olha que a Geral já vem à forra
Pode preparar a feijoada
Se o futebol tá mal da perna
O samba vai tocando a madrugada

À noite a lua ilumina o rosto
O Brasil que dá gosto
O Brasil tá disposto
O Brasil que cai no samba

Espreme aquela ferida, que vaza
O Brasil, ganha asa
O Brasil, feito brasa
O Brasil que cai no samba

Chega...
Olha...
Ao som...


29 de novembro de 2023

COISAS QUE FICARAM MUITO TEMPO POR DIZER



Fazer canções é um ato de alegria desmedida. Ainda mais, pra mim, quando o caráter lúdico envolvido não implica numa redução à banalidade. No último final de semana estive com o parceiro Pablo Castro e compusemos como nos velhos tempos, duas canções. Uma delas, da qual falarei noutra ocasião, foi praticamente "em tempo real", ele ao violão tocando o mote inicial, eu no papel e caneta mesmo. A segunda era um sambinha que já tinha a música pronta e um primeiro verso, sugestivo, "coisas que ficaram muito tempo por dizer". Esta evidente citação, vale lembrar, está também no título da minha dissertação de mestrado sobre o Clube da Esquina. Quando a gente já está a tantos anos nesse negócio, às vezes é preciso inventar uma moda diferente pra variar. Propus então levar adiante o lance da citação, e fazer a letra inteira assim. Considerando o tamanho do desafio auto-proposto, gravei e levei pra casa. Na tarde de domingo, tomado pelo impulso, muito por conta de ter feito a outra num jorro só de menos de uma hora, sentei diante do computador e espalhei um bocado de encartes de CDs na mesa. Para tornar a coisa mais interessante, eu decidi que iria "picotar" e justapor os pedaços de versos citados. E para tornar o jogo ainda mais divertido, era preciso que essa bricolagem adquirisse um sentido discursivo e político, o que simultaneamente tira a sensação de mera sucessão de referências. Eu que não sou formalista de plantão, evito metanarrativas e excessos intertextuais, nessa foi inevitável. Fiquei me sentindo um verdadeiro cruzamento de Dr. Victor Frankenstein com Stanislaw Ponte Preta. Fiz muitos versos bárbaros rsrss, não é auto-elogio, é que segundo a classificação de métricas, versos com 13 ou mais sílabas são "bárbaros".
Para terminar, tive que evitar o "efeito bye-bye Brasil", ou seja, a tendência a tornar a letra kilométrica simplesmente porque depois que a gente pega o embalo é difícil acabar com a curtição. Aliás, é legal que o próprio ouvinte pode entrar na brincadeira, tentando identificar as canções de onde os trechos foram tirados e baralhados. Fica aí o convite!
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Música: Pablo Castro Letra: Luiz H. Garcia
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Falo sem saudade falo quase sem querer
Chega de miséria em qualquer canto ou lugar
Se o mundo é um moinho, gente é feita pra brilhar
Flor do Lácio, minha língua,
Bossa, Rosa, João
A lição que aprendemos de cór
Tão boas palavras de cantar ao coração
Pra quê filosofar em alemão?
Tá lá um corpo atrapalhando estendido no chão
A mão que faz a guerra também toca violão
A gente não quer só comida, bica no quintal
Sede de viver tudo é um grande carnaval
Da barriga dos mistérios
Morro dois irmãos
Um mais um é sempre mais que dois
Diz a voz do povo que amanhecerá mamão
É melhor fazer uma canção
Bem se quis depois de tudo ainda ser feliz
No viaduto a equilibrista bisa por um triz
Com sol e chuva o sonho ainda pinta por aí
Quero mais saúde tutti frutti açaí
Flor do Lácio, minha língua,
Bossa, Rosa, João
A lição que aprendemos de cór
Tão boas palavras de cantar ao coração
Pra quê filosofar em alemão?
*P.S. reparem que há permutações possíveis na execução rsrs.