Espaço que visa divulgar e disponibilizar trabalhos de criação e crítica referentes à MPB e música popular, não apenas para promover o intercâmbio de gostos e opiniões, mas fundamentalmente catapultar o debate sobre o tema.
Cerejas
Silêncio
A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...] Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida." Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
Um dos grandes momentos das atividades culturais que realizei durante o último Congresso da IASPM-AL em Havana foi sem dúvida uma perambulação pela Calle 23, bem pertinho de onde estava hospedado. Ponto de grande agito cultural e movimentação, casas com música ao vivo e cinemas, como o Cine La Rampa, um cinemão, rampa acarpetada, balcão, cadeiras com encosto de madeira, lembrando muito por dentro o Cine Brasil da BH da minha infância.
Lembrei disso tudo ouvindo a composição Cinema Rio Branco do excelentíssimo Sergio Santos , inspirada num cinema de Varginha. Aliás, vale ouvir de cabo a rabo seu disco Litoral e Interior (Biscoito Fino, 2010) mais um primor da lavra dessa figura central da música popular mineira e brasileira.
Lembrei, logo na sequência, da belíssima Cine Baronesa, mais uma pérola do grande Guinga, desta feita em parceria com Aldir Blanc, gravada com a participação do quarteto Maogani e da cantora Fátima Guedes no disco homônimo de 2001 (saiu pela gravadora Caravelas - aqui uma resenha do disco).
Mesmo quando os lugares se vão, a música pode perpetuá-los pelo modo como expressa seus significados lembrados através do som e pela forma como os ouvintes podem reconhecê-los. Uma pena que quase não há cinemas assim mais, mas ao menos resta a possibilidade da rememoração, se for em música então, ainda mais comovente.
Há uma lista interminável de canções que fazem referência a cinemas, esses templos modernos do deslumbramento com a imagem e som em movimento. Como é uma postagem de férias, deixo aos leitores que porventura se animarem a tarefa de encompridá-la.
Enquanto preparo o texto a ser apresentado no no XII Congresso da Associação Internacional para o Estudo da Música Popular (IASPM) Seção Latinoamericana, a ser realizado entre os dias 7 e 11 de março de 2016, na Casa de las Américas em Havana, Cuba, vou encontrando material de arquivo que se encontra fartamente distribuído pela internet, ainda que não nas melhores condições de áudio e vídeo.
O trabalho, em co-autoria com o músico e mestre pelo PPG em Música da UFMG, Marcos Sarieddine, e o granduando em História pela UFMG Húdson Públio, bolsista IC CNPq do projeto "Patrimônio Urbano e Música Popular", intitulado“Mesmo assim não custa inventar uma nova canção”: o Clube da Esquina e a Redemocratização no Brasil (1978-1985), versa sobre a participação de músicos populares na construção de caminhos em direção à redemocratização do país, num vasto leque que vai da criação cancional, dedicada a reavaliar a experiência social dos duros “anos de chumbo” e advogar a retomada das liberdades e direitos, à sua participação na re-ocupação do espaço público, pela realização de concertos integrados a campanhas fulcrais (Anistia, Diretas Já), pela articulação a movimentos sociais e atores coletivos da sociedade civil engajados no restabelecimento da democracia, evidenciada tanto em sua atuação como músicos como quanto figuras públicas.
É particularmente notável a participação, no período compreendido entre 1978-1985, dos músicos associados à formação cultural denominada Clube da Esquina (GARCIA, 2000), encabeçados pela figura emblemática de Milton Nascimento, nas atividades públicas e na produção musical que associamos aqui ao período de redemocratização. Canções tão diversas como Credo (1978), Sol de Primavera (1979), Todo Prazer (1981), Coração de Estudante (1983-1984), ou projetos grandiosos como a Missa dos Quilombos (1982), demonstram o profundo envolvimento desses músicos com os dilemas culturais e políticos de seu tempo, bem como a capacidade da música popular entranhar-se na experiência social, constituindo-se como lócus privilegiado de expressão de estruturas de sentimento, posições sociais e projetos políticos compartilhados.
É nesta perspectiva que propomos um estudo que capte, aliando a investigação histórica que insere as obras em seu contexto de produção e reúna para análise registros documentais diversos (entrevistas, resenhas críticas e fonogramas, principalmente) aos estudos de música popular atentos às escolhas e invenções estéticas que os criadores protagonizam sem estar descolados de seu contexto social e histórico. Além da participação emblemática em concertos, da atuação pública com forte vinculação aos movimentos sociais, pretendemos identificar em suas criações da época o balanço histórico do que se passara e a propensão por ensejar, numa reivindicação de caráter utópico na conotação plenamente política do termo, a expectativa e o desejo pela novidade embutida na abertura paulatina do regime e na perspectiva de viver um tempo regido por outra ordem, democrática. Retomar essa obra invoca o sentido pleno do pensar com a História, uma vez que nos confronta com os significados e perspectivas sonhados e vividos na construção da democracia.
Aí me deparo com alguns trechos de um programa especial de TV realizado pela Globo em 1982. Mesmo com os problemas de qualidade da imagem e do som, conseguimos experimentar a intensidade e a beleza da obra de Milton Nascimento e seus parceiros. No primeiro trecho, que parece ter sido muito editado, resta de mais consistente a parte final, em que Milton canta acompanhando-se ao violão Minas (Novelli) em frente a uma igreja barroca em Congonhas, e enquanto essa belíssima, melíflua ode às terras mineiras caminha para fade out, ele recita o texto Oração, de Fernando Brant, originalmente elaborado para o espetáculo O último trem, do grupo Ponto de partida. Mais uma vez Brant dialoga com a tradição religiosa católica tão presente na história do estado, novamente apropriando-se da oração Pai Nosso como já fizera em Feira Moderna. Não há sátira mas há um gesto transgressivo, ainda que não destitua completamente. Deus existe, mas não está aqui. Nesse tom que em outros tantos momentos da parceria M.Nascimento e F. Brant podemos encontrar, não há descarte da transcendência e do divino, mas há denúncia e recurso ao cotidiano, ao carnal, ao humano.
Pai nosso que não estas aqui Sacrificado é o vosso povo Humilhados e ofendidos são os nossos homens Deserdados e famintos são os nossos filhos Feridos e estéreis são os nossos ventres Aqui, na terra. O pão nosso de cada dia A alegria nossa de cada dia O amor nosso de cada dia O trabalho nosso de cada dia: Venham a nós, voltem a nós De trem, de carro ou navio. Não nos deixei cair em lamentações Mas livrai-nos desse vazio.
O outro trecho que destaco traz Milton (voz) e Wagner Tiso (piano) levando Tarde, parceria do primeiro com Márcio Borges (composta em torno de 50 minutos, com a impressionante média de 1 acorde por minuto, num programa de televisão, a partir do mote “Não peço mais perdão” sorteado de um envelope), e foi gravada originalmente no LP Milton Nascimento de 1969 (aquele da igrejinha). Uma canção muito solene, para não falar tristíssima, que já mereceu interpretações marcantes de ases como Joe Pass ou Wayne Shorter. O recurso de emparelhar a desilusão amorosa e a dureza dos anos de atmosfera plúmbea, encontra nesse outra curva da História uma significação nova. Pois o desejo de sair das sombras, expresso em 1969, ganha em 1982 contornos bem diversos, alinhavados na exploração da câmera que registra Milton e Wagner na paisagem de Brasília. Milton declama um texto introdutório, exaltando a cidade, sua arquitetura (citando Niemeyer) e destacando justamente o Memorial JK nesse trecho do discurso. Em 1969 renascer da solidão, encontrar sentido de viver, superar o sofrimento, era de uma enorme urgência, mas ao mesmo tempo dificílimo, improvável – E mesmo se a dor encontrar – não pedir mais perdão ecoa a resolução de ser resiliente, aguentar o tranco. Em 1982 ela se volta para o futuro – Brasília é uma cidade como um avião, que ainda aguarda “desempenhar seu verdadeiro destino”. A interpretação de Milton, ainda que carregada de sentimento, é ligeiramente mais solar, como se correspondesse ao sol de fim de tarde que compõe com o céu nublado o pano de fundo da apresentação. A resolução da canção, em letra e música (não peço mais perdão/ porque já sofri demais), se estende tanto no vocalise final quanto no arranjo de piano, e o tom solene dá lugar a um breve vôo pássaro que a câmera sagazmente dirige à estátua do ex-presidente JK em bronze, de 4,5 m, esculpida por Honório Peçanha. É como se a voz e o olhar, simultaneamente, mirassem o futuro, divisando uma imagem representativa de um ideal de democracia que despontava no horizonte. Mas, inevitavelmente nos ocorre, a cidade voltada par o futuro parece já carregada de passado.A arquitetura modernista, que adentrara o imaginário nacional prometendo descortinar o amanhã à vista dos brasileiros, converte-se em tradição (moderna tradição, se quisermos retomar a grande sacada de Renato Ortiz), e JK no seu messias às avessas. Em 1969 restaurar a democracia significava parar de ter saudade do que era um tempo bem recente, de poucos anos no passado. Em 1982 o Golpe já tinha 18 anos! O futuro não realizado de Brasília, parece mais um futuro passado, de repente mal-passado, como de fato revelou-se em poucos anos com a derrocada das Diretas e o arranjo conservador que garantiu a transição democrática sem sobressaltos. Quando pensamos em como uma canção se move no tempo, é preciso considerar mais que apenas a mudança de contexto. Ela pode ser resignificada por uma nova execução, uma outra audiência, por variados detalhes da performance, pelo meio em que está circulando (em nosso caso, por exemplo, um programa de televisão da Rede Globo), uma associação com outros elementos estéticos (como no caso, o vídeo).
Naquele momento, certamente as nuvens se dissipavam mas havia muitas incertezas, convivendo com grandes expectativas. Sem saber exatamente para onde ia a estrada, mas com muita paixão, talvez um pouco mais de fé cega e um pouco menos de faca amolada, a obra de Milton Nascimento, especialmente na parceria com Brant , desse período em diante bem mais volumosa do que com os demais compositores do trio chave de letristas do Clube, Márcio Borges e Ronaldo Bastos, sinaliza essa acomodação, e talvez seja esse mais um dos motivos de ter sido a que melhor expressou no âmago o sentimento em suspenso desse momento em que se buscava o dia de amanhã mas sem virar devidamente as páginas do dia de ontem.
De 13 a 18 de Outubro 2014 será realizado o XI Congresso da Associação Internacional para o Estudo da Música Popular -Seção Latino-americana (IASPM-AL)* em Salvador (UFBA) e também, no último dia do evento, Cachoeira (UFRB). Segundo a página do evento [entre aqui]: "O tema geral do congresso enfatiza a relação entre música e lugar através do amplo tema da 'territorialidade'.". Na condição de recém-filiado à entidade, e dividindo a coordenação com o prezado colega Lauro Meller, da UFRN, convidamos pesquisadores daqui, dali, de todo lugar, a enviar propostas na forma de resumos em até 600 palavras em arquivo word diretamente para o e-mail lauromeller@ymail.com , até o dia 30 de abril. As propostas aprovadas serão divulgadas no dia 31 de maio. Segue a ementa do nosso simpósio, cujo título é Beatles: aqui, ali, em todo lugar
"Em 2014 completam-se 50 anos da primeira viagem dos Beatles aos EUA e do
subsequente disparo da beatlemania como fenômeno mundial, marco
significativo da história da música popular. As trajetórias traçadas
pelos Beatles articulam, de várias formas, música e lugar, assinalando
trocas culturais que marcam a construção de identidades de grupos e
territórios, indo do local ao global e evidenciando uma obra que
interfere nos espaços e culturas pelos quais circula. Cumpre lembrar que
a música popular, em sua trajetória social-histórica, está intimamente
relacionada às transformações próprias da modernidade, como a
urbanização, a presença das massas na cidade e a introdução dos meios
massivos de comunicação. Sendo um construto que se desloca entre o
transitório e o permanente, torna-se objeto privilegiado para pensar a
reprodução ou a reinvenção dos laços sociais nos universos densos,
abertos e heterogêneos das sociedades contemporâneas. Se a canção pode
informar um “sentido de lugar” para indivíduos e comunidades (STOKES,
1994), pode representar, simultaneamente, um “lugar de sentido”,
configurando-se como ponto nodal em que disputas simbólicas são
travadas, forças sociais são mobilizadas e interlocuções possíveis são
construídas (GARCIA, 2013). Em relação à obra dos Beatles, diversos
estudos sinalizam as dinâmicas de territorialização envolvidas, desde
sua influência na configuração de uma sonoridade local em Liverpool e no
Merseyside (COHEN apud. STOKES, 1994) à atribuição de sentido a lugares
específicos em sua cidade natal (NEGUS, 1996; KRUSE II, 2005, GARCIA,
2011); desde as referências ao “pastoral suburbano”, que podem ser
associadas a uma “inglesidade” (DANIELS, 2006) aos trabalhos que a
abordam um cenário globalizado, em contato com outros contextos e
músicos populares (MELLER, 1998). Desse modo, são bem-vindos trabalhos
que tratem da trajetória da banda, da cena local à “invasão britânica”,
da recepção pelo público ao redor do mundo (com destaque para as
Américas), de sua apropriação hibridizada por compositores e intérpretes
variados (bandas que, por sua imagem ou por características musicais,
são evocativas dos Fab Four; grupos e intérpretes que gravaram versões
de canções dos Beatles; alusões em capas de álbuns; bandas tributo), da
referência ao lugar nas escolhas estéticas em suas canções e álbuns, e
do consumo globalizado de sua música e imagem através das diversas
mídias, dos roteiros turísticos ou das práticas colecionadoras, entre
outros. Propostas de análises da própria obra dos Beatles, sejam elas
sob viés musicológico, literário, historiográfico, filosófico etc.,
serão igualmente bem-vindas."
*"A IASPM-AL é um espaço de convergência multidisciplinar em torno da
reflexão sobre as músicas populares latino-americanas e caribenhas em
qualquer de suas dimensões estéticas, usos e períodos históricos. Em sua
qualidade de associação, se define como um espaço acadêmico de gestão e
coordenação aberto a todos os campos de pesquisa sobre música. Suas
atividades incluem tanto a transmissão de experiência de músicos
práticos quanto a produção teórica de estudiosos e acadêmicos que
realizam aportes ao conhecimento social por meio da problematização das
músicas populares."
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P.S. Não posso deixar de mencionar que hoje mesmo testemunhei, em ótima companhia, a manifestação dessa articulação de tempos e lugares que a música dos Beatles promove, ao assistir o concerto da Orquestra Ouro Preto na Praça da Liberdade em Belo Horizonte. Com belos arranjos e ótima integração com a plateia, os músicos desfiaram para o grande público que lotou a praça da capital mineira os clássicos do repertório do quarteto de Liverpool.