Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

24 de janeiro de 2014

Toma lá dá cá du samba, du samba, du samba

A preciosa cena compartilhada pelo amigo pesquisador Alberto Júnior, mostrando Martinho da Vila, Paulo Moura, Rosinha de Valença e o ilustríssimo Grande Otelo numa roda ao som de Disritmia, composição do primeiro deles, bateu aquela comichão da pesquisa, ainda que amolecida nesse final de férias.


Iniciei a busca por uma pista de um comentário na postagem no You Tube: "Se não me engano é um trecho de um documentário feito pra tv francesa...apresentado pelo Grande Otelo" e cheguei a essa boa sinopse do blog outra-cena:

"Eclats Noirs du Samba [Fragmentos Negros do Samba, n.e.] é uma série produzida pela televisão francesa que destaca a importância da influência da cultura negra na música brasileira. Produzido no Brasil em 1987 pela TF1 em associação com o “Centro National de La Cinematographie et du Ministere des Affaires Etrageres” Eclats Noirs du Samba é apresentado por Grande Otelo com a participação de grandes nomes da MPB e dirigido pelo consagrado diretor francês Hubert Niogret. O documentário fala da origem do Samba. Da conexão Bahia – Rio de Janeiro e suas vertentes criadas a partir disso: Chorinho, Partido Alto, Samba de Morro e Samba Enredo. Narrado por Joel Rufino dos Santos. Entrevistados: Tia Carmen, Fundo de Quintal, Candeia, Velha Guarda da Portela e Martinho da Vila. Boa fonte de informação para os interessados em ir um pouco mais a fundo sobre o som que dançamos nas pistas de dança. Como o próprio Nelson Sargento da Velha Guarda da Portela diz:
“Eu nao posso exigir que um jovem de hoje faça um samba como na década de 40 ou 50. Porque é do instinto dele querer recriar. Agora, dentro dessa recriação muitas vezes eles erram porque não querem olhar para o passado. O passado não pode ser esquecido.”
Porém o documentário fora retirado do You Tube, já que a conta em que estava postado foi fechada por infringir direitos autorais. Teimei e encontrei um outro trecho, com Zezé Motta cantando Magrelinha de Luis Melodia, aparentemente ao final de um episódio da série. Com um pouco mais de insistência, encontrei o episódio completo em que ocorre a participação de Martinho. Um ótimo programa!


Eclats Noirs du Samba - 1987 from Discos Finos on Vimeo.

22 de janeiro de 2014

No ar, os Beatles ao vivo na BBC

Meu plano de escrever uma resenha maior sucumbiu ao fato de que demorei um pouco a efetivamente ouvir o disco (o que acabei fazendo na excelente companhia do amigo Guilherme Lentz), e à competente resenha de meu amigo Renato Ruas Pinto em seu blog Reflexões [aqui]. Só posso recomendá-la e deixar aqui uma "palhinha":
A primeira impressão é de que essas compilações são somente para fanáticos como eu, que colecionam tudo que sai da banda. Porém, para quem deseja conhecer um pouco mais dos Beatles e, principalmente, sobre os primórdios da história do rock, é audição mais do que recomendada por vários motivos.

Realmente é interessante pelo acesso ao registro histórico e pra se ter uma ideia de como não havia parâmetro do que era ser "grande" na música popular. O ritmo de produção dos Beatles passou a ser impensável, entre outras coisas, porque seu próprio patamar de sucesso mudou a indústria. Incrível que poucos anos depois os mesmos músicos que foram obrigados a estar no palco numa frequência absurda puderam simplesmente parar de tocar ao vivo. Quanto ao Live at the BBC, o que era central saiu em 94, que era um CD é duplo. Neste vol.2 On air são de fato poucas faixas inéditas, para ser preciso as versões de “Beautiful Dreamer”, de Stephen Foster, “I’m Talking About You” de Chuck Berry  “Lend Me Your Comb” de Carl Perkins (uma gravação desta saiu no 1° Anthology). 

Outra coisa, é bom lembrar que um disco, como obra, é também o reflexo das condições de produção de seu tempo, o que envolve mixagem, masterização, etc. Assim, o valor como documento histórico de uma remasterização é relativo, uma vez que altera a condição geral de percepção do som. De todo modo, como bem coloca a boa resenha do New York Times , são discos que permitem mergulhar fundo nesse repertório mais amplo dos Beatles e apreender melhor os artistas, gêneros e gravadoras que influenciaram a banda:
That’s a significant chunk of repertory. Most are covers of American records, and though that may seem a drawback for a band distinguished by its songwriting, they tell us what most influenced the Beatles: namely, Motown hits, Chuck Berry, rockabilly (mostly Carl Perkins and Elvis Presley) and East Coast girl groups.
You know that from the covers the Beatles included on their early albums, of course, but the BBC recordings add depth to the playlist.

19 de janeiro de 2014

Na estante: Sting, Fora do tom

Ainda em férias, mas inevitavelmente atolado em trabalhos que estão condicionados por outra ordem de prazos, tento reservar também algum tempo para as leituras que não sejam as que tenho que fazer para escrever artigos ou preparar aulas. Inevitavelmente, elas acabam integrando um campo de possibilidades em que labuta e prazer ficam de tal modo amalgamados que é difícil saber onde um começa e o outro termina. Assim me lancei esses dias ao mar e na volta da maré me vi mergulhado na autobiografia de Sting, Fora do tom (Cosac Naify, 2006). O primeiro impacto vem da constatação de que não é simplesmente a reunião de fatos marcantes, de eventos e emoções que constituem o quebra-cabeças da vida do narrador, o que vai me prender. É a escrita venturosa, que transita entre o rebuscamento e a rudeza que refletem o vasto espectro de experiência e deslocamentos culturais de seu protagonista. Como muito estilo e escolhas que demonstram que é tão meticuloso e consciente como escritor como é como músico, Sting nos leva a examinar como discretas sombras companheiras de sua jornada cenas definidoras ou aparentemente triviais, momentos reflexivos com pretensões filosóficas e rememorações vívidas de diálogos cortantes, locais ou acontecimentos. 
Como pesquisador, sempre intriga e aguça meu interesse tudo que envolve a formação do músico popular. Descubro, sem muita surpresa, que a de Sting incluiu o contato com com instrumentos e repertórios presentes em casa, ou no convívio com parentes, progressivamente combinados com a audição do rádio, a companhia dos colegas e as primeiras incursões a casas noturnas para assistir performances ao vivo. Encontrei relatos muito parecidos em entrevistas concedidas por compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso ou Milton Nascimento. Dada a real impossibilidade de transcrever vários e vários trechos pelos quais estou definitivamente fascinado, escolhi de forma totalmente arbitrária a parte em que ele relata sua descoberta dos Beatles, em seu último ano do primário:

"Lembro-me de estar no vestiário da piscina. (...) Estávamos nos secando, e, como de costume, chicoteando os genitais uns dos outros com a toalha. Foi nesse momento que escute os primeiros compassos de "Love me do", vindos de um rádio transistor ali perto. O efeito foi imediato. Havia alguma coisa no modo como o som era intervalado que pôs um fim imediato à brincadeira estúpida. A gaita solitária de John e o baixo de Paul tocavam "duas notas por compasso" e então a harmonia vocal movia-se de quintas a terças menores e de volta outra vez à voz solo no refrão. Não que eu fosse capaz de articular essas coisas na época, mas reconheci algo significativo, até revolucionário, na esparsa economia sonora, assim - e isso é interessante - como todo mundo.
(...)
Mergulho nos álbuns dos Beatles com a mesma obsessão e escrutínio forense que aplicara aos discos de Rodgers e Hammerstein, só que agora com um violão. Tenho um instrumento capaz de reproduzir a mágica prática das estruturas dos acordes e do emaranhado de riffs em que as canções estão construídas. E que canções, uma depois da outra, disco após disco. Aprendo a tocá-las todas, confiante de que, se eu insistir, o que não for capaz de tocar imediatamente, terminará por me revelar seu segredo, no fim. Pouso a agulha do toca-discos inúmeras vezes, nos sulcos das canções que parecem estar além de minha análise, como um arrombador de cofres procurando a combinação, até que o prêmio seja meu." (pgs. 85-87)

Como uma estocada, que é uma das formas pelas quais se pode traduzir seu apelido em português, Sting nos impele por cada página de sua instigante vida fora do tom. 
Para completar a postagem, uma versão dele de A day in the life (Lennon/McCartney) e outra de In my life (Lennon/McCartney) em um duo de alaúdes. 



15 de janeiro de 2014

Homenagem ao Dia do compositor


Em homenagem ao Dia do Compositor (15 de janeiro) posto essa primorosa exaltação do ofício, concebida por Caetano Veloso para ser gravada por Chico Buarque em seu disco Sinal Fechado (1974). Acossado pela censura, Chico optou por gravar um disco com canções de outros autores, com a honrosa exceção de Acorda amor, assinada pela dupla de pseudônimos Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, criados por Chico para passar a perna na famigerada.
O vídeo é do programa de tv Chico & Caetano (1986), que naquele dia recebia as ilustres presenças de Tom Jobim e Astor Piazzolla. 
Tá pronta a festa, viva o compositor popular!


3 de janeiro de 2014

Bolacha completa - Nelson Angelo & Joyce (1972)

Como sempre a intenção é começar o ano com novidades e dar uma agitada no blog.

2a. Série As 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro
Atendendo a muitos pedidos, uma nova série com mais 30 canções essenciais do Clube da Esquina, analisadas com o estilo inconfundível de meu grande parceiro, com exclusividade no blog Massa Crítica MPB. A série deve retornar ainda em janeiro. 

Série Bolacha completa
Desde que observei o significativo aumento da disponibilização de discos completos em várias plataformas próprias da internet, com possibilidade de compartilhamento sem fins comerciais, estava com vontade de inaugurar uma série dedicada a explorar com um pouco mais de detalhe um álbum por inteiro. Para começar uma contribuição do meu parceiro Pablo Castro sobre o LP Nelson Angelo e Joyce (1972*):

Nelson Ângelo, belorizontino radicado no Rio, é um dos maiores harmonizadores do Clube da Esquina. Participou ativamente como instrumentista nos maiores clássicos de Milton , e teve várias pérolas gravadas por ele, das quais se destacam Fazenda, Canoa, Canoa, Testamento, Simples, Sacramento, Quatro Luas, e teve a canção Tiro Cruzado regravada por Tom Jobim e ainda por Sérgio Mendes. Exímio conhecedor do violão, é um investigador de inusitadas e marcantes possibilidades harmônicas inovadoras, além de incisivo melodista.
Foi casado com Joyce , com quem formou o grupo A Tribo (que contava também com Toninho Horta e Naná Vasconcelos), e depois lançou com ela o célebre álbum Nelson Ângelo e Joyce, de 1972, sua contribuição fundamental para o acervo fonográfico do Clube Da Esquina, com a participação de Toninho Horta, Novelli, Beto Guedes, Lô Borges, Wagner Tiso, o saudoso Tenório Jr, Danilo Caymmi, no auge das contribuições coletivas do grupo.
Esse disco é fundamental para se entender o Clube da Esquina, uma vez que, além das contribuições dos músicos, há letras de Márcio Borges e Ronaldo Bastos, além das do próprio Nelson, e uma de Joyce, e desvela as cores mais ripongas entre as composições do grupo. Orquestrações lindíssimas, o convívio onírico entre flautas, violões e violas, a voz cristalina de Joyce, que poderia ser considerada, em termos, como a única intérprete feminina nos discos fundamentais do Clube, com seu canto belo e sem ornamentações, perfeito para dar brilho e corpo para as surpreendentes soluções melódicas do parceiro. Meia hora de surpresas musicais que 40 anos depois não deixam de encantar. 


Fundamental !




Segue o disco completo para audição e o link [aqui] do site Disco do Brasil, que traz a ficha técnica faixa por faixa. 

*O vinil foi reeditado em 1977 pela EMI