Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

5 de dezembro de 2015

Um tiro de pistola no meio de um concerto

"A política, numa obra literária, é um tiro de pistola no meio de um concerto, algo grosseiro, mas ao qual não é possível recusar sua atenção". 
Stendhal, A cartuxa de Parma. 

Terminei de ler ontem o romance, certamente menos conhecido que O vermelho e o negro, mas igualmente exemplar desse gênero tão do século XIX. Grande ironia reside no fato de ler sobre intrigas de corte, tão passionais, por vezes infantis, e sempre interessadas, enquanto se vive num país cujo ambiente político atual parece digno dos melhores folhetins.
Esse detalhe tem o efeito de colocá-lo ao lado de outra leitura marcante que fiz no ano, Os inimigos íntimos da democracia, de Tzvetan Todorov. Existe aí uma profunda conexão, posta em funcionamento pela experiência histórica do presente,  que nos faz confrontar a natureza e a formação do Estado Moderno e dos regimes democráticos. De um lado tenho um romance cujo pano de fundo são as investidas napoleônicas sobre a Europa absolutista e as reações das aristocracias ao perigo do jacobinismo. Do outro uma análise precisa das contradições próprias daquilo que se tornaram as democracias representativas, inclusive pela maneira com que permitem que interesses de elites políticas e econômicas sejam hegemonizados e se perpetuem dentro das regras do jogo que instalam, traindo princípios basilares do próprio liberalismo clássico que orientou sua formulação.
Como não poderia deixar de ser, tais leituras e o próprio momento que vivemos, impregnam de forma inescapável os impulsos de criação que eventualmente me acometem nestes dias. Na verdade não sei onde estão exatamente as fronteiras entre o historiador e o compositor, e isso não chega a ser importante. Acabo achando que essa mistura produz algum resultado.  Gosto muito de pensar sobre o engajamento político no âmbito da canção. Ontem mesmo vi uma paródia de Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque) empregada pelos estudantes paulistas que bravamente desafiam os desmandos do atual governador de seu estado, que demonstra a força dessa alquimia (vou ter que jurar que não me ocorreu a ironia de empregar essa palavra...).
Já faz alguns dias [precisamente, em 04 de outubro] - antes, portanto, dos desdobramentos advindos do gesto torpe de Eduardo Cunha, atual presidente da Câmara dos Deputados, de acatar o pedido para abertura de processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, comecei a letra de uma canção que pretende versar de alguma forma sobre o turbilhão em que nos encontramos. Chamei-a de Inimigo íntimo. Agora o meu parceiro Pablo Castro começou a fazer a música e assim vou deixar para dar mais detalhes quando estiver definitivamente pronta. O que posso adiantar é que de alguma forma me atrai a ideia de escrever letras com fundo político mas que não sejam tão literais, tão conjunturais, a ponto de deixar a canção datada ou dificultar sua apropriação em outros contextos. Mas, finalmente, o que se pode fazer em relação a isso é muito pouco, pois é decisivo o papel dos ouvintes naquilo que se pode chamar de contexto social de audição, como bem demonstra a imagem acima. A literatura, a história, a vida, inspiram, não apenas quem escreve as canções, mas também quem as ouve.

4 de dezembro de 2015

Entre o Divino e o Paraíso

Ontem, uma noite memorável para comemorar a conclusão de um semestre muito atípico, mas com as suas recompensas. Depois de um dia longo de trabalho e um nó górdio no "sistema" que dei e obviamente não posso desfazer por minha conta, fui ao Palácio das Artes/Sala Juvenal Dias para assistir a ousada performance - que teve sopro, terra, televisão, vídeos mucho locos, mas, sobretudo, fortes canções, lindas interpretações e extrema musicalidade - de uma dupla Kristoff Silva​ + Thiakov Davidovich​  que não seria suficiente chamar de dinâmica. Se Quentin Tarantino receber minhas ondas telepáticas e fizer um futuro longa no Brasil, eles estarão na trilha e no elenco. Não poderemos viver mais sem o Dois na quinta. Parabéns tb ao BDMG, que banca. Quando um banco faz algo de bom nesse mundo, é pra elogiar.

Pensam que acabou? Não, tava só começando...
Dirigi-me em seguida para Santa Tereza, capital mundial do Clube da Esquina, para assistir ao meu parceiro e grande amigo Pablo Castro desfiar, por algumas horas em que o tempo ficou suspenso, seu repertório impecável de canções do Clube, umas 35, segundo contas, entre antenas como Travessia ou Amor de Índio a lados B ou além, como Como o machado, a que ouvi cantando de olhos fechados, literalmente tomando por sua beleza estranha e única. Foi no QG/bar do museu do Clube da Esquina, para o deleite de um público completamente devotado a essa obra grandiosa, e também para o de nosso admirado Márcio Borges, cuja empolgação é uma tradução cabal da perenidade e vitalidade do que o Clube representa para as gerações seguintes. No intervalo fomos ali esticar as pernas e trocar uma ideia, uns reles metros acima de uma certa esquina. Acho que dá pra imaginar, é literalmente ficar entre o Divino e o Paraíso. 


No segundo tempo, teve também a ótima participação do Fred Borges, dividindo as vozes com o Pablo em mais uma leva de pérolas do Clube.

Mas tem um bônus que eu não posso deixar de mencionar, a grata surpresa de ver este blog, citado pelo Pablo na matéria sobre o show feita pelo Estado de Minas, no contexto da Semana do Clube da Esquina:

"Pablo Castro está tão ligado aos artistas mineiros, que escreveu a apresentação dos songbooks de Lô Borges e Beto Guedes, em 2013. Em parceria com o professor da UFMG Luiz Henrique Garcia, realizou a série As 30 mais geniais do Clube da Esquina, um conjunto de textos no qual comenta composição, harmonia, letra e referências de cada uma das canções. A série está disponível no blog www.massacriticampb.blogspot.com.br e já virou até referência bibliográfica." [matéria completa, aqui]

É mole ou quer mais?
 

1 de dezembro de 2015

Grandes encontros da música popular brasileira: Jards Macalé e Alceu Valença no aeroporto

Macalé e Alceu, reunidos pelo acaso, ou pela desorganização aeroviária, ou enfim por ambos. Enquanto alguns aproveitam o sopro da música, outros preferem o pálido brilho das telas de LCD.


8 de novembro de 2015

O ouro da mina virou veneno

Tô meio apertado de serviço para produzir qualquer coisa mais substanciosa que faça conexão entre os estudos de desastre em geral e o recente acontecido em Mariana. O que posso dizer é que nessas horas se revela a importância da História. É ela que permite, por exemplo, estabelecer os nexos profundos entre esse tipo de desastre, o modelo de civilização que adotamos, e as forças que se mobilizam na arena política e no campo da cultura para produzir a justificativa e perpetuação de um estado de coisas. Pelas leituras, e também pela pesquisa em jornais que fizemos, quem se interessar poderá constatar que os recursos retóricos não variam muito, sempre recorrendo ao conceito de "fatalidade" e afins como forma de isentar os responsáveis [ver a fala do secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Altamir Rôso], e que escusos interesses comerciais invariavelmente estão presentes e são em boa parte os responsáveis por essas catástrofes, que nada tem de natural.

A Estratégia Internacional de Redução de Desastre (ISDR) da ONU define desastre ou catástrofe como “grave perturbação do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade envolvendo perdas humanas, materiais, econômicas ou ambientais de grande extensão, cujos impactos excedem a capacidade da comunidade ou da sociedade afetada de arcar com seus próprios recursos” (UNISDR, 2009). O risco, portanto, não se caracteriza tão somente a partir das condições naturais, mas da combinação de fatores espaço-temporais que levam em conta os limites de adaptação ou resiliência aos eventos em questão. Daí a importância de utilizar o conceito de vulnerabilidade social, que nos permite articular a percepção dos indicadores de risco ambiental à das desigualdades que caracterizam a ocupação dos territórios, de modo a identificar populações que estão sob condições mais desfavoráveis e repensar políticas públicas que sejam efetivas para combater tal vulnerabilidade. Quem quiser se aprofundar nessas discussões pode recorrer à página do projeto que coordenei enquanto fui professor da Univale, em Governador Valadares [aqui].

Mais uma coisa a se aprender (será que é possível???) - e aqui fica o lamento porque tantas vezes nesse mundo nosso as preocupações e reflexões só deslancham depois que o caldo entorna - é o valor dos profissionais de campos de conhecimento, dos que entendem do riscado e fazem alertas sobre situações como essa por anos e anos [ver o relatório de 2013]. Dos pesquisadores, dos funcionários de órgãos públicos, anônimos, quase afônicos, que redigem relatórios catataus que ninguém lê. Ou que são silenciados pq o que têm a dizer contraria interesses poderosos, vai contra a força da grana. Existe uma falinha nefasta que circula pelas mesas das recepções bacanas, pelas festas invocadas, pela night dos bem nascidos, pregando a privatização de tudo, denegrindo o servidor público em geral, e outras asneiras afins. Mas não é assim que devem ser visto, e sim como servidores, aliados de todos nós sociedade civil, de nós, cidadãos, gente comum que não tem acesso, que não banca campanha de deputado, que não sonega quantias vultuosas nem mantém conta na Suíça. De nós, meros. Essa mesma gente da falinha jamais ergue a voz pra questionar algo que um empresário faz. No máximo sussurra ao pé do ouvido. Pode ser perigoso, seus filhos podem ouvir e começar a achar que ser empresário e ser "do bem" não é a mesma coisa. Enquanto a sociedade não revê seus valores, vamos nessa, um dia todas as torneiras irão jorrar lama. Tóxica.


Mas outras falas se acumulam e se postam contra uma outra morte, a morte do esquecimento, do engano, da omissão, a morte das brechas da lei, dos homens que sabem andar por elas. Somos pela vida e contra todas essas 2as mortes que desde já querem impingir aos mineiros assassinados pela ganância e pela inépcia, pela lama da indústria do minério. E nesse sentido eu recorro à belíssima - e tristíssima - canção Simples, de Nelson Angelo, gravada primeiramente por Milton Nascimento no LP Minas, em 1975. A densidade do arranjo, também obra de seu compositor, expressa perfeitamente a atmosfera pesada que a letra enuncia, ironicamente talvez não tendo muito de simples. O final, arrebatador, é lançado pela poderosa imagem da criança. Se até aqui o eu-lírico nos conduz, de repente como um Virgílio a nós como Dantes a encarar a conversão da terra em inferno, e até então cumpria-nos simplesmente olhar, a criança, interposta - "ali sentada" - diante de nossos olhos, como que antes do cenário de desolação, nos olha de volta. É a expressão do colapso do futuro, de sua eminente não realização. Mas enquanto a voz dilacerante de Milton se perde na micro-eternidade do estéreo, o acorde final é como uma revoada de sons e pássaros, uma promessa de regeneração. Promessa que, ainda que ameaçada, resiste, daí sua volta como expressão de início/nascimento nos primeiros compassos de Geraes (1976), que abre justamente com Fazenda, a canção gêmea desta também escrita pelo Nelson Angelo. Acabei achando uma versão ao vivo executada em 1990, que não conhecia. Encontrei também, por tabela, uma apresentação ao vivo de 1983 em que Bituca executa A chamada, seu impressionante canto de sereia composto inicialmente para a trilha de Os deuses e os mortos de Ruy Guerra. O arranjo de "Simples" nessa performance de 1990, que infelizmente pelo vídeo não consegui determinar o autor, parece ter tirado ideias dela.

Simples (N.Angelo)

Olha a volta do rio virou a vida
A água da fonte nossa tristeza
O sol no horizonte uma ferida


Olha o ouro da mina virou veneno
O sangue na terra virou brinquedo
E aquela criança ali sentada




2 de novembro de 2015

Grandes encontros da música popular - Elis Regina e Chico Anísio

Dois talentos inquestionáveis reunidos nesse vídeo: Elis Regina e Chico Anysio cantam Canto do Ossanha (Baden/Vinícius) no "Elis Especial" - TV Globo, em 1971. 



Para quem tiver a curiosidade, Chico Anysio, através de seu incomparável talento para criar personagens, acabou enveredando por um curto período pela indústria fonográfica, no qual o trabalho mais conhecido deve ser a paródia Baiano e os Novos Caetanos, ladeado por Arnaud Rodrigues e Renato Piau. Segue a discografia desse grande gênio brasileiro:


  • (1979) "Coalhada" o craque que faltou na seleção • Som livre • LP
  • (1976) Roberval Taylor • Som livre • LP
  • (1975) Azambuja e Cia • CID • LP
  • (1974) Baiano e os Novos Caetanos • CID • LP
  • (1960) Não sou de nada/Eu sou durão • Todamérica • 78