Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Por Pablo Castro Ouvindo aqui dois discos de Rafas diferentes, ambos pertencentes ao nosso idílico Eldorado Subterrâneo da música autoral mineira.
O mais experiente, cerebral, desconcertante Rafael Macedo, nos instiga e rompe todas as expectativas mais ou menos comuns do que se espera ouvir num disco. Rafa, dessa vez longe do piano, seu instrumento mais comum nos últimos dez anos, continua fazendo superposições de acordes, sempre na contramão de qualquer tipo de padrão melódico e harmônico mais comum em canções, preferindo tirar o ouvinte do conforto com formas, letras, arranjos , escalas e acordes que apontam mais na direção de um certo atonalismo que é assaz representativo de nossa época meio niilista, bizarra, sem sentido. O curioso é que esse disco de Rafa representa, em alguma medida, um retorno a algumas de suas canções mais antigas , que ele havia preterido no seu primeiro disco. "Hoje Eu Acordei Estranho" eu lembro dele tocando numa roça há uns 15 anos. Nessa época, sua mão direita ao violão ponteava umas levadas muito originais. Agora ele volta ao violão, e junto com seu duo de ferro, parceiro de muitos anos de estrada, Bernardo Caldeira e Rafael Lima Pimenta ele retoma aquela doideira calcada em Hermeto e Kurt Cobain, esse é o nosso grande Rafa Macedo.
Já o Raphael Sales , em seu disco de estréia, faz com muita inspiração uma música modal, quase "étnica", mas muito inteligente, melodias muito apuradas, uma canção muito pertinente, que ao trazer calor no coração não doura a pílula desse mundo injusto em que vivemos. Algumas canções são baseadas nos elementos astrológicos : água, vento, fogo e terra. A produção de Rafael Dutra ( outro Rafa ) faz jus ao caráter telúrico do cantor e compositor. De destaque também o timbre muito bonito do artista, e sua capacidade rítmica altamente elaborada e engenhosa ao violão. Rapha Sales já chega completo : faz letra e música muito bem, canta bonito, e está buscando o original, o autêntico, o verdadeiro.
É ouvindo discos assim de nossos pares que nos convencemos que o financiamento à Cultura tinha que parar de focar em EVENTOS e passar a focar em OBRAS. Esses discos tinham que tocar o tempo inteiro na Incondifdência e ser celebrados.
Meu parceiro Pablo Castro, assíduo escrevinhador dessa página, depois de longo hiato volta com a série "Eldorado", agora trazendo também análises de bolachas completas, remetendo assim a outra seção consagrada aqui do blog.
Vou aproveitar a última semana do ano e fazer algo que tinha me prometido: escutar atentamente os discos lançados em 2017, e falar um pouco sobre alguns deles.
Começando pelo magnífico disco de estréia da compositora, pianista e cantora Pamelli Marafon , chamado Ponteiros. Uma obra inusitada que apresenta uma criadora inquieta, possuidora do ofício de musicista com notável domínio do piano, dos arranjos , das harmonias intrincadas e inventivas, e de melodias às vezes simples, às vezes cromáticas, mas sempre cuidadosas. Percebe-se em Pamelli a filiação àquele inominado gênero de cancionistas, que , embora munidos até os dentes de idéias puramente musicais, conseguem achar o fio condutor da letra como norte tanto para a melodia quanto para a harmonia.
Pamelli tem uma assinatura tanto como letrista quanto como compositora, e a relação dos dois vetores é muito consistente, com a invenção formal como tônica das 10 faixas, 9 canções e um choro instrumental altamente intrincado que prova a veia de arquiteta musical da paulistana que vive em Minas.
"Viver é se perder no emaranhado de você no sincopado de um desejo arbitrário" , como diz a performática " Eu Tenho Problemas com Regras" , alternando um roquinho 6/8 com um baião que, na aceleração da melodia, faz com que a conclusão de uma reflexão que tende ao lirismo se resolva numa condensação de sentido que figura, de algum modo , como resposta às indagações de inadequação do seu eu lírico.
Tango da Lua seja talvez a canção mais redonda, mais "convencional", com melodia envolvente, e sessões mais ortodoxas de A, B, introdução, coda, etc. " Onda de azar mais sete vida / por seis vidas procurei você / nem na sete encontrei
dou risada na oitava sendo a mais feliz escrava do meu reino coração" diz a letra que projeta um sonho lúdico um sentimento romântico, tão raro hoje entre cantautoras : "num atalho do caminho lá pra irará / tinha o bosque solidão e você o anjo amigo que roubou minha alma e coração meu canto meu sonhar
fez da vida um samba bom e me deu anel de vidro pra sonhar" .
Aliás, a escrita de Pamelli não poupa a expressão "minha alma", ícone do lirismo que parece ter sido varrido para debaixo do tapete de nosso espírito do tempo. Assim ela fala de Minas Gerais, onde, "não sei por que é tão bonito / sobe desce o morro esse chão deu tanto ouro / sobe desce a vida na ladeira da rotina trabalhar" , e muito sinceramente declara que "canção é o que liberta a minha alma / todo dia é dia de labuta e poesia
faz rima de dor com alegria pra poder continuar".
A canção Água, que fecha o álbum, me lembra do conceito de "Think About Your Troubles", de Harry Nilsson, que fala do ciclo alimentar; Pamelli fecha o ciclo da água sem poupar seus usos mais sujos, se distanciando de qualquer possível idealização purista da mãe água. O refrão, que podia ser cantado mais vezes, reza : " água lava a sujeira do lugar / mas quem que vai lavar água do mar? " .
A sonoridade do disco tende à canção de câmara, tão profícua no que chamo de Eldorado Subterrâneo da Canção Mineira, especialmente no trabalho de nomes como Rafael Martini, Rafael Macedo, Alexandre Andrés, com a preferência pelas madeiras, flautas, clarinetes, também acordeons, sempre com o piano de Pamelli para dar o fio, e com as cordas preciosas do parceiro e arranjador Tabajara Belo, que arrebenta nos violões, guitarras e bandolins e arranjos. A bateria e a percussão são escassas no disco, privilegiando os sutis mosaicos das alturas.
Acho lindo mesmo que uma cantora e compositora arrojada como Pamelli exista assim, meio que silenciosamente no Brasil, fazendo um disco como esse meio que sem ser notado. Porque o que ela revela é uma grande inventividade justamente no âmago do que tem sido sistematicamente boicotado na cultura musical do Brasil: autenticidade e sinceridade nas letras, criatividade na música, fruto de um mergulho profundo nesse limbo que é fazer canção com esse grau de artesania, em português. O piano dela fala muito , e não a deixa mentir !
A terceira* da minha leva de 30 canções sobre o Eldorado Subterrâneo da Outra Cidade é o clássico instantâneo Em Pé no Porto, de Kristoff Silva e Makely Ka . Clássico porque tem aquela fina arquitetura perfeita, irrepetível , de uma letra inspirada com uma música inspirada, em que uma parece tão imbricada na outra que não se sabe quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. (Aliás, se os dois parceiros se dispuserem, seria legal saber quem veio antes, a letra ou a música) .
Se Minas fosse um país separado, Em Pé No Porto já estarei no cânone das nossas maiores canções nacionais. Algo para figurar no panteão das grandes obras. Ao mesmo tempo irônica e lírica, leve e profunda, discreta e vigorosa, Em Pé No Porto foi feita para a Ná Ozzetti cantar, mas quem acabou cantando foi o próprio Kristoff. Ná participou do disco homônimo [aqui, mais faixas do disco], mas cantando outra canção.
Essa linha tênue entre o humor e o lirismo é o fio condutor da canção, cujo desenvolvimento se dá numa primeira sessão de 6 compassos, dois além do 4 para caber a retificação : "muito romântico , muito específico" , o que dá a singularidade arquitetônica da forma dos versos da canção. Depois a música se entrega às quadraturas mais clássicas.
Na primeira parte, "você veio num navio transatlântico", Kris usa tríades maiores, com o Fá de empréstimo maior em tom de Lá Maior. ( A / F / D / D F / D / % ) Depois faz a variante do gambito clássico do A | A7M | A7 ( Something é um exemplo) , invertendo a ordem dos últimos dois acordes, A | A7 | A7M , o que , é claro, muda o efeito , deixando o último acorde com uma ideia de suspensão mais do que de tensão clara. O movimento pendular D7M / F#m6 / , que espelha a pequena titubeação do primeiro verso, dá lugar a uma inclinação , passando pelo empréstimo G7M, ao segundo grau do campo harmônico, de Lá Maior, tonalidade da canção, que é Si Menor. No ritornello, Kris define por se despedir em Fá Sustenido Menor, relativo do tom. Clássico e lindo .
De saída, é uma letra que se coloca da perspectiva feminina, da mulher apaixonada que rumina a falta de um marinheiro que veio do Pacífico e não volta mais. O leve toque de humor vem das rimas em proparoxítonas . É de se notar a artesania fina das aliterações : "você veio num navio" , "ávido de aventuras " " náufraga dos afagos " " partiu numa manhã sem sol , eu fiquei soluçando ali sozinha".Mais do que isso, o ponto de vista da narradora dá, curiosamente, um toque feminino no tal marinheiro, "grávido de segredos" . É como se a mulher compreendesse e antevisse no homem um mistério insondável, no limite feminino, de onde ela busca alento pelo sumiço definitivo de seu amor. Em Pé no Porto foi regravada de imediato por Elisa Paraiso, que já reconheceu nela essa estatura superior de "standard". Depois voltou a ser tocada e regravada, e merece ainda mais.
Você veio num navio transatlântico,muito romântico,
e me olhou com os olhos do fundo do mar...
Eu náufraga dos afagos,
ébria dos abraços,
senti o gosto do seu sal.
Você falava de umas ilhas no pacífico, muito específico,
e dos tesouros que haveria por lá...
Tão grávido de segredos, ávido de aventuras,
partiu numa manhã sem sol.
Eu fiquei soluçando ali sozinha,
meu olhar além da linha do horizonte,
sempre o cais.
Envelheci vendo a maré em pé no porto,
veio um dia após o outro e você nunca,
nunca mais."
*N.E.: Considerando que a análise da canção "O princípio da incerteza", da mesma dupla, foi publicada aqui como parte da série mas a antecedeu. Seria, por dizer assim, seu marco zero.
Sergio Santos (site oficial, aqui) é um craque total: compõe muito, em qualidade e quantidade, canta demais, toca violão de verdade, harmoniza como poucos e ritmiza bem para além da média. Herdeiro da vertente mais dourada da grande MPB, no veio de Edu Lobo, Francis Hime, Dori Caymmi, Sergio é o artista mineiro mais consistente e reconhecido de Minas depois do Clube da Esquina : com 8 discos de altíssimo nível gravados, é tido como um dos principais expoentes da música brasileira criativa, alimentado e alimentando sua incrível parceria com a lenda Paulo César Pinheiro: é simplesmente o maior parceiro do letrista mais fecundo da história de nossa música.
Aqui em Lá Vem Chuva vemos um raro ijexá-blues de Sergio, em território já antes explorado por Edu Lobo em coisas como A Bela e A Fera. Transformar um acorde que normalmente funciona como dominante em tônica é a grande sacada do blues e do rock. Sergio utiliza essa tensão do acorde principal como motivo para a apreensão da iminência do toró , mas a narrativa harmônica passa por paragens bem insuspeitas para uma mirada bluseira:
Sérgio promove uma expansão do léxico tensionado das harmonizações roqueiras assim como quem dá uma voltinha na praça. Presente em seu disco Litoral e Interior (2010 - ouça aqui)*, com virtuoses como André Mehmari, Teco Cardoso e o produtor Rodolfo Stroeter, a música de Sergio brilha reluzente ainda que sob o risco da tempestade.
Quisera o rock e o blues propriamente ditos se enriquecessem dos caminhos harmônicos do Sergio Santos; seria um renascimento desses gêneros hoje atados a um tradicionalismo paralisante. Por outro lado, isso é apenas uma canção de Sergio, de uma obra por onde é difícil saber pincelar apenas uma faixa. Nessa leva de 30 que pretendo comentar, uma apenas seria uma injustiça para com a qualidade deste mestre.
Quisera BH ouvisse mais um dos mais importantes mineiros quando se trata de música popular.
Lá Vem Chuva ( Sergio Santos / Paulo Cesar Pinheiro )
Andorinha voou
vendo do topo que vem toró
Alvoroço de sassaúva é que lá vem chuva
aguaceiro só
Prosa tá muito boa
Mas a garoa já molha o pó
Eu vou ter que ir embora
Já tá na hora
Eu vou lá pro cafundó
Marimbondo assanhou
Se arrepiou galo carijó
Deve ter boda de viúva, que lá vem chuva
E ainda brilha o sol
Eu tenho é chão de terra
E o céu da serra já deu um nó
Deixa a prosa no meio
tempo tá feio
Eu vou lá pro cafundó
Picando a mula eu já tô
Chuveirou, mano me pegue o chapéu e o paletó
Vai ter pé d'água a valer
Vou correr
Que eu vou lá pro cafundó
* PS : Compartilho aqui também a excelente resenha sobre o show do álbum Litoral e Interior, por Tulio Ceci Villaça [n.e. : no blog Sobre a Canção, que sempre recomendamos por aqui]
P.S. do editor: apenas para chamar a atenção para a habilidade de Paulo César Pinheiro em capturar nos versos, nas imagens, nos ditos, no vocabulário, o universo cultural do Brasil profundo que teima em durar apesar de tantas intempéries.
Rafael Macedo trabalha com poli-harmonia quase sempre além da racionalização de cifragem. Usando as tremendas possibilidades do piano, ele amiúde soma duas tríades, uma em cada mão, o que resulta num acorde ao quadrado. Ou em dois arpeggios conjugados, como é o caso da impressionante canção Íntima, presente em seu primeiro disco. O máximo que eu posso auferir da escuta é que a música tem um sabor de Mi Frígio, um dos modos gregos mais exóticos, mas não é exatamente isso, não é exatamente música modal.
Mas o que é mais distintivo do compositor mineiro é que ele consegue articular uma visão extremamente pessoal em suas letras com procedimentos que estão talvez estão mais próximos da música de concerto do que da música popular. Com uma receita de influências tão insuspeita quanto Hermeto , Nirvana e Bartok, com ritmos brasileiros , como essa toada que se constrói e se desconstrói , a partir de aceleradas e freadas no andamento, sente-se o quão profundamente dele é a perspectiva das letras. Em Íntima, o narrador parece ter um colapso emocional em meio a outras pessoas que estão "dizendo tudo pelo bem" , só que nem todo mundo sabe do seu mundo. Nessa frase específica é perturbador como a melodia descamba numa escala de tons inteiros, num abismo colossal de (perda de) sentido. " Eu quero ganhar seja como for " talvez seja o epíteto máximo não da sua personalidade ariana, mas da sociabilidade capitalista individualista que se impõe a todos, ainda que sob a égide de um Deus que " disse não".
Mais expressivo ainda é o precipício vertiginoso da certeza de estarmos totalmente sozinhos ainda que perto dos outros, ou de uma pessoa específica : "sem você , eu , sem você eu" . A maneira diminuta, resignada como ele diz "eu" no refrão depois de afirmar que "eu quero ganhar seja como for" no início da letra é profundamente desconcertante.
Sempre fui apaixonado por essa música, uma das melhores de Macedo, e na minha opinião ele tange uma angústia no nível das coisas de Bjork mas com procedimentos mais interessantes do ponto de vista propriamente musical : enquanto a cantora islandesa se vale de sua voz meio etérea e alienígena, e de imensos recursos de produção por meio de samplers, corais gigantescos e programações eletrônicas altamente complexas, Macedo faz isso com um piano, uma sanfona e uma bateria, depois um clarone , uma clarineta , baixo e percussão mínima, um triângulo. E, claro, sua voz personalíssima, como de resto é tudo nessa imensa canção. Obra prima.
Escutem até o fim, várias vezes ! Aqui vai a letra e um video da querida Afa Lávia Mafra .
Por Pablo Castro
Íntima ( Rafael Macedo)
Eu quero ganhar , seja como for
Meu Deus disse não
E eu chorei, perdi a voz
me senti sozinho com vocês
Dizendo o tempo todo tudo pelo bem
Pois bem, nem todo mundo sabe do meu mundo
Com você , eu
Com você eu
Com você , eu
Com você eu
Se tudo apagar, deixa escurecer
Quando então virá
Uma luz pra te dizer
Coisas que eu não sei
Pois só você
Responde o tempo tudo pelo mundo
Mas cada segundo meu pode ser tudo
Por você , eu
por você eu
Por você , eu
Por você eu
Sem você , eu
Sem você, eu ,
Sem você eu, sem você eu ...
Ficha técnica : Piano e voz : Rafael Macedo Baixo acústico : Pedro Trigo Bateria e percussão : Bernardo Caldeira Clarinete : Juliana Perdigão Acordeon : Rafael Martini Percussão : Yuri Vellasco Clarone : Flávio Ferreira Flautas : Daniel Pantoja
Há bastante tempo meu parceiro Pablo Castro aventava a ideia de criar uma série de análises - agudas e holísticas, mas não herméticas ou pesadas - de canções de lavra recente, especialmente aquelas compostas por cantautores nossos contemporâne@s da cena mineira que por 'n' razões - que poderão até vir a ser debatidas por aqui - permanecem ainda alheias dos ouvidos de uma parte substancial do público, certamente sem merecer tal destino. Convencionou denominar esse enorme estoque da produção criativa apartada das ondas mais pujantes dos meios massivos de "eldorado subterrâneo da canção". Considerando tal iniciativa mais que urgente e necessária, além de reconhecer nela a correspondência direta com minhas preocupações com o entendimento da música popular como patrimônio cultural, já estava o blog de antenas atentas para a primeira extração de textos trouxesse os tesouros do subsolo às orelhas e olhos de seus leitores. Ei-la:
Luiz H. Garcia (editor)
--\\//--
Comentei hoje com um amigo uma tese que tenho : pra mim , a grande riqueza harmônica que a música brasileira carrega tem muito a ver com o violão, que é um instrumento barato e portátil, que permite ao músico dedicado e criativo um mundo de combinações de acordes que basta perspicácia e vontade pra explorar.
Não é necessário um grande investimento financeiro para que se busquem nova soluções harmônicas. E elas se expandem para várias direções, não apenas no sentido da complexificação dos acordes e da abundância de dissonâncias.
São minúcias misteriosas que conferem à narrativa afetiva da música novas experiências de fruição. Portanto, eu continuo valorizando esse aspecto da música, sobretudo da música popular. É claro que a música não se resume a harmonia, e muitas e muitas pérolas foram compostas sobre as bases mais simples do tonalismo e do modalismo.
Mas frequentemente vejo novos artistas negligenciando esse aspecto, das possibilidades criativas da harmonia. E pra enriquecer a sua harmonia há tantas possibilidades que me parece, mais do que tudo, preguiça de sequer tentar.
Pablo Castro entre os parceiros Kristoff Silva e Makely Ka
Vejo isso também como um subproduto do eterno processo de imposição estrangeira imperialista sobre a música popular. Porque, com a exceção do jazz, e em boa medida do rock sessentista e setentista, a inovação harmonia foi suprimida dos ouvidos das massas.
Digo isso apenas como um preâmbulo para a audição da grande canção O Princípio da Incerteza, dos meus parceiros Kristoff Silva e Makely Ka .
É sabido que Kris quase nunca faz a música antes da letra, prefere quase sempre musicar uma letra pronta. E é notável como ele colore os sentimentos da letra com passagens harmônicas nebulosas, intangíveis, para dar incisividade ao discurso do parceiro.
Essa é apenas uma das formas geniais de preparar Neston.
Pablo Castro
O Princípio da Incerteza ( Kristoff Silva e Makely Ka)
nossa única certeza é a morte
um princípio e razão fundamental
sua fria beleza é uma arte
nosso elo final com a perfeição
sutileza cirúrgica de um corte
a navalha de Ockan na razão
todo o resto é incerto e duvidoso
um deserto sem sol na escuridão
uma voz de dentro de um fosso
numa língua que não tem tradução
quando tudo jazer inerte
como a lâmina dura do metal
quando o sangue
estancar sua corrente
e então soçobrar respiração
viver cada segundo eternamente
sem sofrer por antecipação
não vai haver qualquer despesa
nem sequer um funeral
um átimo de delicadeza
o peso a entrar em suspensão
21 gramas de leveza
nossos pés já não mais
ao rés do chão e se a vida for como uma brisa
um sopro reverso e terminal
o pescoço não sustentar cabeça
o esforço não encontrar ação
esse é o princípio da incerteza
essa é a nossa condição