Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.
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11 de março de 2018

O esmero não tem classe

O equilíbrio entre o ensaio de ocasião e o estudo de fundo é precário. Escrever neste blog tem sido para mim uma forma de exercitá-lo, desde sempre. Sem dúvida ainda não alcancei o ponto que idealizo, mas tem havido um trânsito interessante, com textos que nascem aqui amadurecendo e se tornando parte de reflexões mais delongadas, que tenho apresentado em eventos ou mesmo aproveitado na feitura de artigos, como no que recentemente publiquei em parceria com o amigo crítico musical, blogueiro de mão cheia e profundo conhecedor da música popular brasileira, Túlio Ceci Villaça, tratando do disco Todo mundo é bom (2016), do Coletivo Chama [aqui]. 

Neste último sábado tivemos, em horários praticamente simultâneos, dois lançamentos de artistas da mais alta estirpe do cenário musical dessas Minas, o que obviamente é dito sem desconsiderar a dimensão nacional e universal de seus trabalhos. Falo de "Titane canta Elomar na estrada das areias de ouro" no Palácio das Artes e "O anjo na varanda", de Tavinho Moura, no no Bar do Clube da Esquina, ambos em Belo Horizonte. Num daqueles dias em que a gente gostaria de se dividir em dois, compareci ao belíssimo show de Titane e não pude estar no de Tavinho, um lançamento de grande importância. O que já saquei do disco achei de alto gabarito, aliás falar isso do trabalho de Tavinho Moura é chover no molhado.






Aliás, para não ficar redundante, cito as resenhas feitas por meus parceiros Makely Ka para o disco de Titane e Pablo Castro para o show e disco de Tavinho, ambas disponíveis na página de Facebook deste mesmo blog. Obviamente, sugiro que aproveitem o ensejo para conhecer o trabalho de ambos, cuja qualidade os leitores que ainda não conhecem facilmente constatarão. Vamos a elas:

"A proposta de gravar um álbum com a obra do compositor preenche uma lacuna no nosso cancioneiro e se justifica pelo ineditismo do registro de um conjunto de suas canções com forte herança ibérica numa voz feminina de tradição popular. Na linhagem trovadoresca que remete aos provençais e galego-portugueses, Titane estabelece um arco atemporal atualizando a força ancestral dessa obra contemporânea no universo cancional brasileiro. A obra de Elomar é um portal entre dois universos, dois mundos distintos, uma fenda no espaço-tempo para penetrar em um imaginário mítico-poético atemporal. A localização geográfica habitada por seus personagens pode ser visualizada facilmente nos mapas, na divisa entre o norte de Minas e o sudeste da Bahia, mas através do prisma elomariano tudo parece transmudado e se desvela um outro universo.
Titane por sua vez sempre pautou sua carreira pelas escolhas rigorosas, do repertório aos arranjos, tudo sempre foi feito de forma a desafiar os limites de sua interpretação, sustentada por uma voz afiada como lâmina. Seu caminho até aqui é único e seus passos sempre foram firmes a ponto de transformá-la numa das mais importantes intérpretes brasileiras. Ela agora se embrenha nas estradas das areias de ouro, no sertão profundo, provavelmente um de seus maiores desafios, trazendo de sua viagem ecos de outrora, visagens do futuro, regalos do presente.
Titane, em trinta anos de carreira ainda não havia se dedicado a um único compositor. Da mesma forma não há registro fonográfico de outra cantora que tenha realizado um trabalho a partir de um conjunto de canções selecionadas da obra de Elomar. É um encontro especial que celebra outros encontros.
Entre eles, o encontro de Titane e Hudson Lacerda, violonista de grande precisão técnica, compositor erudito impregnado pela música popular brasileira, Hudson é um dos responsáveis pela transcrição de partituras do rigoroso Cancioneiro de Elomar Figueira Mello, obra fundamental de registro com um recorte específico e imprescindível da produção elomariana.
Celebra ainda o encontro do erudito com o popular em uma perspectiva subliminar ao optar por um formato acústico que remete tanto à sofisticação das formações camerísticas quanto à simplicidade de um recital de música popular, destacando a arquitetura dos arranjos já intrínsecos às composições e valorizando a imponência da voz em estado bruto.
Cruzando referências dos negros trazidos para trabalhar no garimpo do ouro e do diamante no Sudeste com a herança hibérica disseminada pelos europeus no Nordeste brasileiro, o encontro da cantora mineira da cidade de Oliveira e do compositor baiano de Vitória da Conquista promove uma aproximação de universos diferentes mas complementares, do ancestral com o contemporâneo, do sertão com o cerrado." Por Makely Ka
Sobre o show em si, acrescento que a performance segura de Titane, sempre em contato direto com a terra e encantando o público com a presença cênica e a força de sua voz, completou-se com a poderosa inserção de trecho do Dom Quixote de Cervantes tratando da condição feminina, como a própria cantora explica nessa boa matéria do Estado de Minas. O desempenho dos músicos que lha ladearam no palco foi impecável, e ela gentilmente reservou a cada um uma apresentação especial, mais que devida. Foram eles meu Hudson Lacerda (violão)e André Siqueira(bouzouki), meu querido parceiro Kristoff Silva (diretor musical do álbum, que cantou lindamente e percutiu delicadamente marimba), Aloízio Horta (contrabaixo acústico) e Toninho Ferragutti (acordeom). Nesta apresentação no Programa Sr Brasil é possível ter uma pequena provinha:



O mestre Tavinho Moura lançou mais um disco ontem, O Anjo na Varanda, modestamente e discretamente no Bar do Clube da Esquina. Sua obra parece marcenaria musical. Ele faz canções com um frescor, aparentemente sem nenhuma ideia pré-concebida sobre o que deveria ser uma canção, que tipo de letra e forma e mesmo harmonia deve ter uma canção. Ele faz canções como objetos sensíveis, como móveis, quadros, cadeiras, mas nada funcionais , apenas objetos nutridos de uma integridade de uma originalidade acachapantes.
O seu canto é rigorosamente atado à melhor prosódia possível, um cuidado metódico. É sempre notável como, em comparação com versões de suas canções na voz de Beto Guedes, um cantor mais animado e emocionado, Tavinho imprime uma sobriedade, um certo comedimento, como para que evitar que a música se superponha à palavra.
Acompanhado pelo insubstituível Beto Lopes , com participações vocais especialíssimas de Mariana Brant, Bárbara Barcellos e Amaranto, Tavinho Moura fez um show bonito, mas o que interessa em sua apresentações é a sua obra, antes de mais nada : trata-se de um criador talhado, mas com temperamento de artesão , com uma profundidade e uma convicção que não dá espaço para qualquer tipo de exagero ou afetação.
Eu aconselho vocês ouvirem esse disco recém-lançado, mas também toda a obra desse compositor extremamente original que temos. Tavinho é gênio. Por Pablo Castro
Do mesmo modo, para completar a apreciação, encaminho aqui um belo texto de apresentação escrito pelo próprio Tavinho e uma pequena provinha.





Para além dos evidentes laços geográficos, que demonstram a incontestável pujança da música popular feita em nosso estado, no contexto nacional e internacional - e deixo a provocação: vejamos a frequência com que ambos os discos serão lembrados naquelas famigeradas listas de melhores ao final deste 2018 - o que quero ressaltar é essa qualidade compartilhada em ambos e afirmada em tantas obras que integram a história de nossa música popular: o esmero, o apuro, o rebuscamento, a elaboração que perpassa esse grande oceano de canções, arranjos, gravações, interpretações e apresentações. Dentre os grandes fenômenos da história da cultura no século XX certamente poderemos posicionar a explosão das distinções apriorísticas entre as hierarquias socialmente construídas para criar, reproduzir, circular e ouvir música. Não resta dúvida de que o desafio às fronteiras previamente estabelecidas, valor estético consagrado na modernidade, teve nos músicos populares alguns de seus melhores protagonistas (aqui não resisto a uma ponte com a trajetória de Piazzolla, cuja biografia foi alvo de uma recente postagem, mas remeto-me ainda à resenha que escrevi do livro O triunfo da música, de Tim Blanning). Mas se o liquidificador energizado pela indústria fonográfica tritura ingredientes e põe no balcão tantos milkshakes cuja variação de sabor mal esconde sua semelhança, não a livra, definitivamente, das contradições que são necessárias admitir para que uma certa magia ponha em movimento o câmbio dos gostos. Seu sabor de mercadoria não pode descartar a insistência de outros códigos concomitantes, de outras ordens que não lhe são completamente coincidentes, como as que regem o campo das artes (ver Artistas da fome e o valor da bolacha) ou o do trabalho do artesão, com seus modos de fazer, estética e esmero. É um lugar comum dizer que a música popular historicamente foi definitivamente imbricada à fonografia. Mas como historiador tenho o cuidado de notar que a primeira antecede à segunda, e de que na receita que a compõe há traços de fazeres musicais anteriores e contrastantes à própria modernidade, ao capitalismo e seus valores. Há gente que esquece disso. E o esquecimento é um dos grandes males de nosso tempo. Aparece, por exemplo, quando se constitui uma percepção binária sobre o objeto música, através de associações mecânicas entre os sujeitos em seus lugares sociais de origem e a lógica de sua produção e consumo. Criou-se uma espécie de fronteira artificial, felizmente desconhecida pela maioria dos músicos, mas obviamente muito conveniente para a vida dos críticos e também dos tais "influenciadores de rede social", cujas opiniões são tão estereotipadas quanto a do um fantasioso bunker  de defensores do bom gosto que pretendem explodir, ignorando que tal já foi feito ao longo do próprio século XX. Uma boa mostra disso se encontra nesta postagem recente, crítica de uma crítica ao último single da cantora Marina Lima. A revolta extemporânea contra o elitismo que pauta tais críticos e de modo geral nuns tantos autointitulados ativistas da cultura, ao desconhecer as rupturas e aproximações materializadas claramente na obra de um Elomar, de um Tavinho, e de resto  um sem número de criadores que povoam a grande galáxia de nossa música popular, aparenta ser inclusiva e tolerante, mas é finalmente conformista, paternalista e excludente, pois sua consequência é subestimar as possibilidades de fruição e elaboração daqueles que supõe defender, além de manter canais fechados onde deveria querer abri-los, como eu já havia considerado nessa postagem em comentário a um texto do Hermano Vianna. Este é um esforço em andamento para superar generalizações e relativizações, e nesse sentido as apreciações dos trabalhos de Titane e Tavinho Moura me pareceram ótimos catalizadores de um raciocínio que ainda preciso burilar, mas que essencialmente trata de reconhecer que o esmero não tem classe, o que não equivale nem de longe a desconsiderar a importância da classe como categoria para pensar sobre estética e criação - o mesmo para qualquer outra categoria chave como gênero, etnia, espaço, campo, tempo, etc. - mas sim entender que a limite para sua influência, como apontei anteriormente em A origem de classe na música popular não é o seu ponto final. Na verdade, me parece estratégico para a compreensão da vitalidade das culturas populares reconhecer que o esmero não é um elemento estranho a elas, incorporado num enxerto de erudição, de valores elitistas. É mais lógico reconhecer que ela tem suas próprias maestrias e sofisticações, através das quais muitas pontes foram construídas como podemos constatar através de estudos tão diversos como os de Ariano Suassuna ou de Peter Burke. Eventualmente imperceptíveis ao ouvido academicista de anteontem, mas que paradoxalmente hoje estão inaudíveis para a crítica pós-modernosa. Se queremos entender as hibridações e trânsitos que de fato foram responsáveis pela demolição de barreiras culturais e consequente polinização mútua de tantas expressões que nos movem, é preciso superar essa audição folclorista invertida, que na prática expropria todo o oceano de variedade e qualidades de ouvintes que são convencidos que a poça d'água que lhes é oferecida lhes basta porque é sua, quando na verdade é deles tanto o mar quanto o sertão.

17 de setembro de 2016

Outras 30 mais geniais do Clube da Esquina - 16. Viagem das Mãos

De volta nas paradas! Depois de longo e tenebroso inverno, que já ia adentrando a primavera, o blog retoma a edição da segunda leva de canções geniais do Clube da Esquina analisadas por Pablo Castro, que atualmente acumula a função de apresentador do quadro "Na curva da esquina" na programação noturna da Rádio Inconfidência, emissora pública do estado de Minas Gerais que completa 80 anos em alta [merece uma postagem isso, hein...]. Agora a expectativa é retomar o ritmo e incluir mais a linguagem dos vídeos próprios.


"Apesar de ser muito fã de Guinga, Jobim, Edu Lobo, Francis Hime e toda as vertentes super sofisticadas do pensamento harmônico subjacente à MPB, sempre nutri especial paladar por harmonias mais ingênuas, singelas, sutil e engenhosamente surpreendentes mas construídas com os materiais mais simples, acordes maiores, menores e diminutos, sem aquela profusão de dissonâncias com que estamos acostumados na MPB mais clássica.
Daí eu estar pirando na descoberta da música de Harry Nilsson, um compositor beatleniano de quem os próprios Beatles eram fãs confessos, ancorada muito nessa maneira delicada com que ele conduz surpresas nos encadeamento de acordes e na forma como ele se apóia singelamente em nonas, e sextas, em suas melodias.
Isso , sei lá porque , me lembrou de Tavinho Moura, e fui tocar uma canção dele que nunca havia tocado antes, chamada Viagem das Mãos, gravada pelo Beto Guedes (a batizada como nome do disco! - ouça aqui) , letra característica de Márcio Borges, ecoando o sol girassol com céu carrossel e tudo o mais. A harmonia de Tavinho é a própria viagem das mãos que vão oscilando de modulação em modulação até voltarem estranhamente ao lar, de onde logo se quer partir ...
A música tem tantas imagens e paisagens que torna a pobreza visual e técnica do vídeo a seguir um lapso perdoável. A cifra dessa música é uma encrenca."
Pablo Castro

Viagem das Mãos (Tavinho Moura e Márcio Borges)
 
Céu carrossel, a roda-ciranda
Enrola teu ser ao meu
Vejo passar o véu da manhã
Tão cristalina luz
Ilumina
Sol, girassol e tudo mais
Tudo por ti
Cigana, meu mal
Rodando a saia
Viagem das mãos
Sapateava meu coração

Céu, carrossel, a roda-cigana

Enrola teu ser ao meu
Tanto lugar
Viagem das mãos
E no limiar do cais
De teu corpo
Concha de mar salina
Não pode ser
Melhor nem pensar
Mas como é sentimento real
Depois talvez o tempo dirá

Céu, carrossel, a roda-cigana (etc.)

Concha de mar salina
Não pode ser
Melhor nem pensar
Mas como é sentimento real
Depois talvez o tempo dirá


Pra fechar, bela versão do disco Cruzada (2002), do Tavinho Moura, com preciosa participação da Marina Machado. 





8 de dezembro de 2012

As 30 mais genais do Clube da Esquina, por Pablo Castro - LISTA 1 Parte 4

Parte 4, feita no sufoco num sábado com mais trabalho que diversão. Mas vamos que vamos, e quem quiser passar pelas outras partes pode conferir aqui mesmo a lista completa do blog:

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Lista do Clube - a saga continua ! N° 19 UM GOSTO DE SOL, Milton e Ronaldo Bastos. Ponto de interseção com a mais consagrada Cais, dos mesmos autores, Um Gosto de Sol se revela, por outro lado, um viés talvez mais existencialista - em vez de "e sei a vez de me lançar", o que implica, apesar de todo o ceticismo, ainda uma ação, temos aqui a memória de um enigmático relance como prova da inexorabilidade da perda ou, para uma pera esquecida na fruteira, o apodrecimento dos sonhos e do riso que não voltam mais... 

A incompletude humana se espelha nas reticências do que é dito, e sobretudo do que não é dito mas é intuído e sentido na música. Um Gosto de Sol é a ocasião propícia para o piano de Bituca, num 6/4 fluido que as divisões "estacatas" dos acordes são contrabalançadas pelas longas notas da linha de baixo ( no piano), enquanto o sutil reverb na voz de Milton corrobora o distanciamento de toda a cena. 

O tema final , na verdade é o mesmo que aparece no fim de Cais, e consiste numa linha de baixo descendendo sobre blocos de acordes em Dó Menor ( Um Gosto de Sol é em Dó Maior) e, de fato, a melodia é o baixo, que, depois de transpor o trecho primeiro para a subdominante, modulando em seguida ao relativo maior, passa por um acorde aumentado e a melodia em escala de tons inteiros, o que confere um distinto senso de perda de direção que na verdade é o subtexto de toda a canção. Gravada no disco Clube da Esquina (1972), é o momento mais dramático do disco.

UM GOSTO DE SOL

Alguém que vi de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira

Alguém sorriu de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira


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A vigésima escolhida é SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar), canção de Milton e Fernando Brant na rara métrica de 5/4, tematizando o passado pré-64, o tempo dos bondes, da primeira coca-cola, da campanha da Itália, sobretudo da companhia aérea brasileira Panair, perseguida pelo regime militar e que faliu poucos anos depois do golpe. E tematizando, também, por outro lado, a conversa do bar, de forma que os dois títulos da música incorporam na verdade os dois temas da letra. Como é comum nas melhores letras do Clube, vozes ocultas e frases malditas aparecem como assombrações do passado na camisa de força de Minas, o lado sombrio da cultura montanhesa- "no fundo do quintal morreu, morri a cada dia dos dias que eu vivi". O coro semi-afinado de bebuns homens comuns na mesa do bar conduz a música até que Milton assuma, com sua voz de Deus: nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar. Percussões variadas e agudas, violões rasqueados e súbitos, coros gregos, sussurros sombrios, os meninos Paula e Bebeto, guitarra de Toninho Horta, um caleidoscópio de sons e memórias... Para a magnífica coda, a tempo vira para 3/4, e o ciclo de quartas desce como um carrossel enquanto a cena é vista cada vez de um ponto de vista mais distante, em volta da cidade .... Absolutamente magistral!

SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar)

Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeira

E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levei um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno nas asas da Panair

E lá vai menino xingando padre e pedra

E lá vai menino lambendo podre delícia
E lá vai menino senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado sem pavor
O medo em minha vida nasceu muito depois
descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair

Nada de triste existe que não se esqueça

Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere o coração
Nada de novo existe nesse planeta

Que não se fale aqui na mesa de bar

E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta
Que no fundo do quintal morreu
Morri a cada dia dos dias que eu vivi
Cerveja que tomo hoje é apenas em memória
Dos tempos da Panair
A primeira Coca- Cola foi me lembro bem agora
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair

Em volta desta mesa velhos e moços

Lembrando o que já foi
Em volta dessa mesa existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas existe a rua
Vivendo seu normal
Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais
Em volta da cidade


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FAZENDA é a de número 21, letra e música de Nelson Ângelo, que abre o disco Gerais (1976), dando o tom mais 'regional' de um álbum que contém coisas como Calix Bento, Carro de Boi, Circo Marimbondo, a andina Caldera e Volver a los 17 e a indígena Promessas do Sol

O poder de síntese do músico Nelson Ângelo na feitura dessa letra é de se admirar, tecendo por meio de imagens todo o cenário de uma experiência tão comum daquela época: as férias na fazenda de algum parente... cabe ressaltar que o cancioneiro do Clube tem um lugar deveras importante para o tema da infância: podemos citar Era Menino ( Beto Guedes , Tavinho Moura e Murilo Antunes), Tesouro da Juventude ( Tavinho e Murilo) [já comentada na 1a. parte desta lista], Pablo ( Milton e Ronaldo Bastos), Gabriel ( Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Maria Solidária ( Milton e Fernando Brant) Dindilin (Tavinho Moura e Fernando Brant ) Bola de Meia, Bola de Gude (Milton e Fernando) e outras. 

Fazenda incorpora esse olhar pelas experiências sensoriais que a Fazenda e a vida lúdica das férias representam, especialmente intensas quando se é criança. Musicalmente ela se baseia em uma frase melódica simples, com apenas 3 notas, mas escolhidas a dedo: a quinta , a sétima e a sétima maior de um tom menor (no caso, Si), numa sequência de 3 acordes menores : Bm7, Gm7 e F#m7. Nesse caso, parecemos estar em Si menor ou seu relativo Ré maior. ( Milton talvez seja o grande precursor em encadear belamente sequências de acordes menores sem maiores relações clássicas de parentesco harmônico) 

Na segunda sessão desse grande A, que leva a um "proto-refrão", vamos para Lá maior, tom próximo do anterior, e a melodia , mantendo sua unidade, sobe o perfil a alturas maiores, a voz de Milton com seu costumeiro reverb divino , parece vir do alto da montanha : e no amanhã , nós ... 

A orquestração de Nelson Ângelo risca notas agudíssimas, algumas curtas, outras longas, mas sempre em uníssono, em vez de acordes; enquanto as flautas colorem bicas no quintal, Beto Guedes canta algo como " tinha arara " como segunda voz e na despedida, com a bateria espetacular de Robertinho, ficamos suspensos naquele fio de memória ... 

Ficha Técnica: 
Milton Nascimento - Voz e Violão
Nelson Ângelo : Viola de 10, violão e orquestração
Novelli : Baixo e piano
Robertinho Silva : Bateria
Beto Guedes : Vocal, se não me engano...



FAZENDA

Água de beber

Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós(2x)
Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá(4x)


 

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MILAGRE DOS PEIXES é a escolhida de número 22, na lista das 30 melhores do Clube da Esquina. Parceria entre Milton e Fernando Brant, deu nome ao disco de estúdio, o mais experimental de Bituca, e o de orquestra ao vivo, o mais grandioso. 

Nessa música Milton consagra de vez sua assinatura harmônica, levando às últimas consequências os cromatismos harmônicos descendentes que vinham desde Canção do Sal, passando por Sentinela, Nada Será como Antes, Novena, A Sede do Peixe (que antes era um tema instrumental) , e a sublime Vera Cruz, e os movimentos harmônicos sobre o baixo pedal, que se verificam em canções como Morro Velho, Fé Cega, Faca Amolada, Maria, Maria, Ao que Vai Nascer, Os Povos, Amigo, Amiga, Cadê, Tema de Tostão e outras. 

Para leigos, esses cromatismos são pequenos grandes movimentos de fuga do campo harmônico onde estávamos no momento anterior, enquanto o baixo pedal é a manutenção de uma nota grave com a qual os acordes que mudam vão mantendo diferentes relações. 

Em Milagre dos Peixes, ambos os procedimentos são fundidos como em nenhuma outra, num equilíbrio que a destacou até dentro do repertório absurdamente rico e original de seu criador, o que logo foi notado por Wayne Shorter, com quem Bituca gravou, no mesmo ano, um álbum em parceria, Native Dancer

Milagre dos Peixes é também um dos maiores feitos de seu letrista, Fernando Brant, condensando o forte signo dos 'peixes' com o jugo verde da ditadura e da já poderosa presença da televisão, amarrando vários dos interesses fundamentais do credo, ou do ethos, do Clube , entre eles o elo redentor da amizade, o amargor da situação política, e as metáforas de longo alcance, o que permitiu que não se reduzissem àquele contexto histórico. 

A forma é exemplar : um estrilho que começa (e termina) a parte cantada, uma estrofe, um B, que leva de novo ao A e fecha com o estribilho, repetido para a improvisação vocal de Milton e um chorus clássico para improvisação jazzística. Extra-terrestre ! :)

Ficha técnica:
Mliton : Voz e violão
Toninho : guitarra
Wagner : piano e órgão
Nivaldo : sax
Robertinho : bateria
orquestração : Wagner Tiso 


MILAGRE DOS PEIXES

Eu vejo esses peixes e vou de coração
Eu vejo essas matas e vou de coração à natureza

Telas falam colorido de crianças coloridas
De um gênio televisor
E no andor de nossos novos santos
O sinal de velhos tempos
Morte, morte, morte ao amor

Eles não falam do mar e dos peixes
Nem deixam ver a moça, pura canção
Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol
E eu apenas sou um a mais, um a mais
A falar dessa dor, a nossa dor

Desenhando nessas pedras
Tenho em mim todas as cores
Quando falo coisas reais
E no silêncio dessa natureza
Eu que amo meus amigos
Livre, quero poder dizer

Eu vejo esses peixes e dou de coração


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A vigésima terceira é PEDRA DA LUA, de Toninho Horta e do saudoso poeta e letrista Cacaso. Toninho é este artista impressionante e expressionista da harmonia, e nessa canção ele já inicia o discurso com um acorde altamente dissonante , um alterado com a seguinte cifra : E7M(b10), segundo a nomenclatura do mestre mundial em teoria da harmonia, o brasileiro Fábio Fabio Adour

O que é mais fascinante é como Toninho consegue dar sequência lógica funcional a acordes aparentemente "irracionais", e a metáfora da pedra da lua converge perfeitamente à estranheza de alguns acordes. A música acaba por se revelar como uma colcha de retalhos de fragmentos de memórias, e a mãe é a figura central. A infância é mais uma vez resgatada com imagens aparentemente desconexas , pequenos jogos de palavras com múltiplas ressifignações (lembrei desse termo vendo a entrevista do Gil no Jô !), e a pedra da lua, a mais enigmática... 

A forma, que, enredando sutilmente o fim de uma estrofe com o início de outra, proporciona um aspecto cíclico, faz com que tenhamos mais uma vez , tirando a introdução vamp nesse acorde de Mi alterado já referido acima, apenas uma seção, um A repetido , enredado e diferido, mas não um B contrastante. Talvez, do ponto de vista da estrutura formal, a "lição" mais clara da apreciação da obra do Clube seja essa sinteticidade que permite as maiores aventuras harmônico - melódico - rítmicas sem que a fruição da canção se perca num hermetismo, numa música para músicos. 

Essa relação equilibrada com procedimentos arquetípicos da música popular no fim das contas aparece muito sob o aspecto da forma. Aqui, por exemplo, temos essa seção principal da música com 12 compassos, o que é um número presente , por exemplo, no blues ... temos também em comum esse clima melancólico, profundo, perene que as pedras pontudas dos acordes nos arranham os ouvidos e corações...

PEDRA DA LUA

Dia, mania

Tarde covarde, noite açoite
Minha mãe calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino levante cedo
Menino não chegue tarde
Dia folia, tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino não morra cedo
Menino não chegue tarde
Dia mania... 


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A vigésima-quarta da nossa lista é PAIXÃO E FÉ, de Tavinho Moura e Fernando Brant. Esse clássico que toca todo dia na Rádio Inconfidência às 6 da tarde (ou pelo menos tocava) celebra as raízes religiosas da cultura interiorana mineira, evocando as procissões, os cultos católicos entranhados na alma alterosa. 

Tavinho, com sua harmonia arrojada de acordes perfeitos, e métrica irregular, sai de lá maior , e rapidamente para mi maior, para desembocar em sol maior no refrão. Essas constantes modulações soam como degraus ascendentes frente à revelação espiritual da fé e da paixão. A agonia fica por conta de súbitos empréstimos modais que se resolvem via cromatismos ascendentes heterodoxos. 

Milton a gravou na super-produção do disco Clube da Esquina 2, onde ele experimentou particularmente o recurso de sua própria voz dobrada (aqui alternando entre intervalos de terças e oitavas), enfatizando aquele aspecto místico - religioso do seu canto. 

Beto Guedes estrela no seu virtuoso bandolim e os Canarinhos de Petrópolis fazem o contraponto angelical dessa canção de louvor à Fé e à Paixão. Clássico Imortal, e um exemplo de como a música pode abordar a religiosidade cristã sem aquele pedantismo evangélico que tanto caracteriza o gênero gospel .

PAIXÃO E FÉ

Já bate o sino, bate na catedral

E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressureição

E sai o povo pelas ruas a cobrir

De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei

No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração

E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor


 

6 de dezembro de 2012

As 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro -LISTA 1 Parte 3



Em meio às atribulações de final de semestre típicas da vida de professor, o projeto antigo dessa lista que finalmente ganha forma, e as centenas de acessos que já receberam as partes das "30 mais geniais do Clube da Esquina" [completa, aqui] pelas mãos de meu grande amigo e parceiro Pablo Castro me lembram o verdadeiro valor do tempo que podemos despender naquilo que amamos. Convido os leitores a compartilhar conosco esse tempo. Desde já obrigado pelo prestígio e pela presença.

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Não tenho como deixar de homenagear Oscar Niemeyer aqui, e sem forçar nada a barra - a décima-terceira escolhida é CÉU DE BRASÍLIA de Toninho Horta e Fernando Brant. A grandiosidade da obra arquitetônica da capital inventada no meio do nada no Planalto Central só poderia ter uma tradução musical tão engenhosa quanto. 

Uma longa introdução no fortíssimo , com uma guitarra distorcida (!) e banda e orquestra já dá o recado do nível de transbordamento que a faixa carrega , condensando a cadência harmônica a ser desenvolvida adiante, quando se tudo se esvai e resta o violão e a voz de Toninho , numa terna balada : " a cidade acalmou ..." 

Brant ousava ser mais concreto , alguém diria até prosaico, quando não compunha com Milton, e a letra vai construindo "ingenuamente" o caminho que descreve as alturas da música de Toninho. "O horizonte imenso aberto sugerindo mil direções" é o ápice desse vôo, que começa tão pé no chão. 

É com naturalidade que a melodia, angulosa e com inúmeros saltos, como é típico de seu autor, vai se adensando ao arranjo e criando uma "tour de force" , catapultando o homem comum aos imensos horizontes que um dia o arquiteto Oscar ilustrou com suas ambiciosas e descomprometidas curvas. 

"E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez ..." de todas as músicas de Toninho, pra mim essa é a mais emocionante, transcendental, intensa, para além da sua costumeira elegância e inteligência como compositor. Notável que nela, ele não só toque guitarra, violão e baixo, como faz a formidável orquestração.



CÉU DE BRASÍLIA

A cidade acalmou
logo depois das dez
Nas janelas a fria luz
da televisão divertindo as famílias
Saio pela noite andando nas ruas

Lá vou eu pelo ar asas de avião
Me esquecendo da solidão
da cidade grande, do mundo dos homens
num vôo maluco que eu vou inventando

E vôo até ver nascer
o mato, o sol da manhã,
as folhas, os rios, o azul
Beleza bonita de ver

Nada existe como o azul sem manchas
do céu do Planalto Central
e o horizonte imenso aberto
sugerindo mil direções
E eu nem quero saber se foi bebedeira louca
ou lucidez...

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A décima-quarta é CRUZADA de Tavinhomoura Moura e Márcio Borges, canção espetacular, demonstrando tanto o arrojo melódico-rítmico desconcertante quanto a simplicidade de seu autor. 

A melodia inicial é um caso exemplar de tematização melódica, divisão rítmica incisiva (e métrica irregular), oscilando entre o maior e o menor, alternando escala menor harmônica e melódica, e a maior harmônica, é uma aula de fluidez e surpresa da melodia, de forma que, apesar de ousada, é altamente cantarolável, e o sucesso da música prova isso. 

Márcio Borges discorre sobre a insegurança política da época sem datar o texto, poderíamos falar de como hoje em dia sabemos "do perigo que nos rodeia pelos caminhos". O final da melodia do A caindo na reconfortante terça maior "acalma no seu olhar" ... 

Já o refrão é dos mais lindos acalantos de toda a obra do Clube, daqueles perfis melódicos ascendentes que são claramente incomumente inspirados, sem fazer força. O contraste entre o alívio do refrão e a tensão das estrofes é uma das chaves do sucesso dessa música, gravada primeiramente por Beto Guedes, que, diga-se de passagem, fez sua versão com uma solução rítmica diferente da de Tavinho, e acabou se fixando mais na memória dos ouvintes. 

Por esse motivo, preferi colocar a versão de Beto Guedes, embora saiba que o compositor pense diferente ... a letra, mais uma vez, em sua aparente desconexão, é a perfeita ponte entre os perigos das estrofes e o abrigo do refrão, e outra parte se faz desnecessária, embora saibamos que Tavinho tem um lindo intermezzo em sua versão [ouça aqui]. É um clássico imortal dele.

 CRUZADA

Não sei andar sozinho por essas ruas

Sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos
Não há sinal de paz mas tudo me acalma no seu olhar

Não quero ter mais sangue morto na veia

Quero o abrigo do seu abraço que me incendeia
Não há sinal de cais mas tudo me acalma no teu olhar

Você parece comigo, nenhum senhor te acompanha

Você também se dá um beijo dá abrigo
Flor nas janelas da casa, olho no seu inimigo
Você também se dá um beijo dá abrigo
Se dá um riso dá um tiro ...

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A décima-quinta é O QUE FOI FEITO DEVERÁ (de Vera), de Milton Nascimento, Fernando Brant e Márcio Borges

Bituca experimentou pedir letra pra dois parceiros, sem que ambos soubessem, sobre a mesma música e a mesma temática, algo falando do passado, e é revelador contrastar as duas abordagens. 

Fernando, mais idílico, mais individual, tentando conciliar de alguma forma o passado e o futuro, à luz das experiências vividas à revelia sob os trilhos do trem da história (a história é um carro alegre, cheio dum povo contente que atropela indiferente todo aquele que a negue, diria Chico Buarque no mesmo disco), enquanto Márcio , mais icônico, mais contrastante, "nuvem no céu e raiz", é algo mais inquieto, mais explosivo: "Nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós". 

Intertextualidades à flor da pele, com várias canções já clássicas do Clube sendo incorporadas ao texto, como Vera Cruz, de Milton e do próprio Márcio, e Fé Cega , Faca Amolada, de Milton e Ronaldo Bastos, e Outubro, de Milton e Brant; a consumação de um sentido de parceria e amizade se dá dentro das letras, e isso revela a intensidade da canção. 

Elis, que já tinha gravado a canção de Brant, faz uma aparição magistral no Clube da Esquina 2, enquanto Milton canta a de Márcio, mas as duas parecem, no fim, capítulos do mesmo romance, e se completam. 

Musicalmente, daquelas preciosidades simples e altamente originais: o mesmo acorde oscila entre o suspenso, o maior (com sétima) e o menor (com sétima), fazendo um movimento pendular que ilustra a perplexidade do homem em relação à vertigem do tempo, da existência humana e de seus desdobramentos metafísicos, e depois recai sobre um empréstimo do modo frígio, um tempero misterioso, só pra voltar ao mesmo acorde suspenso e finalmente resolver no quarto grau ... para leigos, basta dizer que é sintético, e altamente misterioso. A melodia, linda, vai perpassando esses intervalos com grande fluidez, dando sentido total a essa baita ambiguidade harmônica. 

Convém, por fim, observar que essas originalidades harmônicas de altos quilates do Clube em geral vão criar um clima onírico, deslocado, de descoberta, de elocubração, de quem tateia o desconhecido. Talvez o passado seja tão desconhecido, desse ponto de vista, quanto o futuro ...



O QUE FOI FEITO DEVERÁ (de Vera) ( Brant)

O que foi feito, amigo,

De tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida,
O que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás

Falo assim sem saudade,

Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será
Mais vale o que será
E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir

Falo assim sem tristeza,

Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer
Nós iremos crescer,
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz

O que foi feito de Vera ( Borges)


Alertem todos alarmas

Que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida,
Ração dividida ao sol
E nossa vera cruz,
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par

Quando o cansaço era rio

E rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz

Hoje essa vida só cabe

Na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe,
Abelha fazendo o seu mel
No canto que criei,
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós 

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A Décima-sexta da Lista do Clube da Esquina é TIRO CRUZADO, de Nelson Ângelo e Márcio Borges. Não se pode olvidar quando uma canção tem uma versão de Tom Jobim. Eu poderia listar outras do esquecido e inspirado LP Nelson Ângelo e Joyce, de 1972, pela quantidade de pérolas contidas ali, mas decidi ficar com essa pela carreira que ela teve: foi gravada muitas vezes, tem uma versão bastante interessante, por exemplo, do Sérgio Mendes [aqui], e dá o recado de cara. 

Das formalmente mais simples do álbum, Tiro Cruzado tem um daqueles acordes indecifráveis, altamente tensos, o que corrobora para o letra desafiador do Márcio: "Pula muro, cai do cavalo, pula que eu quero ver!" Ritmicamente, pode-se falar numa espécie de samba, mas , como sempre é um samba mineiro, altamente diferido, o que , com certeza, deve ter despertado a atenção de Jobim quando a gravou ao lado de Miúcha [ouça aqui]

O corpo da música é tão expressivo que ela não tem um B! É um A repetido o tempo inteiro, o que faz dela um exemplo de sinteticidade na canção que é muito raro. Tornou-se um clássico, apesar de hoje quase ninguém mais a conhecer das novas gerações. Se você gostar, aconselho a ouvir todas desse discaço. 

Atenção para a ficha técnica, que inclui o desaparecido Tenório Jr. 
Joyce e Nelson Angelo - voz
Nelson Angelo - violão
Danilo Caymmi - flautas
Tenório Jr.  -piano elétrico
Novelli  - baixo
Hélcio Milito - bateria
Rubinho - tumbas

TIRO CRUZADO

Pula do muro
Cai do cavalo
Pula que eu quero ver
Sombra no escuro
Verde maduro
Corre que eu quero ver
Salta de lado
Tiro cruzado
Dança que eu quero ver
Corta de canivete que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero ver

Que eu quero ver (4x)
Segura que é agora que eu quero ver
Pula do muro... segura que é agora que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero ver
Segura que é agora que eu quero

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A Lista do Clube continua! CASO VOCÊ QUEIRA SABER! essa obscura canção de Beto Guedes em parceria com Márcio Borges, que abria o célebre álbum dos "4 no banheiro" - Beto Guedes, Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi

Das músicas mais inclassificáveis do compositor, e das primeiras feitas por ele, entretanto ela já estabelece alguns elementos distintivos de seu trabalho, a saber: ritmo em 12/8, alta tessitura vocal, rupturas de escala inesperadas, e um estribilho dramático com aguda melodia que é a única parte que se repete na música. 

A forma é altamente irregular, com um A que nunca volta, uma ponte, um B, cuja conclusão é idêntica à do A, e finalmente esse refrão: "Já conheço seus segredos, seu tempero e seu suor, mas não consigo perder mais tempo" ...Essa urgência está espelhada pelo arranjo intenso, principalmente na melhor versão dela, na minha humilde opinião, que saiu num compacto de Milton* e que termina com um sublime solo de sax-tenor do grande Nivaldo Ornelas, e hoje é encontrada como bonus track do disco Minas, de 1975. 

A negatividade da letra contrasta com quase toda a obra de Beto, que fez da positividade seu fio condutor... entretanto, raras vezes ele compôs algo tão genuinamente feroz e vital quanto essa música ... 

Não é à toa que Cássia Eller fez uma versão admirável [aqui] em seu segundo disco, transformando a música mas mantendo, evidentemente, sua agressividade**... 

Ficha Técnica da versão com o Milton: 
Milton Nascimento : Voz e violão
Beto Guedes : Bateria, viola e voz
Fernando Leporace : baixo
Nivaldo Ornellas : sax-tenor
Wagner Tiso : órgão e piano elétrico (distorcido)
Toninho Horta : guitarra.

CASO VOCÊ QUEIRA SABER!

Não quero você mais na minha casa
Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você

Eu não quero nada
Com seu riso indecente

Já conheço o seu tempero
Seu segredo e seu suor
Mas não consigo perder mais tempo
Você tem que ir embora
Já começa a amanhecer
Parece outro dia negro



*com a versão de Norwegian Wood do outro lado[nota do editor].
** aliás, procurando pela ficha técnica da gravação dos "4 no banheiro" deparei-me com uma excelente análise do amigo Túlio Ceci Kaiowa Villaça sobre como Cássia Eller transformou essa canção em uma outra coisa, num texto muito esclarecedor! E , de brinde, consegui a minha ficha técnica! Valeu demais, Túlio! [nota do autor]




E vai aí a ficha dos "4 no banheiro":
Beto Guedes: Voz, violão e bateria
Flávio Venturini: acordeon
Frederiko: guitarra
Lô Borges: baixo elétrico
Maurício Maestro (líder do grupo vocal Boca Livre): percussão
Novelli (notável baixista): percussão
Toninho Horta: percussão
Vermelho (integrante do 14 Bis): órgão


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A décima-oitava da lista é O TREM AZUL, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, bastante conhecida, um clássico, e não é pra menos ... Cabe aqui uma digressão sobre o caráter surrealista de várias letras do Clube da Esquina, e sua evidente relação com os procedimentos musicais nas composições e nos arranjos. 

Não se poderia esperar de músicas que trilham veredas harmônicas inauditas e com alto grau de descolamento do sistema tonal clássico (em termos de música popular) letras muito amarradas, narrativas com começo, meio e fim, e muito menos avaliá-las como texto fora da canção, embora isso possa ser interessante como elemento de análise. 

Esse surrealismo encontrou várias maneiras de se realizar nessas canções, e nunca essa realização se deu por meio de um sentimento tão entorpecido, enigmático, vago como em O Trem Azul. A construção harmônico-melódica é de tal simplicidade e ao mesmo tempo engenhosidade que foi imediatamente reconhecida como uma música importante dentro da produção da turma do Clube. 

Basicamente, na estrofe (que se repete só com uma letra) a melodia fica sempre na sétima maior de cada acorde, proporcionando uma certa maciez em cada um deles, um caráter vago, pouco concreto e afirmativo, que se associa claramente aos versos: coisas que a gente se esquece de dizer, frases que o vento vem ás vezes me lembrar... 

A harmonia tem o tom claro de Dó maior, mas todos os acordes da estrofe são da região de dó menor (com um acorde do modo frígio), o que também corrobora essa macia e ingênua estranheza... O refrão contrasta por subir um mínimo degrau entre a sétima maior e a tônica, dando um pouco mais de afirmação à melodia. Essa característica lenta, prostrada e contraída da melodia é bastante distintiva da canção, que, de resto, estilisticamente, podemos considerar o cruzamento por excelência entre os Beatles e a Bossa-Nova. 

O ritmo quadrado e lento do roque britânico com as aventuras harmônicas e calmas da bossa-nova nunca se cruzariam de forma tão equilibrada como em O Trem Azul. As metáforas do sol na cabeça sugerem uma referência ao LSD. embora nem de longe seja preciso estar doidão pra amar essa canção. Tom Jobim, por exemplo, era mais chegado num uísque, mas não só gravou a música como fez, ele próprio, uma versão para o inglês, reproduzindo inclusive a melodia do célebre solo de guitarra no intermezzo instrumental que Toninho Horta imortalizou naquela sessão [ouça aqui]. 

Ficha Técnica: 
Lô Borges : guitarra de 12 e voz  
Toninho Horta: guitarra solo e vocal  
Beto Guedes: Baixo e vocal  
Robertinho Silva : bateria/ 
Wagner Tiso: órgão


O TREM AZUL

Coisas que a gente se esquece de dizer

Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar

Você pega o trem azul

O sol na cabeça
O sol pega o trem azul
Você na cabeça
O sol na cabeça